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A incrível e triste história do bom genocida e de seu fã desalmado

Defensores de genocidas me causam horror, mas também me provocam uma espécie de curiosidade mórbida. É por causa dessa combinação que eu já escrevi vários posts sobre Oscar Niemeyer. No momento,o meu fã de genocida preferido é o Alon. Na discussão sobre os livros didáticos do professor Mário Schmidt, ele produziu um dos argumentos mais divertidos que eu li: Schmidt pecou, mas por incluir em sua obra algumas críticas a Stálin e Mao. Alon ficou invocado:

“Eu não levo a sério, ideológica ou intelectualmente, pessoas supostamente de esquerda que pedem salvo-conduto à direita para contrabandear opiniões também supostamente "progressistas". Virou moda nos últimos tempos o sujeito atacar personagens históricos relacionados à luta pelo socialismo para tirar uma espécie de alvará. "Eu sou legalzinho, vejam como eu ataco Stálin e Mao Tsetung. Como eu sou bonzinho, vocês não deveriam me criticar quando eu defendo que o socialismo é bacana."”

Alon não precisa de alvará. Ele não se preocupa em ser legalzinho. Os cerca de 90 milhões de mortos que podem ser pendurados na conta de Stálin e Mao não lhe interessam. “Entre erros e acertos, as experiências socialistas na Europa e na Ásia significaram e significam grandes avanços para a humanidade”, diz Alon.

Neste post, ele deixa claro mais uma vez que a perda de vidas humanas não é um assunto que lhe interessa, atacando Schmidt de novo porque o seu livro contém críticas à União Soviética. Alon lança mão de um estudo do Stanley Fischer para defender a pujança econômica da URSS nos anos 30, quando a produção industrial crescia mais de 10% ao ano. O curioso é que, no próprio trecho que ele escolheu, há uma referência explícita a milhões de mortes causadas pela política de coletivização agrícola compulsória:

“The consequences of collectivization were devastating. Millions died in the famine of 1933. (...) At the same time, industrial output was increasing by more than 10 per cent a year.”

No post, Alon ressalta que a produção industrial crescia mais de 10% ao ano, e silencia sobre as milhões de pessoas que morreram na coletivização. Mas por que eu me espanto? Ele não é legalzinho. Não vai perder tempo com detalhes.

Mais à frente, Alon dá a entender que a União Soviética fez o que o fez por falta de opção: “Certos ramos do esquerdismo aliam-se à direita para difundir que nos anos 30 a União Soviética tinha diante de si todas as opções e que escolheu a mais "sangrenta" porque os bolcheviques e Stálin eram "maus".

É verdade. Stálin foi um sujeito mal compreendido. Era um cara batuta, que só fez o que fez forçado pelas circunstâncias históricas. Milhões de vidas se perderam, mas o que fazer? Sem esses contratempos, tudo indica que a União Soviética não teria se tornado uma potência industrial, o que, de acordo com o Alon, foi fundamental “para impedir que o país desaparecesse como nação independente” e pudesse resistir ao nazismo.

Esse argumento, aliás, me intriga. Todo mundo sabe da importância que a União Soviética teve na derrota do nazismo na Segunda Guerra. Mas e o pacto de não agressão entre Hitler e Stálin, que permitiu ao sujeito de bigodinho ridículo deitar e rolar na Europa por um bom tempo, sem ter que se preocupar muito com os soviéticos?

Isso, porém, é secundário na minha argumentação. O que me deixa horrorizado é a facilidade com que o Alon ignora milhões de mortos. Eu tenho horror a genocidas, de direita ou de esquerda. Para gente como o Alon, isso é bobagem. Há genocidas bons e genocidas maus. Basta que o assassino tenha apoiado a causa "certa"



Marcos Matamoros at 08:04 PM | Comentários (30)

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