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O seqüestro do nacionalismo

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O discreto patriotismo da burguesia

Em 16 de fevereiro de 1996, Mário Henrique Simonsen recebeu a Ordem do Mérito Científico das mãos do então ministro da Ciência e Tecnologia, José Israel Vargas, numa cerimônia na própria Fundação Getúlio Vargas, no Rio, onde o economista comandava a Escola de Pós-graduação em Economia (EPGE). No dia seguinte, Simonsen foi internado no Hospital Procardíaco, depois de uma queda de pressão e de um princípio de desmaio.

A Ordem do Mérito foi o ato inicial do seu último ano de vida, já que ele faleceria em 9 de fevereiro de 1997, depois de longas internações que não puderam evitar o declínio terminal da sua já precária saúde. Eu citei a Ordem do Mérito, e não a primeira internação, porque as duas coisas têm tudo a ver, como me contou um professor da Fundação e pupilo de Simonsen. De acordo com o seu testemunho, Simonsen se emocionou muito com a condecoração, e aquilo foi a gota d’água que deu início à deterioração final.

Estou contando isto porque, desde que ouvi esta história, nunca deixei de matutar sobre o fato de que uma condecoração oficial – isto é, o reconhecimento pela, digamos, Pátria, aos serviços prestados – pudesse emocionar tanto um sujeito hiper-racional, cosmopolita e cético – eu diria até cínico – em relação às grandezas e às promessas do Brasil.



Simonsen era da estirpe de um Eugênio Gudin e de um Roberto Campos, que ririam com escárnio de 99% das festejadas celebrações do destino manifesto brasileiro de representar alguma coisa de grande e importante para a história da humanidade, aquela síndrome megalomaníaca bi-polar de sentimento de superioridade espezinhada e vingativa/inferioridade rancorosa e reclamona, que perpassa nossa intelectualidade desde a era Vargas.

Com a sua potente racionalidade, ele não achava que o Brasil fosse nada de mais nem nada de menos no campo do seu saber específico, que era a economia, e certamente não comungava do entusiasmo ufanista em relação ao nosso potencial cultural e artístico (o nosso social-realismo, com seus auto-proclamados “gênios”, os Niemeyeres e Portinaris da vida), preferindo se gratificar nas horas de lazer com música clássica, xadrez e divagações intelectuais inteiramente alheias à especificidade brasileira.

E, no entanto, Simonsen morreu, de certa forma, de amor à Pátria (refiro-me especificamente ao episódio descrito no início do texto). Eu volto e meia penso que o verdadeiro patriotismo é amar a Pátria independentemente de quaisquer méritos que ela tenha. É um sentimento moral de filiação ao lugar onde se nasceu, que as pessoas com nobreza de espírito exercem incondicionalmente com discreta e permanente diligência, fazendo tudo o que estiver ao seu alcance para melhorar aquele pedaço de território (ou idéia de pedaço de território) com aquele conjunto de pessoas, de onde o destino caprichosamente resolveu fazer a história pessoal de cada um brotar. Você pode ter nascido nos Estados Unidos ou em qualquer fim-de-mundo minúsculo e poeirento, onde alguma minoria desgraçada luta para não ser dissolvida na máquina de moer carne da história, e o verdadeiro patriotismo é basicamente a mesma coisa, consistindo numa ligação inquebrantável, silenciosa na maior parte das vezes, entre algum nível da sua felicidade e realização pessoal e o bem-estar daquele grupo de pessoas naquele lugar qualquer.

Eu acho que o verdadeiro patriotismo nada tem a ver com o elogio à Pátria, embora, obviamente, uma coisa não impeça a outra. Mas se você precisa achar sua Pátria grande, para ser patriota, então você não é de fato patriota. Me emocionam de verdade certas histórias que de vez em quando eu ouço de algum habitante do mundo rico que passou a infância num país paupérrimo da África ou da Ásia, e que mantém para o resto da vida, mesmo depois do retorno, aquele sentimento de pátria, uma ligação afetiva profunda e absolutamente imune às contingências com aquele lugar perdido, onde ele surgiu da inconsciência dos primórdios da vida para a apreensão humana da realidade – a fidelidade que temos ao que é primevo, a primeira casa, a primeira rua, os primeiros amigos, as primeiras sensações conscientes, as primeiras mini-aventuras existenciais da infância. Existe também a “segunda pátria”, aquele lugar ao qual as contingências da vida levam certas pessoas (raramente é uma escolha “de país”), e no qual também acontece um começo, onde se volta de alguma forma à estaca zero e se experimenta de novo as sensações primordiais do ser individual no contato com a tribo humana.

É esta fidelidade às origens, que não precisa ser celebrativa (e, pelo contrário, dá mais prova de fidelidade quando não é celebrativa), que para mim é o verdadeiro patriotismo, por mais precário, criticável ou mesmo horrível que, no nosso senso crítico de adultos, nos pareça aquele lugar no qual o destino decidiu situar o nosso primeiro (ou um segundo, no caso de imigrantes) encaixe. Este, acho eu, é o tipo de patriotismo que fez o Simonsen se emocionar com uma condecoração a ponto de comprometer definitivamente a sua saúde.

Nesse meu critério, o que às vezes se chama por aí de “elite cosmopolita e anti-nacional”, ou os odiadores profissionais do Brasil, como um Paulo Francis ou um Diogo Mainardi, são tão ou mais patriotas do que um Darcy Ribeiro ou um Gláuber Rocha, os marqueteiros da idéia da transcendental importância do borogodó brasileiro.

A necessidade de se achar o máximo, ou destinado ao máximo, transplantada ao plano coletivo e nacional, nada mais é do que o narcisismo tornado megalomania, ou, talvez ainda pior (na verdade, narcisismo megalomaníaco não parece tão mal), o narcisismo que se frustra no indivíduo e se transfere vicariamente para a tribo.

Mas o que eu queria escrever mesmo neste post, e acabei não fazendo, era sobre o que eu chamo de “seqüestro do nacionalismo” pela esquerda nacional-estatista. Era combater a idéia de que de um Celso Furtado tenha sido uma alma nobre transbordante de generoso sentimento nacional, enquanto um Roberto Campos seria um exemplo acabado de argentário vendilhão da Pátria, um cosmopolita ressequido sem qualquer amor à sua terra e à sua gente. Era combater a idéia de que estatismo e nacionalismo se identificam. Só que isto aqui já ficou longo demais, e acho que o post só tem a perder se eu continuar. Ficou tortuoso, mas acho que talvez tenha conseguido passar a idéia

PS: Sim, eu escrevi dezenas de vezes as palavras patriota e patriotismo sem um pingo de cinismo. Podem mandar me internar




F. Arranhaponte at 03:39 PM | Comentários (8)

Autores

* Marcos Matamoros
* F. Arranhaponte


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