« A grave questão dos livros didáticos | Main | A incrível e triste história do bom genocida e de seu fã desalmado »
Eu tentei, mas não consegui resistir a escrever alguma coisa sobre o livro Nova História Crítica – 8.ª Série, de Mário Schmidt, o Edward Gibbon brasileiro. O assunto tomou conta da mídia conservadora (e golpista) e dos blogs de esquerda, de direita e de centro nos últimos dias. Depois de muito ler e refletir, eu decidi que acho o seguinte sobre o tema:
O livro é obviamente um lixo. Além de tratar Mao como estadista e descrever dos motivos do fim da União Soviética de modo enviesado, equivocado e pobre, entre outros absurdos, a obra é muito, muito, muito mal escrita. Vejam este trecho sobre o Mao: “Foi um grande estadista e comandante militar. Escreveu livros sobre política, filosofia e economia. Praticou esportes até a velhice. Amou inúmeras mulheres e por elas foi correspondido. Para muitos chineses, Mao é ainda um grande herói. Mas para os chineses anticomunistas, não passou de um ditador.” A complexidade estilística é parecida com às redações sobre as férias que eu escrevia quando tinha sete anos (pensando bem, eu escrevia melhor do que isso aos sete anos).
Mas Schimidt reservou o melhor de si para o livro Nova História Crítica do Brasil. Será difícil, até para ele mesmo, conseguir superar a já célebre frase sobre a princesa Isabel: "Diziam que ele era feia como a peste e estúpida como uma leguminosa”. Pelo que eu li por aí, há uma corrente de escritores de livros didáticos que considera fundamental escrever numa linguagem pedestre. Como a maior parte dos adolescentes tem um vocabulário básico de 34 palavras, das quais metade são monossílabos e interjeições, então o negócio é escrever como debilóide. Eu sempre achei o contrário. Debilidade não se combate com mais debilidade.
É sério: qual é a dificuldade de gente de esquerda classificar de lixo uma obra que contém frases como essas? Alguém com um mínimo de bom senso acha que esse conteúdo e essa forma são apropriados para um livro didático? Dizer que o livro não serve nem para limpar a bunda não é virar olavete. Concordar em parte com o que diz o Reinaldo Azevedo não transforma ninguém num vendido para a direita hidrófoba.
Isso não quer dizer que eu leve a sério a conversa de lavagem cerebral ou de busca gramsciana pela hegemonia cultural, que estaria sendo empreendida pela esquerda, de modo silencioso, desde muito antes do governo Lula. Acho que o caso revela muito mais o descaso com que é tratada a Educação no país. O Ministério da Educação deveria ter um controle mais rigoroso sobre os livos que distribui, ainda que ele seja demandado por milhões de professores. Obras mal escritas, com uma visão de mundo simplista e distorcida, não deveriam receber o que é um tipo de chancela do Ministério da Educação. É claro que qualquer livro didático tem a obrigação de ser menos enviesado e doutrinário e muito mais bem escrito do que os de Schmidt. Mesmo assim, não acho que obras como essas vão construir uma multidão de socialistas acríticos nos próximos anos. A realidade é muito mais complexa do que isso, e os livros didáticos de Schmidt não são a única fonte de informação a que os alunos estão expostos. Ainda bem.
Com este texto, eu procurei fazer o que propôs o André Kenji neste post: uma discussão equilibrada sobre o assunto. Pode ser algo entediante para se fazer num blog, mas me pareceu algo necessário.
PS: Eu dedico este texto ao Jorge Nobre. Quem quiser entender por que basta ler este post dele


