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O mérito de Tropa de Elite é nos dizer que o problema está na polícia, e não no marginal. Isto é bem o contrário do que supõem os que chamam o filme de fascista. Para Tropa de Elite, o marginal é a barbárie sem redenção. Aqui, não importa a ótica do bandido. O filme não nega a desigualdade na base do crime, apenas não trata dela. Porque já está um passo além das causas. A Tropa de Elite chega quando o crime já se transformou em Mal não-relativizável, quando literalmente acontece o enfrentamento das forças infernais, e não resta alternativa que não a de meter medo ao diabo. O problema, para Tropa de Elite, não são os seres das trevas (os traficantes), mas sim os nossos agentes nesta guerra, corrompidos pelo dinheiro (PM) ou contaminados pela própria barbárie (Capitão Nascimento).
Assim como os filmes na ótica do traficante criam uma certa empatia da platéia com os bandidos, por mostrá-los como seres humanos injustiçados, que foram levados por circunstâncias trágicas àquela escolha, Tropa da Elite cria empatia com os policiais do Bope, que também, em última instância, são tragicamente arrastados para um confronto com o horror do qual não sairão impolutos. E assim como é bobagem dizer que Cidade de Deus faz apologia do tráfico, é bobagem dizer que Tropa de Elite faz apologia da tortura e das execuções como método policial.
Mas Tropa de Elite tem lado, e é o lado da lei. O filme afaga e critica o Bope, tenta trazê-lo para o aconchego do aval bem-pensante, mas com duras cobranças em troca. Resgata a polícia da demonização desmiolada de uma certa intelligentsia, mas apenas para lhe fazer fortes reprimendas. Neste sentido, é um filme profundamente civilizatório. Eu quase diria que chamar Tropa de Elite de fascista é uma atitude fascista, por ser uma aposta na barbárie da rebeldia primitiva.
As pessoas que classificam o filme de fascista são aquelas caricaturizadas na aula sub-foucaldiana na PUC-Rio. Não apenas e necessariamente consumidoras de drogas, mas adeptas da visão do bandido como revolucionário primitivo, e da polícia como agente da reação. Tropa de Elite é um “ataque do Bope” ao miolomolismo desta gente. Porrada pura. Eu acho que, neste sentido – com perdão ao Idelber, cito estes conceitos com a leviana irresponsabilidade de quem leu uma orelhazinha de livro aqui e acolá, e se arrisca a falar besteira pra burro –, o filme é uma ruptura epistemológica à la Foucault na visão do crime na nossa cinematografia. Os pressupostos que antecedem o olhar são outros. Não é o marginal como vítima do sistema, mas o policial como vítima e verdugo do sistema.
A turma do miolo-mole com sua ONG promíscua alimenta a Besta, brinca com ela, cria a ilusão insana de que pode controlá-la, mas quando tudo se desarranja, quando os demônios todos irrompem para o seu festival macabro – e que cena aquela, a dos pneus; o que ficou em mim foi o olhar saciado do traficante enquanto a chama ardia e ele dava um tapa derradeiro no seu baseado –, só resta chamar o Bope, os cavaleiros negros, malditos, temidos, contaminados, decaídos. Mas que são os únicos capazes de fazer o Inferno recuar. A brutalidade do Bope, portanto, é a outra face da promiscuidade e do laissez-faire com o crime, muito mais do que a outra face apenas do consumo de drogas.
Este é um filme que chama a intelligentsia e a polícia à razão. E que, ao fazê-lo com tanta ressonância junto à sociedade, mete medo nos bandidos
PS: Nota zero para o Reinaldo Azevedo que, na Veja, tenta fazer de Tropa de Elite mais um capítulo da sua guerra particular contra a esquerda


