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outubro 31, 2007
Nacionalismos
outubro 30, 2007
Uma visão de esquerda
Do falecido geógrafo Milton Santos, aqui. Deixo os comentários para os leitores (mas os leitores nunca comentam quando a gente mais quer que comentem - acho que fazem só para implicar; ou será porque o assunto é chato mesmo?)
- Em uma de suas declarações mais contundentes no programa Roda Viva, o senhor afirmou que o pobre é neste momento o único ator social no Brasil com o qual podemos aprender algo de verdadeiro. Poderia explicar?
- Em A natureza do espaço falo um pouco sobre essa idéia. As classes médias são confortáveis de um modo geral. O conforto cria dificuldades na visão do futuro. O conforto quer estender o presente que está simpático. O conforto, como a memória, é inimigo da descoberta. No caso do Brasil isso é mais grave, porque esse conforto veio com a difusão do consumo. O consumo é ele próprio um emoliente, Ele amolece. Os pobres, sobretudo os pobres urbanos, não têm o emprego, mas têm o trabalho, que é o resultado de uma descoberta cotidiana. Esse trabalho raramente é bem pago, enquanto o mundo dos objetos se amplia.
- O senhor fala da sabedoria da escassez...
- Exatamente. Fui buscar esse conceito em Sartre, quando ele fala da escassez que joga uma pessoa contra a outra na disputa pelo que é limitado. Essa experiência da escassez é que faz a ponte entre a necessidade e o entendimento. Como a escassez sempre vai mudando, devido a aceleração contemporânea, o pobre acaba descobrindo que não vai nunca morar na Ipanema da novela, que jamais vai alcançar aquelas coisas bonitas que vê. Ele continua vendo, mas está seguro hoje de que não as alcançará. Gostaria de dizer que a classe média já começa a conhecer a experiência da escassez. E isso pode ser bom. Como a classe média, na sua formação, tem uma capacidade de codificação maior, isso vai nos levar a uma precipitação do movimento social, da produção da consciência, ainda que seja de uma maneira incompleta.
Do falecido geógrafo Milton Santos, aqui. Deixo os comentários para os leitores (mas os leitores nunca comentam quando a gente mais quer que comentem - acho que fazem só para implicar; ou será porque o assunto é chato mesmo?)
- Em uma de suas declarações mais contundentes no programa Roda Viva, o senhor afirmou que o pobre é neste momento o único ator social no Brasil com o qual podemos aprender algo de verdadeiro. Poderia explicar?
- Em A natureza do espaço falo um pouco sobre essa idéia. As classes médias são confortáveis de um modo geral. O conforto cria dificuldades na visão do futuro. O conforto quer estender o presente que está simpático. O conforto, como a memória, é inimigo da descoberta. No caso do Brasil isso é mais grave, porque esse conforto veio com a difusão do consumo. O consumo é ele próprio um emoliente, Ele amolece. Os pobres, sobretudo os pobres urbanos, não têm o emprego, mas têm o trabalho, que é o resultado de uma descoberta cotidiana. Esse trabalho raramente é bem pago, enquanto o mundo dos objetos se amplia.
- O senhor fala da sabedoria da escassez...
- Exatamente. Fui buscar esse conceito em Sartre, quando ele fala da escassez que joga uma pessoa contra a outra na disputa pelo que é limitado. Essa experiência da escassez é que faz a ponte entre a necessidade e o entendimento. Como a escassez sempre vai mudando, devido a aceleração contemporânea, o pobre acaba descobrindo que não vai nunca morar na Ipanema da novela, que jamais vai alcançar aquelas coisas bonitas que vê. Ele continua vendo, mas está seguro hoje de que não as alcançará. Gostaria de dizer que a classe média já começa a conhecer a experiência da escassez. E isso pode ser bom. Como a classe média, na sua formação, tem uma capacidade de codificação maior, isso vai nos levar a uma precipitação do movimento social, da produção da consciência, ainda que seja de uma maneira incompleta.
Paulicéia cabisbaixa
Amigos paulistanos, vocês vão dar mole para o Rio dessa forma ultrajante? Então a final da Copa de 2014 vai ser no Maracanã, aquela velharia claudicante, e a maior megalópole do Hemisfério Sul vai ficar caladinha? Com toda esta grana aí não dá para construir um estádio três vezes maior do que o Maracanã e, digamos, bem mais pintosão? Por favor, reajam, reajam. A vitória do Rio será mais saborosa se vocês protestarem um pouquinho. Desse jeito assim é constrangedor
Amigos paulistanos, vocês vão dar mole para o Rio dessa forma ultrajante? Então a final da Copa de 2014 vai ser no Maracanã, aquela velharia claudicante, e a maior megalópole do Hemisfério Sul vai ficar caladinha? Com toda esta grana aí não dá para construir um estádio três vezes maior do que o Maracanã e, digamos, bem mais pintosão? Por favor, reajam, reajam. A vitória do Rio será mais saborosa se vocês protestarem um pouquinho. Desse jeito assim é constrangedor
outubro 29, 2007
O precedente perfeito

Fernando Henrique Cardoso diz que a idéia de um terceiro mandato para Lula é uma grande insensatez. Eu também acho. É uma idéia péssima, com traços antidemocráticos. Alternância de poder é importante numa democracia, como diria o conselheiro Acácio. Eu já tenho cada vez mais dúvidas se o direito a dois mandatos é positivo para o Brasil– o sujeito assume um cargo no Executivo e, a partir do primeiro dia de mandato, só pensa na reeleição.
Além disso, para poder concorrer a um terceiro mandato, Lula terá que mudar a Constituição em benefício próprio, o que é feio. E aí é que a porca torce o rabo. Fernando Henrique fez exatamente isso. Ainda que tenha sido para garantir o direito a um segundo mandato, o que existe em vários países presidencialistas, ele alterou as regras do jogo com o jogo em andamento. Se quiser tentar um terceiro mandato, Lula tem em Fernando Henrique o precedente perfeito. Isso está longe de ser um detalhe desprezível – e enfraquece o discurso tucano de que a re-reeleição é golpe

Fernando Henrique Cardoso diz que a idéia de um terceiro mandato para Lula é uma grande insensatez. Eu também acho. É uma idéia péssima, com traços antidemocráticos. Alternância de poder é importante numa democracia, como diria o conselheiro Acácio. Eu já tenho cada vez mais dúvidas se o direito a dois mandatos é positivo para o Brasil– o sujeito assume um cargo no Executivo e, a partir do primeiro dia de mandato, só pensa na reeleição.
Além disso, para poder concorrer a um terceiro mandato, Lula terá que mudar a Constituição em benefício próprio, o que é feio. E aí é que a porca torce o rabo. Fernando Henrique fez exatamente isso. Ainda que tenha sido para garantir o direito a um segundo mandato, o que existe em vários países presidencialistas, ele alterou as regras do jogo com o jogo em andamento. Se quiser tentar um terceiro mandato, Lula tem em Fernando Henrique o precedente perfeito. Isso está longe de ser um detalhe desprezível – e enfraquece o discurso tucano de que a re-reeleição é golpe
outubro 26, 2007
O povo precisa de impostos
Do Yahoo Notícias:
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu hoje a aprovação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) pelo Senado como sendo imprescindível para o País. "Não é o Presidente da República que precisa da CPMF, mas sim o povo brasileiro. Esse dinheiro vai se reverter em benefícios para o País", disse. Em um auditório lotado por funcionários do Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes), no Rio, Lula disse em entrevista coletiva que "há muito barulho" em torno da CPMF. "Todo brasileiro de bom senso sabe que nenhum país, nenhuma empresa, pode dispensar R$ 40 bilhões sem criar outro imposto", afirmou.
Não sabia que empresas criavam impostos. Mas deixa pra lá. Se houvesse oposição, alguém diria "presidente, se o sr. parar de torrar o nosso dinheiro com este seu plano maluco de aumentar o estado, aconselhado pelos seus economistas que dizem que o setor público é nanico, dá sim para deixar esses R$ 40 bilhões no nosso bolso".
Mas não há
Do Yahoo Notícias:
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu hoje a aprovação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) pelo Senado como sendo imprescindível para o País. "Não é o Presidente da República que precisa da CPMF, mas sim o povo brasileiro. Esse dinheiro vai se reverter em benefícios para o País", disse. Em um auditório lotado por funcionários do Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes), no Rio, Lula disse em entrevista coletiva que "há muito barulho" em torno da CPMF. "Todo brasileiro de bom senso sabe que nenhum país, nenhuma empresa, pode dispensar R$ 40 bilhões sem criar outro imposto", afirmou.
Não sabia que empresas criavam impostos. Mas deixa pra lá. Se houvesse oposição, alguém diria "presidente, se o sr. parar de torrar o nosso dinheiro com este seu plano maluco de aumentar o estado, aconselhado pelos seus economistas que dizem que o setor público é nanico, dá sim para deixar esses R$ 40 bilhões no nosso bolso".
Mas não há
outubro 25, 2007
O Bloomsbury brasileiro

Poucos países têm uma vida político-cultural tão intensa quanto o Brasil. Na segunda-feira, quem estiver em São Paulo e tiver juízo não perderá o lançamento do livro Um notável aprendizado, do senador Eduardo Suplicy. A obra em si promete, como deixa claro este trecho do release que eu recebi: “Em vários textos, o senador expõe sua proposta de uma Renda Básica para toda a população brasileira. Ainda discorre sobre sua experiência de vida e dá seu testemunho pessoal sobre figuras como o sociólogo Betinho, o comediante Bussunda e a religiosa Dorothy Stang”. Eu não sei se vou agüentar a ansiedade e esperar até segunda-feira para saber o que o Forrest Gump brasileiro tem a dizer sobre Bussunda.
O livro está longe de ser o único atrativo do evento. Haverá também um debate entre Suplicy e Ciro Gomes. Imperdível. Mas não é só isso. Eu acabei de receber a lista de convidados ilustres para o lançamento: Arnaldo Antunes, Dan Stulbach, Dráuzio Varella, Fernando Cardoso, Fernando Meirelles, Gabriel Chalita, Gabriela Duarte, Gilberto Barros, Glória Maria, Hebe Camargo, Jô Soares, Juca de Oliveira, Marcelo Rubens Paiva, Patrícia Pillar, Pedro Bial e Roberto Justus.
Um grupo como esse tem tudo para ser o Bloomsbury brasileiro. Você já imaginou os embates intelectuais que poderão ser travados entre Gabriel Chalita e Hebe Camargo, ou entre Arnaldo Antunes e Roberto Justus? Eu também adoraria participar de uma rodinha que incluísse Gilberto Barros e Gabriela Duarte. Além de tudo isso, existe a perspectiva de ouvir Suplicy falar sobre a renda básica. Quem não for é mulher do padre

Poucos países têm uma vida político-cultural tão intensa quanto o Brasil. Na segunda-feira, quem estiver em São Paulo e tiver juízo não perderá o lançamento do livro Um notável aprendizado, do senador Eduardo Suplicy. A obra em si promete, como deixa claro este trecho do release que eu recebi: “Em vários textos, o senador expõe sua proposta de uma Renda Básica para toda a população brasileira. Ainda discorre sobre sua experiência de vida e dá seu testemunho pessoal sobre figuras como o sociólogo Betinho, o comediante Bussunda e a religiosa Dorothy Stang”. Eu não sei se vou agüentar a ansiedade e esperar até segunda-feira para saber o que o Forrest Gump brasileiro tem a dizer sobre Bussunda.
O livro está longe de ser o único atrativo do evento. Haverá também um debate entre Suplicy e Ciro Gomes. Imperdível. Mas não é só isso. Eu acabei de receber a lista de convidados ilustres para o lançamento: Arnaldo Antunes, Dan Stulbach, Dráuzio Varella, Fernando Cardoso, Fernando Meirelles, Gabriel Chalita, Gabriela Duarte, Gilberto Barros, Glória Maria, Hebe Camargo, Jô Soares, Juca de Oliveira, Marcelo Rubens Paiva, Patrícia Pillar, Pedro Bial e Roberto Justus.
Um grupo como esse tem tudo para ser o Bloomsbury brasileiro. Você já imaginou os embates intelectuais que poderão ser travados entre Gabriel Chalita e Hebe Camargo, ou entre Arnaldo Antunes e Roberto Justus? Eu também adoraria participar de uma rodinha que incluísse Gilberto Barros e Gabriela Duarte. Além de tudo isso, existe a perspectiva de ouvir Suplicy falar sobre a renda básica. Quem não for é mulher do padre
Rapidinha - isto é Olavo II
Em breve, Olavo de Carvalho revelará que Hillary Clinton tem uma tatuagem do Che na virilha e que Al Gore é seguidor fiel de Pol Pot. Ele sempre foi um dos maiores casos de sucesso do movimento antimanicomial. Há anos vive integrado à sociedade, sem causar danos a si mesmo ou aos outros. O problema é que Olavão está exagerando. Não está longe o dia em que baterão à porta de sua casa em Richmond para levá-lo ao hospício mais próximo
PS: Ainda há alguém que leva Olavão a sério? Aquelas comunidades no Orkut têm que ser inventadas
Em breve, Olavo de Carvalho revelará que Hillary Clinton tem uma tatuagem do Che na virilha e que Al Gore é seguidor fiel de Pol Pot. Ele sempre foi um dos maiores casos de sucesso do movimento antimanicomial. Há anos vive integrado à sociedade, sem causar danos a si mesmo ou aos outros. O problema é que Olavão está exagerando. Não está longe o dia em que baterão à porta de sua casa em Richmond para levá-lo ao hospício mais próximo
PS: Ainda há alguém que leva Olavão a sério? Aquelas comunidades no Orkut têm que ser inventadas
outubro 24, 2007
Rapidinha - isso é Olavo
outubro 23, 2007
Espírito de porco
Nada é mais vil para um brasileiro do que negar a Santos Dumont a paternidade da aviação. Mas eu suspeito que foram os irmãos Wright mesmo. E não é de hoje. Vem desde pequeno. A única coisa que eu sei com certeza é que jamais terei saco para ir a fundo nesta questão, ler a bibliografia séria a respeito, dirimi-la até a extinção da última gotícula de dúvida. Gostaria que fizessem isso para mim. Mas tinha que ser um cara neutro. E eu nunca conheci algum neste assunto.
Talvez o que me incomode no Santos Dumont é a obrigação patriótica de demonstrar certeza - até exaltadamente - sobre algo de que não tenho a mínima certeza. Por que isso? É como se esta certeza incerta fosse fundamento de alguma coisa muito importante, mas evidentemente a construção é frágil se o fundamento é duvidoso. Nestas horas, eu sinto a minha condição de brasileiro meio como de "minoria esmagada", que tem de se agarrar a um mito reconfortante qualquer, como que a uma tabuazinha de auto-estima que garante a sobrevivência no naufrágio geral da nossa história. Tá exagerado? Tá. Mas blog é assim mesmo. Eu detesto a idéia de que tenho de achar alguma coisa porque é bom para minha auto-estima e não porque de fato ache aquela coisa.
Nesta reportagem aqui está dito que qualquer brasileiro afirmará que Santos Dumont foi o primeiro homem a voar de verdade. Bem, eu diria "não sei, é um assunto muito controverso, são tantos os interesses em jogo". Mas isto é apenas mais uma fantasia sexual do tipo "vejam como eu me elevo acima desta cafonalha patriótica" - estou perfeitamente ciente disto. Outra fantasia minha do gênero é ganhar uma medalha de ouro na Olimpíada e me recusar a me cobrir com a bandeira nacional para a volta olímpica, ou para subir ao pódio. Eu me vejo naquele trotinho triunfante do Joaquim Cruz, quando de repente um torcedor pula o alambrado e vem me alcançar com a bandeira. Eu não o rechaço, não jogo a bandeira no chão. Impavidamente prossigo no meu trotinho, mas dou uma chegada para o lado até o alambrado e suavemente deposito a bandeira dobradinha ali, sem prejudicar a continuidade tranqüilona da minha volta olímpica. Em seguida (na vida real) eu começo a pensar na polêmica na imprensa nas semanas seguintes, em quem ficará do meu lado e em quem me atacará. É ridículo, eu sei, mas tenho de confessar que penso em como seria o artigo do Arnaldo Jabor a respeito.
E, é claro, na primeira entrevista coletiva após o ato escandaloso eu daria um jeito de encaixar que os irmãos Wright voaram antes do Santos Dumont.
Call me a traitor
Nada é mais vil para um brasileiro do que negar a Santos Dumont a paternidade da aviação. Mas eu suspeito que foram os irmãos Wright mesmo. E não é de hoje. Vem desde pequeno. A única coisa que eu sei com certeza é que jamais terei saco para ir a fundo nesta questão, ler a bibliografia séria a respeito, dirimi-la até a extinção da última gotícula de dúvida. Gostaria que fizessem isso para mim. Mas tinha que ser um cara neutro. E eu nunca conheci algum neste assunto.
Talvez o que me incomode no Santos Dumont é a obrigação patriótica de demonstrar certeza - até exaltadamente - sobre algo de que não tenho a mínima certeza. Por que isso? É como se esta certeza incerta fosse fundamento de alguma coisa muito importante, mas evidentemente a construção é frágil se o fundamento é duvidoso. Nestas horas, eu sinto a minha condição de brasileiro meio como de "minoria esmagada", que tem de se agarrar a um mito reconfortante qualquer, como que a uma tabuazinha de auto-estima que garante a sobrevivência no naufrágio geral da nossa história. Tá exagerado? Tá. Mas blog é assim mesmo. Eu detesto a idéia de que tenho de achar alguma coisa porque é bom para minha auto-estima e não porque de fato ache aquela coisa.
Nesta reportagem aqui está dito que qualquer brasileiro afirmará que Santos Dumont foi o primeiro homem a voar de verdade. Bem, eu diria "não sei, é um assunto muito controverso, são tantos os interesses em jogo". Mas isto é apenas mais uma fantasia sexual do tipo "vejam como eu me elevo acima desta cafonalha patriótica" - estou perfeitamente ciente disto. Outra fantasia minha do gênero é ganhar uma medalha de ouro na Olimpíada e me recusar a me cobrir com a bandeira nacional para a volta olímpica, ou para subir ao pódio. Eu me vejo naquele trotinho triunfante do Joaquim Cruz, quando de repente um torcedor pula o alambrado e vem me alcançar com a bandeira. Eu não o rechaço, não jogo a bandeira no chão. Impavidamente prossigo no meu trotinho, mas dou uma chegada para o lado até o alambrado e suavemente deposito a bandeira dobradinha ali, sem prejudicar a continuidade tranqüilona da minha volta olímpica. Em seguida (na vida real) eu começo a pensar na polêmica na imprensa nas semanas seguintes, em quem ficará do meu lado e em quem me atacará. É ridículo, eu sei, mas tenho de confessar que penso em como seria o artigo do Arnaldo Jabor a respeito.
E, é claro, na primeira entrevista coletiva após o ato escandaloso eu daria um jeito de encaixar que os irmãos Wright voaram antes do Santos Dumont.
Call me a traitor
A esfinge das décadas
Eu tenho uma teoria de que você só entende o que é uma década se (1) pelo menos 40% dela transcorrer entre os seus 10 a 20 anos (por exemplo, você tinha 13 anos quando começou a década de 80) ou se (2) ela ter acontecido há pelo menos 30 a 40 anos (falta refinar para chegar ao número exato). No primeiro caso, você entende o que é a década pelo canal subjetivo da adolescência, que é a única fase da vida em que se consegue sentir de fato o espírito do tempo no que ele tem de mais frívolo e fundamental. No segundo caso, você apenas apreende a imagem objetiva que a filtragem do tempo acaba dando às décadas, um clima noir nos anos 40, a belle époque nos 10, uma suruba nos anos 60, indumentária de mau gosto nos anos 70. Eu, por exemplo, não tenho a mínima idéia do que seja a década de 80, já que ela não se encaixa, para mim, nem na condição (1) (é, já estou firme nos "enta"), nem na (2). Mas, quando chegar 2020, a década de 80 já vai ter coalescido em algo bem definido, sei lá, a década dos punks de boutique (é um chute, pois, como disse, não tenho a mínima idéia), ou algo assim. E aí, finalmente, eu vou entender o que é a tal década de 80, sobre a qual vejo tantos blogueiros pontificarem com tanta familiaridade (o que me provoca um secreto despeito, devo confessar)
Eu tenho uma teoria de que você só entende o que é uma década se (1) pelo menos 40% dela transcorrer entre os seus 10 a 20 anos (por exemplo, você tinha 13 anos quando começou a década de 80) ou se (2) ela ter acontecido há pelo menos 30 a 40 anos (falta refinar para chegar ao número exato). No primeiro caso, você entende o que é a década pelo canal subjetivo da adolescência, que é a única fase da vida em que se consegue sentir de fato o espírito do tempo no que ele tem de mais frívolo e fundamental. No segundo caso, você apenas apreende a imagem objetiva que a filtragem do tempo acaba dando às décadas, um clima noir nos anos 40, a belle époque nos 10, uma suruba nos anos 60, indumentária de mau gosto nos anos 70. Eu, por exemplo, não tenho a mínima idéia do que seja a década de 80, já que ela não se encaixa, para mim, nem na condição (1) (é, já estou firme nos "enta"), nem na (2). Mas, quando chegar 2020, a década de 80 já vai ter coalescido em algo bem definido, sei lá, a década dos punks de boutique (é um chute, pois, como disse, não tenho a mínima idéia), ou algo assim. E aí, finalmente, eu vou entender o que é a tal década de 80, sobre a qual vejo tantos blogueiros pontificarem com tanta familiaridade (o que me provoca um secreto despeito, devo confessar)
outubro 22, 2007
Jurassic park

Eu mostro a xereca, mas é para combater o capitalismo
Eu sempre tive birra do PC do B. Na USP, no fim dos anos 80, tive o meu primeiro contato com pecedobistas, estranhos seres que tinham como modelo a Albânia e faziam o diabo para conquistar as eleições no movimento estudantil. Defendiam eleição direta para a reitoria da USP – idéia grotesca –, mas não para o comando da UNE. Quanta cara de pau.
Era ridículo, mas também curioso, ver um partido que cultuava Enver Hoxha e tinha como lider supremo João Amazonas, um velhinho boçal que não parava de repetir palavras de ordem constrangedoras. Com o desmoronamento da Albânia, que quebrou num esquema de pirâmide financeira, eu achei que o PC do B fosse minguar e se tornar ainda mais pré-histórico. Que nada. Ele conseguiu sobreviver, e a cada eleição elege um número razoável de parlamentares, especialmente considerando que se trata de um partido com idéias modernas, como a defesa do comunismo. Na prática, virou um satélite do PT, sempre pronto a abanar o rabo em troca de uns carguinhos.
Mas nem o PT leva o PC do B muito a sério. No governo Lula, o partido tem apenas o Ministério do Esporte. Aldo Rebelo chegou a ocupar o Ministério das Relações Institucionais, mas não tinha autoridade de fato para negociar em nome do governo. Depois do grotesco episódio Severino, o defensor do saci e da pureza da língua conseguiu a presidência da Câmara, exibindo como principal qualidade a total subserviência a Lula. Na eleição seguinte, Rebelo perdeu o comando dos deputados para Arlindo Chinaglia, e o PC do B voltou à sua insignificância. Ah, um detalhe importante: o ministro do Esporte, Orlando Silva Jr., mantém uma proximidade abjeta com Ricardo Teixeira.
A nova estratégia do partido é tão ou mais ridícula do que o culto à Albânia: filiar atletas e personalidades ligadas ao esporte para concorrer nas eleições e, com isso, aumentar as bancadas. Com o ex-jogador Ademir da Guia, a estratégia deu certo apenas em parte. Ele se elegeu vereador pelo partido em 2004, mas o seu casamento com os comunistas durou pouco. Hoje ele está no PR, aquele partido da esquerda radical.
A nova leva de filiados inclui nomes como Hugo Hoyama, Jairzinho (o furacão da Copa, não o amigo da Simony) e Ana Paula de Oliveira, a bandeirinha que resolveu mostrar a xereca para ganhar uma grana. Tudo gente de esquerda. Tenho certeza que eles entraram no PC do B por causa deste trecho do estatuto do partido:
“O Partido Comunista do Brasil luta contra a exploração e opressão capitalista e imperialista. Visa a conquista do poder político pelo proletariado e seus aliados, propugnando o socialismo científico. Tem como objetivo superior o comunismo. Afirmando a superioridade do socialismo sobre o capitalismo, almeja retomar um novo ciclo de luta pelos ideais socialistas, renovados com os ensinamentos da experiência socialista do século XX, e desenvolvidos para atender à realidade do nosso tempo e às exigências de nosso país e nossa gente. Ao mesmo tempo, no espírito do internacionalismo proletário, apóia a luta antiimperialista de todos os povos por sua emancipação nacional e social, soberania nacional e pela paz mundial.”
Parece que Ana Paula e Hugo Hoyama foram seduzidos porque o partido afirma a superioridade do socialismo sobre o capitalismo. Jairzinho, por sua vez, é comuna histórico. O interessante é que esta não é a primeira vez que ele concorre as eleições. Se eu não estou enganado, há uns 20 anos, Jairzinho obteve 14 votos numa eleição para deputado ou vereador, concorrendo pelo PTR. O cara é popular. Foi campeão do mundo e conseguiu 14 votos. Se eu me candidatar e não fizer campanha, consigo mais do que isso.
Mas o potencial eleitoral de Jairzinho não é o que interessa ao partido. Com essas filiações, o PC do B mostra todo o seu purismo ideológico

Eu mostro a xereca, mas é para combater o capitalismo
Eu sempre tive birra do PC do B. Na USP, no fim dos anos 80, tive o meu primeiro contato com pecedobistas, estranhos seres que tinham como modelo a Albânia e faziam o diabo para conquistar as eleições no movimento estudantil. Defendiam eleição direta para a reitoria da USP – idéia grotesca –, mas não para o comando da UNE. Quanta cara de pau.
Era ridículo, mas também curioso, ver um partido que cultuava Enver Hoxha e tinha como lider supremo João Amazonas, um velhinho boçal que não parava de repetir palavras de ordem constrangedoras. Com o desmoronamento da Albânia, que quebrou num esquema de pirâmide financeira, eu achei que o PC do B fosse minguar e se tornar ainda mais pré-histórico. Que nada. Ele conseguiu sobreviver, e a cada eleição elege um número razoável de parlamentares, especialmente considerando que se trata de um partido com idéias modernas, como a defesa do comunismo. Na prática, virou um satélite do PT, sempre pronto a abanar o rabo em troca de uns carguinhos.
Mas nem o PT leva o PC do B muito a sério. No governo Lula, o partido tem apenas o Ministério do Esporte. Aldo Rebelo chegou a ocupar o Ministério das Relações Institucionais, mas não tinha autoridade de fato para negociar em nome do governo. Depois do grotesco episódio Severino, o defensor do saci e da pureza da língua conseguiu a presidência da Câmara, exibindo como principal qualidade a total subserviência a Lula. Na eleição seguinte, Rebelo perdeu o comando dos deputados para Arlindo Chinaglia, e o PC do B voltou à sua insignificância. Ah, um detalhe importante: o ministro do Esporte, Orlando Silva Jr., mantém uma proximidade abjeta com Ricardo Teixeira.
A nova estratégia do partido é tão ou mais ridícula do que o culto à Albânia: filiar atletas e personalidades ligadas ao esporte para concorrer nas eleições e, com isso, aumentar as bancadas. Com o ex-jogador Ademir da Guia, a estratégia deu certo apenas em parte. Ele se elegeu vereador pelo partido em 2004, mas o seu casamento com os comunistas durou pouco. Hoje ele está no PR, aquele partido da esquerda radical.
A nova leva de filiados inclui nomes como Hugo Hoyama, Jairzinho (o furacão da Copa, não o amigo da Simony) e Ana Paula de Oliveira, a bandeirinha que resolveu mostrar a xereca para ganhar uma grana. Tudo gente de esquerda. Tenho certeza que eles entraram no PC do B por causa deste trecho do estatuto do partido:
“O Partido Comunista do Brasil luta contra a exploração e opressão capitalista e imperialista. Visa a conquista do poder político pelo proletariado e seus aliados, propugnando o socialismo científico. Tem como objetivo superior o comunismo. Afirmando a superioridade do socialismo sobre o capitalismo, almeja retomar um novo ciclo de luta pelos ideais socialistas, renovados com os ensinamentos da experiência socialista do século XX, e desenvolvidos para atender à realidade do nosso tempo e às exigências de nosso país e nossa gente. Ao mesmo tempo, no espírito do internacionalismo proletário, apóia a luta antiimperialista de todos os povos por sua emancipação nacional e social, soberania nacional e pela paz mundial.”
Parece que Ana Paula e Hugo Hoyama foram seduzidos porque o partido afirma a superioridade do socialismo sobre o capitalismo. Jairzinho, por sua vez, é comuna histórico. O interessante é que esta não é a primeira vez que ele concorre as eleições. Se eu não estou enganado, há uns 20 anos, Jairzinho obteve 14 votos numa eleição para deputado ou vereador, concorrendo pelo PTR. O cara é popular. Foi campeão do mundo e conseguiu 14 votos. Se eu me candidatar e não fizer campanha, consigo mais do que isso.
Mas o potencial eleitoral de Jairzinho não é o que interessa ao partido. Com essas filiações, o PC do B mostra todo o seu purismo ideológico
outubro 21, 2007
It is only shallow people who do not judge by apperances*

É necessário dizer do que é que ele tem cara?
Quando você é criança ou adolescente, todo mundo diz que não se deve julgar pelas aparências. A mamãe, a titia e a professora não cansam de repetir esse mantra. O problema é que a realidade desmente as professorinhas bem intencionadas. Bandido em geral tem cara de bandido. Veja o Marcola: está na cara que o sujeito é 171. Fernandinho Beira Mar dispensa comentários. Você compraria um carro usado do sujeito? E Elias Maluco? Acho que nem o Ferréz o defenderia.
O mesmo ocorre com psicopatas. Veja o pedófilo canadense preso na Tailândia. A cara de maluco perigoso é evidente. É o mesmo caso do canibal alemão que comeu um homem que pediu para ser devorado: ou você acha que o sujeito parece são?
Os políticos brasileiros talvez sejam o melhor exemplo. Pense em Renan Calheiros, Inocêncio de Oliveira, Ideli Salvatti, Sibá Machado, Heráclito Fortes, Romeu Tuma, Wellington Salgado. Como muitos já disseram, Lombroso faria a festa no Congresso.
É claro que estou generalizando. Muito bandido não tem cara de bandido. A questão é que sobram exemplos de que julgar pelas aparências está longe de ser má idéia. Aparência é destino?
* Oscar Wilde, para variar, estava certo

É necessário dizer do que é que ele tem cara?
Quando você é criança ou adolescente, todo mundo diz que não se deve julgar pelas aparências. A mamãe, a titia e a professora não cansam de repetir esse mantra. O problema é que a realidade desmente as professorinhas bem intencionadas. Bandido em geral tem cara de bandido. Veja o Marcola: está na cara que o sujeito é 171. Fernandinho Beira Mar dispensa comentários. Você compraria um carro usado do sujeito? E Elias Maluco? Acho que nem o Ferréz o defenderia.
O mesmo ocorre com psicopatas. Veja o pedófilo canadense preso na Tailândia. A cara de maluco perigoso é evidente. É o mesmo caso do canibal alemão que comeu um homem que pediu para ser devorado: ou você acha que o sujeito parece são?
Os políticos brasileiros talvez sejam o melhor exemplo. Pense em Renan Calheiros, Inocêncio de Oliveira, Ideli Salvatti, Sibá Machado, Heráclito Fortes, Romeu Tuma, Wellington Salgado. Como muitos já disseram, Lombroso faria a festa no Congresso.
É claro que estou generalizando. Muito bandido não tem cara de bandido. A questão é que sobram exemplos de que julgar pelas aparências está longe de ser má idéia. Aparência é destino?
* Oscar Wilde, para variar, estava certo
outubro 16, 2007
Uma verdade inconveniente

Para uma mulher, até que ela é craque
De repente virou moda falar bem do futebol feminino. A Copa do Mundo que o Brasil perdeu da Alemanha teve uma cobertura razoável da mídia. Em tempos politicamente corretos, porém, ninguém fala algumas verdades óbvias para quem de fato gosta de futebol. As goleiras, por exemplo, são em geral muito ruins. As partidas têm sempre muitos frangos. Muitos dos gols de Marta, inegavelmente craque para os padrões do futebol feminino, resultam de falhas das goleiras. Boa parte da graça de uma grande jogada se perde se ela termina num frango grotesco.
A organização tática do futebol feminino está a anos luz da do masculino. Alguns vêem isso com bons olhos, já que há mais liberdade para as jogadoras e os placares costumam ser mais elásticos. Há mais gols, é verdade, mas muitos jogos parecem pelada. As jogadoras conduzem demais a bola, e ainda falta muita malícia na marcação.
O modo como a seleção brasileira foi tratada na Copa do Mundo é sintomático do que as pessoas realmente pensam do futebol feminino. Houve excesso de compreensão. A derrota foi comemorada como se fosse uma vitória. Marta jogou muito bem em quase toda a competição, mas na final não foi a mesma jogadora do resto da Copa, e ainda perdeu um pênalti. Foi uma das grandes responsáveis pela derrota. Ela não deve ser cruficicada por isso, mas, num torneio curto como a Copa, a atuação na final tem peso muito maior do que na de qualquer outro jogo. Não faz sentido eleger como a melhor da competição quem errou um pênalti numa partida decisiva.
Cobrar Marta pelo seu erro seria muito melhor para ela e para o futebol feminino. Em vez disso, o que se viu foi um tratamento paternalista. Ficou evidente que a relação dos brasileiros com o futebol feminino está longe de ser passional. Pode ser mais bonitinho, mas é um sinal de que ninguém leva muito a sério a modalidade por aqui.
O ponto é que o esporte coletivo feminino é sempre muito inferior ao masculino*. O bom desempenho em qualquer esporte resulta de uma combinação de técnica, habilidade, criatividade e força. É claro que estou falando dos que são praticados por atletas de ponta. Se você comparar uma partida entre duas seleções de futebol feminino com um casados e solteiros – ou com qualquer jogo do Corinthians -, esse raciocínio não vale. Perto de um jogo entre Milan e Barcelona, porém, um jogo de futebol feminino não tem a menor graça.
A situação é ainda pior em outros esportes coletivos. Depois de ver um jogo da seleção masculina de vôlei, é até constrangedor assistir a uma partida entre duas seleções femininas. Não adianta: os homens jogam melhor do que as mulheres. São tão técnicos, criativos e habilidosos como elas, e ainda têm mais força – o que, principalmente num esporte como o vôlei, é fundamental. O mesmo vale para o basquete.
É claro que eu acho ótimo que as mulheres pratiquem esportes coletivos. É saudável e divertido – para elas. Só não me chamem para assistir
* For the sake of the argument, é indispensável esquecer o jogo entre Brasil e Colômbia ocorrido no domingo. Também é importante fazer força para acreditar que a altitude realmente atrapalhou

Para uma mulher, até que ela é craque
De repente virou moda falar bem do futebol feminino. A Copa do Mundo que o Brasil perdeu da Alemanha teve uma cobertura razoável da mídia. Em tempos politicamente corretos, porém, ninguém fala algumas verdades óbvias para quem de fato gosta de futebol. As goleiras, por exemplo, são em geral muito ruins. As partidas têm sempre muitos frangos. Muitos dos gols de Marta, inegavelmente craque para os padrões do futebol feminino, resultam de falhas das goleiras. Boa parte da graça de uma grande jogada se perde se ela termina num frango grotesco.
A organização tática do futebol feminino está a anos luz da do masculino. Alguns vêem isso com bons olhos, já que há mais liberdade para as jogadoras e os placares costumam ser mais elásticos. Há mais gols, é verdade, mas muitos jogos parecem pelada. As jogadoras conduzem demais a bola, e ainda falta muita malícia na marcação.
O modo como a seleção brasileira foi tratada na Copa do Mundo é sintomático do que as pessoas realmente pensam do futebol feminino. Houve excesso de compreensão. A derrota foi comemorada como se fosse uma vitória. Marta jogou muito bem em quase toda a competição, mas na final não foi a mesma jogadora do resto da Copa, e ainda perdeu um pênalti. Foi uma das grandes responsáveis pela derrota. Ela não deve ser cruficicada por isso, mas, num torneio curto como a Copa, a atuação na final tem peso muito maior do que na de qualquer outro jogo. Não faz sentido eleger como a melhor da competição quem errou um pênalti numa partida decisiva.
Cobrar Marta pelo seu erro seria muito melhor para ela e para o futebol feminino. Em vez disso, o que se viu foi um tratamento paternalista. Ficou evidente que a relação dos brasileiros com o futebol feminino está longe de ser passional. Pode ser mais bonitinho, mas é um sinal de que ninguém leva muito a sério a modalidade por aqui.
O ponto é que o esporte coletivo feminino é sempre muito inferior ao masculino*. O bom desempenho em qualquer esporte resulta de uma combinação de técnica, habilidade, criatividade e força. É claro que estou falando dos que são praticados por atletas de ponta. Se você comparar uma partida entre duas seleções de futebol feminino com um casados e solteiros – ou com qualquer jogo do Corinthians -, esse raciocínio não vale. Perto de um jogo entre Milan e Barcelona, porém, um jogo de futebol feminino não tem a menor graça.
A situação é ainda pior em outros esportes coletivos. Depois de ver um jogo da seleção masculina de vôlei, é até constrangedor assistir a uma partida entre duas seleções femininas. Não adianta: os homens jogam melhor do que as mulheres. São tão técnicos, criativos e habilidosos como elas, e ainda têm mais força – o que, principalmente num esporte como o vôlei, é fundamental. O mesmo vale para o basquete.
É claro que eu acho ótimo que as mulheres pratiquem esportes coletivos. É saudável e divertido – para elas. Só não me chamem para assistir
* For the sake of the argument, é indispensável esquecer o jogo entre Brasil e Colômbia ocorrido no domingo. Também é importante fazer força para acreditar que a altitude realmente atrapalhou
outubro 15, 2007
O bope e os bofes
Acabei de ter uma idéia genial para adaptar Tropa de Elite aos cânones políticos da Tropa do Alex. Entre as mil maneiras diferentes que o diretor tinha de sabotar e impedir previamente essa interpretação (a que leva a turba direitista ensandecida a babar de prazer e ódio), evidentemente a mais eficaz seria a revelação, no finalzinho do filme, de que o Capitão Nascimento é gay enrustido. A mesma fórmula do nada esquemático Beleza Americana, esta portentosa obra de arte que mexeu nos alicerces mais profundos da cultura da nossa época.
E já pensaram como seria impagável a cena do Capitão Nascimento aproximando-se furtivamente do mictório onde o Elias? Matias? (minha memória é muito curta) descarrega a bexiga após um dia tenso de tiroteios e mortes, em pleno banheiro do Bope?
Acabei de ter uma idéia genial para adaptar Tropa de Elite aos cânones políticos da Tropa do Alex. Entre as mil maneiras diferentes que o diretor tinha de sabotar e impedir previamente essa interpretação (a que leva a turba direitista ensandecida a babar de prazer e ódio), evidentemente a mais eficaz seria a revelação, no finalzinho do filme, de que o Capitão Nascimento é gay enrustido. A mesma fórmula do nada esquemático Beleza Americana, esta portentosa obra de arte que mexeu nos alicerces mais profundos da cultura da nossa época.
E já pensaram como seria impagável a cena do Capitão Nascimento aproximando-se furtivamente do mictório onde o Elias? Matias? (minha memória é muito curta) descarrega a bexiga após um dia tenso de tiroteios e mortes, em pleno banheiro do Bope?
outubro 14, 2007
O insuportável realismo de Tropa de Elite
(atenção: há spoilers para quem ainda não viu o filme)
O problema de debater com certos blogueiros fenomenalmente astutos é a tentação irresistível que eles têm em ganhar por nocaute técnico. “A luva que você está usando não atende à especificação 345 da Federação Internacional de Boxe. Desclassificado”.
O Alex pegou o meu comentário em seu blog
Eu perguntei ao meu porteiro, morador da favela do Vidigal, ponto importante de tráfico, se ele tinha visto Tropa de Elite e o que tinha achado. A resposta, num tom sereno e desencantado, foi: "É, F., é a realidade, a realidade"
O que mais se pode pedir de uma obra de arte?
e desatou a falar sobre sobre a fotografia não ter matado a pintura, sobre Duchamp e Warhol serem arte, etc. Bem, o LLL não deve saber exatamente o quanto eu sei de 150 anos de teoria da arte (que ele domina), mas certamente sabe que eu sei estas coisas aí acima. Digamos que a frase "o que mais se pode pedir de uma obra de arte" é uma pergunta retórica, que busca enfatizar que Tropa de Elite já entregou muito, ao ser tão espantosamente realista, dentro da confusão cognitiva que cerca a pavorosa situação da segurança pública no Rio, e diante da dificuldade de retratá-la com acuidade, intensidade e tocando (perdão pelo lugar-comum) os corações e as mentes das pessoas.
Bem, até aí são apenas reparos a um detalhe do detalhe do que eu pensei e escrevi, mas que foi de tudo o único aspecto que o Alex alçou à glória do destaque em seu blog. Mas o que me leva a retomar este assunto é que seria muito interessante se nosso caro LLL abordasse, de fato, a questão do realismo e da arte (e eu vou chegar ao que interessa, é claro – à Tropa de Elite).
O Alex diz que se quiser conhecer a realidade de uma favela ele a visita, mas não vai jamais procurá-la numa obra de arte. Engraçado. Quando eu li Disgrace, do Coetzee, acho que apreendi aspectos da realidade sul-africana que eu não dispensaria dizendo que “quando eu quiser conhecer a África do Sul, eu viajo para lá, mas jamais procurarei a realidade da África do Sul numa obra de arte”. É óbvio que eu não li Disgrace para conhecer a África do Sul, nem o propósito básico do autor ao escrevê-lo foi o de transmitir conhecimentos sobre o seu país. Mas que uma grande obra de arte revela aspectos da realidade que as descrições mais objetivas e científicas não alcançam, me parece inegável. Eu teria mais um monte de exemplos para dar, mas estou com preguiça. Quem sabe depois eu acrescento.
E aí chegamos à Tropa de Elite. É engraçado como o LLL, ao fazer picuinha com uma frase minha, tocou sem querer no que, na minha visão, é a questão mais crucial do filme. A genialidade de Tropa de Elite está justamente em ser realista, ou eu diria até “hiper-realista (mais pra frente explico), em um contexto sócio-cultural-intelectual-antropológico (e podem ir hifenizando e colocando mais coisa) em que enxergar o óbvio tornou-se tabu.
(atenção: há spoilers para quem ainda não viu o filme)
O problema de debater com certos blogueiros fenomenalmente astutos é a tentação irresistível que eles têm em ganhar por nocaute técnico. “A luva que você está usando não atende à especificação 345 da Federação Internacional de Boxe. Desclassificado”.
O Alex pegou o meu comentário em seu blog
Eu perguntei ao meu porteiro, morador da favela do Vidigal, ponto importante de tráfico, se ele tinha visto Tropa de Elite e o que tinha achado. A resposta, num tom sereno e desencantado, foi: "É, F., é a realidade, a realidade"
O que mais se pode pedir de uma obra de arte?
e desatou a falar sobre sobre a fotografia não ter matado a pintura, sobre Duchamp e Warhol serem arte, etc. Bem, o LLL não deve saber exatamente o quanto eu sei de 150 anos de teoria da arte (que ele domina), mas certamente sabe que eu sei estas coisas aí acima. Digamos que a frase "o que mais se pode pedir de uma obra de arte" é uma pergunta retórica, que busca enfatizar que Tropa de Elite já entregou muito, ao ser tão espantosamente realista, dentro da confusão cognitiva que cerca a pavorosa situação da segurança pública no Rio, e diante da dificuldade de retratá-la com acuidade, intensidade e tocando (perdão pelo lugar-comum) os corações e as mentes das pessoas.
Bem, até aí são apenas reparos a um detalhe do detalhe do que eu pensei e escrevi, mas que foi de tudo o único aspecto que o Alex alçou à glória do destaque em seu blog. Mas o que me leva a retomar este assunto é que seria muito interessante se nosso caro LLL abordasse, de fato, a questão do realismo e da arte (e eu vou chegar ao que interessa, é claro – à Tropa de Elite).
O Alex diz que se quiser conhecer a realidade de uma favela ele a visita, mas não vai jamais procurá-la numa obra de arte. Engraçado. Quando eu li Disgrace, do Coetzee, acho que apreendi aspectos da realidade sul-africana que eu não dispensaria dizendo que “quando eu quiser conhecer a África do Sul, eu viajo para lá, mas jamais procurarei a realidade da África do Sul numa obra de arte”. É óbvio que eu não li Disgrace para conhecer a África do Sul, nem o propósito básico do autor ao escrevê-lo foi o de transmitir conhecimentos sobre o seu país. Mas que uma grande obra de arte revela aspectos da realidade que as descrições mais objetivas e científicas não alcançam, me parece inegável. Eu teria mais um monte de exemplos para dar, mas estou com preguiça. Quem sabe depois eu acrescento.
E aí chegamos à Tropa de Elite. É engraçado como o LLL, ao fazer picuinha com uma frase minha, tocou sem querer no que, na minha visão, é a questão mais crucial do filme. A genialidade de Tropa de Elite está justamente em ser realista, ou eu diria até “hiper-realista (mais pra frente explico), em um contexto sócio-cultural-intelectual-antropológico (e podem ir hifenizando e colocando mais coisa) em que enxergar o óbvio tornou-se tabu.
O que o Alex e mais uma tropa de elite da intelligentsia gostariam é que o autor manipulasse a sua criação não para torná-la mais aguda, mais provocativa, mais realista (sim, porque chegamos ao ponto em que não há nada mais revolucionário do que mostrar a realidade), mas sim para pasteurizá-la, domesticá-la, impedir, por exemplo, que o filme se tornasse capa da Veja – quando justamente a potência artística deste filme é a sua capacidade de ter criado um imenso imbroglio cultural, uma enorme confusão mental, um desarranjo total da polarização arrumadinha esquerda-direita tão ao gosto da arte engajada, que hoje virou sinônimo de arte bem-comportada.
O Padilha poderia fazer o Capitão Nascimento chegar em casa e esfaquear a mulher e estrangular o filhinho. Pronto. Os blogs fascistas não estariam celebrando o seu novo Rambo, a Veja provavelmente não daria capa, o establishment intelectual iria dar as palmas habituais e enfadonhas para o filme mais aguardado do ano, e ninguém mais ia se preocupar com isso. Atenção: NINGUÉM MAIS IA SE PREOCUPAR COM ISSO.
Mas o Padilha, acredito que de forma inconsciente (porque já o vejo, conscientemente, cowering e recuando ante as patrulhas), soltou a sua franga artística, esqueceu por um momento que era preciso ser aceito pelo establishment cultural. E, desta forma, cometeu o ato profundamente subversivo e artístico de mostrar a realidade incômoda e inassimilável. O Capitão Nascimento não é corrupto, é um pai de família convencional, com um nível médio de moralidade (nas relações de família) e, no entanto, ele tortura e executa – fora da lei.
O traficante é um ser horrendo, com um nível de moralidade muito inferior à média e, no entanto, quando ele sabe que vai morrer, se despede da mulher e da filhinha e, momentos antes do final, tem o pensamento singelo (para mim foi até tocante) de pedir que preservem sua face para o funeral.
Outra “saída” buscada pelas patrulhas para “retificar” Tropa de Elite tem a ver com o aspecto espetacular, a trilha sonora com os funks ou sei lá o quê (não entendo muito disso), a fotografia, as tomadas, etc. Nesta visão, seria preciso desconstruir o clima apocalíptico de boa parte do filme – de novo, e sempre, para não permitir que a “direita fascista” faturasse com a glamourização do Bope.
Isto me soa mais ou menos como dizer ao Conrad “menos, menos” em Coração das Trevas. O problema é que a proposta artística do livro não foi a de desconstruir o horror, mas sim, ao contrário, a de mostrá-lo com grande intensidade. Tropa de Elite também não veio para desconstruir o horror da guerra do tráfico no Rio, mas sim para mostrá-lo com furiosa intensidade. Tropa de Elite foi feito para chocar e confundir, e não para apaziguar os espíritos.
Os que gostariam de tirar de Tropa de Elite esta aspereza, este ferrão, este sentido quase punk de provocação (e que eu, numa definição muito pessoal do termo, chamo de "hiper-realista), não entendem que, em o fazendo, matariam a proposta artística do filme. É o que eu chamaria de “bowdlerização” de Tropa de Elite. Mas realmente já acabou meu saco para desenvolver ainda mais este ponto. Quem sabe mais tarde
Tropa de Elite, Tropa de Elite - só se fala nisso
Bem, como o Alex resolveu destacar no seu blog um comentário meu com a sua réplica, mas não a tréplica e o resto da discussão, eu aqui, mais democraticamente, reproduzo todo o diálogo:
F. Arranhaponte | m@il | www
Eu perguntei ao meu porteiro, morador da favela do Vidigal, ponto importante de tráfico, se ele tinha visto Tropa de Elite e o que tinha achado. A resposta, num tom sereno e desencantado, foi;
"É, F., é a realidade, a realidade"
O que mais se pode pedir de uma obra de arte'
14/10/2007 • 08:04:12
Alex Castro
Hmmm, então quer dizer que a função de uma obra de arte é refletir a realidade e mais nada? Portanto, se ela refletir a realidade já cumpriu sua obrigação e não se pode/deve pedir mais nada? Portanto, se não reflete a realidade, não é arte?
Rapaz, eu não saberia nem por onde começar a discordar. Provavelmente, começaria citando TODA a teoria da arte desenvolvida nos últimos 150 anos, mas daria muito trabalho.
F. Arranhaponte | m@il | www
Bem, típica resposta "impugnação por este meu tão grande excesso de sabedoria". Parece até o Olavo :-)
Não se trata de um grande debate sobre história da arte (se for, eu arrego), mas de se perguntar se se pode chamar de fascista ou pedir artifícios para "corrigir" a leitura de um filme que, aos olhos de quem faz parte da realidade retratada, arrebata como profundamente real.
Isto para mim, neste contexto do qual estamos falando, é grande arte sim, e os retoques ou correções politicamente motivadas que estão sendo pedidos só serviriam para diminuir a ambição artística de Tropa de Elite.
Mas se você quiser me ensinar gratuitamente os seus 150 anos de história da arte eu aceito sim, porque sou muito humilde.
Abraços ignaros
14/10/2007 • 09:23:02
alex castro | m@il | www
a questao nao eh essa, F. a questao é: elogiar uma obra de arte dizendo que ela reflete a realidade, ou que nao hah mais nada a se pedir de uma obra de arte a não ser que reflita a realidade, me eh tao bizarro que, de fato, mata a discussao. claramente, a gente acha arte é uma coisa bem diferente, com funcoes bem diferentes.
se vc acha que a funcao de uma obra de arte, por exemplo, é refletir a realidade, entao a fotografia matou a pintura... a pintura nao tem mais razao de ser, já que a fotografia já reproduz a realidade perfeitamente, e assim por diante... arte abstrata nao é arte, duchamp nao é arte, warhol nao é arte, bunel não eh arte, etc etc.
Bem, como o Alex resolveu destacar no seu blog um comentário meu com a sua réplica, mas não a tréplica e o resto da discussão, eu aqui, mais democraticamente, reproduzo todo o diálogo:
F. Arranhaponte | m@il | www
Eu perguntei ao meu porteiro, morador da favela do Vidigal, ponto importante de tráfico, se ele tinha visto Tropa de Elite e o que tinha achado. A resposta, num tom sereno e desencantado, foi;
"É, F., é a realidade, a realidade"
O que mais se pode pedir de uma obra de arte'
14/10/2007 • 08:04:12
Alex Castro
Hmmm, então quer dizer que a função de uma obra de arte é refletir a realidade e mais nada? Portanto, se ela refletir a realidade já cumpriu sua obrigação e não se pode/deve pedir mais nada? Portanto, se não reflete a realidade, não é arte?
Rapaz, eu não saberia nem por onde começar a discordar. Provavelmente, começaria citando TODA a teoria da arte desenvolvida nos últimos 150 anos, mas daria muito trabalho.
F. Arranhaponte | m@il | www
Bem, típica resposta "impugnação por este meu tão grande excesso de sabedoria". Parece até o Olavo :-)
Não se trata de um grande debate sobre história da arte (se for, eu arrego), mas de se perguntar se se pode chamar de fascista ou pedir artifícios para "corrigir" a leitura de um filme que, aos olhos de quem faz parte da realidade retratada, arrebata como profundamente real.
Isto para mim, neste contexto do qual estamos falando, é grande arte sim, e os retoques ou correções politicamente motivadas que estão sendo pedidos só serviriam para diminuir a ambição artística de Tropa de Elite.
Mas se você quiser me ensinar gratuitamente os seus 150 anos de história da arte eu aceito sim, porque sou muito humilde.
Abraços ignaros
14/10/2007 • 09:23:02
alex castro | m@il | www
a questao nao eh essa, F. a questao é: elogiar uma obra de arte dizendo que ela reflete a realidade, ou que nao hah mais nada a se pedir de uma obra de arte a não ser que reflita a realidade, me eh tao bizarro que, de fato, mata a discussao. claramente, a gente acha arte é uma coisa bem diferente, com funcoes bem diferentes.
se vc acha que a funcao de uma obra de arte, por exemplo, é refletir a realidade, entao a fotografia matou a pintura... a pintura nao tem mais razao de ser, já que a fotografia já reproduz a realidade perfeitamente, e assim por diante... arte abstrata nao é arte, duchamp nao é arte, warhol nao é arte, bunel não eh arte, etc etc.
alex castro (continua)
eu, por exemplo, não entrei nesse merito em nenhum momento. me é irrelevante se o filme reflete a realidade ou nao. estudei na escola americana, passava por dentro da rocinha todo dia, quando eu precisar da realidade de uma favela, eu sei onde encontrar. não é isso que estou buscando num filme. e com certeza não vai ser por aí que vou julgar se o filme é bom ou ruim...
mas, sei lá, vai ver sou só eu.
14/10/2007 • 09:30:58
F. Arranhaponte | m@il | www
Bem, eu não acho que Moby Dick reflete a realidade - o cachalote não é a maior baleia que existe, nem é grande daquele jeito. Não é disso que estou falando evidentemente. Não entrei numa discussão sobre história da Arte afirmando que só arte que retrata a realidade é arte e que Bosch era uma besta.
O que estou dizendo é que, no ponto a que chegamos do problema violência-crime-drogas no Rio, o sujeito fazer um filme em que os retratados se reconheçam de forma tão, digamos, intensa, é um feito artístico sim.
E quanto às suas passagens pela Rocinha, eu diria que um sujeito pode ficar anos lá dentro e não entender patavinas daquela realidade (certamente não deve ser o seu caso).
Eu me lembro de uma história engraçada quando fiz um estágio com gente de diferentes nacionalidades. Fiz amizade com um inglês, debilitado por uma doença, e que era o típico "little Englander", pôs pouquíssimas vezes os pés fora da ilha, mas era sábio pra cacete, daquele jeito cético, cínico e desencantado que certos britânicos desenvolvem. E fazia parte do grupo uma norueguesasona, gostosa, corpulenta, hiper-ativa, hiper politicamente correta, que já havia viajado por meio mundo, namorava um negro sul-africano e por aí vai. Um dia meu amigo inglês comentou sobre a norueguesa: "Ela já foi a quase todos os lugares do mundo, e nunca conseguiu entender nada do que estava se passando". Um Tropa de Elite poderia ajudá-la, he he.
E não esqueci as aulas de teoria da arte não. Pode ir gravando os DVDs :-)
alex castro | m@il | www
eu nao entendo nada de favela... eu só disse que quando eu quiser ver a realidade do morro, eu sei onde fica :-) nao é pra isso que eu vou ao cinema....
14/10/2007 • 09:51:47
Mais adiante, Alex discute com o Paulo
Paulo | m@il | www
Alex
As vezes vc me lembra o Smart. Começa falando uma coisa, quando recebe uma resposta muda de assunto a acusa a outra pessoa de nao saber o que esta falando mas nunca diz porque.
O post era sobre o filme ser fascista. O F. deu bons argumentos contra essa tese (Nota do Blogueiro: num comentário anterior- vão ver lá) e vc partiu para 150 anos de teoria de arte.
Fica dificil neh?
14/10/2007 • 10:29:37
alex castro | m@il | www
paulo, realmente, eu nao tenho mais nada a dizer sobre a questao do fascismo ou nao do filme. o que eu tinha a dizer está no post, ué. estava realmente fazendo um comentario sobre outra coisa... qual é o problema? agora tenho que ficar me repetindo sobre o fascismo do filme pra sempre?
14/10/2007 • 10:32:19
Quer dizer, não adianta mais tentar discutir a opinião do LLL sobre Tropa de Elite, porque a casa já fechou para debates
outubro 13, 2007
Divisor de águas

O mérito de Tropa de Elite é nos dizer que o problema está na polícia, e não no marginal. Isto é bem o contrário do que supõem os que chamam o filme de fascista. Para Tropa de Elite, o marginal é a barbárie sem redenção. Aqui, não importa a ótica do bandido. O filme não nega a desigualdade na base do crime, apenas não trata dela. Porque já está um passo além das causas. A Tropa de Elite chega quando o crime já se transformou em Mal não-relativizável, quando literalmente acontece o enfrentamento das forças infernais, e não resta alternativa que não a de meter medo ao diabo. O problema, para Tropa de Elite, não são os seres das trevas (os traficantes), mas sim os nossos agentes nesta guerra, corrompidos pelo dinheiro (PM) ou contaminados pela própria barbárie (Capitão Nascimento).
Assim como os filmes na ótica do traficante criam uma certa empatia da platéia com os bandidos, por mostrá-los como seres humanos injustiçados, que foram levados por circunstâncias trágicas àquela escolha, Tropa da Elite cria empatia com os policiais do Bope, que também, em última instância, são tragicamente arrastados para um confronto com o horror do qual não sairão impolutos. E assim como é bobagem dizer que Cidade de Deus faz apologia do tráfico, é bobagem dizer que Tropa de Elite faz apologia da tortura e das execuções como método policial.
Mas Tropa de Elite tem lado, e é o lado da lei. O filme afaga e critica o Bope, tenta trazê-lo para o aconchego do aval bem-pensante, mas com duras cobranças em troca. Resgata a polícia da demonização desmiolada de uma certa intelligentsia, mas apenas para lhe fazer fortes reprimendas. Neste sentido, é um filme profundamente civilizatório. Eu quase diria que chamar Tropa de Elite de fascista é uma atitude fascista, por ser uma aposta na barbárie da rebeldia primitiva.
As pessoas que classificam o filme de fascista são aquelas caricaturizadas na aula sub-foucaldiana na PUC-Rio. Não apenas e necessariamente consumidoras de drogas, mas adeptas da visão do bandido como revolucionário primitivo, e da polícia como agente da reação. Tropa de Elite é um “ataque do Bope” ao miolomolismo desta gente. Porrada pura. Eu acho que, neste sentido – com perdão ao Idelber, cito estes conceitos com a leviana irresponsabilidade de quem leu uma orelhazinha de livro aqui e acolá, e se arrisca a falar besteira pra burro –, o filme é uma ruptura epistemológica à la Foucault na visão do crime na nossa cinematografia. Os pressupostos que antecedem o olhar são outros. Não é o marginal como vítima do sistema, mas o policial como vítima e verdugo do sistema.
A turma do miolo-mole com sua ONG promíscua alimenta a Besta, brinca com ela, cria a ilusão insana de que pode controlá-la, mas quando tudo se desarranja, quando os demônios todos irrompem para o seu festival macabro – e que cena aquela, a dos pneus; o que ficou em mim foi o olhar saciado do traficante enquanto a chama ardia e ele dava um tapa derradeiro no seu baseado –, só resta chamar o Bope, os cavaleiros negros, malditos, temidos, contaminados, decaídos. Mas que são os únicos capazes de fazer o Inferno recuar. A brutalidade do Bope, portanto, é a outra face da promiscuidade e do laissez-faire com o crime, muito mais do que a outra face apenas do consumo de drogas.
Este é um filme que chama a intelligentsia e a polícia à razão. E que, ao fazê-lo com tanta ressonância junto à sociedade, mete medo nos bandidos
PS: Nota zero para o Reinaldo Azevedo que, na Veja, tenta fazer de Tropa de Elite mais um capítulo da sua guerra particular contra a esquerda

O mérito de Tropa de Elite é nos dizer que o problema está na polícia, e não no marginal. Isto é bem o contrário do que supõem os que chamam o filme de fascista. Para Tropa de Elite, o marginal é a barbárie sem redenção. Aqui, não importa a ótica do bandido. O filme não nega a desigualdade na base do crime, apenas não trata dela. Porque já está um passo além das causas. A Tropa de Elite chega quando o crime já se transformou em Mal não-relativizável, quando literalmente acontece o enfrentamento das forças infernais, e não resta alternativa que não a de meter medo ao diabo. O problema, para Tropa de Elite, não são os seres das trevas (os traficantes), mas sim os nossos agentes nesta guerra, corrompidos pelo dinheiro (PM) ou contaminados pela própria barbárie (Capitão Nascimento).
Assim como os filmes na ótica do traficante criam uma certa empatia da platéia com os bandidos, por mostrá-los como seres humanos injustiçados, que foram levados por circunstâncias trágicas àquela escolha, Tropa da Elite cria empatia com os policiais do Bope, que também, em última instância, são tragicamente arrastados para um confronto com o horror do qual não sairão impolutos. E assim como é bobagem dizer que Cidade de Deus faz apologia do tráfico, é bobagem dizer que Tropa de Elite faz apologia da tortura e das execuções como método policial.
Mas Tropa de Elite tem lado, e é o lado da lei. O filme afaga e critica o Bope, tenta trazê-lo para o aconchego do aval bem-pensante, mas com duras cobranças em troca. Resgata a polícia da demonização desmiolada de uma certa intelligentsia, mas apenas para lhe fazer fortes reprimendas. Neste sentido, é um filme profundamente civilizatório. Eu quase diria que chamar Tropa de Elite de fascista é uma atitude fascista, por ser uma aposta na barbárie da rebeldia primitiva.
As pessoas que classificam o filme de fascista são aquelas caricaturizadas na aula sub-foucaldiana na PUC-Rio. Não apenas e necessariamente consumidoras de drogas, mas adeptas da visão do bandido como revolucionário primitivo, e da polícia como agente da reação. Tropa de Elite é um “ataque do Bope” ao miolomolismo desta gente. Porrada pura. Eu acho que, neste sentido – com perdão ao Idelber, cito estes conceitos com a leviana irresponsabilidade de quem leu uma orelhazinha de livro aqui e acolá, e se arrisca a falar besteira pra burro –, o filme é uma ruptura epistemológica à la Foucault na visão do crime na nossa cinematografia. Os pressupostos que antecedem o olhar são outros. Não é o marginal como vítima do sistema, mas o policial como vítima e verdugo do sistema.
A turma do miolo-mole com sua ONG promíscua alimenta a Besta, brinca com ela, cria a ilusão insana de que pode controlá-la, mas quando tudo se desarranja, quando os demônios todos irrompem para o seu festival macabro – e que cena aquela, a dos pneus; o que ficou em mim foi o olhar saciado do traficante enquanto a chama ardia e ele dava um tapa derradeiro no seu baseado –, só resta chamar o Bope, os cavaleiros negros, malditos, temidos, contaminados, decaídos. Mas que são os únicos capazes de fazer o Inferno recuar. A brutalidade do Bope, portanto, é a outra face da promiscuidade e do laissez-faire com o crime, muito mais do que a outra face apenas do consumo de drogas.
Este é um filme que chama a intelligentsia e a polícia à razão. E que, ao fazê-lo com tanta ressonância junto à sociedade, mete medo nos bandidos
PS: Nota zero para o Reinaldo Azevedo que, na Veja, tenta fazer de Tropa de Elite mais um capítulo da sua guerra particular contra a esquerda
outubro 10, 2007
O meme da frase do livro II
Eu também aproveito para responder ao meme, que me foi passado pelo sempre cavalheiro Jorge Nobre. O livro é Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar. A frase é
"Matou-se na manhã seguinte."
Como ainda não cheguei à página 161, não sei quem é que se matou. O livro, que já está muito bom, ganhou um inesperado gostinho de whodunit. Alíás, deve ser o o primeiro caso em que a pergunta de um milhão de dólares é descobrir não quem é o assassino, mas quem é o suicida.
Em breve, um de nós dois vai se encarregar de passar o meme adiante, em nome do Torre de Marfim
Eu também aproveito para responder ao meme, que me foi passado pelo sempre cavalheiro Jorge Nobre. O livro é Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar. A frase é
"Matou-se na manhã seguinte."
Como ainda não cheguei à página 161, não sei quem é que se matou. O livro, que já está muito bom, ganhou um inesperado gostinho de whodunit. Alíás, deve ser o o primeiro caso em que a pergunta de um milhão de dólares é descobrir não quem é o assassino, mas quem é o suicida.
Em breve, um de nós dois vai se encarregar de passar o meme adiante, em nome do Torre de Marfim
O meme da frase do livro
Bem, vou responder logo este meme do Hermenauta, senão não faço mais.
A frase é:
A terra a nenhum fruto, enfim, disposta
É do Lusíadas, que era o que estava ao alcance da minha mão quando eu li o post nos passando o meme. Está no Canto V, e é o quinto verso da seguinte estrofe da página 161 da minha edição:
Deixámos de Massília a estéril costa,
Onde seu gado os Azenegues pastam
Gente que as frescas águas nunca gosta
Nem as ervas do campo bem lhe abastam;
A terra a nenhum fruto, enfim, disposta,
Onde as aves no ventre o ferro gastam,
Padecendo de tudo extrema inópia
Que aparta a Barbaria de Etiópia
Lúgrube ...
Ah, mas quem sabe não é um presságio: o Brasil depois de 20 anos de poder petelho (he he). Mas isto não é previsão não, é só pra encher o saco.
Mais tarde eu repasso o meme
Bem, vou responder logo este meme do Hermenauta, senão não faço mais.
A frase é:
A terra a nenhum fruto, enfim, disposta
É do Lusíadas, que era o que estava ao alcance da minha mão quando eu li o post nos passando o meme. Está no Canto V, e é o quinto verso da seguinte estrofe da página 161 da minha edição:
Deixámos de Massília a estéril costa,
Onde seu gado os Azenegues pastam
Gente que as frescas águas nunca gosta
Nem as ervas do campo bem lhe abastam;
A terra a nenhum fruto, enfim, disposta,
Onde as aves no ventre o ferro gastam,
Padecendo de tudo extrema inópia
Que aparta a Barbaria de Etiópia
Lúgrube ...
Ah, mas quem sabe não é um presságio: o Brasil depois de 20 anos de poder petelho (he he). Mas isto não é previsão não, é só pra encher o saco.
Mais tarde eu repasso o meme
outubro 09, 2007
Time of their lives
Os petelhos estão chegando ao zênite da glória. Um amigo querido, petelho muito moderado, especialista em política, já prevê quase a extinção dos tucanos em 2010 e vaticina que o governo "terá que fazer alguma coisa em relação à Vale", porque uma empresa tão poderosa e decisiva para a estratégia global do País tem que ter as patas do Estado em cima (como se já não tivesse).
Em vão eu ponderei que as múltis japonesas e coreanas, privadas, agem em coordenação com o governo. E, aliás, qualquer múlti de qualquer país age mais ou menos em coordenação com o governo. Ponderei também que esta vontade de tomar a Vale de assalto nada mais é do que o assanhamento da casta governante em países de cidadania não totalmente desenvolvida em se apoderar de uma parte cada vez maior dos frutos econômicos de um surto súbito de enriquecimento. A explosão dos gastos públicos e os movimentos reestatizantes, em graus muito variados, estão ocorrendo hoje na Venezuela, Argentina, Equador, Brasil, Rússia e em muitos outros países onde jorra forte e generoso o maná das commodities. Li meio transversalmente em qualquer lugar que a Rússia estaria contendo gastos, o que me surpreende e eleva a minha apreciação sobre a elite governante de lá. De qualquer forma, o movimento geral na Cucarachia global é o que descrevi em post anterior, "estamos ricos, estamos ricos, eu quero um pedaço maior, vamos gastar esta porra, caralho, é bom demais".
E eu acho que a euforia petelha apenas começou.
Aliás, estava em parte previsto aqui, em outubro de 2006
Os petelhos estão chegando ao zênite da glória. Um amigo querido, petelho muito moderado, especialista em política, já prevê quase a extinção dos tucanos em 2010 e vaticina que o governo "terá que fazer alguma coisa em relação à Vale", porque uma empresa tão poderosa e decisiva para a estratégia global do País tem que ter as patas do Estado em cima (como se já não tivesse).
Em vão eu ponderei que as múltis japonesas e coreanas, privadas, agem em coordenação com o governo. E, aliás, qualquer múlti de qualquer país age mais ou menos em coordenação com o governo. Ponderei também que esta vontade de tomar a Vale de assalto nada mais é do que o assanhamento da casta governante em países de cidadania não totalmente desenvolvida em se apoderar de uma parte cada vez maior dos frutos econômicos de um surto súbito de enriquecimento. A explosão dos gastos públicos e os movimentos reestatizantes, em graus muito variados, estão ocorrendo hoje na Venezuela, Argentina, Equador, Brasil, Rússia e em muitos outros países onde jorra forte e generoso o maná das commodities. Li meio transversalmente em qualquer lugar que a Rússia estaria contendo gastos, o que me surpreende e eleva a minha apreciação sobre a elite governante de lá. De qualquer forma, o movimento geral na Cucarachia global é o que descrevi em post anterior, "estamos ricos, estamos ricos, eu quero um pedaço maior, vamos gastar esta porra, caralho, é bom demais".
E eu acho que a euforia petelha apenas começou.
Aliás, estava em parte previsto aqui, em outubro de 2006
outubro 08, 2007
Ecce Homo, 40 anos depois

Celebrem, mas não se esqueçam de que ele era meio filho da puta
Convenhamos, o cara era boa-pinta. Ele abraçou a ideologia errada, responsável por alguns dos maiores crimes do século passado. Mas Che não esteve envolvido diretamente com os maiores crimes do século passado. Ele esteve envolvido com os crimes de Cuba, que estão na mesma ordem de grandeza (atenção, há muito espaço de variação numa ordem de grandeza) dos crimes das piores ditaduras de direita latino-americanas. É tudo muito ruim, mas não dá para comparar com Mao, Stálin ou Pol Pot. É forçar a barra. Não dá para comparar com Hitler. É ridículo.
Ele matou gente, matou prisioneiros. Mas muitos heróis militares fizeram o o mesmo, direta ou indiretamente. Era escroto sim, mas num nível de escrotidão que não o torna incultuável para uma parcela considerável da humanidade. Seria melhor (mas também mais entediante) que nós só cultuássemos heróis com moralidade igual ou superior à de Madre Teresa. Ou, como dizia a Emília (citação chutada, de cabeça), que admirássemos um cão ou qualquer outro bicho inofensivo, mas não um leão. Mas não é assim. Já é bom que a gente consiga fazer a cabeça da moçada para não cultuar o Hitler e o Stálin (apesar do Alon, he he), mas querer dizer que cultuar o Che é equivalente a fazer pacto com o Belzebu não cola. A história de sair guerrilhando América Latina afora por uma causa teoricamente pró-oprimidos, com imenso risco de vida, é romântica para caralho, gostemos ou não. Mesmo que a causa seja absurdamente errada, e prejudicial aos oprimidos, aquele cheirinho de povo é irresistível para muita gente. É besteira querer regulamentar moral e ideologicamente os hormônios das adolescentes de subúrbio que compram camisetas do Che. É inútil.
Então deixa o pessoal celebrar os 40 anos da morte de Che em paz, a ala chique do Diários de Motocicleta e a ala brega das camisetas.
Ah, e se ele cheirava a porco é problema lá das negas dele
PS: Acho que este pequeno texto aqui do Caio Blinder sobre o Che é um bom contraponto ao meu. Ele é muito, muito mais severo do que eu, mas tem a virtude de não ser histérico

Celebrem, mas não se esqueçam de que ele era meio filho da puta
Convenhamos, o cara era boa-pinta. Ele abraçou a ideologia errada, responsável por alguns dos maiores crimes do século passado. Mas Che não esteve envolvido diretamente com os maiores crimes do século passado. Ele esteve envolvido com os crimes de Cuba, que estão na mesma ordem de grandeza (atenção, há muito espaço de variação numa ordem de grandeza) dos crimes das piores ditaduras de direita latino-americanas. É tudo muito ruim, mas não dá para comparar com Mao, Stálin ou Pol Pot. É forçar a barra. Não dá para comparar com Hitler. É ridículo.
Ele matou gente, matou prisioneiros. Mas muitos heróis militares fizeram o o mesmo, direta ou indiretamente. Era escroto sim, mas num nível de escrotidão que não o torna incultuável para uma parcela considerável da humanidade. Seria melhor (mas também mais entediante) que nós só cultuássemos heróis com moralidade igual ou superior à de Madre Teresa. Ou, como dizia a Emília (citação chutada, de cabeça), que admirássemos um cão ou qualquer outro bicho inofensivo, mas não um leão. Mas não é assim. Já é bom que a gente consiga fazer a cabeça da moçada para não cultuar o Hitler e o Stálin (apesar do Alon, he he), mas querer dizer que cultuar o Che é equivalente a fazer pacto com o Belzebu não cola. A história de sair guerrilhando América Latina afora por uma causa teoricamente pró-oprimidos, com imenso risco de vida, é romântica para caralho, gostemos ou não. Mesmo que a causa seja absurdamente errada, e prejudicial aos oprimidos, aquele cheirinho de povo é irresistível para muita gente. É besteira querer regulamentar moral e ideologicamente os hormônios das adolescentes de subúrbio que compram camisetas do Che. É inútil.
Então deixa o pessoal celebrar os 40 anos da morte de Che em paz, a ala chique do Diários de Motocicleta e a ala brega das camisetas.
Ah, e se ele cheirava a porco é problema lá das negas dele
PS: Acho que este pequeno texto aqui do Caio Blinder sobre o Che é um bom contraponto ao meu. Ele é muito, muito mais severo do que eu, mas tem a virtude de não ser histérico
Tropa de elite e os torcedores do Bonsucesso
Eu assisti no fim de semana Tropa de elite. Filmaço. Bem dirigido, bem montado, bem escrito e bem interpretado. Parte do desconforto que o filme tem causado entre críticos e cineastas brasileiros certamente se deve à sua qualidade: quando alguém consegue fazer um filme bem feito no Brasil, logo se levantam os suspeitos de sempre, para acusar o filme de ceder à fórmula hollywoodiana e outras babaquices do gênero. Filme brasileiro que se preze tem que ser mal filmado, com som inaudível, diálogos pobres e interpretações de quinta categoria. José Padilha, como Fernando Meirelles em Cidade de Deus, ousou contrariar essas regras.
Mas essa não é a maior polêmica em torno do filme. Há duas outras mais importantes. Uma delas ocorre por causa de uma das teses do filme, a de que os consumidores de drogas financiam o tráfico e, desse modo, também são responsáveis pela violência. Como diz o David neste post, a idéia é de “o usuário paga a bala do traficante”. O texto dele me motivou a escrever este post, embora eu confesse que não entendi exatamente qual é o ponto de vista do David sobre a questão. Esse está longe de ser o único problema que envolve o tráfico, mas acho que o consumidor ajuda a financiar a violência.
Primeiro, uma obviedade: o tráfico existe porque há demanda por produtos cujo consumo e comercialização são proibidos. Eu sou a favor da descriminalização do consumo de todas as drogas e da legalização do comércio de algumas, como a maconha. Eu tenho dúvidas, porém, quanto ao que deve ser feito em relação às mais pesadas, como cocaína e heroína. De concreto, o que existe hoje é a proibição do consumo e da comercialização. Nesse cenário, quem consome drogas acaba financiando o tráfico.
O Marcus Pessoa, no comentário ao post do David, diz que “o usuário tem o direito moral de dar dinheiro para o bandido quando o Estado lhe tolhe a liberdade básica de consumir o que bem entende”. Acho curiosa essa opinião vinda de alguém de esquerda. O livre mercado, que não é o mundo dos sonhos dele, deve predominar quando se trata do consumo de drogas. Nesse caso, a intervenção do Estado atrapalha.
Mas a principal polêmica é outra. Marcus e muita gente acham que Tropa de elite faz a apologia da violência e glamouriza o Bope. O filme é contado pelo ponto de vista do capitão Nascimento, sujeito incorruptível e que não vê problemas em torturar e matar. Essa é visão de mundo do capitão Nascimento, não de Padilha. Neste post, Marcus reconhece que “a narração em primeira pessoa, claro, não significa que um autor se identifique com o personagem”, mas em seguida escreve que em Tropa de elite “não é feito qualquer reparo mais sério à pessoa do capitão Nascimento".
Como não? Na narrativa em off, ele se mostra como um sujeito articulado e inteligente. Na prática, é um policial brutal e cruel. O que Padilha poderia ter feito para mostrar que não endossa a violência? Colocar legendas no momento das cenas de tortura e assassinato, dizendo que ele não concorda com o que faz o capitão Nascimento, como alguém já sugeriu? Uma idéia melhor: Wagner Moura poderia aparecer na tela depois dos créditos como Wagner Moura, o ator boa praça, e, com um sorriso camarada, dizer que o capitão Nascimento, apesar de ser um pai amoroso, faz coisas muito feias como torturar e matar.
O Bope não é glamourizado em Tropa de elite. O diretor faz questão de mostrar que o sistema policial está todo podre. Há os corruptos pusilânimes e os incorruptíveis do Bope, que acham a coisa mais normal do mundo torturar e matar. Também aparece policial honesto no filme, como o mecânico que se recusa a pagar propina para tirar férias. Quem glamouriza o Bope é o capitão Nascimento, não Padilha.
A narrativa cimematográfica adotada por Padilha ajuda a explicar essas análises chinfrins. A idéia de que o consumidor financia a bala do traficante também deve ser uma das causas para tanto desconforto. Por causa dessa combinação, muita gente vê em Tropa de elite uma apologia da violência que não está lá. Isso é opinião de torcedor do Bonsucesso. O problema é que filme brasileiro bem feito ainda assusta
Eu assisti no fim de semana Tropa de elite. Filmaço. Bem dirigido, bem montado, bem escrito e bem interpretado. Parte do desconforto que o filme tem causado entre críticos e cineastas brasileiros certamente se deve à sua qualidade: quando alguém consegue fazer um filme bem feito no Brasil, logo se levantam os suspeitos de sempre, para acusar o filme de ceder à fórmula hollywoodiana e outras babaquices do gênero. Filme brasileiro que se preze tem que ser mal filmado, com som inaudível, diálogos pobres e interpretações de quinta categoria. José Padilha, como Fernando Meirelles em Cidade de Deus, ousou contrariar essas regras.
Mas essa não é a maior polêmica em torno do filme. Há duas outras mais importantes. Uma delas ocorre por causa de uma das teses do filme, a de que os consumidores de drogas financiam o tráfico e, desse modo, também são responsáveis pela violência. Como diz o David neste post, a idéia é de “o usuário paga a bala do traficante”. O texto dele me motivou a escrever este post, embora eu confesse que não entendi exatamente qual é o ponto de vista do David sobre a questão. Esse está longe de ser o único problema que envolve o tráfico, mas acho que o consumidor ajuda a financiar a violência.
Primeiro, uma obviedade: o tráfico existe porque há demanda por produtos cujo consumo e comercialização são proibidos. Eu sou a favor da descriminalização do consumo de todas as drogas e da legalização do comércio de algumas, como a maconha. Eu tenho dúvidas, porém, quanto ao que deve ser feito em relação às mais pesadas, como cocaína e heroína. De concreto, o que existe hoje é a proibição do consumo e da comercialização. Nesse cenário, quem consome drogas acaba financiando o tráfico.
O Marcus Pessoa, no comentário ao post do David, diz que “o usuário tem o direito moral de dar dinheiro para o bandido quando o Estado lhe tolhe a liberdade básica de consumir o que bem entende”. Acho curiosa essa opinião vinda de alguém de esquerda. O livre mercado, que não é o mundo dos sonhos dele, deve predominar quando se trata do consumo de drogas. Nesse caso, a intervenção do Estado atrapalha.
Mas a principal polêmica é outra. Marcus e muita gente acham que Tropa de elite faz a apologia da violência e glamouriza o Bope. O filme é contado pelo ponto de vista do capitão Nascimento, sujeito incorruptível e que não vê problemas em torturar e matar. Essa é visão de mundo do capitão Nascimento, não de Padilha. Neste post, Marcus reconhece que “a narração em primeira pessoa, claro, não significa que um autor se identifique com o personagem”, mas em seguida escreve que em Tropa de elite “não é feito qualquer reparo mais sério à pessoa do capitão Nascimento".
Como não? Na narrativa em off, ele se mostra como um sujeito articulado e inteligente. Na prática, é um policial brutal e cruel. O que Padilha poderia ter feito para mostrar que não endossa a violência? Colocar legendas no momento das cenas de tortura e assassinato, dizendo que ele não concorda com o que faz o capitão Nascimento, como alguém já sugeriu? Uma idéia melhor: Wagner Moura poderia aparecer na tela depois dos créditos como Wagner Moura, o ator boa praça, e, com um sorriso camarada, dizer que o capitão Nascimento, apesar de ser um pai amoroso, faz coisas muito feias como torturar e matar.
O Bope não é glamourizado em Tropa de elite. O diretor faz questão de mostrar que o sistema policial está todo podre. Há os corruptos pusilânimes e os incorruptíveis do Bope, que acham a coisa mais normal do mundo torturar e matar. Também aparece policial honesto no filme, como o mecânico que se recusa a pagar propina para tirar férias. Quem glamouriza o Bope é o capitão Nascimento, não Padilha.
A narrativa cimematográfica adotada por Padilha ajuda a explicar essas análises chinfrins. A idéia de que o consumidor financia a bala do traficante também deve ser uma das causas para tanto desconforto. Por causa dessa combinação, muita gente vê em Tropa de elite uma apologia da violência que não está lá. Isso é opinião de torcedor do Bonsucesso. O problema é que filme brasileiro bem feito ainda assusta
outubro 07, 2007
Protesto solitário contra o aumento do Estado

Estado brasileiro flagrado em momento de intimidade
Se existe algo que me deixa exasperado no segundo mandato de Lula, é a falta de cerimônia com que o Guia Genial e seus auxiliares passaram a defender o aumento do tamanho do Estado. O pior é que, desta vez, não se trata de retórica. O número de funcionários não pára de crescer, e os gastos públicos aumentam algo como 10% ao ano acima da inflação. Quem ganhar as eleições presidenciais em 2010 já pode ter uma certeza: o inchaço do Estado será a grande herança maldita deixada pelo governo Lula.
Em parte por acreditar que um Estado grande e gastador é indispensável para promover o crescimento, em parte pela vontade de entregar carguinhos aos companheiros, o governo petista tem se empenhado com afinco na tarefa de engordar o setor público. De 2004 para cá, os gastos totais da União crescem a um ritmo anual de 10% acima da inflação. Como o post deve estar chato para a maioria dos leitores, não vou deixar de brindá-los com umas estatísticas chatas, mas preocupantes:
- O número de servidores do Executivo passou de 809.975 em 2002 para 997.739 em 2006
- O governo autorizou a contratação de 94.765 funcionários por concurso desde 2003
- O número de cargos de confiança aumentou de 17.559 em 2003 para 19.724 em fevereiro de 2007
- De janeiro a agosto, as despesas totais do governo central aumentaram 13,32% em relação ao mesmo período do ano passado
- Os gastos com pessoal aumentaram 13,52% nesse período, em grande parte devido aos reajustes salariais generosos concedidos em 2006
Aumentar o número de funcionários é contratar uma encrenca para o futuro, uma vez que vão impactar os já elevadíssimos gastos com aposentadorias no longo prazo. Mas Lula não está preocupado com isso. Segundo ele, choque de gestão será feito quando o Estado contratar mais funcionários.
A nova direção do Ipea também tem se empenhado em justificar a necessidade de aumentar o tamanho do setor público. Ao assumir o comando da instituição, Márcio Pochmann disse que o Estado brasileiro era raquítico. Na semana passada, escreveu, em artigo publicado no Valor, que o Brasil “precisa contar com a implantação de uma nova rodada de geração de empresas estatais”. É isso aí. A nova intelligentsia do governo acha que um Estado cujos gastos crescem a 10% ao ano em termos reais é raquítico.
Mas as idéias de Pochmann estão longe de serem o que de mais inteligente produz o novo comando do Ipea. Na semana passada, o diretor de Estudos Macroeconômicos da instituição, João Sicsú, escreveu, num artigo na Folha, que o “nanismo de um Estado pode ser medido por meio de uma variável-síntese: o número de fiscais da receita por mil quilômetros quadrados”. Segundo ele, o Brasil tinha em 2004 apenas 0,9 fiscal por mil quilômetros quadrados – o que colocaria o país na última colocação do ranking de países não pertencentes à OCDE. Poucas vezes li algo tão grotesco quanto isso. Por esse critério, Luxemburgo deve ter um Estado paquidérmico. O Canadá certamente terá um nano-Estado.
O inchaço do setor público será o pior legado do governo Lula. Mas, como o brasileiro adora um Estado grande e gastador, ninguém vai reclamar

Estado brasileiro flagrado em momento de intimidade
Se existe algo que me deixa exasperado no segundo mandato de Lula, é a falta de cerimônia com que o Guia Genial e seus auxiliares passaram a defender o aumento do tamanho do Estado. O pior é que, desta vez, não se trata de retórica. O número de funcionários não pára de crescer, e os gastos públicos aumentam algo como 10% ao ano acima da inflação. Quem ganhar as eleições presidenciais em 2010 já pode ter uma certeza: o inchaço do Estado será a grande herança maldita deixada pelo governo Lula.
Em parte por acreditar que um Estado grande e gastador é indispensável para promover o crescimento, em parte pela vontade de entregar carguinhos aos companheiros, o governo petista tem se empenhado com afinco na tarefa de engordar o setor público. De 2004 para cá, os gastos totais da União crescem a um ritmo anual de 10% acima da inflação. Como o post deve estar chato para a maioria dos leitores, não vou deixar de brindá-los com umas estatísticas chatas, mas preocupantes:
- O número de servidores do Executivo passou de 809.975 em 2002 para 997.739 em 2006
- O governo autorizou a contratação de 94.765 funcionários por concurso desde 2003
- O número de cargos de confiança aumentou de 17.559 em 2003 para 19.724 em fevereiro de 2007
- De janeiro a agosto, as despesas totais do governo central aumentaram 13,32% em relação ao mesmo período do ano passado
- Os gastos com pessoal aumentaram 13,52% nesse período, em grande parte devido aos reajustes salariais generosos concedidos em 2006
Aumentar o número de funcionários é contratar uma encrenca para o futuro, uma vez que vão impactar os já elevadíssimos gastos com aposentadorias no longo prazo. Mas Lula não está preocupado com isso. Segundo ele, choque de gestão será feito quando o Estado contratar mais funcionários.
A nova direção do Ipea também tem se empenhado em justificar a necessidade de aumentar o tamanho do setor público. Ao assumir o comando da instituição, Márcio Pochmann disse que o Estado brasileiro era raquítico. Na semana passada, escreveu, em artigo publicado no Valor, que o Brasil “precisa contar com a implantação de uma nova rodada de geração de empresas estatais”. É isso aí. A nova intelligentsia do governo acha que um Estado cujos gastos crescem a 10% ao ano em termos reais é raquítico.
Mas as idéias de Pochmann estão longe de serem o que de mais inteligente produz o novo comando do Ipea. Na semana passada, o diretor de Estudos Macroeconômicos da instituição, João Sicsú, escreveu, num artigo na Folha, que o “nanismo de um Estado pode ser medido por meio de uma variável-síntese: o número de fiscais da receita por mil quilômetros quadrados”. Segundo ele, o Brasil tinha em 2004 apenas 0,9 fiscal por mil quilômetros quadrados – o que colocaria o país na última colocação do ranking de países não pertencentes à OCDE. Poucas vezes li algo tão grotesco quanto isso. Por esse critério, Luxemburgo deve ter um Estado paquidérmico. O Canadá certamente terá um nano-Estado.
O inchaço do setor público será o pior legado do governo Lula. Mas, como o brasileiro adora um Estado grande e gastador, ninguém vai reclamar
outubro 06, 2007
Como deixei de ser flamenguista

Foi um rio que secou em minha vida
Uma das minha mais remotas lembranças é a dos meus dois irmãos mais velhos exercitando sobre mim a hegemonia gramsciana: “Existem o Fla, e o Flu, o Fla é legal, o Flu é horrível”. Eu sou, ou melhor dizendo, era Flamengo desde antes de me ter como gente. Eu fui um típico garoto que, com dez, nove anos, tinha o quarto coberto com pôsteres da revista Placar de todos os times do campeonato brasileiro. Eu tinha bandeira do Flamengo, assisti no Maracanã a momentos épicos à altura das melhores crônicas de futebol do Nelson Rodrigues, chorava desconsolodamente nas derrotas (chorava demais, segundo meu irmão mais velho, que via a minha copiosidade infantil pelo prisma do machisminho incipiente de quem já adentrava a pré-adolescência) e, num episódio célebre na mitologia familiar, cuspi na minha bandeira e a rasguei com os dentes, quando tomamos uma goleada particularmente humilhante.
Eu vi no Maracanã o Flamengo perder e ganhar do Botafogo por 6 a 0. Eu vi o Zico perder um pênalti numa final com o Vasco que me doeu bem mais do que o pênalti perdido contra a França na Copa de 86. Eu vi – memórias confusas, agora – em lances parecidos o Renato Gaúcho e o Nunes romperem no peito e na raça a linha defensiva dos adversários e fazerem gols decisivos em finais de campeonatos. Eu vi o Paulo César Carpegiani comandar o time com bravura inaudita numa virada de 2 a 0 par 4 a 2 num jogo importante (talvez final) contra o Fluminense. Eu vi o time maravilhoso do início dos anos 80, com Zico, Adílio, Andrade e outros tantos ganhar todos os campeonatos que passavam pela frente (inclusive o título mundial), e espantosamente ganhar todos os turnos dos campeonatos cariocas, eliminando a final. E eu vi, suprema epifania, um menininho negro, com uma pipa de cerol pilotada da arquibancada, comandar o fio até que ele rompesse o cordão que prendia ao campo um arranjo com milhares de bolas de gás nas cores de Fluminense, que imediatamente se soltaram, ultrapassaram a boca gigante do Maracanã e, sempre subindo, perderam-se no nada crespuscular da tarde quase noite, enquanto a torcida flamenguista ia ao delírio, espocava todos os fogos que tivesse ao alcance e entoava cada vez mais alto o coro de "Meeeeengo, Meeeeengo".
E, apesar de tudo, já não sou Flamengo. Outro dia, vendo as incríveis cenas da torcida do Flamengo na arquibancada na vitória contra o São Paulo – sem dúvida, ainda um dos grandes espetáculos da Terra – eu quase fui Flamengo outra vez. E aí tive a idéia de escrever este post.
O vírus anti-flamenguista foi inoculado em mim por meu ex-sogro, um delicioso aristocrata não-rico, que vive num apartamento de classe média nas imediações do Clube do Flamengo, no Rio. Ele teoricamente é Fluminense, mas não dá a mínima para futebol, concentrando toda a sua atividade de apreciador de esportes em tênis, principalmente, e iatismo, que já praticou. Como o seu apartamento é próximo ao Flamengo, a área é naturalmente infestada de flamenguistas. E, gradativamente, com rápidos comentários mordazes e cortantes, risos de boca fechada, meneios de cabeça, alçar de sobrancelhas e todo um ritual de sutis manifestações de desprezo, meu ex-sogro foi me fazendo ver a imensidão da boçalidade do típico flamenguista.
Bem no apartamento em frente ao dele, porta com porta, vivia uma família de australopitecos flamenguistas. Eu não me recordo se eles já dominavam rudimentos de linguagem, mas certamente grunhiam muito. Em dias de vitória do Flamengo, o ruído surdo dos urros, do bater dos pés e de mais toda uma caótica cacofonia de difícil identificação era claramente conradiano.
E eu me lembro do dia em que eu e meu ex-sogro estávamos no pequeno hall, esperando o elevador, e um dos jovens australopitecos saltou porta à fora do apartamento vizinho. Aparentemente, o Flamengo havia vencido. Não pude ver a fisionomia do flamenguista, porque o tronco estava curvado, com as mãos muito próximas do chão. E então ele fez o gesto inesquecível: martelou várias vezes a parte inferior da mão direita fechada na mão esquerda espalmada para cima, as pernas dobradas aproximando-se de um agachamento, a corcova protuberante apontada para o alto, o focinho voltado para baixo, a talvez uns trinta centímetros do chão, e, com voz a gutural, começou a berrar (ele falava, afinal!), acompanhando o ritmo das pancadas na mão: “E dá-lhe Mengo, e dá-lhe Mengo, olê, olê, olê".
Com um mínimo giro do pescoço, quase imperceptível, meu ex-sogro fitou meus olhos por uns três segundos. Havia naquele olhar uma ironia petrificada, entranhada, certamente invisível para quem quer que não entendesse a comunicação infinita que estava se processando naquele brevíssimo instante. Era um olhar duro, sarcástico, impassível, imperioso e definitivo. E foi assim que eu deixei de ser Flamengo

Foi um rio que secou em minha vida
Uma das minha mais remotas lembranças é a dos meus dois irmãos mais velhos exercitando sobre mim a hegemonia gramsciana: “Existem o Fla, e o Flu, o Fla é legal, o Flu é horrível”. Eu sou, ou melhor dizendo, era Flamengo desde antes de me ter como gente. Eu fui um típico garoto que, com dez, nove anos, tinha o quarto coberto com pôsteres da revista Placar de todos os times do campeonato brasileiro. Eu tinha bandeira do Flamengo, assisti no Maracanã a momentos épicos à altura das melhores crônicas de futebol do Nelson Rodrigues, chorava desconsolodamente nas derrotas (chorava demais, segundo meu irmão mais velho, que via a minha copiosidade infantil pelo prisma do machisminho incipiente de quem já adentrava a pré-adolescência) e, num episódio célebre na mitologia familiar, cuspi na minha bandeira e a rasguei com os dentes, quando tomamos uma goleada particularmente humilhante.
Eu vi no Maracanã o Flamengo perder e ganhar do Botafogo por 6 a 0. Eu vi o Zico perder um pênalti numa final com o Vasco que me doeu bem mais do que o pênalti perdido contra a França na Copa de 86. Eu vi – memórias confusas, agora – em lances parecidos o Renato Gaúcho e o Nunes romperem no peito e na raça a linha defensiva dos adversários e fazerem gols decisivos em finais de campeonatos. Eu vi o Paulo César Carpegiani comandar o time com bravura inaudita numa virada de 2 a 0 par 4 a 2 num jogo importante (talvez final) contra o Fluminense. Eu vi o time maravilhoso do início dos anos 80, com Zico, Adílio, Andrade e outros tantos ganhar todos os campeonatos que passavam pela frente (inclusive o título mundial), e espantosamente ganhar todos os turnos dos campeonatos cariocas, eliminando a final. E eu vi, suprema epifania, um menininho negro, com uma pipa de cerol pilotada da arquibancada, comandar o fio até que ele rompesse o cordão que prendia ao campo um arranjo com milhares de bolas de gás nas cores de Fluminense, que imediatamente se soltaram, ultrapassaram a boca gigante do Maracanã e, sempre subindo, perderam-se no nada crespuscular da tarde quase noite, enquanto a torcida flamenguista ia ao delírio, espocava todos os fogos que tivesse ao alcance e entoava cada vez mais alto o coro de "Meeeeengo, Meeeeengo".
E, apesar de tudo, já não sou Flamengo. Outro dia, vendo as incríveis cenas da torcida do Flamengo na arquibancada na vitória contra o São Paulo – sem dúvida, ainda um dos grandes espetáculos da Terra – eu quase fui Flamengo outra vez. E aí tive a idéia de escrever este post.
O vírus anti-flamenguista foi inoculado em mim por meu ex-sogro, um delicioso aristocrata não-rico, que vive num apartamento de classe média nas imediações do Clube do Flamengo, no Rio. Ele teoricamente é Fluminense, mas não dá a mínima para futebol, concentrando toda a sua atividade de apreciador de esportes em tênis, principalmente, e iatismo, que já praticou. Como o seu apartamento é próximo ao Flamengo, a área é naturalmente infestada de flamenguistas. E, gradativamente, com rápidos comentários mordazes e cortantes, risos de boca fechada, meneios de cabeça, alçar de sobrancelhas e todo um ritual de sutis manifestações de desprezo, meu ex-sogro foi me fazendo ver a imensidão da boçalidade do típico flamenguista.
Bem no apartamento em frente ao dele, porta com porta, vivia uma família de australopitecos flamenguistas. Eu não me recordo se eles já dominavam rudimentos de linguagem, mas certamente grunhiam muito. Em dias de vitória do Flamengo, o ruído surdo dos urros, do bater dos pés e de mais toda uma caótica cacofonia de difícil identificação era claramente conradiano.
E eu me lembro do dia em que eu e meu ex-sogro estávamos no pequeno hall, esperando o elevador, e um dos jovens australopitecos saltou porta à fora do apartamento vizinho. Aparentemente, o Flamengo havia vencido. Não pude ver a fisionomia do flamenguista, porque o tronco estava curvado, com as mãos muito próximas do chão. E então ele fez o gesto inesquecível: martelou várias vezes a parte inferior da mão direita fechada na mão esquerda espalmada para cima, as pernas dobradas aproximando-se de um agachamento, a corcova protuberante apontada para o alto, o focinho voltado para baixo, a talvez uns trinta centímetros do chão, e, com voz a gutural, começou a berrar (ele falava, afinal!), acompanhando o ritmo das pancadas na mão: “E dá-lhe Mengo, e dá-lhe Mengo, olê, olê, olê".
Com um mínimo giro do pescoço, quase imperceptível, meu ex-sogro fitou meus olhos por uns três segundos. Havia naquele olhar uma ironia petrificada, entranhada, certamente invisível para quem quer que não entendesse a comunicação infinita que estava se processando naquele brevíssimo instante. Era um olhar duro, sarcástico, impassível, imperioso e definitivo. E foi assim que eu deixei de ser Flamengo
outubro 05, 2007
Lula: Brasil não deve ter medo de pagar imposto
De um site eletrônico de notícias:
12:31 LULA DIZ QUE "O BRASIL NÃO PODE TER MEDO DE ARRECADAR MAIS"
Florianópolis, 5 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, após a cerimônia em que o Banco do Brasil assumiu o Banco de Santa Catarina (Besc), disse em entrevista coletiva acreditar que a CPMF deverá ser aprovada tanto na Câmara como no Senado, e salientou que o governo realizou uma série de desonerações, e que em 2006, uma delas chegou a desonerar R$ 32 bilhões, ou seja uma CPMF. "O Brasil não pode ter medo de arrecadar mais. Porque o mal do Brasil é que durante muito tempo ele arrecadou menos. Então, o Brasil precisa arrecadar o justo para fazer a política social justa, que o País necessita. Por isso, estou convencido que a Câmara e o Senado vão aprovar a CPMF", afirmou Lula.
A mensagem é clara:
"Eu quero que vocês me dêem muito do seu dinheiro. E vejam só por quê. Porque eu estou fazendo favores para muita gente. Por exemplo, eu livrei um grupo de empresários aí, que o meu pessoal escolheu, de pagar 32 bilhões de reais em impostos. Estão vendo só? Este dinheiro vai fazer falta. Então o governo não pode ter medo de arrancar mais dinheiro de vocês. Eu garanto. Vocês me dão muito dinheiro, eu uso para fazer um monte de favores para um monte de gente (quem sabe até vocês não dão sorte de ficar com um pouquinho?), e o Brasil nunca antes na história do Brasil ficará tão bem. Confiem. Tudo vai dar certo. Mas abram o bolso."
E a nossa "oposição" vai baixar as calças e contribuir para aprovação da CPMF. Eu se fosse o Lula já estaria pensando no quarto mandato
De um site eletrônico de notícias:
12:31 LULA DIZ QUE "O BRASIL NÃO PODE TER MEDO DE ARRECADAR MAIS"
Florianópolis, 5 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, após a cerimônia em que o Banco do Brasil assumiu o Banco de Santa Catarina (Besc), disse em entrevista coletiva acreditar que a CPMF deverá ser aprovada tanto na Câmara como no Senado, e salientou que o governo realizou uma série de desonerações, e que em 2006, uma delas chegou a desonerar R$ 32 bilhões, ou seja uma CPMF. "O Brasil não pode ter medo de arrecadar mais. Porque o mal do Brasil é que durante muito tempo ele arrecadou menos. Então, o Brasil precisa arrecadar o justo para fazer a política social justa, que o País necessita. Por isso, estou convencido que a Câmara e o Senado vão aprovar a CPMF", afirmou Lula.
A mensagem é clara:
"Eu quero que vocês me dêem muito do seu dinheiro. E vejam só por quê. Porque eu estou fazendo favores para muita gente. Por exemplo, eu livrei um grupo de empresários aí, que o meu pessoal escolheu, de pagar 32 bilhões de reais em impostos. Estão vendo só? Este dinheiro vai fazer falta. Então o governo não pode ter medo de arrancar mais dinheiro de vocês. Eu garanto. Vocês me dão muito dinheiro, eu uso para fazer um monte de favores para um monte de gente (quem sabe até vocês não dão sorte de ficar com um pouquinho?), e o Brasil nunca antes na história do Brasil ficará tão bem. Confiem. Tudo vai dar certo. Mas abram o bolso."
E a nossa "oposição" vai baixar as calças e contribuir para aprovação da CPMF. Eu se fosse o Lula já estaria pensando no quarto mandato
outubro 03, 2007
Vontade de gastar
Amigos, estou louco para postar logo isto, mas tenho que sair. Então vai de qualquer jeito mesmo, deve ter seus errinhos de português e o estilo está bem avacalhado. Depois, com certeza dou uma arrumada no português, e, dependendo do saco (menos provável), no estilo.
É vontade de gastar, fundamentalmente. Esqueçamos por um momento que ele é de esquerda, e muito mais estas baboseiras de hegemonia, Gramsci, marxismo. Porque no fundo é vontade de abrir a carteira, jogar um monte de notas de cem reais para cima e gritar, eufórico: “Estou rico, estou rico”!
O filme do João Moreira Salles sobre o Lula, que o autor covardemente impediu de recircular durante o auge do mensalão (o que poderia dar uma outra leitura à obra), mostra como o presidente encarou a sua ascensão política como uma ascensão social. Ele conquistou o direito de tirar o macacão e vestir o terno. Mas não foi só isso. Ele conquistou o direito, para si e para sua família, de brincar com a miríade de produtos e serviços que os ricos podem consumir. Não há nada de errado nisso. Bilhões de pessoas que vêm de baixo mundo afora agem exatamente assim. Errado não é esbanjar. Errado é não ter.
Só que o estágio mais elevado da ascensão social do Lula (a presidência) foi acompanhado pela ascensão social do Brasil. O Brasil ficou rico. O fato emblemático deste novo status social é o valor de mercado da Vale: saiu de dez bilhões de dólares em 2001 para 170 bilhões de dólares agora. A Vale sintetiza por que o Brasil ficou rico. Porque aquilo que a gente produz, bem, ficou muito mais caro. E não é só a matéria-prima. É toda a cadeia em torno da matéria-prima, que tem muita coisa sofisticada, e em que somos bons. Mas isto é um papo chato pra burro. O que importa é que o País virou rico.
E Lula no poder está vivendo a virada do Brasil pobre para o Brasil rico. O governo é o principal sócio da economia do País. Se o governo quiser gastar muito, e o país estiver crescendo muito, tem jogo. Nenhum desastre vai acontecer.
Quem vê a vontade de gastar do Lula como algo fundamentalmente egoísta, maléfico, perdeu o ponto. Esta é uma visão anglo-saxã: dinheiro público é um jogo de soma zero, se ele gasta, alguém paga (é claro que no fundo é isso mesmo, mas estou falando aqui do espírito da coisa, não da coisa em si). A gente tem de ver o Lula como um novo rico exuberante, que gosta da gastar, mas também gosta de ajudar, que não agüenta ver um amigo em dificuldade, um daqueles tipos maiores que a vida que é muito generoso com si e com os outros. Mas com os outros de uma forma famiglia – não é o outro genérico, abstrato, filosófico. É o outro concreto, aquele que está próximo, que você vê, com o qual tem relação. É a família e a companheirada. Ou então algumas categorias mais gerais que têm uma certa sacralidade, por estarem ligadas à história do Lula. É o trabalhador, o pobre. Para o companheiro, ajuda; para o trabalhador, apoio; para o pobre, esmola.
E o que mais irrita o Lula neste momento é que regulem a mixaria. Ele quer muita glória para si, muita festa, quer dar muita ajuda, muito apoio, muita esmola. Quer fazer muita coisa, usinas hidrelétricas, universidades, sei lá – o que importa é fazer, e que saibam que foi ele quem fez. Nada irrita mais o Lula do que o tecnocrata cinzento tentando impor limites ou racionalidade no gasto. Nada irrita mais alguém que quer gastar muito do que o pentelho que diz que é preciso gastar bem, porque para gastar bem talvez seja preciso não fazer certos gastos, talvez seja preciso ir mais devagar com outros, e no frigir dos ovos pinta um clima brochante, que inibe aquela louca vontade de gastar, que é o grande tesão do Lula no momento. Então ele diz para o tecnocrata: “Vamos, seja um homem, não um verme. O mundo está se abrindo para nós, estão comprando sem parar as nossas coisas, as burras do Tesouro estão transbordando, e você vem me falar em conter os gastos?”
E é por isto tudo que eu acho que a maior oportunidade política da oposição em todo o governo Lula está sendo jogada fora. Eu estou falando da CPMF, é claro. Derrubar a CPMF, 100%, de forma imediata e definitiva, é o desfazimento da vontade de gastar de Lula. São os 40 bilhões a menos que vão furar a bola de gás e que só farão bem ao País.
É o undoing do Lula, cirúrgico, asséptico, fatal. Nada de ruim vai acontecer. Os programas sociais não serão interrompidos nem restringidos, os investimentos serão feitos (talvez com alguma substituição de investimento público por privado), os compromissos serão honrados, a bolsa permanecerá em alta (após uma breve queda pelo susto), o país continuará a crescer. Será ruim para o Lula mas não será ruim para o seu governo. Isto é, o governo será melhor para o Brasil, mas o Lula será menos popular. Seria (mudei aqui para o futuro do pretérito por uma questão de realismo no finzinho) o fim da festa do governo e dos seus amigos, mas não seria, de jeito nenhum, o fim da bonança da economia brasileira
Amigos, estou louco para postar logo isto, mas tenho que sair. Então vai de qualquer jeito mesmo, deve ter seus errinhos de português e o estilo está bem avacalhado. Depois, com certeza dou uma arrumada no português, e, dependendo do saco (menos provável), no estilo.
É vontade de gastar, fundamentalmente. Esqueçamos por um momento que ele é de esquerda, e muito mais estas baboseiras de hegemonia, Gramsci, marxismo. Porque no fundo é vontade de abrir a carteira, jogar um monte de notas de cem reais para cima e gritar, eufórico: “Estou rico, estou rico”!
O filme do João Moreira Salles sobre o Lula, que o autor covardemente impediu de recircular durante o auge do mensalão (o que poderia dar uma outra leitura à obra), mostra como o presidente encarou a sua ascensão política como uma ascensão social. Ele conquistou o direito de tirar o macacão e vestir o terno. Mas não foi só isso. Ele conquistou o direito, para si e para sua família, de brincar com a miríade de produtos e serviços que os ricos podem consumir. Não há nada de errado nisso. Bilhões de pessoas que vêm de baixo mundo afora agem exatamente assim. Errado não é esbanjar. Errado é não ter.
Só que o estágio mais elevado da ascensão social do Lula (a presidência) foi acompanhado pela ascensão social do Brasil. O Brasil ficou rico. O fato emblemático deste novo status social é o valor de mercado da Vale: saiu de dez bilhões de dólares em 2001 para 170 bilhões de dólares agora. A Vale sintetiza por que o Brasil ficou rico. Porque aquilo que a gente produz, bem, ficou muito mais caro. E não é só a matéria-prima. É toda a cadeia em torno da matéria-prima, que tem muita coisa sofisticada, e em que somos bons. Mas isto é um papo chato pra burro. O que importa é que o País virou rico.
E Lula no poder está vivendo a virada do Brasil pobre para o Brasil rico. O governo é o principal sócio da economia do País. Se o governo quiser gastar muito, e o país estiver crescendo muito, tem jogo. Nenhum desastre vai acontecer.
Quem vê a vontade de gastar do Lula como algo fundamentalmente egoísta, maléfico, perdeu o ponto. Esta é uma visão anglo-saxã: dinheiro público é um jogo de soma zero, se ele gasta, alguém paga (é claro que no fundo é isso mesmo, mas estou falando aqui do espírito da coisa, não da coisa em si). A gente tem de ver o Lula como um novo rico exuberante, que gosta da gastar, mas também gosta de ajudar, que não agüenta ver um amigo em dificuldade, um daqueles tipos maiores que a vida que é muito generoso com si e com os outros. Mas com os outros de uma forma famiglia – não é o outro genérico, abstrato, filosófico. É o outro concreto, aquele que está próximo, que você vê, com o qual tem relação. É a família e a companheirada. Ou então algumas categorias mais gerais que têm uma certa sacralidade, por estarem ligadas à história do Lula. É o trabalhador, o pobre. Para o companheiro, ajuda; para o trabalhador, apoio; para o pobre, esmola.
E o que mais irrita o Lula neste momento é que regulem a mixaria. Ele quer muita glória para si, muita festa, quer dar muita ajuda, muito apoio, muita esmola. Quer fazer muita coisa, usinas hidrelétricas, universidades, sei lá – o que importa é fazer, e que saibam que foi ele quem fez. Nada irrita mais o Lula do que o tecnocrata cinzento tentando impor limites ou racionalidade no gasto. Nada irrita mais alguém que quer gastar muito do que o pentelho que diz que é preciso gastar bem, porque para gastar bem talvez seja preciso não fazer certos gastos, talvez seja preciso ir mais devagar com outros, e no frigir dos ovos pinta um clima brochante, que inibe aquela louca vontade de gastar, que é o grande tesão do Lula no momento. Então ele diz para o tecnocrata: “Vamos, seja um homem, não um verme. O mundo está se abrindo para nós, estão comprando sem parar as nossas coisas, as burras do Tesouro estão transbordando, e você vem me falar em conter os gastos?”
E é por isto tudo que eu acho que a maior oportunidade política da oposição em todo o governo Lula está sendo jogada fora. Eu estou falando da CPMF, é claro. Derrubar a CPMF, 100%, de forma imediata e definitiva, é o desfazimento da vontade de gastar de Lula. São os 40 bilhões a menos que vão furar a bola de gás e que só farão bem ao País.
É o undoing do Lula, cirúrgico, asséptico, fatal. Nada de ruim vai acontecer. Os programas sociais não serão interrompidos nem restringidos, os investimentos serão feitos (talvez com alguma substituição de investimento público por privado), os compromissos serão honrados, a bolsa permanecerá em alta (após uma breve queda pelo susto), o país continuará a crescer. Será ruim para o Lula mas não será ruim para o seu governo. Isto é, o governo será melhor para o Brasil, mas o Lula será menos popular. Seria (mudei aqui para o futuro do pretérito por uma questão de realismo no finzinho) o fim da festa do governo e dos seus amigos, mas não seria, de jeito nenhum, o fim da bonança da economia brasileira



O Hermenauta embarcou na discussão sobre nacionalismo (procurem, não consegui o permalink) proposta pelo Marton. O tema é bom. E só para ilustrar uma pequena idéia aqui (fico devendo algo mais ambicioso), reparem como o nacionalismo funciona às vezes. Na coletiva após o anúncio da Copa no Brasil, o patriota Ricardo Teixeira, irritado com a pergunta, ofensiva à nação, sobre a violência no Brasil, respondeu que há tiros em escolas nos EUA e há países em que a polícia assassina inocentes (referência ao caso Jean Charles de Menezes). Em outras palavras, estrangeiros domiciliados nos Estados Unidos e na Inglaterra (o repórter, na verdade, era canadense), estes países notoriamente tão violentos quanto o Brasil, não podem questionar a criminalidade por aqui. Bem, uma vez eu fiz uma continha singela: se a taxa de homicídios brasileira caísse ao nível inglês, seriam assassinadas 2.300 pessoas por ano no Brasil, e não 50 mil. Eu não fiz o exercício com os Estados Unidos, mas chuto que a taxa de homicídios brasileiras não iria para mais de 10 mil. Enfim, o argumento de Teixeira é, numa visão mais ampla e profunda, mentiroso. Mesmo considerando os assassinatos em escolas nos Estados Unidos e o caso Jean Charles, americanos e ingleses têm todo o direito de ficar espantados com os níveis de violência no Brasil, e de questionar representantes do país sobre a questão. Agora, mais do que mentiroso, o argumento de Teixeira é pernicioso. Ele tenta calar as críticas e questionamentos a algo que deve, sim, ser universalmente criticado e questionado. Seria ótimo para a sociedade brasileira que todos os estrangeiros ficassem pasmos e horrorizados com os nossos índices de violência, porque isto seria mais uma fonte de pressão para que nos mexêssemos para tentar resolver o problema.
Por estas e por outras é que eu fico feliz quando surge um Marton para pegar no pé do nacionalismo bobalhão e auto-complacente