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Nada é mais aconchegante do que uma certeza. O útero é um lugar desconfortável e hostil comparado com as paredes fofas e o clima idealmente quentinho de uma bela e redonda certeza. Quando eu vejo um homem ou uma mulher cheios de certezas, fico pensando em como eles as decoram por dentro, onde fica a lareira, os quadros pastoris e bucólicos, a velha poltrona de couro com cheiro de casa da vovó. Ah, a visão das pessoas passeando de manhã com suas certezas pelo calçadão de Ipanema... Quanta poesia naqueles cenhos apenas ligeiramente franzidos, no meio sorriso silencioso e quase enigmático da convicção, nos passos decididos, na roupa de ginástica impecavelmente nova, no flanar impassível e majestoso daqueles bustos gregos banhados no halo santificante da certeza profunda.
Eu gostaria de não ter a menor dúvida de que a dúvida é coisa de Satanás. Mas já fui contaminado pelo ceticismo, este germe maligno que devora a alma até nos transformar em espectros trêmulos e vacilantes, em vasos vazios e ansiosos, com voz fanhosa, boca torta, dificuldade de sorrir e virtual impossibilidade de chorar. Um conselho sincero: jamais troquem uma certeza por um argumento bem fundamentado. E se você for cercado de jeito, feche os olhos, pense com força na sua certeza, como se ela fosse uma bola de gude latejante encravada dois centímetros adentro do crânio um pouco acima da testa, baixe a cabeça, e saia chifrando tudo à sua frente, como um búfalo encurralado por vulgares leoas de programa. O homem com certezas sempre é mais forte do que a súcia céptica. Basta ter coragem. E encarar


