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A arte de perder o senso de ridículo

O Hermenauta, num post (não consegui linkar diretamente), contrapôs traduções de "One Art", de Elizabeth Bishop. Sem a mínima condição técnica de fazê-lo, eu decidi perpretar a minha. Tentei discretamente propô-la lá, mas ficou toda desengonçada na caixa de comentários. Como nada me restava a não ser guardar a minha quinquilharia para mim mesmo, e como depois de certa idade certos hormônios que regulam o pudor vão se enfraquecendo, decidi jogá-la aqui mesmo. Não adianta vocês massacrarem porque estou saindo esta madrugada mesmo para uma excursão de três meses ao Círculo Polar Ártico, e não estarei checando (como diz minha secretária) o blog.

ONE ART

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is not disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved homes went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

--Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster."

As traduções estão depois do "continue lendo"

A do Paulo Henriques Britto (profissa)

A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

— Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério."


A do Neno Baggo (leitor lá do blog do Hermenauta)

Saber perder não é arte improvável;
há tanto do que nasce destinado
a tal fim que a perda resta aceitável.

Perca um tanto a cada dia, seja amável
com chaves perdidas, tempo esbanjado.
Saber perder não é arte improvável.

Tente-as esparsas, de modo incansável:
lugares, e nomes, e o planejado
destino. Sim, tudo é muito aceitável.

De um bem da Mamãe e - mais lastimável -
de três belas casas fui despojado.
Saber perder não é arte improvável.

Duas cidades, lindas. Infindável
reino que tive, dois rios, continente.
Sinto falta, mas é dor suportável.

- Mesmo perdendo-te (teu riso, o gesto
grácil) não terei mentido. É Evidente:
Saber perder não é arte improvável,
embora pareça (Guarde!) indomável."


E a minha (as duas últimas estrofes espicham, e quanto à rima de 'il' com 'el', paciência; hellôou, eu não sei fazer isto)
Bem, já que é pra brincar, uma nova versão (a anterior foi para baixo)

A arte de perder não é difícil;
são tantas coisas que querem se
perder, que perder não é terrível

Perca sempre. Aceite a temível
hora inútil, a chave sumida
A arte de perder não é difícil

Perca já, o mais veloz possível
lugares, nomes, o itinerário
improvável. Nada é tão terrível

Perdi o relógio da mãe, incrível
duas das três casas mais amadas
A arte de perder não é difícil

Perdi duas cidades, tão adoráveis,
alguns vastos reinos, dois rios, continente
Ausentes, eu os sinto, mas suportáveis

- Mesmo ao perdê-la (a voz gaiata, o gesto
adorado), sim, eu fui sincero. Claro que
não, a arte de perder não é assim, difícil,
embora pareça (Tome nota!) um sacrifício


Versão anterior

A arte de perder não é difícil;
são tantas coisas que querem se
perder, que perder não é horrível

Perca sempre. Aceite a temível
hora inútil, a chave sumida
A arte de perder não é difícil

Perca já, o mais veloz possível
lugares, nomes, itinerários
que se perdem. E não é horrível

Perdi o relógio da mãe, incrível
duas das três casas mais amadas
A arte de perder não é difícil

Perdi duas cidades, tão adoráveis,
alguns vastos reinos, dois rios, continente
Ausentes, eu os sinto, mas suportáveis

- Mesmo em perdê-la (a voz gaiata, o gesto
adorado), eu fui sim sincero. Claro que
não, a arte de perder não é assim, difícil,
embora pareça (Tome nota!) um sacrifício



F. Arranhaponte at 11:34 PM | Comentários (7)

Autores

* Marcos Matamoros
* F. Arranhaponte


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