« Lula: Brasil não deve ter medo de pagar imposto | Main | Protesto solitário contra o aumento do Estado »

Como deixei de ser flamenguista

Flamengo.jpg
Foi um rio que secou em minha vida

Uma das minha mais remotas lembranças é a dos meus dois irmãos mais velhos exercitando sobre mim a hegemonia gramsciana: “Existem o Fla, e o Flu, o Fla é legal, o Flu é horrível”. Eu sou, ou melhor dizendo, era Flamengo desde antes de me ter como gente. Eu fui um típico garoto que, com dez, nove anos, tinha o quarto coberto com pôsteres da revista Placar de todos os times do campeonato brasileiro. Eu tinha bandeira do Flamengo, assisti no Maracanã a momentos épicos à altura das melhores crônicas de futebol do Nelson Rodrigues, chorava desconsolodamente nas derrotas (chorava demais, segundo meu irmão mais velho, que via a minha copiosidade infantil pelo prisma do machisminho incipiente de quem já adentrava a pré-adolescência) e, num episódio célebre na mitologia familiar, cuspi na minha bandeira e a rasguei com os dentes, quando tomamos uma goleada particularmente humilhante.

Eu vi no Maracanã o Flamengo perder e ganhar do Botafogo por 6 a 0. Eu vi o Zico perder um pênalti numa final com o Vasco que me doeu bem mais do que o pênalti perdido contra a França na Copa de 86. Eu vi – memórias confusas, agora – em lances parecidos o Renato Gaúcho e o Nunes romperem no peito e na raça a linha defensiva dos adversários e fazerem gols decisivos em finais de campeonatos. Eu vi o Paulo César Carpegiani comandar o time com bravura inaudita numa virada de 2 a 0 par 4 a 2 num jogo importante (talvez final) contra o Fluminense. Eu vi o time maravilhoso do início dos anos 80, com Zico, Adílio, Andrade e outros tantos ganhar todos os campeonatos que passavam pela frente (inclusive o título mundial), e espantosamente ganhar todos os turnos dos campeonatos cariocas, eliminando a final. E eu vi, suprema epifania, um menininho negro, com uma pipa de cerol pilotada da arquibancada, comandar o fio até que ele rompesse o cordão que prendia ao campo um arranjo com milhares de bolas de gás nas cores de Fluminense, que imediatamente se soltaram, ultrapassaram a boca gigante do Maracanã e, sempre subindo, perderam-se no nada crespuscular da tarde quase noite, enquanto a torcida flamenguista ia ao delírio, espocava todos os fogos que tivesse ao alcance e entoava cada vez mais alto o coro de "Meeeeengo, Meeeeengo".

E, apesar de tudo, já não sou Flamengo. Outro dia, vendo as incríveis cenas da torcida do Flamengo na arquibancada na vitória contra o São Paulo – sem dúvida, ainda um dos grandes espetáculos da Terra – eu quase fui Flamengo outra vez. E aí tive a idéia de escrever este post.

O vírus anti-flamenguista foi inoculado em mim por meu ex-sogro, um delicioso aristocrata não-rico, que vive num apartamento de classe média nas imediações do Clube do Flamengo, no Rio. Ele teoricamente é Fluminense, mas não dá a mínima para futebol, concentrando toda a sua atividade de apreciador de esportes em tênis, principalmente, e iatismo, que já praticou. Como o seu apartamento é próximo ao Flamengo, a área é naturalmente infestada de flamenguistas. E, gradativamente, com rápidos comentários mordazes e cortantes, risos de boca fechada, meneios de cabeça, alçar de sobrancelhas e todo um ritual de sutis manifestações de desprezo, meu ex-sogro foi me fazendo ver a imensidão da boçalidade do típico flamenguista.

Bem no apartamento em frente ao dele, porta com porta, vivia uma família de australopitecos flamenguistas. Eu não me recordo se eles já dominavam rudimentos de linguagem, mas certamente grunhiam muito. Em dias de vitória do Flamengo, o ruído surdo dos urros, do bater dos pés e de mais toda uma caótica cacofonia de difícil identificação era claramente conradiano.

E eu me lembro do dia em que eu e meu ex-sogro estávamos no pequeno hall, esperando o elevador, e um dos jovens australopitecos saltou porta à fora do apartamento vizinho. Aparentemente, o Flamengo havia vencido. Não pude ver a fisionomia do flamenguista, porque o tronco estava curvado, com as mãos muito próximas do chão. E então ele fez o gesto inesquecível: martelou várias vezes a parte inferior da mão direita fechada na mão esquerda espalmada para cima, as pernas dobradas aproximando-se de um agachamento, a corcova protuberante apontada para o alto, o focinho voltado para baixo, a talvez uns trinta centímetros do chão, e, com voz a gutural, começou a berrar (ele falava, afinal!), acompanhando o ritmo das pancadas na mão: “E dá-lhe Mengo, e dá-lhe Mengo, olê, olê, olê".

Com um mínimo giro do pescoço, quase imperceptível, meu ex-sogro fitou meus olhos por uns três segundos. Havia naquele olhar uma ironia petrificada, entranhada, certamente invisível para quem quer que não entendesse a comunicação infinita que estava se processando naquele brevíssimo instante. Era um olhar duro, sarcástico, impassível, imperioso e definitivo. E foi assim que eu deixei de ser Flamengo



F. Arranhaponte at 02:52 PM | Comentários (24)

Autores

* Marcos Matamoros
* F. Arranhaponte


Links

* Alexandre Soares Silva
* Chá das Cinco
* Diacrônico
* Filthy McNasty
* FYI
* JP Coutinho
* Manobra, 1979
* Número 12
* puragoiaba
* Roma Dewey


Posts Anteriores

O paraíso das idéias cretinas
Mais miséria ética
Já deu
Agora vai
Canela, cachaça, bela raça, Brasil
Pedro Malan, herói da nossa gente
A pauperologia e o mundo corporativo
O cúmulo da viadagem
Maxwell, por qué no te callas?
Notícia preocupante


Arquivos

junho 2008
maio 2008
abril 2008
março 2008
fevereiro 2008
janeiro 2008
dezembro 2007
novembro 2007
outubro 2007
setembro 2007
agosto 2007
julho 2007
junho 2007
maio 2007
abril 2007
março 2007
fevereiro 2007
janeiro 2007
dezembro 2006
novembro 2006
outubro 2006
setembro 2006
agosto 2006
julho 2006
junho 2006
maio 2006
abril 2006
Abril 2006
Março 2006
Fevereiro 2006
Janeiro 2006
Dezembro 2005
Novembro 2005
Outubro 2005
Setembro 2005


Syndicate this site (XML)

Busca





Powered by