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Provado em tempos difíceis
Eu admiro o Joachim Fest, o biógrafo de Hitler, morto no ano passado. Não porque tenha lido muito dele, só li na verdade a tal biografia, e uma ou outra coisa na Internet. Mas a biografia do Hitler é magnífica, e tem uma frase famosa, que eu tentei encontrar outro dia e não consegui. É mais ou menos assim: "Mas nem todos os caminhos do espírito alemão levam a Auschwitz". Isso tem um pouco a cara do Fest, que, na geração dele (nasceu em 1926), foi aquele raro tipo de alemão até a última célula do dedo mindinho do pé no qual a tentação nazista não fez nem cosquinha. É verdade que ele era relativamente jovem, o que torna as coisas um pouco mais fáceis. E, como se verá adiante, ajuda ter o pai certo numa hora dessas.
Recentemente, eu esbarrei com isto aqui, que eu achei muito legal, e que fala das memórias do Fest, e de quebra senta uma porrada no Günter Grass. Segue abaixo o trecho que me provocou uma pequena epifania, na minha tradução sem-vergonha:
Na verdade, este livro é um grande tributo ao pai de Fest – um homem que pode verdadeiramente ser visto com um herói, e que se recusou em quaisquer circunstâncias a fazer qualquer tipo de compromisso com o regime criminoso dos nazistas. Uma noite as crianças entreouviram uma discussão entre seus pais. A mãe de Fest insistia para que o seu pai se tornasse finalmente um membro do Partido Nacional Socialista, para que pudesse arranjar um emprego de novo. “Afinal, as mentiras não são a única arma que as pessoas comuns têm na sua luta contra os poderosos?” O pai de Fest respondeu com grandeza e orgulho: “Nós não somos gente comum, não quando se trata de questões deste tipo”


