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Eu assisti no fim de semana Tropa de elite. Filmaço. Bem dirigido, bem montado, bem escrito e bem interpretado. Parte do desconforto que o filme tem causado entre críticos e cineastas brasileiros certamente se deve à sua qualidade: quando alguém consegue fazer um filme bem feito no Brasil, logo se levantam os suspeitos de sempre, para acusar o filme de ceder à fórmula hollywoodiana e outras babaquices do gênero. Filme brasileiro que se preze tem que ser mal filmado, com som inaudível, diálogos pobres e interpretações de quinta categoria. José Padilha, como Fernando Meirelles em Cidade de Deus, ousou contrariar essas regras.
Mas essa não é a maior polêmica em torno do filme. Há duas outras mais importantes. Uma delas ocorre por causa de uma das teses do filme, a de que os consumidores de drogas financiam o tráfico e, desse modo, também são responsáveis pela violência. Como diz o David neste post, a idéia é de “o usuário paga a bala do traficante”. O texto dele me motivou a escrever este post, embora eu confesse que não entendi exatamente qual é o ponto de vista do David sobre a questão. Esse está longe de ser o único problema que envolve o tráfico, mas acho que o consumidor ajuda a financiar a violência.
Primeiro, uma obviedade: o tráfico existe porque há demanda por produtos cujo consumo e comercialização são proibidos. Eu sou a favor da descriminalização do consumo de todas as drogas e da legalização do comércio de algumas, como a maconha. Eu tenho dúvidas, porém, quanto ao que deve ser feito em relação às mais pesadas, como cocaína e heroína. De concreto, o que existe hoje é a proibição do consumo e da comercialização. Nesse cenário, quem consome drogas acaba financiando o tráfico.
O Marcus Pessoa, no comentário ao post do David, diz que “o usuário tem o direito moral de dar dinheiro para o bandido quando o Estado lhe tolhe a liberdade básica de consumir o que bem entende”. Acho curiosa essa opinião vinda de alguém de esquerda. O livre mercado, que não é o mundo dos sonhos dele, deve predominar quando se trata do consumo de drogas. Nesse caso, a intervenção do Estado atrapalha.
Mas a principal polêmica é outra. Marcus e muita gente acham que Tropa de elite faz a apologia da violência e glamouriza o Bope. O filme é contado pelo ponto de vista do capitão Nascimento, sujeito incorruptível e que não vê problemas em torturar e matar. Essa é visão de mundo do capitão Nascimento, não de Padilha. Neste post, Marcus reconhece que “a narração em primeira pessoa, claro, não significa que um autor se identifique com o personagem”, mas em seguida escreve que em Tropa de elite “não é feito qualquer reparo mais sério à pessoa do capitão Nascimento".
Como não? Na narrativa em off, ele se mostra como um sujeito articulado e inteligente. Na prática, é um policial brutal e cruel. O que Padilha poderia ter feito para mostrar que não endossa a violência? Colocar legendas no momento das cenas de tortura e assassinato, dizendo que ele não concorda com o que faz o capitão Nascimento, como alguém já sugeriu? Uma idéia melhor: Wagner Moura poderia aparecer na tela depois dos créditos como Wagner Moura, o ator boa praça, e, com um sorriso camarada, dizer que o capitão Nascimento, apesar de ser um pai amoroso, faz coisas muito feias como torturar e matar.
O Bope não é glamourizado em Tropa de elite. O diretor faz questão de mostrar que o sistema policial está todo podre. Há os corruptos pusilânimes e os incorruptíveis do Bope, que acham a coisa mais normal do mundo torturar e matar. Também aparece policial honesto no filme, como o mecânico que se recusa a pagar propina para tirar férias. Quem glamouriza o Bope é o capitão Nascimento, não Padilha.
A narrativa cimematográfica adotada por Padilha ajuda a explicar essas análises chinfrins. A idéia de que o consumidor financia a bala do traficante também deve ser uma das causas para tanto desconforto. Por causa dessa combinação, muita gente vê em Tropa de elite uma apologia da violência que não está lá. Isso é opinião de torcedor do Bonsucesso. O problema é que filme brasileiro bem feito ainda assusta


