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Amigos, estou louco para postar logo isto, mas tenho que sair. Então vai de qualquer jeito mesmo, deve ter seus errinhos de português e o estilo está bem avacalhado. Depois, com certeza dou uma arrumada no português, e, dependendo do saco (menos provável), no estilo.
É vontade de gastar, fundamentalmente. Esqueçamos por um momento que ele é de esquerda, e muito mais estas baboseiras de hegemonia, Gramsci, marxismo. Porque no fundo é vontade de abrir a carteira, jogar um monte de notas de cem reais para cima e gritar, eufórico: “Estou rico, estou rico”!
O filme do João Moreira Salles sobre o Lula, que o autor covardemente impediu de recircular durante o auge do mensalão (o que poderia dar uma outra leitura à obra), mostra como o presidente encarou a sua ascensão política como uma ascensão social. Ele conquistou o direito de tirar o macacão e vestir o terno. Mas não foi só isso. Ele conquistou o direito, para si e para sua família, de brincar com a miríade de produtos e serviços que os ricos podem consumir. Não há nada de errado nisso. Bilhões de pessoas que vêm de baixo mundo afora agem exatamente assim. Errado não é esbanjar. Errado é não ter.
Só que o estágio mais elevado da ascensão social do Lula (a presidência) foi acompanhado pela ascensão social do Brasil. O Brasil ficou rico. O fato emblemático deste novo status social é o valor de mercado da Vale: saiu de dez bilhões de dólares em 2001 para 170 bilhões de dólares agora. A Vale sintetiza por que o Brasil ficou rico. Porque aquilo que a gente produz, bem, ficou muito mais caro. E não é só a matéria-prima. É toda a cadeia em torno da matéria-prima, que tem muita coisa sofisticada, e em que somos bons. Mas isto é um papo chato pra burro. O que importa é que o País virou rico.
E Lula no poder está vivendo a virada do Brasil pobre para o Brasil rico. O governo é o principal sócio da economia do País. Se o governo quiser gastar muito, e o país estiver crescendo muito, tem jogo. Nenhum desastre vai acontecer.
Quem vê a vontade de gastar do Lula como algo fundamentalmente egoísta, maléfico, perdeu o ponto. Esta é uma visão anglo-saxã: dinheiro público é um jogo de soma zero, se ele gasta, alguém paga (é claro que no fundo é isso mesmo, mas estou falando aqui do espírito da coisa, não da coisa em si). A gente tem de ver o Lula como um novo rico exuberante, que gosta da gastar, mas também gosta de ajudar, que não agüenta ver um amigo em dificuldade, um daqueles tipos maiores que a vida que é muito generoso com si e com os outros. Mas com os outros de uma forma famiglia – não é o outro genérico, abstrato, filosófico. É o outro concreto, aquele que está próximo, que você vê, com o qual tem relação. É a família e a companheirada. Ou então algumas categorias mais gerais que têm uma certa sacralidade, por estarem ligadas à história do Lula. É o trabalhador, o pobre. Para o companheiro, ajuda; para o trabalhador, apoio; para o pobre, esmola.
E o que mais irrita o Lula neste momento é que regulem a mixaria. Ele quer muita glória para si, muita festa, quer dar muita ajuda, muito apoio, muita esmola. Quer fazer muita coisa, usinas hidrelétricas, universidades, sei lá – o que importa é fazer, e que saibam que foi ele quem fez. Nada irrita mais o Lula do que o tecnocrata cinzento tentando impor limites ou racionalidade no gasto. Nada irrita mais alguém que quer gastar muito do que o pentelho que diz que é preciso gastar bem, porque para gastar bem talvez seja preciso não fazer certos gastos, talvez seja preciso ir mais devagar com outros, e no frigir dos ovos pinta um clima brochante, que inibe aquela louca vontade de gastar, que é o grande tesão do Lula no momento. Então ele diz para o tecnocrata: “Vamos, seja um homem, não um verme. O mundo está se abrindo para nós, estão comprando sem parar as nossas coisas, as burras do Tesouro estão transbordando, e você vem me falar em conter os gastos?”
E é por isto tudo que eu acho que a maior oportunidade política da oposição em todo o governo Lula está sendo jogada fora. Eu estou falando da CPMF, é claro. Derrubar a CPMF, 100%, de forma imediata e definitiva, é o desfazimento da vontade de gastar de Lula. São os 40 bilhões a menos que vão furar a bola de gás e que só farão bem ao País.
É o undoing do Lula, cirúrgico, asséptico, fatal. Nada de ruim vai acontecer. Os programas sociais não serão interrompidos nem restringidos, os investimentos serão feitos (talvez com alguma substituição de investimento público por privado), os compromissos serão honrados, a bolsa permanecerá em alta (após uma breve queda pelo susto), o país continuará a crescer. Será ruim para o Lula mas não será ruim para o seu governo. Isto é, o governo será melhor para o Brasil, mas o Lula será menos popular. Seria (mudei aqui para o futuro do pretérito por uma questão de realismo no finzinho) o fim da festa do governo e dos seus amigos, mas não seria, de jeito nenhum, o fim da bonança da economia brasileira


