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novembro 30, 2007

A lendária tolerância muçulmana

Eu sempre admirei o senso de proporção dos muçulmanos. Vejam o caso da professora inglesa que permitiu aos seus alunos sudaneses chamarem um ursinho de pelúcia de Maomé. Para mostrar que não se brinca com coisa séria, a justiça do Sudão condenou Gillian Gibbons a 15 dias de prisão e à expulsão do país (se bem que ser expulso do Sudão parece mais prêmio do que punição), por blasfêmia e incitação ao ódio racial. Como se vê, uma decisão ponderada, mostrando que a sharia é um dos sistemas mais inteligentes já adotados pelo homem.

Mas é claro que, para muitos muçulmanos, a pena foi branda. Um grupo de milhares de sudaneses saiu às ruas com clavas e facas para pedir a morte da professora. Qualquer um que não esteja totalmente embotado por crenças protomedievais sabe que a punição é ridícula, ainda mais no caso de alguém que atua como voluntária.
Todo fanatismo é estúpido e tem potencial violento, mas, pelo menos hoje, nada se aproxima fanatismo islâmico em termos de cretinice e violência



novembro 29, 2007

Reclames

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Ela está em todas

Fernanda Montenegro está tirando a barriga da miséria. A mulher virou a rainha da publicidade nacional. Pelas minhas contas, ela faz no momento quatro comerciais, para a Vale do Rio Doce, a Eletropaulo, o Banco do Brasil e a Uniban. No do Banco do Brasil, ela mostra a cara. Nos outros três, apenas empresta a voz, aquela voz que confere dignidade a qualquer coisa.

Eu confesso que a voz dela me irrita um pouco. Fernanda Montenegro é uma grande atriz, mas tudo o que ela diz assume um ar solene demais. Se ela fala qualquer bobagem - que está com diarréia, por exemplo -, a informação vem num tom grave, que inspira respeito. Mas divago. O que me incomoda é a propaganda que ela faz para a Uniban. A mulher é atriz consagrada, tem contrato com a Globo, faz 3 mil comerciais ao mesmo tempo e mesmo assim não resiste ao apelo da Uniban? Será que ela pode assegurar que é uma instituição de ensino respeitável, como a sua voz? O negócio só se justifica se ela estiver endividada, com agiotas a ameaçando de morte dia e noite. Como esse não deve ser o caso, acho que a dona Fernanda resolveu tirar o atraso dos tempos em que não era chamada para ganhar uma graninha fazendo publicidade

PS: Dos comerciais atuais, nada supera o dos shopping centers Morumbi e Anália Franco. Paula Toller, Cláudia Leite, Ed Motta, Samuel Rosa e Nando Reis pagam um mico constrangedor. Cada um aparece cantando um pedaço do jingle, num jogral de escola pré-primária. Mas pelo menos os autores do comercial mostraram sabedoria: não deixaram Nando Reis, um dos piores cantores de que o Brasil já teve notícia, cantar sozinho nem um trecho do jingle. Ele só aparece tocando violão e ajudando no corinho



novembro 28, 2007

Nem pra gostar da novela certa esta gentinha presta

Aqui

Snif, snif, o primeiro produto de massa da reação gramsciana da direita, e já está fracassando. Isto é injusto. Profundamente injusto



novembro 26, 2007

Contra a corrente

Para provocar um pouco, talvez até o meu co-blogueiro. Achei irrepreensível este post do RA. Mas ignorem os comentários, que costumam ser muito ruins.

Aqui



novembro 25, 2007

Deu coluna do meio

O Fukuyama disse mais ou menos que com a queda do muro de Berlim e o desmantelamento da União Soviética nós tínhamos chegado a uma vitória da democracia liberal e do capitalismo sobre o socialismo real. Num grande esquema hegeliano da história, a luta titânica dos sistemas capitalista e socialista chegara ao fim. Só que se ele fosse mais hegeliano ainda talvez tivesse podido prever o que de fato aconteceu - uma síntese cabocla e mambembe entre capitalismo, alguma democracia (em graus variáveis até zero) e autocracia estatal pipocando em várias partes do globo: Rússia, China, Venezuela, Índia, Argentina e até o Brasil, em certa medida. O símbolo deste novo poder vira-lata é o fato de que as sete irmãs petrolíferas, empresas privadas que eram o epítome da fúria tentacular do capitalismo, foram sobrepujadas em importância por estatais de petróleo do Brasil, da China, da Malásia (estou chutando um pouco) e de uns tantos outros países.

Agora, a grande pergunta é onde isto vai dar. A minha modesta previsão é de que este bicharoco mestiço vai ficar grassando mesmo é no mundo emergente, e os países ricos que conseguiram atingir o Olimpo do verdadeiro capitalismo democrático lá ficarão, porque afinal de contas o Fukuyama tinha razão em que este último sistema é realmente o melhorzão de todos e, se fim da História houver, é lá que chegaremos todos um dia, a menos de desvios distópicos definitivos.

E aqui, na terras baixas, a nova dialética será entre os defensores desse capitalismo misturado com uma avacalhação socialista, autocrático e estatólatra, e os velhos (e desmilingüidos de guerra) apoiadores da democracia capitalista clássica, nas versões liberal e social-democrata. Este segundo grupo, no qual me incluo, viverá na frustração e no opróbrio durante décadas, enquanto a alta das commodities e o roncar dos motores da economia global seguirem garantindo o sucesso da nova safra de caudilhos semi-autoritários à frente de países semi-capitalistas (talvez bizarramente capitalistas expresse melhor a idéia).

É bom arrumar um hobby intelectual 100% alienado para ajudar o longo inverno político a passar mais depressa



The ball is on the table

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Peter Crouch, símbolo do futebol inglês

Eu leio que Felipão pode se tornar técnico da Inglaterra. Parece que a situação do brasileiro em Portugal não é das mais confortáveis, ao mesmo tempo que ingleses precisam desesperadamente de um comandante que faça da sua seleção um time ganhador. Acho que pode dar certo. Felipão é bom técnico, ainda que seja um sujeito tosco.

Mas, se quiser realmente mudar o futebol inglês, na primeira coletiva ele tem que dizer que Crouch nunca mais será convocado, porque no Brasil ele não serviria nem para jogar no Olaria. Imagine a cara dos jornalistas ingleses, perguntando, na coletiva, “how do you spell Olaria, Mr Scolari?” Será com certeza um ponto de inflexão na história do English team.

Para evitar que a barreira do idioma se torne um problema para Felipão, eu e um amigo, o Teixeira, bolamos uma série de frases que o brasileiro pode usar para se comunicar na língua de Shakespeare. Com elas, ficará mais fácil transmitir os conceitos para Gerrard e cia. Como se verá, é inglês castiço:

- I will abollish the small shower style. The ball will have to run close to the grass
- The players must chase the ball with the same will they demonstrate behind a food plate
- I will not tolerate popcorn makers in the English team anymore. Wrote, didn't read, wood ate  
- The one who asks has preference, the one who deslocates himself receives
- The game was awful. It looked like a naked woman

Como nós gostamos do brasileiro, não vamos cobrar nada pela assessoria



novembro 22, 2007

Quiz

Existem fisionomias de esquerda e de direita? Este link de pessoas que lutaram a favor dos republicanos e dos nacionalistas na Guerra Civil Espanhola, que eu roubei do Pedro Doria, me levou a pensar sobre isso. Não cheguei a nenhuma conclusão verbalizável, mas cócegas abstratas de alguma coisa chegaram a se insinuar na minha mente por alguns instantes, à medida que eu ia clicando nos diferentes personagens (aliás, as fotos estão pintosíssimas de maneira geral)



novembro 20, 2007

Aguinaldo Silva, subversivo

Flaviaalessandra3.jpg
Quanto engajamento

Esse Aguinaldo Silva é danado mesmo. Poucas vezes eu vi um homem tão subversivo como ele. Como se sabe, a nova esperança da oposição não poupa esforços para atingir a imagem do governo Lula, fazendo de Duas caras uma tribuna contra o discurso esquerdista. Na semana passada, o homem aprontou mais uma das suas. Para mostrar que não está de brincadeira com os petistas, Aguinaldo Silva usou uma estratégia pouco ortodoxa e original: colocou mulher quase pelada na novela. Os maledicentes dizem que ele fez isso para aumentar o ibope. Que nada. Aguinaldo Silva é muito mais sutil do que isso. Flávia Alessandra sem roupa nada mais é do que uma referência pouco velada ao que ele vem fazendo em Duas Caras – o desnudamento da esquerda. Para mim, isso está óbvio. Só não vê quem não quer. Ou você acha que ele está preocupado com coisas secundárias como a audiência?




novembro 19, 2007

Feliz aniversário, grande matança II

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O bode expiatório do socialismo real

Nos meus dias mais jovens e mais vulneráveis, eu também fui seduzido pelo socialismo. A promessa de uma sociedade mais justa, baseada na igualdade, é irresistível para muitas mentes juvenis. Mas o fascínio durou pouco. Quanto mais eu lia sobre o socialismo real, mais ficava claro a grande roubada em que boa parte da humanidade se metera. O negócio descambou para ditaduras mais ou menos sanguinárias, com um desempenho econômico pífio, em lugares os mais diversos e em épocas as mais distintas. Para continuar socialista, o sujeito de boa fé necessita de um otimismo panglossiano.

Eu passei a fazer a perguntinha simples e óbvia, para mim e para os meus amigos socialistas: se o socialismo produziu resultados desastrosos na Rússia, na Europa Oriental, na América Latina, na África e na Ásia, por que haveria de dar certo no Brasil? A resposta mais comum que eu ouvia é que atrocidades passadas não são garantia de atrocidades futuras, e que eles defendiam o socialismo democrático, não as versões que degenararam em ditaduras. O curioso é que ninguém, até hoje, conseguiu me dar uma explicação menos do que indigente do que seria o socialismo democrático. Noventa anos depois da Revolução Russa, ele não deu notícias de sua existência.

Outra linha de argumentação dos socialistas de boa fé é colocar grande parte da culpa pelo fracasso do socialismo nos ombros de Stálin. O raciocínio é o de que o negócio estava indo bem na União Soviética, até que o baixinho bigodudo tomou o poder e desvirtuou os rumos nobres da Revolução. No fundo, Stálin acaba servindo como um bode expiatório conveniente. Perto de sua monstruosidade, até Lênin, que não tinha nada de democrático ou tolerante e que não hesitava em esmagar inimigos, não fica mal na fotografia. De um modo paradoxal, Stálin serviu e ainda serve para que a ilusão socialista continue de pé



novembro 16, 2007

Sem comentários em momento de extrema preguiça



novembro 13, 2007

Sem medo de ser feliz

walid11.jpg
Ele não deixa a peteca de penas de pavão cair


Fale-se o que se falar do islamismo, mas os saudi-sunitas são praticamente o único grupo humano que ainda cultiva a quase desaparecida arte de ser nababesca e acintosamente rico. Abandonada pelas pressões do politicamente correto e para não açular a inveja das massas, a antiqüissíma tradição da ostentação sem limites, que nos legou grandes obras de arte, como o Taj Mahal, já teria sumido da face da Terra se não fosse o esforço solitário e comovente de um pequena penca de biliardários príncipes sauditas que honram a máxima de que o show não pode parar. O mais notável deles, o príncipe Alwaleed bin Talal bin Abudulaziz al-Saud (Alá seja louvado!), acaba de adquirir - no maior astral, tranqüilãozinho da silva - um Airbus-A380, o maior avião do mundo, só para ele. A idéia é fazer um palácio voador - se achar clichê é porque você está com inveja. E olha que o príncipe Alwaleed é apenas o 13º homem mais rico do mundo, com fortuna de parcos US$ 20,3 bilhões, duas ou três vezes menor do que a de campeões como Bill Gates ou Carlos Slim. Agora imaginem se o Gates ou o Slim decidissem comprar um Airbus-A380 só para eles, a encheção de saco que americanos e mexicanos não fariam, os ataques todos contra a exibição indecente de riqueza num mundo onde tantos vivem na miséria e toda aquela lenga-lenga de praxe. Entre os sauditas, aparentemente, rico tem mais é que gastar mesmo, comprar coisas bem concretas, visíveis e divertidas como super-aviões e banheiras de ouro, em vez de mesquinhamente deixar toda a bufunda investida em abstrações entediantes como bônus e ações. Longa vida ao príncipel Alwaleed!



novembro 12, 2007

Duas caras e a hegemonia gramsciana

Eu não assisto e não assistirei Duas caras. A minha opinião sobre novela já ficou clara neste post. Mas, pelo que eu tenho lido no Reinaldo Azevedo, é a primeira novela brasileira que não faz parte do projeto de hegemonia esquerdista em curso no país - aquele troço gramsciano que pode transformar o Brasil num país comunista em março do ano que vem, pelos cálculos do Olavo de Carvalho.

Há um professor esquerdinha que se chama Inácio Guevara, o que mostra toda a sutileza de que é capaz Aguinaldo Silva. A heroína da história, parece, é Suzana Vieira, dona da universidade invadida pelos estudantes de esquerda, com aquele cabelo loiro comprido de adolescente - haja suspension of disbelief.

Parte da oposição a Lula está esperançosa de que a novela possa começar a despertar o povo de sua letargia. Acho difícil. O mais provável é que a maior parte dos espectadores considere essas referências políticas um porre. Há também a possibilidade de que muitos não percebam e não entendam as críticas antiesquerdistas. Quem gosta de novela está interessado mesmo é nas tramas amorosas e nas intrigas dos vilões, e não em discursos políticos. A luta pela hegemonia gramsciana vai ter que se travar em outro campo.

Ah, eu também achei muito interessante a atitude do Reinaldo Azevedo nesse caso. Ele sempre ridiculariza quem tinge o cabelo – já sacaneou o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, por causa disso – e não perde uma oportunidade de corrigir erros de português de seus desafetos. Com o escritor de novelas, porém, a história é outra. O blogueiro poupa o cabelo acaju de Aguinaldo Silva e ignora todos os atentados à língua cometidos pelo autor de Duas caras em seus posts. É claro que a benevolência não tem nada a ver com o antiesquerdismo de Aguinaldo Silva, e muito menos com a sua declaração de que Reinaldo Azevedo é um de seus ídolos. O motivo tem que ser outro



A feiúra concreta do concreto

Museu.jpg


Levei um susto quando, em Brasília, na Esplanada, me deparei com uma enorme cúpula branca de concreto, suavizada unicamente por uma passarela bem "kitsch dos anos 50", como ademais me parece ser também o MAC de Niterói e grande parte da arquitetura do Niemeyer das últimas décadas (ok, kitsch não só dos anos 50, mas do que mais você quiser). Eu nem sabia da existência do Museu Nacional Honestino Guimarães, inaugurado em dezembro de 2006 em Brasília. Mais um horror claustrofóbico e totalitário em espírito do nosso mestre maior da arquitetura. Já pensou que delícia passar uma tarde enfurnado naquele concretão, num museu em que por definição toda a luz tem que ser eternamente artificial? Mas aí foi meu pai quem se saiu com a definição perfeita da nova obra-prima: uma casamata gigante



Feliz aniversário, grande matança

Os encômios * aos 90 anos da Revolução Russa me enchem de torpor e preguiça. Sinto vagamente que eu deveria fazer um esforço para ler a bibliografia relevante e tentar mostrar como a revolução foi ruim em praticamente tudo, e que comemorá-la, mesmo com muitas ressalvas, é endossar uma avalanche de crimes contra o ser humano só superada em horror absoluto pelo Nazismo (e não falo de comparações quantitativas, porque nestas o Nazismo provavelmente perde - ou ganha) e por outros regimes comunistas. Estou lendo displicentemente Koba The Dread, do Martin Amis, sobre isso. Evidentemente, é uma visão parcial e pessoal e nem de longe pode ser a base para nenhum comentário com pretensões a definitivo sobre a malignidade da primeira revolução comunista. Tem o costumeiro desfile de barbaridades indescritíveis, mostrando como desde o comecinho a norma bolchevique era a de prender e arrebentar (e freqüentemente exterminar fisicamente) qualquer comunidade humana vagamente suspeita de se opor à revolução. E isto incluía famílias, crianças, mulheres, velhos, até vizinhos. Trabalho escravo, tortura, transporte em condições piores do que as dos navios negreiros ou dos trens para Auschwitz, grandes fomes premeditadamente determinadas, canibalismo, faça a sua escolha. E muito de tudo isso começando bem antes do Nazismo dar as caras, isto é, bem antes de surgir o grande álibi que os adeptos da Revolução Russa invariavelmente invocam para justificá-la, ou pelo menos para atenuar suas culpas. Bem, mas eu preferia que outros mais eruditos do que eu travassem esse combate. Com meu limitado tempo e saco, só me resta desejar feliz aniversário da Revolução Russa para todos

* Provocar o Idelber para uma polêmica que envolva leitura é suicídio. Já vou me despedindo da minha reputação intelectual



novembro 08, 2007

Contra o populismo paternalista

O Alex Castro decidiu atacar quem defende o uso da norma culta da língua. Para ele, é frescura dar importância ao respeito às regras do idioma. O Alex aproveita também para dizer que é necessário“matar esse senso-comum preconceituoso de que leitura (e aí incluo o domínio da NoCu - norma culta) é algo inerentemente lindo e que todos devem sempre ler mais e mais e mais. Leitura não faz de ninguém uma pessoa melhor”.

I beg to differ. Eu confesso que já fui um xiita na defesa do uso da norma culta. Até há alguns anos, erros de ortografia ou de pontuação me causavam calafrios. Com o tempo, passei a relativizar alguns deles. Eu conheço gente que escreve uma ou outra palavra errada e comete delizes na hora de pontuar, mas tem um texto muito bom, com estilo e fluidez. É minoria, porém. Quem escreve bem costuma errar pouco. Outra frase do Alex da qual discordo: “Falar 'nós vai' é errado segundo a NoCu, mas expressa com clareza o conteúdo desejado. Qualquer pensamento complexo pode ser convenientemente expressado em miguixês. E daí?”

Daí que não é verdade. Quem diz “nós vai” consegue se comunicar, mas costuma ter mais dificuldades para expressar pensamentos mais complexos, que exigem domínio mais apurado da língua. O post do Alex e o comentário do Permafrost citado por ele confirmam isso. Se os dois não soubessem usar bem o idioma, e isso inclui o conhecimento da norma culta, não conseguiriam escrever do modo como escrevem (não vale pegar o próprio texto e enfiar uns erros de ortografia aqui e uns de concordância ali para mostrar que ele seria entendido do mesmo jeito; não é esse o ponto).

Policiar cada erro de ortografia pode ser um exagero, mas defender o vale tudo é ainda pior. Em vez de um suposto preconceito contra os desvalidos do idioma, entra em cena um populismo paternalista, que avaliza qualquer atentado à língua.

Outra frase curiosa: "Leitura é bom pra quem gosta de ler e para quem tem carreiras que dependam de domínio da língua. Dependendo da criança, do seu tipo de inteligência e das suas inclinações, pode ser mais saudável passar seus dias praticando esportes, resolvendo quebra-cabeças, jogando videogames, tocando guitarra, construindo móveis, etc etc, do que lendo passivamente”.

Bom, é claro que ler é mais importante para um jornalista ou para um professor de literatura do que para um engenheiro ou um médico. O ponto é que os engenheiros e médicos mais inteligentes que eu conheci gostavam de ler. Pode ser que o sujeito não se torne um melhor engenheiro se for um grande leitor, mas é óbvio que aumenta a possibilidade de ele se transformar numa pessoa mais interessante.

O Alex, claro, vai discordar. É que ele está empenhado em ser um escritor que desestimula a leitura



novembro 06, 2007

Nunca, jamais, de jeito algum: NÃO se deixe convencer

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Nada é mais aconchegante do que uma certeza. O útero é um lugar desconfortável e hostil comparado com as paredes fofas e o clima idealmente quentinho de uma bela e redonda certeza. Quando eu vejo um homem ou uma mulher cheios de certezas, fico pensando em como eles as decoram por dentro, onde fica a lareira, os quadros pastoris e bucólicos, a velha poltrona de couro com cheiro de casa da vovó. Ah, a visão das pessoas passeando de manhã com suas certezas pelo calçadão de Ipanema... Quanta poesia naqueles cenhos apenas ligeiramente franzidos, no meio sorriso silencioso e quase enigmático da convicção, nos passos decididos, na roupa de ginástica impecavelmente nova, no flanar impassível e majestoso daqueles bustos gregos banhados no halo santificante da certeza profunda.

Eu gostaria de não ter a menor dúvida de que a dúvida é coisa de Satanás. Mas já fui contaminado pelo ceticismo, este germe maligno que devora a alma até nos transformar em espectros trêmulos e vacilantes, em vasos vazios e ansiosos, com voz fanhosa, boca torta, dificuldade de sorrir e virtual impossibilidade de chorar. Um conselho sincero: jamais troquem uma certeza por um argumento bem fundamentado. E se você for cercado de jeito, feche os olhos, pense com força na sua certeza, como se ela fosse uma bola de gude latejante encravada dois centímetros adentro do crânio um pouco acima da testa, baixe a cabeça, e saia chifrando tudo à sua frente, como um búfalo encurralado por vulgares leoas de programa. O homem com certezas sempre é mais forte do que a súcia céptica. Basta ter coragem. E encarar



Post inútil

Eu sei que ninguém se incomoda com o assunto, mas mesmo assim vamos lá. Eu juro que não entendo como um crime pode demorar 14 anos para ser julgado e, às vésperas da conclusão do processo, num foro privilegiado, o julgamento corre o risco de não ocorrer, devido a uma manobra jurídica. Parece que o Supremo Tribunal Federal (STF) vai impedir a palhaçada, mas o essencial é que Ronaldo Cunha Lima entra num restaurante, dá tiros à queima roupa num adversário político* e só é julgado depois de 14 anos. O sistema jurídico brasileiro permite manobras que fazem os processos se arrastarem por anos e anos.

O mais curioso é que ninguém parece se importar com isso. É evidente que isso gera distorções e injustiças absurdas. Deveria haver um bando de juristas e parlamentares empenhados em mudar essa situação grotesca, mas, até onde eu sei, não há. Essa passividade é que me deixa exasperado. Como ninguém acha isso ruim, fico até me sentindo ridículo em me indignar com o assunto, e em escrever um post sobre ele. Mas eu não consegui evitar. Outra coisa que eu não entendo: como Antônio Pimenta Neves, homicida confesso - e condenado** -, está solto? Se algum advogado – Mauro, diz aí - se dispuser a explicar como são possíveis tramitações de 14 anos e assassinos condenados continuarem livres, a casa agradece

* Como alguém dá três tiros à queima roupa num sujeito indefeso e não consegue matar a vítima? Vai atirar mal assim lá na Paraíba
** Eu sei que ele está recorrendo, mas um homicida confesso não deveria poder recorrer em liberdade



novembro 04, 2007

Appetite for Apocalypse

TheBomb.jpg


A propósito do Paul Tibbets, dois posts bem diferentes. Eu não teria muito a dizer sobre ele, mas o fato em si sempre me foi encasquetante. Porque eu sempre fui pró-americano e tendo ainda hoje a pensar que os EUA foram os menos fdp em quase todos os imbróglios do terrível século XX. Mas, no caso de Hiroshima e Nagasaki, sei não. Meu pai, um conhecedor de Segunda Guerra, me ensinou desde pequenininho que a rendição do Japão com guerra exclusivamente convencional iria ter um custo em vidas humanas muitíssimo maior do que o causado pelas bombas (mas ele nunca entrou no mérito moral do lançamento das bombas, do jeito que foi feito). Tem toda aquela história do fanatismo nacionalista japonês e coisa e tal. Mas, ainda assim, por que não jogar a bomba atômica em algum lugar ermo, de preferência em cima de alguma base militar isolada? Talvez até no mar, perto da costa japonesa, ou numa ilhota qualquer com presença militar nipônica e quase nada mais, se o que interessava era o efeito demonstração, de que os EUA poderiam arrasar o Japão se este não se rendesse imediatamente. Por que não uma bomba com um número mínimo de vítimas, seguida de um curtíssimo ultimato, de que se não houvesse rendição imediata aí sim cidades seriam atomicamente bombardeadas? Por que a opção foi a de jogar a bomba inicial, sem aviso ou ameaça prévios, em cima de uma cidade onde 99,99% das vítimas seriam civis? E, pior ainda, por que duas cidades de uma vez?

Nunca nenhum fellow pró-americano me respondeu estas indagações de forma satisfatória. É verdade que nunca conversei muito sobre o assunto, mas tenho interesse em bons argumentos, se eles existem. Deve haver, é claro, uma extensa literatura sobre o caso, que não conheço, mas se a versão pró ou contra fosse cabalmente incontestável, eu certamente saberia. Meu palpite pessoal é de que foi uma combinação de vingança por Pearl Harbor (e contra toda a imensa escrotidão dos japoneses na guerra) com algo parecido ao que levou à Guerra do Iraque II, aquele hubrisinho de quem se encanta com novos super-poderes bélicos, e quer porque quer testar na prática. Algo meio Apocalypse Now, meio Appetite for Destruction. A tese é chutada e mambembe (não se acanhem, destrocem), mas eu ligo as bombas ao fato de que os americanos são um povo hiper-ativo, they love action, e podem sim ser muito escrotos também.

Mas não mudo o meu julgamento histórico mais amplo, de que ainda assim eles foram os menos fdp quando se contabiliza o mata-mata completo do século XX



novembro 03, 2007

Por que escrevo

"Putting aside the need to earn a living, I think there are four great motives for writing, at any rate for writing prose. They exist in different degrees in every writer, and in any one writer the proportions will vary from time to time, according to the atmosphere in which he is living. They are:

(i) Sheer egoism. Desire to seem clever, to be talked about, to be remembered after death, to get your own back on the grown-ups who snubbed you in childhood, etc., etc. It is humbug to pretend this is not a motive, and a strong one. Writers share this characteristic with scientists, artists, politicians, lawyers, soldiers, successful businessmen — in short, with the whole top crust of humanity. The great mass of human beings are not acutely selfish. After the age of about thirty they almost abandon the sense of being individuals at all — and live chiefly for others, or are simply smothered under drudgery. But there is also the minority of gifted, willful people who are determined to live their own lives to the end, and writers belong in this class. Serious writers, I should say, are on the whole more vain and self-centered than journalists, though less interested in money.

(ii) Aesthetic enthusiasm. Perception of beauty in the external world, or, on the other hand, in words and their right arrangement. Pleasure in the impact of one sound on another, in the firmness of good prose or the rhythm of a good story. Desire to share an experience which one feels is valuable and ought not to be missed. The aesthetic motive is very feeble in a lot of writers, but even a pamphleteer or writer of textbooks will have pet words and phrases which appeal to him for non-utilitarian reasons; or he may feel strongly about typography, width of margins, etc. Above the level of a railway guide, no book is quite free from aesthetic considerations.

(iii) Historical impulse. Desire to see things as they are, to find out true facts and store them up for the use of posterity.

(iv) Political purpose. — Using the word ‘political’ in the widest possible sense. Desire to push the world in a certain direction, to alter other peoples’ idea of the kind of society that they should strive after. Once again, no book is genuinely free from political bias. The opinion that art should have nothing to do with politics is itself a political attitude."

(George Orwell, em Why I write, que consta do livro Essays. Eu comprei no ano passado por dica do Ruy Goiaba. Ele fez um post citando outro ensaio do livro - sim, o meu post é descaradamente inspirado no do Ruy. Eu gosto muito do Why I write. A honestidade intelectual do trecho que eu destaquei sempre me deixa impressionado. Ah: segundo pesquisa do Datatorre, "sheer egoism" responde por 150% dos motivos que levam 100% dos blogueiros a escrever)



novembro 01, 2007

Nacionalismos II

Eu saio de São Paulo por três dias, dou um pulo no Brasil profundo, no interior de Goiás e, quando volto, a discussão sobre o nacionalismo está pegando fogo por aqui. Tomado por forças telúricas, percebo que não posso ficar de fora do assunto, ainda que não vá tecer mais do que algumas observações soltas sobre o tema.

O FDR tem uma frase boa, a de que patriota é aquele sujeito que tem orgulho do acaso. Por causa disso, qualquer nacionalismo tem um pé no ridículo. No Brasil, o negócio fica ainda pior. Você já nasceu aqui por acaso, e ainda vai se orgulhar de um país que tem um nível educacional baixíssimo, uma desigualdade de renda absurda e taxas de criminalidade piores ou similares às africanas? Apontar problemas e ridicularizar o país nos seus aspectos constrangedores é bem mais produtivo do que cultivar um patriotismo chinfrim.

Mas a questão é que eu sou eu e minhas circunstâncias, como diria o seu Ortega. Ainda que por acaso, eu nasci no Brasil. Continuo a morar por aqui. Querendo ou não, a minha ligação com o Grande Paraguai é muito forte. Não adianta negá-la. Ser um dândi nos trópicos em tempo integral é divertido e curioso, mas faz pouco sentido.

Não reconhecer nada de bom no país também é infantil. A saída? Talvez ter uma atitude antropofágica em relação ao próprio país. É claro que pouca coisa sobrará depois da deglutição – um Machado de Assis, um Drummond, um Villa Lobos, um Tom Jobim, um Chico Buarque*, um João Gilberto, um Pelé**. Pode parecer babaquice, e provavelmente é, mas um poucos dos momentos em que eu sinto orgulho de ser brasileiro é quando ouço música brasileira de qualidade, em especial Tom Jobim. O sentimento de que um brasileiro fez ou faz algo excepcional e que, de algum modo, você pertence ao mesmo grupo que o sujeito, é reconfortante e agradável – ainda que seja fruto de dois acasos

* Eu confesso: sou blogueiro de direita, mas gosto muito de Chico Buarque. Estou preparado para as pedradas
** O jogador, não o Edson



Diálogo brasileiro V

- Sim, de fato eu acho tudo isso um absurdo, e quero participar do protesto contra o fato de que o deputado e ex-governador da Paraíba, Ronaldo Cunha Lima, renunciou ao cargo, perdendo portanto o foro privilegiado, o que faz com que o seu processo por tentativa de homicídio do ex-governador da Paraíba, Tarcísio Miranda Buriti, em 5 de dezembro de 1993 (tentativa esta que deixou seqüelas que haveriam de levar Buriti à morte dez anos após o incidente, ou talvez não tenha sido das seqüelas, who knows?) volte à Justiça Comum, e tramite novamente a partir da estaca zero. É relevante notar que o expediente é típico das manobras protelatórias ensejadas pelo sistema jurídico brasileiro, e que fazem parte da pletora de mecanismos que prejudicam a eficácia da Justiça, levando à sensação generalizada de impunid ... impuni ... impinu ... im .... zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

- (algumas horas mais tarde) Acorda, acorda! Está na hora do protesto contra a decisão do deputado e ex-governador da Paraíba, Ronaldo Cunha Lima, de renunciar ao cargo, o que nada mais é que uma manobra...

- Porra, cala a boca, deixa eu dormir! O Brasil é assim mesmo, e não tem nada demais. Dá um pulinho na rua lá embaixo. Tem alguém se descabelando? Carros-bomba estão explodindo? Dá para ouvir algum nhãnhãnhã de choro ou algum grrnnnallrrrrrllld de ranger de dentes?

- Mas é que você mesmo disse que queria ir ao protesto contra a atitude do deputado e ex...

- Pelo amor de Deus! Esta história é fácil de entender, mas chata de enunciar. Eu não agüento mais protestar contra coisas chatas de enunciar. Deu para entender?

- Para ser sincero(a), não muito...

- Ah, então vai para Lapa sambar, deixa o Brasil ser Brasil e me deixa dormir.

Levanta-se, empurra o(a) interlocutor(a) para fora do quarto. Slam! Porta fechada, sono dos justos



Autores

* Marcos Matamoros
* F. Arranhaponte


Links

* Alexandre Soares Silva
* Chá das Cinco
* Diacrônico
* Filthy McNasty
* FYI
* JP Coutinho
* Manobra, 1979
* Número 12
* puragoiaba
* Roma Dewey


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