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Espírito de porco

Nada é mais vil para um brasileiro do que negar a Santos Dumont a paternidade da aviação. Mas eu suspeito que foram os irmãos Wright mesmo. E não é de hoje. Vem desde pequeno. A única coisa que eu sei com certeza é que jamais terei saco para ir a fundo nesta questão, ler a bibliografia séria a respeito, dirimi-la até a extinção da última gotícula de dúvida. Gostaria que fizessem isso para mim. Mas tinha que ser um cara neutro. E eu nunca conheci algum neste assunto.

Talvez o que me incomode no Santos Dumont é a obrigação patriótica de demonstrar certeza - até exaltadamente - sobre algo de que não tenho a mínima certeza. Por que isso? É como se esta certeza incerta fosse fundamento de alguma coisa muito importante, mas evidentemente a construção é frágil se o fundamento é duvidoso. Nestas horas, eu sinto a minha condição de brasileiro meio como de "minoria esmagada", que tem de se agarrar a um mito reconfortante qualquer, como que a uma tabuazinha de auto-estima que garante a sobrevivência no naufrágio geral da nossa história. Tá exagerado? Tá. Mas blog é assim mesmo. Eu detesto a idéia de que tenho de achar alguma coisa porque é bom para minha auto-estima e não porque de fato ache aquela coisa.

Nesta reportagem aqui está dito que qualquer brasileiro afirmará que Santos Dumont foi o primeiro homem a voar de verdade. Bem, eu diria "não sei, é um assunto muito controverso, são tantos os interesses em jogo". Mas isto é apenas mais uma fantasia sexual do tipo "vejam como eu me elevo acima desta cafonalha patriótica" - estou perfeitamente ciente disto. Outra fantasia minha do gênero é ganhar uma medalha de ouro na Olimpíada e me recusar a me cobrir com a bandeira nacional para a volta olímpica, ou para subir ao pódio. Eu me vejo naquele trotinho triunfante do Joaquim Cruz, quando de repente um torcedor pula o alambrado e vem me alcançar com a bandeira. Eu não o rechaço, não jogo a bandeira no chão. Impavidamente prossigo no meu trotinho, mas dou uma chegada para o lado até o alambrado e suavemente deposito a bandeira dobradinha ali, sem prejudicar a continuidade tranqüilona da minha volta olímpica. Em seguida (na vida real) eu começo a pensar na polêmica na imprensa nas semanas seguintes, em quem ficará do meu lado e em quem me atacará. É ridículo, eu sei, mas tenho de confessar que penso em como seria o artigo do Arnaldo Jabor a respeito.

E, é claro, na primeira entrevista coletiva após o ato escandaloso eu daria um jeito de encaixar que os irmãos Wright voaram antes do Santos Dumont.

Call me a traitor



F. Arranhaponte at 10:10 PM | Comentários (12)

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* F. Arranhaponte


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