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O bode expiatório do socialismo real
Nos meus dias mais jovens e mais vulneráveis, eu também fui seduzido pelo socialismo. A promessa de uma sociedade mais justa, baseada na igualdade, é irresistível para muitas mentes juvenis. Mas o fascínio durou pouco. Quanto mais eu lia sobre o socialismo real, mais ficava claro a grande roubada em que boa parte da humanidade se metera. O negócio descambou para ditaduras mais ou menos sanguinárias, com um desempenho econômico pífio, em lugares os mais diversos e em épocas as mais distintas. Para continuar socialista, o sujeito de boa fé necessita de um otimismo panglossiano.
Eu passei a fazer a perguntinha simples e óbvia, para mim e para os meus amigos socialistas: se o socialismo produziu resultados desastrosos na Rússia, na Europa Oriental, na América Latina, na África e na Ásia, por que haveria de dar certo no Brasil? A resposta mais comum que eu ouvia é que atrocidades passadas não são garantia de atrocidades futuras, e que eles defendiam o socialismo democrático, não as versões que degenararam em ditaduras. O curioso é que ninguém, até hoje, conseguiu me dar uma explicação menos do que indigente do que seria o socialismo democrático. Noventa anos depois da Revolução Russa, ele não deu notícias de sua existência.
Outra linha de argumentação dos socialistas de boa fé é colocar grande parte da culpa pelo fracasso do socialismo nos ombros de Stálin. O raciocínio é o de que o negócio estava indo bem na União Soviética, até que o baixinho bigodudo tomou o poder e desvirtuou os rumos nobres da Revolução. No fundo, Stálin acaba servindo como um bode expiatório conveniente. Perto de sua monstruosidade, até Lênin, que não tinha nada de democrático ou tolerante e que não hesitava em esmagar inimigos, não fica mal na fotografia. De um modo paradoxal, Stálin serviu e ainda serve para que a ilusão socialista continue de pé


