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O Fukuyama disse mais ou menos que com a queda do muro de Berlim e o desmantelamento da União Soviética nós tínhamos chegado a uma vitória da democracia liberal e do capitalismo sobre o socialismo real. Num grande esquema hegeliano da história, a luta titânica dos sistemas capitalista e socialista chegara ao fim. Só que se ele fosse mais hegeliano ainda talvez tivesse podido prever o que de fato aconteceu - uma síntese cabocla e mambembe entre capitalismo, alguma democracia (em graus variáveis até zero) e autocracia estatal pipocando em várias partes do globo: Rússia, China, Venezuela, Índia, Argentina e até o Brasil, em certa medida. O símbolo deste novo poder vira-lata é o fato de que as sete irmãs petrolíferas, empresas privadas que eram o epítome da fúria tentacular do capitalismo, foram sobrepujadas em importância por estatais de petróleo do Brasil, da China, da Malásia (estou chutando um pouco) e de uns tantos outros países.
Agora, a grande pergunta é onde isto vai dar. A minha modesta previsão é de que este bicharoco mestiço vai ficar grassando mesmo é no mundo emergente, e os países ricos que conseguiram atingir o Olimpo do verdadeiro capitalismo democrático lá ficarão, porque afinal de contas o Fukuyama tinha razão em que este último sistema é realmente o melhorzão de todos e, se fim da História houver, é lá que chegaremos todos um dia, a menos de desvios distópicos definitivos.
E aqui, na terras baixas, a nova dialética será entre os defensores desse capitalismo misturado com uma avacalhação socialista, autocrático e estatólatra, e os velhos (e desmilingüidos de guerra) apoiadores da democracia capitalista clássica, nas versões liberal e social-democrata. Este segundo grupo, no qual me incluo, viverá na frustração e no opróbrio durante décadas, enquanto a alta das commodities e o roncar dos motores da economia global seguirem garantindo o sucesso da nova safra de caudilhos semi-autoritários à frente de países semi-capitalistas (talvez bizarramente capitalistas expresse melhor a idéia).
É bom arrumar um hobby intelectual 100% alienado para ajudar o longo inverno político a passar mais depressa


