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O insuportável realismo de Tropa de Elite

(atenção: há spoilers para quem ainda não viu o filme)

O problema de debater com certos blogueiros fenomenalmente astutos é a tentação irresistível que eles têm em ganhar por nocaute técnico. “A luva que você está usando não atende à especificação 345 da Federação Internacional de Boxe. Desclassificado”.

O Alex pegou o meu comentário em seu blog

Eu perguntei ao meu porteiro, morador da favela do Vidigal, ponto importante de tráfico, se ele tinha visto Tropa de Elite e o que tinha achado. A resposta, num tom sereno e desencantado, foi: "É, F., é a realidade, a realidade"
O que mais se pode pedir de uma obra de arte?

e desatou a falar sobre sobre a fotografia não ter matado a pintura, sobre Duchamp e Warhol serem arte, etc. Bem, o LLL não deve saber exatamente o quanto eu sei de 150 anos de teoria da arte (que ele domina), mas certamente sabe que eu sei estas coisas aí acima. Digamos que a frase "o que mais se pode pedir de uma obra de arte" é uma pergunta retórica, que busca enfatizar que Tropa de Elite já entregou muito, ao ser tão espantosamente realista, dentro da confusão cognitiva que cerca a pavorosa situação da segurança pública no Rio, e diante da dificuldade de retratá-la com acuidade, intensidade e tocando (perdão pelo lugar-comum) os corações e as mentes das pessoas.

Bem, até aí são apenas reparos a um detalhe do detalhe do que eu pensei e escrevi, mas que foi de tudo o único aspecto que o Alex alçou à glória do destaque em seu blog. Mas o que me leva a retomar este assunto é que seria muito interessante se nosso caro LLL abordasse, de fato, a questão do realismo e da arte (e eu vou chegar ao que interessa, é claro – à Tropa de Elite).

O Alex diz que se quiser conhecer a realidade de uma favela ele a visita, mas não vai jamais procurá-la numa obra de arte. Engraçado. Quando eu li Disgrace, do Coetzee, acho que apreendi aspectos da realidade sul-africana que eu não dispensaria dizendo que “quando eu quiser conhecer a África do Sul, eu viajo para lá, mas jamais procurarei a realidade da África do Sul numa obra de arte”. É óbvio que eu não li Disgrace para conhecer a África do Sul, nem o propósito básico do autor ao escrevê-lo foi o de transmitir conhecimentos sobre o seu país. Mas que uma grande obra de arte revela aspectos da realidade que as descrições mais objetivas e científicas não alcançam, me parece inegável. Eu teria mais um monte de exemplos para dar, mas estou com preguiça. Quem sabe depois eu acrescento.

E aí chegamos à Tropa de Elite. É engraçado como o LLL, ao fazer picuinha com uma frase minha, tocou sem querer no que, na minha visão, é a questão mais crucial do filme. A genialidade de Tropa de Elite está justamente em ser realista, ou eu diria até “hiper-realista (mais pra frente explico), em um contexto sócio-cultural-intelectual-antropológico (e podem ir hifenizando e colocando mais coisa) em que enxergar o óbvio tornou-se tabu.



O que o Alex e mais uma tropa de elite da intelligentsia gostariam é que o autor manipulasse a sua criação não para torná-la mais aguda, mais provocativa, mais realista (sim, porque chegamos ao ponto em que não há nada mais revolucionário do que mostrar a realidade), mas sim para pasteurizá-la, domesticá-la, impedir, por exemplo, que o filme se tornasse capa da Veja – quando justamente a potência artística deste filme é a sua capacidade de ter criado um imenso imbroglio cultural, uma enorme confusão mental, um desarranjo total da polarização arrumadinha esquerda-direita tão ao gosto da arte engajada, que hoje virou sinônimo de arte bem-comportada.

O Padilha poderia fazer o Capitão Nascimento chegar em casa e esfaquear a mulher e estrangular o filhinho. Pronto. Os blogs fascistas não estariam celebrando o seu novo Rambo, a Veja provavelmente não daria capa, o establishment intelectual iria dar as palmas habituais e enfadonhas para o filme mais aguardado do ano, e ninguém mais ia se preocupar com isso. Atenção: NINGUÉM MAIS IA SE PREOCUPAR COM ISSO.

Mas o Padilha, acredito que de forma inconsciente (porque já o vejo, conscientemente, cowering e recuando ante as patrulhas), soltou a sua franga artística, esqueceu por um momento que era preciso ser aceito pelo establishment cultural. E, desta forma, cometeu o ato profundamente subversivo e artístico de mostrar a realidade incômoda e inassimilável. O Capitão Nascimento não é corrupto, é um pai de família convencional, com um nível médio de moralidade (nas relações de família) e, no entanto, ele tortura e executa – fora da lei.

O traficante é um ser horrendo, com um nível de moralidade muito inferior à média e, no entanto, quando ele sabe que vai morrer, se despede da mulher e da filhinha e, momentos antes do final, tem o pensamento singelo (para mim foi até tocante) de pedir que preservem sua face para o funeral.

Outra “saída” buscada pelas patrulhas para “retificar” Tropa de Elite tem a ver com o aspecto espetacular, a trilha sonora com os funks ou sei lá o quê (não entendo muito disso), a fotografia, as tomadas, etc. Nesta visão, seria preciso desconstruir o clima apocalíptico de boa parte do filme – de novo, e sempre, para não permitir que a “direita fascista” faturasse com a glamourização do Bope.

Isto me soa mais ou menos como dizer ao Conrad “menos, menos” em Coração das Trevas. O problema é que a proposta artística do livro não foi a de desconstruir o horror, mas sim, ao contrário, a de mostrá-lo com grande intensidade. Tropa de Elite também não veio para desconstruir o horror da guerra do tráfico no Rio, mas sim para mostrá-lo com furiosa intensidade. Tropa de Elite foi feito para chocar e confundir, e não para apaziguar os espíritos.

Os que gostariam de tirar de Tropa de Elite esta aspereza, este ferrão, este sentido quase punk de provocação (e que eu, numa definição muito pessoal do termo, chamo de "hiper-realista), não entendem que, em o fazendo, matariam a proposta artística do filme. É o que eu chamaria de “bowdlerização” de Tropa de Elite. Mas realmente já acabou meu saco para desenvolver ainda mais este ponto. Quem sabe mais tarde



F. Arranhaponte at 06:43 PM | Comentários (14)

Autores

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* F. Arranhaponte


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