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Eu saio de São Paulo por três dias, dou um pulo no Brasil profundo, no interior de Goiás e, quando volto, a discussão sobre o nacionalismo está pegando fogo por aqui. Tomado por forças telúricas, percebo que não posso ficar de fora do assunto, ainda que não vá tecer mais do que algumas observações soltas sobre o tema.
O FDR tem uma frase boa, a de que patriota é aquele sujeito que tem orgulho do acaso. Por causa disso, qualquer nacionalismo tem um pé no ridículo. No Brasil, o negócio fica ainda pior. Você já nasceu aqui por acaso, e ainda vai se orgulhar de um país que tem um nível educacional baixíssimo, uma desigualdade de renda absurda e taxas de criminalidade piores ou similares às africanas? Apontar problemas e ridicularizar o país nos seus aspectos constrangedores é bem mais produtivo do que cultivar um patriotismo chinfrim.
Mas a questão é que eu sou eu e minhas circunstâncias, como diria o seu Ortega. Ainda que por acaso, eu nasci no Brasil. Continuo a morar por aqui. Querendo ou não, a minha ligação com o Grande Paraguai é muito forte. Não adianta negá-la. Ser um dândi nos trópicos em tempo integral é divertido e curioso, mas faz pouco sentido.
Não reconhecer nada de bom no país também é infantil. A saída? Talvez ter uma atitude antropofágica em relação ao próprio país. É claro que pouca coisa sobrará depois da deglutição – um Machado de Assis, um Drummond, um Villa Lobos, um Tom Jobim, um Chico Buarque*, um João Gilberto, um Pelé**. Pode parecer babaquice, e provavelmente é, mas um poucos dos momentos em que eu sinto orgulho de ser brasileiro é quando ouço música brasileira de qualidade, em especial Tom Jobim. O sentimento de que um brasileiro fez ou faz algo excepcional e que, de algum modo, você pertence ao mesmo grupo que o sujeito, é reconfortante e agradável – ainda que seja fruto de dois acasos
* Eu confesso: sou blogueiro de direita, mas gosto muito de Chico Buarque. Estou preparado para as pedradas
** O jogador, não o Edson


