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dezembro 30, 2007
Em defesa da intolerância
dezembro 27, 2007
Mensagem ao povo paquistanês II

O porteiro do Paquistão
Eu também estou longe de ser um especialista no Paquistão, mas não vou me furtar a fazer duas observações sobre um país tão moderno:
- O Pervez Musharraf tem cara de porteiro, e daqueles porteiros que não dão uma dentro. Quando você pergunta qualquer coisa, ele diz: não me passaram nada não. Ele faria uma boa dupla com o Mahmoud Ahmadinejad, o porteiro, quer dizer, o presidente do Irã
- O Paquistão é uma espécie de país africano na Ásia. A situação por lá é insolúvel. Todo mundo fica discutindo qual a saída para o país, quando na verdade o que existe são opções ruins, péssimas ou trágicas. Quando tudo vai bem, predomina a alternativa ruim. Acreditar na possibilidade de que a democracia vai florescer e se perenizar no Paquistão exige um otimismo panglossiano

O porteiro do Paquistão
Eu também estou longe de ser um especialista no Paquistão, mas não vou me furtar a fazer duas observações sobre um país tão moderno:
- O Pervez Musharraf tem cara de porteiro, e daqueles porteiros que não dão uma dentro. Quando você pergunta qualquer coisa, ele diz: não me passaram nada não. Ele faria uma boa dupla com o Mahmoud Ahmadinejad, o porteiro, quer dizer, o presidente do Irã
- O Paquistão é uma espécie de país africano na Ásia. A situação por lá é insolúvel. Todo mundo fica discutindo qual a saída para o país, quando na verdade o que existe são opções ruins, péssimas ou trágicas. Quando tudo vai bem, predomina a alternativa ruim. Acreditar na possibilidade de que a democracia vai florescer e se perenizar no Paquistão exige um otimismo panglossiano
Mensagem ao povo paquistanês

É impossivelmente chato tentar entender os meandros da política em um país como o Paquistão. Numa leitura transversalíssima eu meio que capto que talvez a Benazir Bhutto tenha sido assassinada porque teria feito algum tipo de pacto com o beleaguered (não resisti à palavra-clichê do inglês) Pervez Musharraf. O que eu sei ainda mais transversalmente da política paquistanesa é que o mega-escroto Musharraf quer se reeleger pela enésima vez presidente, e que desta vez há uma resistência inédita à sua vontade de se perpetuar no poder. Leio pulando linhas aqui e acolá que qualquer coisa como uma "sociedade civil" paquistanesa e seus apoiadores no mundo ocidental exigem "democracia" e que o Musharraf largue o osso. E, como de hábito, os States entram na história como o vilão que apóia o ditador contra os clamores das "forças democráticas".
Bem, então deixa eu dizer o seguinte: não aposto um centavo de bolívar furado na democracia ou na sociedade civil paquistanesas. Se eu fosse os EUA, eu estaria muito nervoso, vendo que o Musharraf não está mais segurando as pontas e que o país parece destinado a testar níveis inéditos de o horror, o horror. Enfim, minha sensação é de que o fdp do Musharraf é a última linha de defesa diante do inferno e do caos, e que a idéia de que possa haver algo como uma transição pacífica para a democracia num lugar em que o dia a dia da política é tentar assassinar os adversários levando junto, de preferência, a maior quantidade possível de inocentes é ridícula.
Deu vontade de dizer: vai tomar no cu, sociedade civil paquistanesa. Vocês não enganam ninguém
PS: Melhor seria se eu estivesse redondamente enganado

É impossivelmente chato tentar entender os meandros da política em um país como o Paquistão. Numa leitura transversalíssima eu meio que capto que talvez a Benazir Bhutto tenha sido assassinada porque teria feito algum tipo de pacto com o beleaguered (não resisti à palavra-clichê do inglês) Pervez Musharraf. O que eu sei ainda mais transversalmente da política paquistanesa é que o mega-escroto Musharraf quer se reeleger pela enésima vez presidente, e que desta vez há uma resistência inédita à sua vontade de se perpetuar no poder. Leio pulando linhas aqui e acolá que qualquer coisa como uma "sociedade civil" paquistanesa e seus apoiadores no mundo ocidental exigem "democracia" e que o Musharraf largue o osso. E, como de hábito, os States entram na história como o vilão que apóia o ditador contra os clamores das "forças democráticas".
Bem, então deixa eu dizer o seguinte: não aposto um centavo de bolívar furado na democracia ou na sociedade civil paquistanesas. Se eu fosse os EUA, eu estaria muito nervoso, vendo que o Musharraf não está mais segurando as pontas e que o país parece destinado a testar níveis inéditos de o horror, o horror. Enfim, minha sensação é de que o fdp do Musharraf é a última linha de defesa diante do inferno e do caos, e que a idéia de que possa haver algo como uma transição pacífica para a democracia num lugar em que o dia a dia da política é tentar assassinar os adversários levando junto, de preferência, a maior quantidade possível de inocentes é ridícula.
Deu vontade de dizer: vai tomar no cu, sociedade civil paquistanesa. Vocês não enganam ninguém
PS: Melhor seria se eu estivesse redondamente enganado
dezembro 26, 2007
Um clichê a menos
A demanda está realmente aquecida. Além de os representantes do comércio dizerem que este foi o melhor Natal em dez anos, há uma evidência anedótica irrefutável de que o negócio vai bem: eu não vi nenhuma reportagem neste ano dizendo que este seria "o Natal das lembrancinhas". Há muito tempo, sempre que chega dezembro, esse clichê insuportável aparece umas dez vezes por dia nos telejornais. Crescimento forte é tão benéfico que serve até para enterrar clichês
A demanda está realmente aquecida. Além de os representantes do comércio dizerem que este foi o melhor Natal em dez anos, há uma evidência anedótica irrefutável de que o negócio vai bem: eu não vi nenhuma reportagem neste ano dizendo que este seria "o Natal das lembrancinhas". Há muito tempo, sempre que chega dezembro, esse clichê insuportável aparece umas dez vezes por dia nos telejornais. Crescimento forte é tão benéfico que serve até para enterrar clichês
dezembro 24, 2007
Mudanças
(O post tem spoilers)
Eu assisti hoje A vida dos outros. Saí emocionado do cinema, o que não é comum. O filme é delicado e comovente, sem ser piegas. Mostra a mudança por que passa o capitão Wiesler, da Stasi, de modo sutil e elegante. Funcionário modelo da polícia secreta da Alemanha Oriental, Wiesler recebe a incumbência de vigiar o escritor e dramaturgo Georg Dreyman. Wiesler logo percebe que a sua missão é encontrar um pretexto que incrimine Dreymann como inimigo do regime. O ministro da Cultura – que pediu a investigação - está interessado na mulher do dramaturgo, uma atriz famosa. Wiesler monta um esquema de escuta na casa de Dreyman.
Enquanto espiona o escritor, Wiesler entra em contato com uma vida que é em tudo diferente da sua. Dreyman tem uma mulher bonita e uma vida social e cultural ativa. Wiesler vive sozinho, num apartamento anódino como ele. Tem uma vida cinzenta.
Em vez de ser consumido pela inveja, o contato com a vida de Dreyman aos poucos humaniza Wiesler. Ele rouba um livro de Brecht da casa do escritor, e se emociona com a leitura. Chora ao escutar uma sonata executada pelo escritor ao piano, quando este recebe a notícia do suicídio de um grande diretor banido pelo regime, de quem era amigo.
Com a morte do amigo, Dreyman resolve se insurgir contra o regime. Decide escrever um artigo para ser publicado na Der Spiegel, na Alemanha Ocidental. Em vez de denunciar Dreyman, Wiesler também se insurge contra o regime. Passa a proteger o dramaturgo. Arrisca-se e perde o seu posto na Stasi. O homem cinzento tem um gesto de grandeza.
É um filme bonito. Mostra algo que poderia ser piegas nas mãos de outro diretor: a mudança para melhor de um burocrata que, na primeira cena do filme, participa de uma cena de tortura psicológica. O diretor, que tem apenas 33 anos, escapou da armadilha de fazer um filme “edificante”. Em vez disso, Florian Henckel von Donnersmarck fez um grande filme.
Ao ver A vida dos outros, eu me lembrei de um grande livro: Sostiene Pereira, do italiano Antonio Tabucchi. O livro conta a história de um jornalista idoso, que cuida da página cultural de um jornal português durante a ditadura salazarista. Diferentemente de Wiesler, não tem nenhum envolvimento com a ditadura. É um homem bom e totalmente apolítico.
Mas a política tromba com Pereira. Ele se envolve com um jovem jornalista engajado, que é assassinado em sua casa. O medíocre Pereira tem então uma atitude heróica: enganando o tipógrafo, consegue publicar na página cultural do jornal em que trabalha um artigo em que narra o assassinato do jovem jornalista, em plena ditadura salazarista. Pereira é um homem bem diferente de Wiesler, mas faz algo parecido com o que faz o capitão da Stasi: abandona a sua vida medíocre e tem um ato de grandeza, enfrentando uma ditadura. Tabucchi também evita o sentimentalismo e escreve um livro bonito.
São duas obras otimistas. Contam histórias de pessoas que mudam – mesmo velhas, mesmo cinzentas, mesmo se, como no caso de A vida dos outros, participam ativamente de uma ditadura. O grande mérito de Donnersmarck e Tabucchi é fazer o que fizeram de um modo elegante e inteligente. Não é pouco
(O post tem spoilers)
Eu assisti hoje A vida dos outros. Saí emocionado do cinema, o que não é comum. O filme é delicado e comovente, sem ser piegas. Mostra a mudança por que passa o capitão Wiesler, da Stasi, de modo sutil e elegante. Funcionário modelo da polícia secreta da Alemanha Oriental, Wiesler recebe a incumbência de vigiar o escritor e dramaturgo Georg Dreyman. Wiesler logo percebe que a sua missão é encontrar um pretexto que incrimine Dreymann como inimigo do regime. O ministro da Cultura – que pediu a investigação - está interessado na mulher do dramaturgo, uma atriz famosa. Wiesler monta um esquema de escuta na casa de Dreyman.
Enquanto espiona o escritor, Wiesler entra em contato com uma vida que é em tudo diferente da sua. Dreyman tem uma mulher bonita e uma vida social e cultural ativa. Wiesler vive sozinho, num apartamento anódino como ele. Tem uma vida cinzenta.
Em vez de ser consumido pela inveja, o contato com a vida de Dreyman aos poucos humaniza Wiesler. Ele rouba um livro de Brecht da casa do escritor, e se emociona com a leitura. Chora ao escutar uma sonata executada pelo escritor ao piano, quando este recebe a notícia do suicídio de um grande diretor banido pelo regime, de quem era amigo.
Com a morte do amigo, Dreyman resolve se insurgir contra o regime. Decide escrever um artigo para ser publicado na Der Spiegel, na Alemanha Ocidental. Em vez de denunciar Dreyman, Wiesler também se insurge contra o regime. Passa a proteger o dramaturgo. Arrisca-se e perde o seu posto na Stasi. O homem cinzento tem um gesto de grandeza.
É um filme bonito. Mostra algo que poderia ser piegas nas mãos de outro diretor: a mudança para melhor de um burocrata que, na primeira cena do filme, participa de uma cena de tortura psicológica. O diretor, que tem apenas 33 anos, escapou da armadilha de fazer um filme “edificante”. Em vez disso, Florian Henckel von Donnersmarck fez um grande filme.
Ao ver A vida dos outros, eu me lembrei de um grande livro: Sostiene Pereira, do italiano Antonio Tabucchi. O livro conta a história de um jornalista idoso, que cuida da página cultural de um jornal português durante a ditadura salazarista. Diferentemente de Wiesler, não tem nenhum envolvimento com a ditadura. É um homem bom e totalmente apolítico.
Mas a política tromba com Pereira. Ele se envolve com um jovem jornalista engajado, que é assassinado em sua casa. O medíocre Pereira tem então uma atitude heróica: enganando o tipógrafo, consegue publicar na página cultural do jornal em que trabalha um artigo em que narra o assassinato do jovem jornalista, em plena ditadura salazarista. Pereira é um homem bem diferente de Wiesler, mas faz algo parecido com o que faz o capitão da Stasi: abandona a sua vida medíocre e tem um ato de grandeza, enfrentando uma ditadura. Tabucchi também evita o sentimentalismo e escreve um livro bonito.
São duas obras otimistas. Contam histórias de pessoas que mudam – mesmo velhas, mesmo cinzentas, mesmo se, como no caso de A vida dos outros, participam ativamente de uma ditadura. O grande mérito de Donnersmarck e Tabucchi é fazer o que fizeram de um modo elegante e inteligente. Não é pouco
dezembro 20, 2007
Desmandelização

A África do Sul vai dançar junto?
E o Zuma, hein? Quando é que a esquerda vai começar a defender o novo líder autenticamente popular do esculhambismo do século XXI?

A África do Sul vai dançar junto?
E o Zuma, hein? Quando é que a esquerda vai começar a defender o novo líder autenticamente popular do esculhambismo do século XXI?
Sexo partout
Parte das razões pelas quais muita gente implica com a obra de Henry James é que é possível que ele jamais tenha trepado. Nunca li isto (que a vida casta tenha prejudicado sua literatura) com todas as letras, mas fica meio implícito em trecos escritos sobre ele, e alguns dos seus simpatizantes já tentaram meio infrutiferamente, se não me engano, mostrar que sim ele deu o rabicó (como diria o Francis).
Sexo virou meio que uma obsessão artística, cultural, intelectual e existencial do século XX em diante. Sempre foi uma obsessão biológica, graças a Deus, que se existisse deveria ser parabenizado por ter inventado algo tão gostoso. Mas que seja uma obsessão que perpassa todas as esferas e instâncias da vida humana me parece, do baixo da minha ignorância, algo típico do início do século XX, ou talvez do fim do XIX, para cá (bem, citar Freud é óbvio, nem precisa). Tudo isto porque eu li hoje na Folha que uma atriz americana descobriu um jeito “sexy” de lidar com um câncer incurável. É incrível que até numa situação dessas sexo seja a medida de todas as coisas. Não tenho a menor idéia de se isso é bom ou ruim
Parte das razões pelas quais muita gente implica com a obra de Henry James é que é possível que ele jamais tenha trepado. Nunca li isto (que a vida casta tenha prejudicado sua literatura) com todas as letras, mas fica meio implícito em trecos escritos sobre ele, e alguns dos seus simpatizantes já tentaram meio infrutiferamente, se não me engano, mostrar que sim ele deu o rabicó (como diria o Francis).
Sexo virou meio que uma obsessão artística, cultural, intelectual e existencial do século XX em diante. Sempre foi uma obsessão biológica, graças a Deus, que se existisse deveria ser parabenizado por ter inventado algo tão gostoso. Mas que seja uma obsessão que perpassa todas as esferas e instâncias da vida humana me parece, do baixo da minha ignorância, algo típico do início do século XX, ou talvez do fim do XIX, para cá (bem, citar Freud é óbvio, nem precisa). Tudo isto porque eu li hoje na Folha que uma atriz americana descobriu um jeito “sexy” de lidar com um câncer incurável. É incrível que até numa situação dessas sexo seja a medida de todas as coisas. Não tenho a menor idéia de se isso é bom ou ruim
dezembro 18, 2007
O podcast do século
Quem não agüentava mais a espera pode enfim relaxar: aqui está o debate que eu e o Idelber travamos no Filial, em 24 de novembro. Eu e ele temos pontos de vista bastante diferentes, mas isso não impediu que nós tivéssemos uma conversa franca e divertida. Ela dura cerca de 90 minutos, e está dividida em três partes. Ouçam, divirtam-se, comentem
Primeira parte
Segunda parte
Terceira parte
PS: Como eu sou jornalista, acho que no começo eu acabei mais entrevistando do que debatendo com o Idelber. Depois eu mudei de atitude. Uma outra coisa: quando eu critiquei o PSDB, citei o que a Nariz Gelado disse sobre o slogan novo do partido (Mais Estado, mais mercado) e acabei me confundindo. Na verdade, ela escreveu que isso equivale a dizer mais imposto, menos imposto
Quem não agüentava mais a espera pode enfim relaxar: aqui está o debate que eu e o Idelber travamos no Filial, em 24 de novembro. Eu e ele temos pontos de vista bastante diferentes, mas isso não impediu que nós tivéssemos uma conversa franca e divertida. Ela dura cerca de 90 minutos, e está dividida em três partes. Ouçam, divirtam-se, comentem
Primeira parte
Segunda parte
Terceira parte
PS: Como eu sou jornalista, acho que no começo eu acabei mais entrevistando do que debatendo com o Idelber. Depois eu mudei de atitude. Uma outra coisa: quando eu critiquei o PSDB, citei o que a Nariz Gelado disse sobre o slogan novo do partido (Mais Estado, mais mercado) e acabei me confundindo. Na verdade, ela escreveu que isso equivale a dizer mais imposto, menos imposto
O maior medo de Chico Buarque

Quem foi parceiro de Tom Jobim merece respeito
O fim do ano se aproxima, e eu tenho certeza de que Chico Buarque começa a ficar tenso. No Natal ou no ano novo, Chico provavelmente terá que encontrar Carlinhos Brown. Pouca gente sabe, mas o gênio da MPB se tornou um homem mais angustiado depois que Helena se casou com Brown. Não é racismo, claro que não. O que incomoda Chico são os insistentes pedidos de Brown para que os dois façam uma parceria.
Em Paris, em novembro, Chico já antevê a cena, tantas vezes repetida nos últimos anos. Enquanto ele evita a todo custo que os dois fiquem a sós, Carlito Marrón passa a noite inteira procurando o melhor momento para falar do projeto que acalenta há anos. Os dois brincam de gato e rato a noite toda. A casa, porém, não é tão grande para que Chico possa escapar. Em algum momento, Brown consegue o que quer, e os dois ficam a sós. Chico tenta ao máximo esconder o desconforto – a Helena e o Francisco não têm culpa, quer dizer, a Helena bem que podia ter casado com aquele amigo de infância que fazia Direito, mas deixa pra lá -, e entabula uma conversa sobre o neto, dizendo como ele está bonito e esperto – se bem que o moleque solta umas onomatopéias sem sentido de vez em quando, mas talvez seja da idade. Ou não.
Entre algumas onomatopéias sem sentido, Brown fala sobre “aquele antigo projeto nosso” - nosso é o caralho. O projeto é seu, tribalista. Eu já fui parceiro de Tom, Vinícius e Edu Lobo, não vem que não tem. Não vou macular uma carreira brilhante e deixar para a história uma parceria com um sujeito que não consegue nem falar direito. A parte mais difícil começa. Brown grita, pula, solta umas onomatopéias sem sentido. Ele está mostrando a música. Chico lembrava vagamente daqueles barulhos horrorosos de festas de anos anteriores. Ele fica perplexo. No ano anterior, ou no ano retrasado, a música lhe parecera ruim, mas não tão péssima quanto os barulhos que o seu genro faz no meio da festa. O pior é o olhar carente, sedento de aprovação.
- É, Carlinhos, a música é bonita, mas eu realmente estou sem tempo e sem inspiração para fazer a letra.
- Mas, sogrão, faz anos que eu peço. Será que neste ano não dá?
- Está difícil.
- E se você esboçar alguns versos, pelo menos? Daí eu completo.
O esforço para não rir da cara do genro é sobre-humano. O sujeito é ousado. Primeiro, sugere a parceria. Depois, mostra uma música horrenda. Agora se oferece para completar os meus versos?
- Não vai dar. Ainda vou fazer uns shows em 2008, e depois eu vou para Paris. Eu vou escrever mais um livro, a editora já está cobrando. E daí, você sabe. Serão muitos meses de dedicação exclusiva ao livro.
- Ah, tá bom. Mas quem sabe em 2009?
- É, quem sabe.
Chico olha em volta, buscando alguém que possa se juntar a eles. Interromper a conversa se torna quase uma necessidade física. Ninguém está próximo – é claro, nem a Helena agüenta o sujeito.
- Carlinhos, a conversa está boa, mas eu vou ter que ir ao banheiro.
Nem os mais íntimos sabem, mas Chico começou a escrever mais e a passar temporadas cada vez maiores em Paris justamente por causa de Carlinhos Brown. Ele teme que, se ficar muito tempo no Rio, as circunstâncias – ou um pedido de Helena – o levem a ceder aos apelos do genro. Ele sabe que a sua obra o torna imune a um disco irregular, ou mesmo a um disco fraco. Mas nem toda a genialidade de Construção, Sabiá, Anos Dourados, Beatriz, A Rosa resistiria a uma parceria com Carlinhos Brown. Tudo tem limite

Quem foi parceiro de Tom Jobim merece respeito
O fim do ano se aproxima, e eu tenho certeza de que Chico Buarque começa a ficar tenso. No Natal ou no ano novo, Chico provavelmente terá que encontrar Carlinhos Brown. Pouca gente sabe, mas o gênio da MPB se tornou um homem mais angustiado depois que Helena se casou com Brown. Não é racismo, claro que não. O que incomoda Chico são os insistentes pedidos de Brown para que os dois façam uma parceria.
Em Paris, em novembro, Chico já antevê a cena, tantas vezes repetida nos últimos anos. Enquanto ele evita a todo custo que os dois fiquem a sós, Carlito Marrón passa a noite inteira procurando o melhor momento para falar do projeto que acalenta há anos. Os dois brincam de gato e rato a noite toda. A casa, porém, não é tão grande para que Chico possa escapar. Em algum momento, Brown consegue o que quer, e os dois ficam a sós. Chico tenta ao máximo esconder o desconforto – a Helena e o Francisco não têm culpa, quer dizer, a Helena bem que podia ter casado com aquele amigo de infância que fazia Direito, mas deixa pra lá -, e entabula uma conversa sobre o neto, dizendo como ele está bonito e esperto – se bem que o moleque solta umas onomatopéias sem sentido de vez em quando, mas talvez seja da idade. Ou não.
Entre algumas onomatopéias sem sentido, Brown fala sobre “aquele antigo projeto nosso” - nosso é o caralho. O projeto é seu, tribalista. Eu já fui parceiro de Tom, Vinícius e Edu Lobo, não vem que não tem. Não vou macular uma carreira brilhante e deixar para a história uma parceria com um sujeito que não consegue nem falar direito. A parte mais difícil começa. Brown grita, pula, solta umas onomatopéias sem sentido. Ele está mostrando a música. Chico lembrava vagamente daqueles barulhos horrorosos de festas de anos anteriores. Ele fica perplexo. No ano anterior, ou no ano retrasado, a música lhe parecera ruim, mas não tão péssima quanto os barulhos que o seu genro faz no meio da festa. O pior é o olhar carente, sedento de aprovação.
- É, Carlinhos, a música é bonita, mas eu realmente estou sem tempo e sem inspiração para fazer a letra.
- Mas, sogrão, faz anos que eu peço. Será que neste ano não dá?
- Está difícil.
- E se você esboçar alguns versos, pelo menos? Daí eu completo.
O esforço para não rir da cara do genro é sobre-humano. O sujeito é ousado. Primeiro, sugere a parceria. Depois, mostra uma música horrenda. Agora se oferece para completar os meus versos?
- Não vai dar. Ainda vou fazer uns shows em 2008, e depois eu vou para Paris. Eu vou escrever mais um livro, a editora já está cobrando. E daí, você sabe. Serão muitos meses de dedicação exclusiva ao livro.
- Ah, tá bom. Mas quem sabe em 2009?
- É, quem sabe.
Chico olha em volta, buscando alguém que possa se juntar a eles. Interromper a conversa se torna quase uma necessidade física. Ninguém está próximo – é claro, nem a Helena agüenta o sujeito.
- Carlinhos, a conversa está boa, mas eu vou ter que ir ao banheiro.
Nem os mais íntimos sabem, mas Chico começou a escrever mais e a passar temporadas cada vez maiores em Paris justamente por causa de Carlinhos Brown. Ele teme que, se ficar muito tempo no Rio, as circunstâncias – ou um pedido de Helena – o levem a ceder aos apelos do genro. Ele sabe que a sua obra o torna imune a um disco irregular, ou mesmo a um disco fraco. Mas nem toda a genialidade de Construção, Sabiá, Anos Dourados, Beatriz, A Rosa resistiria a uma parceria com Carlinhos Brown. Tudo tem limite
dezembro 17, 2007
Sobre o Bolsa Família
Eu respondi aí num post abaixo a um comentário do Hermenauta em que ele dizia que a política social de um hipotético governo tucano (seria o Serra, no caso) que tivesse derrotado Lula em 2002 iria continuar no rame-rame da Comunidade Solidária da Dona Ruth. Resolvi reproduzir a minha resposta aqui, porque considero o Bolsa Família um assunto importante, e muito mal conhecido. Eu discordo radicalmente do que o Hermenauta disse. Disse provocativamente que o comentário dele era "quase calúnia". Segue meu comentário abaixo (só para provocar um pouco mais, coloquei em negrito um pedacinho que foi particularmente prazeroso de escrever):
Hermê, discordo radicalmente de que com os tucanos a política social ia continuar no rame rame da Comunidade Solidária da Dona Ruth. Acho quase calúnia um comentário desses. No final do governo FH, há muito que se tinha superado esta fase, e havia quatro programas de transferência crescendo - bolsa-escola, vale-gás, bolsa-alimentação e peti (ligado ao trabalho infantil).
Unificá-los e expandi-los era um desdobramento orgânico do que vinha sendo feito e já era defendido por um grupo amplo de economistas e técnicos que não eram propriamente todos tucanos (vários eram), mas que eram vistos pelos economistas e intelectuais do PT como demônios neoliberais a fim de focalizar a política social, o supremo pecado para, por exemplo, a Maria da Conceição Tavares.
Tudo leva a crer que as idéias deste grupo prevaleceriam em um eventual governo tucano, já que toda a lógica da criação do BF estava embutida no que já tinha sido feito até o momento. Em outras palavras, havia um processo em curso cujo corolário óbvio era unificação e expansão.
Na verdade, houve no início do governo Lula a prioridade para o desastroso Fome Zero, e aquele grupo de técnicos só foi finalmente acionado para fazer o BF quando o presidente, com muito bom senso, compreendeu que as propostas do PT tradicional para a política social eram uma besteira sem fim - como, diga-se de passagem, as propostas tradicionais do PT para a economia e para tudo o mais.
Dito tudo isto, o Lula teve o grande mérito de botar toda a energia possível no projeto do Bolsa Família, e expandi-lo ao máximo. Bem, o "se" histórico é sempre escorregadio (ou escorregadinho, como diziam minhas filhas até os 5 anos), e é muito difícil dizer que um presidente tucano iria abraçar um BF com os mesmos entusiasmo e garra do Lula. Então, como eu já disse, o Lula merece todo o aplauso por isto.
Mas daí a dizer que a política social tucana seria ficar fazendo umas caridadezinhas aqui e outras acolá, é gigantescamente injusto. Mesmo porque o BF era uma grande bandeira do Banco Mundial, que defendeu a idéia com grande energia junto a todas as candidaturas com chances em 2002. Isto está documentado. Não há nenhuma razão para se pensar que os tucanos, que sempre tiveram uma boa relação com as instituições multilaterais, iriam desprezar as sugestões do Banco Mundial.
PS: E, esqueci de mencionar, prefeituras tucanas, assim com algumas do PT (onde os intelectuais de miolo mole não apitavam) estão entre as pioneiras dos programas condicionados de transferência de renda, isto é, os Bolsas da vida
Eu respondi aí num post abaixo a um comentário do Hermenauta em que ele dizia que a política social de um hipotético governo tucano (seria o Serra, no caso) que tivesse derrotado Lula em 2002 iria continuar no rame-rame da Comunidade Solidária da Dona Ruth. Resolvi reproduzir a minha resposta aqui, porque considero o Bolsa Família um assunto importante, e muito mal conhecido. Eu discordo radicalmente do que o Hermenauta disse. Disse provocativamente que o comentário dele era "quase calúnia". Segue meu comentário abaixo (só para provocar um pouco mais, coloquei em negrito um pedacinho que foi particularmente prazeroso de escrever):
Hermê, discordo radicalmente de que com os tucanos a política social ia continuar no rame rame da Comunidade Solidária da Dona Ruth. Acho quase calúnia um comentário desses. No final do governo FH, há muito que se tinha superado esta fase, e havia quatro programas de transferência crescendo - bolsa-escola, vale-gás, bolsa-alimentação e peti (ligado ao trabalho infantil).
Unificá-los e expandi-los era um desdobramento orgânico do que vinha sendo feito e já era defendido por um grupo amplo de economistas e técnicos que não eram propriamente todos tucanos (vários eram), mas que eram vistos pelos economistas e intelectuais do PT como demônios neoliberais a fim de focalizar a política social, o supremo pecado para, por exemplo, a Maria da Conceição Tavares.
Tudo leva a crer que as idéias deste grupo prevaleceriam em um eventual governo tucano, já que toda a lógica da criação do BF estava embutida no que já tinha sido feito até o momento. Em outras palavras, havia um processo em curso cujo corolário óbvio era unificação e expansão.
Na verdade, houve no início do governo Lula a prioridade para o desastroso Fome Zero, e aquele grupo de técnicos só foi finalmente acionado para fazer o BF quando o presidente, com muito bom senso, compreendeu que as propostas do PT tradicional para a política social eram uma besteira sem fim - como, diga-se de passagem, as propostas tradicionais do PT para a economia e para tudo o mais.
Dito tudo isto, o Lula teve o grande mérito de botar toda a energia possível no projeto do Bolsa Família, e expandi-lo ao máximo. Bem, o "se" histórico é sempre escorregadio (ou escorregadinho, como diziam minhas filhas até os 5 anos), e é muito difícil dizer que um presidente tucano iria abraçar um BF com os mesmos entusiasmo e garra do Lula. Então, como eu já disse, o Lula merece todo o aplauso por isto.
Mas daí a dizer que a política social tucana seria ficar fazendo umas caridadezinhas aqui e outras acolá, é gigantescamente injusto. Mesmo porque o BF era uma grande bandeira do Banco Mundial, que defendeu a idéia com grande energia junto a todas as candidaturas com chances em 2002. Isto está documentado. Não há nenhuma razão para se pensar que os tucanos, que sempre tiveram uma boa relação com as instituições multilaterais, iriam desprezar as sugestões do Banco Mundial.
PS: E, esqueci de mencionar, prefeituras tucanas, assim com algumas do PT (onde os intelectuais de miolo mole não apitavam) estão entre as pioneiras dos programas condicionados de transferência de renda, isto é, os Bolsas da vida
A CPMF e o nojo da política
A CPMF não passou, Lula perdeu, a oposição parece que ganhou e eu achei o espetáculo grotesco. Por longos meses, esse assunto infame dominou as discussões politicas no país. O festival de populismo e escrotidão oferecido pelo governo e pela oposição foi o mais deprimente possível. É claro que o Brasil consegue sobreviver sem a CPMF. Controlar os gastos públicos e reduzir o tamanho do Estado são tarefas indispensáveis se o país quiser crescer a taxas mais fortes. Sem a CPMF, o governo terá de algum modo de enfrentar a questão fiscal. Provavelmente haverá menos contratações de funcionários públicos. Os reajustes salariais para os servidores serão menores. Com a economia crescendo 5%, a arrecadação deve continuar a aumentar com força, tornando mais fácil a tarefa do governo.
O ponto é que cortá-la definitivamente não me parece a solução mais racional. Acho que o ideal seria uma redução escalonada e rápida da alíquota – 0,3% em 2008, 0,2% em 2009, 0,1% em 2010, até que o tributo sumisse. Seria algo na linha do que o Fábio Giambiagi propôs em 2005. A queda da alíquota da CPMF poderia ser atrelada a alguma medida que impusesse um teto à expansão dos gastos públicos – eu sei que é algo difícil, porque é complicado implementar punições ao governo caso os limites não fossem cumpridos, mas seria um avanço importante. Do jeito que a coisa ficou, o governo não terá a CPMF, mas outros impostos vão aumentar.
Mas o que mais me incomodou no caso foi a atitude asquerosa dos políticos, tanto do governo quanto da oposição (sim, este é um post indignadinho). A chantagem de Lula, ao dizer que a oposição não queria o imposto porque ajuda os mais pobres, foi grotesca. Dizer que, sem a CPMF, o Bolsa Família corria riscos, é algo que iludiu apenas os incautos. O programa é barato. Custou, até os 12 meses terminados em outubro, 0,34% do PIB. Para comparar: os gastos com pessoal estão na casa de 4,6% do PIB, e as despesas com benefícios previdenciários atingem 7,2% do PIB. Foi chantagem. Foi ridículo. Foi populista.
A atitude da oposição não foi muito melhor. Ver tucanos e democratas (nome ridículo, de um partido ridículo, formado por políticos ridículos, é bom que nunca se esqueça) gritando contra o aumento da carga tributária é constrangedor. A carga tributária explodiu de fato no governo Fernando Henrique, quando pulou da casa de 27% para 34% do PIB (os números são aproximados e mudaram porque o PIB mudou, mas foi mais ou menos isso). A CPMF foi criada no governo FHC. De repente, surge uma súbita aversão à alta de impostos, como se tucanos e democratas nunca tivessem promovido nenhuma elevação da carga tributária. Eu não engulo esse tipo de desfaçatez (como também não engulo que o PT, que sempre votou contra a CPMF – e contra qualquer medida do governo Fernando Henrique – passe a defender o imposto com unhas e dentes).
Política é basicamente disputa pelo poder. Quem está lá não quer sair, quem está fora quer entrar. Tudo bem. Mas eu sou antiquado. Acho que a disputa pelo poder deve levar em conta o interesse do país, esse conceito vago, piegas e fora de moda. Política por aqui é feita como se isso não existisse. A votação da CPMF poderia ter sido uma oportunidade para discutir seriamente um plano fiscal de longo prazo. Mas isso não interessa nem ao governo nem à oposição, ainda que seja fundamental para o país. O negócio dos caras é promover esse espetáculo deprimente que nós assistimos por meses e meses. E pensar quantas horas eu perdi acompanhando as discussões da CPMF, em vez de ler o bom Edward Gibbon.
PS: Eu não poderia deixar de citar o desfile de seres lombrosianos que nos agrediram diariamente nos telejornais, com sua feiúra boschiana e sua retórica patética. Fica aqui a minha homenagem a gente como Mão Santa, Garibaldi Alves e Ideli Salvatti
A CPMF não passou, Lula perdeu, a oposição parece que ganhou e eu achei o espetáculo grotesco. Por longos meses, esse assunto infame dominou as discussões politicas no país. O festival de populismo e escrotidão oferecido pelo governo e pela oposição foi o mais deprimente possível. É claro que o Brasil consegue sobreviver sem a CPMF. Controlar os gastos públicos e reduzir o tamanho do Estado são tarefas indispensáveis se o país quiser crescer a taxas mais fortes. Sem a CPMF, o governo terá de algum modo de enfrentar a questão fiscal. Provavelmente haverá menos contratações de funcionários públicos. Os reajustes salariais para os servidores serão menores. Com a economia crescendo 5%, a arrecadação deve continuar a aumentar com força, tornando mais fácil a tarefa do governo.
O ponto é que cortá-la definitivamente não me parece a solução mais racional. Acho que o ideal seria uma redução escalonada e rápida da alíquota – 0,3% em 2008, 0,2% em 2009, 0,1% em 2010, até que o tributo sumisse. Seria algo na linha do que o Fábio Giambiagi propôs em 2005. A queda da alíquota da CPMF poderia ser atrelada a alguma medida que impusesse um teto à expansão dos gastos públicos – eu sei que é algo difícil, porque é complicado implementar punições ao governo caso os limites não fossem cumpridos, mas seria um avanço importante. Do jeito que a coisa ficou, o governo não terá a CPMF, mas outros impostos vão aumentar.
Mas o que mais me incomodou no caso foi a atitude asquerosa dos políticos, tanto do governo quanto da oposição (sim, este é um post indignadinho). A chantagem de Lula, ao dizer que a oposição não queria o imposto porque ajuda os mais pobres, foi grotesca. Dizer que, sem a CPMF, o Bolsa Família corria riscos, é algo que iludiu apenas os incautos. O programa é barato. Custou, até os 12 meses terminados em outubro, 0,34% do PIB. Para comparar: os gastos com pessoal estão na casa de 4,6% do PIB, e as despesas com benefícios previdenciários atingem 7,2% do PIB. Foi chantagem. Foi ridículo. Foi populista.
A atitude da oposição não foi muito melhor. Ver tucanos e democratas (nome ridículo, de um partido ridículo, formado por políticos ridículos, é bom que nunca se esqueça) gritando contra o aumento da carga tributária é constrangedor. A carga tributária explodiu de fato no governo Fernando Henrique, quando pulou da casa de 27% para 34% do PIB (os números são aproximados e mudaram porque o PIB mudou, mas foi mais ou menos isso). A CPMF foi criada no governo FHC. De repente, surge uma súbita aversão à alta de impostos, como se tucanos e democratas nunca tivessem promovido nenhuma elevação da carga tributária. Eu não engulo esse tipo de desfaçatez (como também não engulo que o PT, que sempre votou contra a CPMF – e contra qualquer medida do governo Fernando Henrique – passe a defender o imposto com unhas e dentes).
Política é basicamente disputa pelo poder. Quem está lá não quer sair, quem está fora quer entrar. Tudo bem. Mas eu sou antiquado. Acho que a disputa pelo poder deve levar em conta o interesse do país, esse conceito vago, piegas e fora de moda. Política por aqui é feita como se isso não existisse. A votação da CPMF poderia ter sido uma oportunidade para discutir seriamente um plano fiscal de longo prazo. Mas isso não interessa nem ao governo nem à oposição, ainda que seja fundamental para o país. O negócio dos caras é promover esse espetáculo deprimente que nós assistimos por meses e meses. E pensar quantas horas eu perdi acompanhando as discussões da CPMF, em vez de ler o bom Edward Gibbon.
PS: Eu não poderia deixar de citar o desfile de seres lombrosianos que nos agrediram diariamente nos telejornais, com sua feiúra boschiana e sua retórica patética. Fica aqui a minha homenagem a gente como Mão Santa, Garibaldi Alves e Ideli Salvatti
dezembro 15, 2007
Eu, udenista, ressentido?
Uma das coisas boas de blog é que dá para ser bem menos dono da verdade do que se eu fosse um, sei lá, colunista de grande jornal ou revista. Ou melhor dizendo, dá para não ser dono da verdade ao longo do tempo, mas dá para ser muito dono da verdade num determinado instante. Dá para afirmar com grande convicção e pomposos efeitos retóricos alguma coisa, e pouco tempo depois duvidar dela. Enquanto um colunista de jornal tem de manter uma estabilidade de opiniões que, em última instância, leva à moderação – este supremo soporífero.
Este intróito é para dizer que às vezes eu questiono minhas próprias posições políticas. Mesmo aquelas que, como no caso da CPMF, eu bombardeei em cima de vocês numa fieira indigesta de posts. E também para admitir que tenho minhas obsessões. Ler e comentar os posts do Alon é uma delas. É curioso, eu já tive acessos de cólera quando ele defendeu em mais de uma ocasião o Stálin, mas continuo lendo porque acho que é dos poucos comentaristas políticos de fato inteligentes porraí.
Bem, o Alon teceu duas análises políticas que particularmente se engastaram nas minhas reflexões. No fundo as duas chegam ao mesmo lugar. Vou explicá-las de forma bem esquemática. A primeira, na campanha eleitoral, veio depois que as intenções de voto do Alckmin despencaram no início do segundo turno, na esteira de, entre outras coisas, aquele debate em que o picolé de chuchu virou macho e estapeou com vontade o Lula.
A interpretação do Alon é de que, quando o PSDB vai naquela linha agressiva, udenista-lacerdista, plena de ira moralista de classe média, o partido repele o povão, perde votos e condena-se ao fracasso.
Uma das coisas boas de blog é que dá para ser bem menos dono da verdade do que se eu fosse um, sei lá, colunista de grande jornal ou revista. Ou melhor dizendo, dá para não ser dono da verdade ao longo do tempo, mas dá para ser muito dono da verdade num determinado instante. Dá para afirmar com grande convicção e pomposos efeitos retóricos alguma coisa, e pouco tempo depois duvidar dela. Enquanto um colunista de jornal tem de manter uma estabilidade de opiniões que, em última instância, leva à moderação – este supremo soporífero.
Este intróito é para dizer que às vezes eu questiono minhas próprias posições políticas. Mesmo aquelas que, como no caso da CPMF, eu bombardeei em cima de vocês numa fieira indigesta de posts. E também para admitir que tenho minhas obsessões. Ler e comentar os posts do Alon é uma delas. É curioso, eu já tive acessos de cólera quando ele defendeu em mais de uma ocasião o Stálin, mas continuo lendo porque acho que é dos poucos comentaristas políticos de fato inteligentes porraí.
Bem, o Alon teceu duas análises políticas que particularmente se engastaram nas minhas reflexões. No fundo as duas chegam ao mesmo lugar. Vou explicá-las de forma bem esquemática. A primeira, na campanha eleitoral, veio depois que as intenções de voto do Alckmin despencaram no início do segundo turno, na esteira de, entre outras coisas, aquele debate em que o picolé de chuchu virou macho e estapeou com vontade o Lula.
A interpretação do Alon é de que, quando o PSDB vai naquela linha agressiva, udenista-lacerdista, plena de ira moralista de classe média, o partido repele o povão, perde votos e condena-se ao fracasso.
A segunda análise, mote deste post aqui, é fresquinha, discute o fim da CPMF e vai na mesma linha. O partido raivoso e rabugento de Arthur Virgílio, cheio de indignação de que o resultado da labuta da classe média seja crescentemente canalizado na forma de impostos para financiar Bolsa-Família e saúde pra zé-povinho, é um projeto político perdedor.
Bem, eu sei que o Alon já trabalhou com o PSDB e o PT, nessa ordem, mas a minha impressão é de que alma dele é petistazinha da silva. Então, quando eu leio aquelas análises, é inevitável a sensação de que, mais do que o sucesso do PSDB, os conselhos do Alon aos tucanos, se seguidos, seriam muito úteis ao PT.
Acontece que, sendo tudo muito complexo (eita clichezinho safado), é possível que, mesmo que as análises do Alon sobre o PSDB sejam muito interesseiras, consciente ou inconscientemente, elas possam ter um fundo de verdade. Em outras palavras, é possível de fato que os tucanos percam votos, talvez até muitos votos, e se estigmatizem junto ao povão, quando fazem coisas como partir para cima do Lula num debate eleitoral ou votar contra a CPMF. É possível que a pecha de “partido que rouba o dinheiro da saúde dos pobres” grude nos tucanos para a eternidade. É possível? Sei lá. Mas saber lá já é sinal de que não acho impossível.
Porque, no fundo, a satisfação que senti naqueles dois momentos têm um componente interno, que eu claramente identifico como vingativo e rancoroso. O fato é o seguinte: eu tenho raiva do PT (um amigo meu dizia que ter raiva é coisa de bicha, que macho sente ódio – mas ódio também é coisa de bicha, convenhamos, e, de qualquer forma, eu sou um péssimo odiador). Mas o fato é que há elementos de sede de vingança na minha bronca do PT. Eu acho que tenho montanhas de motivos para tanto, mas só de pensar em listá-los já me dá uma desânimo de bigornas carregadas no lombo. Resumindo: quando eu acreditava e torcia pelo governo FHC, e mesmo antes, sempre que qualquer governo tentava fazer qualquer coisa sensata na seara econômica, eu assistia ao espetáculo deprimente do PT caluniando, sabotando, propondo demagogias grotescas, etc. Isto acumula ressentimento, sem dúvida.
Bem, e chegamos ao governo Lula. Com o advento do paloccismo, eu me vi transportado a um nirvana cívico inesperado – o capeta posteriormente desmascarado fez um trabalho totalmente duca na Fazenda, melhor do que o dos neolibs do FH. Os resultados estão aí hoje, com a economia bombando a 5%. Mas, para minha grande decepção, pouco antes das coisas começarem a ficar boas de verdade, o Palocci caiu e o Lula resolveu dar uma guinada populista-estatista no discurso. E é tremendamente irritante ver todas as glórias do melhor momento econômico nacional em muito tempo recaírem sobre a penca de half-wits que durante décadas combateu todas as políticas que estão na raiz do sucesso atual. É de doer. E é de fazer com que uma coisinha qualquer perversa lá dentro chegue perto de torcer contra, de desejar que algo dê errado para acabar com a euforia das bestas sortudas.
E então, será que é tudo isso que explica a minha felicidade pelo fim da CPMF? Será que estou sendo movido apenas por mesquinhos ressentimentos udenistas contra o sucesso dum iletrado no poder? E, ao apoiar posturas rancorosas e vingativas do PSDB, estarei contribuindo com a minha gotinha d’água para o enterro definitivo de uma alternativa política ao populismo petista?
Não seria mais sensato cair no extremo oposto à paranóia olavista, e gratificar-me confortavelmente com o fato de que os enragés no poder estão no geral fazendo muito bem para o desenvolvimento capitalista no Brasil? – com uma chateaçãozinha aqui, outra ali, mas ficar ranhetando com detalhes é coisa de velho ranzinza. Se eu tivesse muuuiiito dinheiro na Bolsa, certamente esta seria a minha postura. Passaria as tardes na praia de Ipanema lendo debaixo de uma barraca, com entremeios de mergulhos estratégicos para maximizar o prazer da função frio-calor num dia quente com a água do mar gelada. A arte zen de ler na praia com mergulhos periódicos. CPMF? Que CPMF? Tão votando alguma CPMF?
Eu fui tão longe nesse preâmbulo-com-a-defesa-da-tese-oposta-à-verdadeira-tese que agora está ficando difícil voltar atrás e desenvolver o ‘por outro lado’. Mas não posso encerrar este post sem o poroutrolado. Vou resumi-lo muito. Por outro lado, o PT cresceu e chegou ao poder odiando, ressentindo-se e entregando-se à volúpia dos baixos prazeres da política. Por outro lado, política talvez seja assim mesmo, e o PSDB deva mesmo se deixar carregar pelos seus instintos mais selvagens, intransigentes, perversos. Por outro lado, o Lula com a CPMF iria se sentir o novo imperador do Brasil, e é até possível que em grande parte se tornasse o novo imperador do Brasil. Por outro lado, acertar pelos menos uma bem no meio das fuças do Guia Genial, num momento em que o sucesso está latejando quente na cabeça presidencial, e ele está tão propenso ao overacting, não pode ser tão ruim assim para o País. Por outro lado, em política é preciso às vezes demarcar claramente o terreno e sair de cima do muro e, afinal de contas, há um eleitorado no Brasil puto com a combinação de impostos escorchantes e serviços públicos que são um deboche.
E tem, finalmente, um grande poroutrolado econômico (e foda-se o futuro do PSDB). Um pouco menos de imposto (e é só um pouco mesmo, diante da barbaridade que a arrecadação está crescendo) significa um pouco menos de descontrole na despesa pública. Significa que os caras vão ter que sentar, pensar, pesar, racionalizar. O péssimo funcionamento do setor público é talvez o maior problema brasileiro. E cortar o ecstasy
presidencial talvez ajude a começar a resolvê-lo.
PS: Mas a verdadeira mensagem deste post é que eu estou na dúvida
dezembro 14, 2007
Por que eles queriam CPMF
14/12/2007 - 18h23
Lula defende reajuste salarial e contratações no serviço público
REGIANE SOARES
da Folha Online
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu nesta sexta-feira novas contratações no serviço público federal e salários mais altos. Lula disse que "apanha" da imprensa quase todos os dias por "inchar a máquina" administrativa e sugeriu aos servidores que façam passeatas pedindo mais funcionários.
"O que eu lamento é que, às vezes, eu apanho pela imprensa todo dia: 'porque o Lula está contratando mais gente, o Lula está inchando a máquina'. E vocês [servidores] não fazem uma passeata dizendo: 'contrata mais, contrata mais'", afirmou o presidente, durante a inauguração da primeira agência da Previdência Social especializada em benefícios por incapacidade, em São Paulo.
Lula também admitiu que os servidores públicos "ganham mal", e defendeu salários mais altos e maiores condições de trabalho. "É preciso acabar com essa mania de que os funcionários públicos federais ganham bem. Na verdade, quase todos ganham mal", afirmou o presidente.
Durante seu discurso, Lula contou um caso de um servidor que trocou um salário de R$ 26 mil na Petrobras para receber R$ 200 mil na iniciativa privada, com dois anos pagos adiantados. "Aí não é marajá. É eficiente", comentou.
Não é a saúde não. São os salários do funcionalismo
14/12/2007 - 18h23
Lula defende reajuste salarial e contratações no serviço público
REGIANE SOARES
da Folha Online
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu nesta sexta-feira novas contratações no serviço público federal e salários mais altos. Lula disse que "apanha" da imprensa quase todos os dias por "inchar a máquina" administrativa e sugeriu aos servidores que façam passeatas pedindo mais funcionários.
"O que eu lamento é que, às vezes, eu apanho pela imprensa todo dia: 'porque o Lula está contratando mais gente, o Lula está inchando a máquina'. E vocês [servidores] não fazem uma passeata dizendo: 'contrata mais, contrata mais'", afirmou o presidente, durante a inauguração da primeira agência da Previdência Social especializada em benefícios por incapacidade, em São Paulo.
Lula também admitiu que os servidores públicos "ganham mal", e defendeu salários mais altos e maiores condições de trabalho. "É preciso acabar com essa mania de que os funcionários públicos federais ganham bem. Na verdade, quase todos ganham mal", afirmou o presidente.
Durante seu discurso, Lula contou um caso de um servidor que trocou um salário de R$ 26 mil na Petrobras para receber R$ 200 mil na iniciativa privada, com dois anos pagos adiantados. "Aí não é marajá. É eficiente", comentou.
Não é a saúde não. São os salários do funcionalismo
dezembro 13, 2007
O anti-mulher-de-malandro
Eu coloquei o comentário abaixo neste post do Alon. E aí deu vontade de replicar aqui. Para entender melhor, tem que ler o post dele lá:
Este discurso demonizador do PSDB no post (destruir o sistema de Saúde no País por causa do fim da CPMF, quando a economia cresce acima de 5% e a arrecadação explode?) é mais uma demonstração de como o PT age, e de por que o PSDB jamais deve ouvir "conselhos" vindos de quem, de fato, gostaria que o partido tucano acabasse ou que, no máximo, se tornasse uma linha auxiliar num projeto nacional-estatizante-populista petista, 100% contrário a tudo o que o PSDB representa.
Nesse post, Alon, você destila (só que com uma elegância muito acima da média petista) todo o ódio ao PSDB e ao FH que caracterizou o PT durante os oito anos de governo tucano.
Os tucanos e demistas tem a minoria dos eleitores brasileiros. Mas é uma minoria que tem uma clara visão de um projeto de modernização capitalista, com um levíssimo verniz liberal na economia, e que é basicamente social-democrata em termos de concepção de Estado. Bem, eu botei o Dem aí porque eles estão no barco, embora nunca ninguém tenha levado muito a sério (nem eu).
A partir da saída do Palocci, do segundo turno da campanha eleitoral e do início do segundo mandato, especialmente, Lula rompeu 100% com aquela visão descrita acima. É verdade que a ruptura se deu muito mais no discurso do que na prática, mas, em política e ideologia, o discurso de hoje pode muito bem ser a prática de amanhã.
Lula minou conscientemente o terreno comum. Eu acho até admirável. Se eu quisesse inclinar o pais numa direção estatista e populista, e tivesse apoio da grande maioria da população, eu faria mais ou menos o mesmo: romperia com aliados da modernização capitalista, e mostraria claramente ao que vim.
A coisa irritante no Lula/PT é que eles minam o terreno comum e querem que o ex-aliado potencial permaneça no campo minado.
A única atitude digna para o PSDB, mesmo que seu eleitorado caia para 5%, é permanecer onde sempre esteve, como partido social-democrata anti-populista e pós-getulista. Ajudar o Lula no momento em que este tenta guinar para um certo esquerdismo populista seria trair o eleitorado tucano. Que é, evidentemente, o que 100% dos analistas políticos simpatizantes do PT gostariam que o PSDB fizesse
Eu coloquei o comentário abaixo neste post do Alon. E aí deu vontade de replicar aqui. Para entender melhor, tem que ler o post dele lá:
Este discurso demonizador do PSDB no post (destruir o sistema de Saúde no País por causa do fim da CPMF, quando a economia cresce acima de 5% e a arrecadação explode?) é mais uma demonstração de como o PT age, e de por que o PSDB jamais deve ouvir "conselhos" vindos de quem, de fato, gostaria que o partido tucano acabasse ou que, no máximo, se tornasse uma linha auxiliar num projeto nacional-estatizante-populista petista, 100% contrário a tudo o que o PSDB representa.
Nesse post, Alon, você destila (só que com uma elegância muito acima da média petista) todo o ódio ao PSDB e ao FH que caracterizou o PT durante os oito anos de governo tucano.
Os tucanos e demistas tem a minoria dos eleitores brasileiros. Mas é uma minoria que tem uma clara visão de um projeto de modernização capitalista, com um levíssimo verniz liberal na economia, e que é basicamente social-democrata em termos de concepção de Estado. Bem, eu botei o Dem aí porque eles estão no barco, embora nunca ninguém tenha levado muito a sério (nem eu).
A partir da saída do Palocci, do segundo turno da campanha eleitoral e do início do segundo mandato, especialmente, Lula rompeu 100% com aquela visão descrita acima. É verdade que a ruptura se deu muito mais no discurso do que na prática, mas, em política e ideologia, o discurso de hoje pode muito bem ser a prática de amanhã.
Lula minou conscientemente o terreno comum. Eu acho até admirável. Se eu quisesse inclinar o pais numa direção estatista e populista, e tivesse apoio da grande maioria da população, eu faria mais ou menos o mesmo: romperia com aliados da modernização capitalista, e mostraria claramente ao que vim.
A coisa irritante no Lula/PT é que eles minam o terreno comum e querem que o ex-aliado potencial permaneça no campo minado.
A única atitude digna para o PSDB, mesmo que seu eleitorado caia para 5%, é permanecer onde sempre esteve, como partido social-democrata anti-populista e pós-getulista. Ajudar o Lula no momento em que este tenta guinar para um certo esquerdismo populista seria trair o eleitorado tucano. Que é, evidentemente, o que 100% dos analistas políticos simpatizantes do PT gostariam que o PSDB fizesse
dezembro 11, 2007
A condescendência com os bárbaros
Eu estou lendo Declínio e queda do império romano, na tradução de José Paulo Paes, que tem fama de ter sido um bom tradutor. Li uns trechos em inglês na internet, e a versão de Paes me pareceu bastante boa. O estilo de Edward Gibbon é realmente saboroso, e bastante apropriado para narrar a história romana. Uma das coisas mais interessantes são os juízos de valor emitidos por ele. O texto não tem nada que lembre remotamente o politicamente correto. Um dos trechos que mais me divertiram é uma frase banal, quase sem importância, mas que dá uma medida do estilo de Gibbon: “Uma cidade por eles fundada pode ainda ser vista perto de Mequinez, a residência do bárbaro a quem condescendemos em chamar imperador do Marrocos”. Esse me pareceu o tom perfeito para falar dos grandes personagens da nossa época. Não ficaria lindo ler uma frase como “Chávez, o bárbaro a quem condescendemos em chamar presidente da Venezuela"?
Eu estou lendo Declínio e queda do império romano, na tradução de José Paulo Paes, que tem fama de ter sido um bom tradutor. Li uns trechos em inglês na internet, e a versão de Paes me pareceu bastante boa. O estilo de Edward Gibbon é realmente saboroso, e bastante apropriado para narrar a história romana. Uma das coisas mais interessantes são os juízos de valor emitidos por ele. O texto não tem nada que lembre remotamente o politicamente correto. Um dos trechos que mais me divertiram é uma frase banal, quase sem importância, mas que dá uma medida do estilo de Gibbon: “Uma cidade por eles fundada pode ainda ser vista perto de Mequinez, a residência do bárbaro a quem condescendemos em chamar imperador do Marrocos”. Esse me pareceu o tom perfeito para falar dos grandes personagens da nossa época. Não ficaria lindo ler uma frase como “Chávez, o bárbaro a quem condescendemos em chamar presidente da Venezuela"?
El horror, el horror
A América Latina é um continente injusto e caótico, mas eu não esperava que chegássemos tão baixo, ao ponto de que um seqüestrador ocupe a presidência de um dos grandes países da região, com os seqüestrados ainda em cativeiro. É um absurdo, um crime, um, um... sei lá, uma coisa horrível e grotesca.
Eu me junto às vozes de tantos outros latino-americanos neste momento negro da nuestra história:
PRESIDENTE URIBE, EXIGIMOS A LIBERTAÇÃO IMEDIATA DE INGRID BETANCOURT!!!!!!
A América Latina é um continente injusto e caótico, mas eu não esperava que chegássemos tão baixo, ao ponto de que um seqüestrador ocupe a presidência de um dos grandes países da região, com os seqüestrados ainda em cativeiro. É um absurdo, um crime, um, um... sei lá, uma coisa horrível e grotesca.
Eu me junto às vozes de tantos outros latino-americanos neste momento negro da nuestra história:
PRESIDENTE URIBE, EXIGIMOS A LIBERTAÇÃO IMEDIATA DE INGRID BETANCOURT!!!!!!
dezembro 07, 2007
Últimas palavras sobre um assunto chatíssimo
Eu gosto de tiradas liberais. Elas têm aquele quê de realismo profundo e anti-sentimental que, em Economia, é realismo mesmo (em outras esferas da vida o anti-sentimentalisto pode ser irrealista). Tem aquele dito de que "a receita causa o gasto". Em outras palavras, sempre que os impostos sobem, o governo inventa um jeito de gastar mais ainda. É simples, intuitivo, e tem como corolário que a única forma de se conter a expansão do governo e a derrama sobre a cidadania é parar de transferir tributos crescentes para Brasília. Agora imaginem o seguinte diálogo entre mim e um liberal de boa cepa, que tenha todas as idéias acima bem organizadinhas na cabeça, em algum momento de 2002 ou do início de 2003. Imaginemos também que houvesse algum imposto novo prestes a ser aprovado, para tapar o buraco de então nas contas públicas brasileiras.
Liberal - Eu sou contra este novo imposto, porque "a receita causa o gasto", e a única forma de conter este Estado perdulário, que já levou a carga tributária de vinte e poucos por cento do PIB para mais de trinta em uma década, é deixá-lo à míngua mesmo.
Eu - Concordo com tudo o que você disse e até com o que você não disse, em tese, porque os liberais geralmente têm razão em Economia. Mas ainda assim torço para que o imposto seja aprovado, porque não há nada pior do que o país quebrar.
Liberal - A única forma do Estado parar de gastar é fechar a torneira dos impostos. Eles vão ser obrigados a cortar despesa, no peito e na marra. Vai ver nem quebra. E,se quebrar, pode ser ruim no curto prazo, mas se a gente corta o oxigênio vai ser melhor a longo prazo.
Eu - Tudo menos quebrar. Olha aqui, ô liberal, pode ser o pior imposto do mundo, eu sou a favor. O governo não vai cortar despesa numa velocidade suficiente para fazer frente à falta de receita. E vai quebrar. Olha, se alguém me disser que a única forma de não quebrar é inventar um imposto que seja assim - o Bope invade a casa das famílias ricas e de classe média alta, mete bala na testa de todo mundo, e o governo mete a mão na bufunfa -, eu sou a favor. Tudo, vale tudo mesmo, tudo tudo, para não quebrar.
Liberal - E se invadirem a sua casa?
Eu - Não fode, liberal, vamos às putas
Cortina rápida. Passam-se cinco anos, e estamos em dezembro de 2007, com o Senado pendurado na aprovação ou não da CPMF. Não vou cansá-los com mais um diálogo meia-bomba. O que houve é que houve uma ruptura epistemológica entre os dois momentos (estou usando epistemológico só pelo efeito dramático, não encham o saco). Hoje, já não há o menor risco do Brasil quebrar por causa da não-aprovação de um imposto qualquer. Então toda a minha resistência aos argumentos de outrora do liberal (baseadas na suprema aversão ao vexame e ao desastre de quebrar, equivalente ao sujeito se cagar todo numa festa com uma roupa meio transparente) já não tem sentido. Os argumentos liberais eternos tornam-se novamente o imperativo lógico da discussão. Não há como discordar não-apelativamente de que a receita causa o gasto, e de que a aprovação do CPMF vai fazer o governo Lula entrar num despiroco ainda maior de despesas megalomaníacas e danosas à saúde da economia. É por isso que eu, que sempre fui um hipocondríaco econômico, agora me despreocupei desse lado. Por outro lado, a minha hipoconcria política e ideológica piorou. É preciso conter o delírio lulista. Abaixo a CPMF
Eu gosto de tiradas liberais. Elas têm aquele quê de realismo profundo e anti-sentimental que, em Economia, é realismo mesmo (em outras esferas da vida o anti-sentimentalisto pode ser irrealista). Tem aquele dito de que "a receita causa o gasto". Em outras palavras, sempre que os impostos sobem, o governo inventa um jeito de gastar mais ainda. É simples, intuitivo, e tem como corolário que a única forma de se conter a expansão do governo e a derrama sobre a cidadania é parar de transferir tributos crescentes para Brasília. Agora imaginem o seguinte diálogo entre mim e um liberal de boa cepa, que tenha todas as idéias acima bem organizadinhas na cabeça, em algum momento de 2002 ou do início de 2003. Imaginemos também que houvesse algum imposto novo prestes a ser aprovado, para tapar o buraco de então nas contas públicas brasileiras.
Liberal - Eu sou contra este novo imposto, porque "a receita causa o gasto", e a única forma de conter este Estado perdulário, que já levou a carga tributária de vinte e poucos por cento do PIB para mais de trinta em uma década, é deixá-lo à míngua mesmo.
Eu - Concordo com tudo o que você disse e até com o que você não disse, em tese, porque os liberais geralmente têm razão em Economia. Mas ainda assim torço para que o imposto seja aprovado, porque não há nada pior do que o país quebrar.
Liberal - A única forma do Estado parar de gastar é fechar a torneira dos impostos. Eles vão ser obrigados a cortar despesa, no peito e na marra. Vai ver nem quebra. E,se quebrar, pode ser ruim no curto prazo, mas se a gente corta o oxigênio vai ser melhor a longo prazo.
Eu - Tudo menos quebrar. Olha aqui, ô liberal, pode ser o pior imposto do mundo, eu sou a favor. O governo não vai cortar despesa numa velocidade suficiente para fazer frente à falta de receita. E vai quebrar. Olha, se alguém me disser que a única forma de não quebrar é inventar um imposto que seja assim - o Bope invade a casa das famílias ricas e de classe média alta, mete bala na testa de todo mundo, e o governo mete a mão na bufunfa -, eu sou a favor. Tudo, vale tudo mesmo, tudo tudo, para não quebrar.
Liberal - E se invadirem a sua casa?
Eu - Não fode, liberal, vamos às putas
Cortina rápida. Passam-se cinco anos, e estamos em dezembro de 2007, com o Senado pendurado na aprovação ou não da CPMF. Não vou cansá-los com mais um diálogo meia-bomba. O que houve é que houve uma ruptura epistemológica entre os dois momentos (estou usando epistemológico só pelo efeito dramático, não encham o saco). Hoje, já não há o menor risco do Brasil quebrar por causa da não-aprovação de um imposto qualquer. Então toda a minha resistência aos argumentos de outrora do liberal (baseadas na suprema aversão ao vexame e ao desastre de quebrar, equivalente ao sujeito se cagar todo numa festa com uma roupa meio transparente) já não tem sentido. Os argumentos liberais eternos tornam-se novamente o imperativo lógico da discussão. Não há como discordar não-apelativamente de que a receita causa o gasto, e de que a aprovação do CPMF vai fazer o governo Lula entrar num despiroco ainda maior de despesas megalomaníacas e danosas à saúde da economia. É por isso que eu, que sempre fui um hipocondríaco econômico, agora me despreocupei desse lado. Por outro lado, a minha hipoconcria política e ideológica piorou. É preciso conter o delírio lulista. Abaixo a CPMF
dezembro 06, 2007
Diálogos improváveis
Enlouquecido pela proximidade da mudança de casa e por uma viagem de última hora para Recife, eu não tive tempo de relatar o grande evento do sábado passado: o debate que eu e o Idelber travamos no Filial, em São Paulo. Em pouco mais de duas horas, nós tivemos uma discussão franca e divertida, uma batalha de idéias entre um blogueiro de esquerda e um de direita (eu acho que sou de centro ou centro-direita, mas, como eu mesmo disse ao Idelber, ninguém nunca comeu alguém se dizendo de centro. É melhor se dizer de direita).
O diálogo do século foi gravado e, assim que for digitalizado, eu vou postá-lo aqui no Torre de Marfim. O Idelber fará o mesmo no Biscoito. Eu gostei muito. Além de inteligente, o Idelber mostrou que tem um prazer verdadeiro em discutir. Nós discordamos bastante, concordamos um pouco e até surpreendemos um ao outro em alguns momentos. Como o Idelber contou por lá, eu mostrei simpatia pelo Bolsa Família, enquanto ele defendeu que sejam adotados mecanismos que incentivem a produtividade de funcionários públicos. Um ponto importante: o diálogo deixou claro que nós dois temos convicções democráticas. Ah: como eu sou jornalista, no começo do debate eu agi inconscientemente mais como entrevistador do que como debatedor. Tentei pressionar o Idelber com intervenções curtas e incisivas. Depois de um tempo, acho que assumi o papel de debatedor.
O fundamental é que, em duas horas de debate e em mais duas de bate-papo, nós nos tornamos amigos. A impressão é que nós nos conhecíamos há décadas. O encontro reforçou algo em que eu acredito há muito tempo: apenas os cretinos escolhem os amigos por afinidades ideológicas. Eu já fiquei com vontade de gravar outro. Quem sabe eu não dou um pulo em New Orleans só para discordar um pouco mais do Idelber?
Enlouquecido pela proximidade da mudança de casa e por uma viagem de última hora para Recife, eu não tive tempo de relatar o grande evento do sábado passado: o debate que eu e o Idelber travamos no Filial, em São Paulo. Em pouco mais de duas horas, nós tivemos uma discussão franca e divertida, uma batalha de idéias entre um blogueiro de esquerda e um de direita (eu acho que sou de centro ou centro-direita, mas, como eu mesmo disse ao Idelber, ninguém nunca comeu alguém se dizendo de centro. É melhor se dizer de direita).
O diálogo do século foi gravado e, assim que for digitalizado, eu vou postá-lo aqui no Torre de Marfim. O Idelber fará o mesmo no Biscoito. Eu gostei muito. Além de inteligente, o Idelber mostrou que tem um prazer verdadeiro em discutir. Nós discordamos bastante, concordamos um pouco e até surpreendemos um ao outro em alguns momentos. Como o Idelber contou por lá, eu mostrei simpatia pelo Bolsa Família, enquanto ele defendeu que sejam adotados mecanismos que incentivem a produtividade de funcionários públicos. Um ponto importante: o diálogo deixou claro que nós dois temos convicções democráticas. Ah: como eu sou jornalista, no começo do debate eu agi inconscientemente mais como entrevistador do que como debatedor. Tentei pressionar o Idelber com intervenções curtas e incisivas. Depois de um tempo, acho que assumi o papel de debatedor.
O fundamental é que, em duas horas de debate e em mais duas de bate-papo, nós nos tornamos amigos. A impressão é que nós nos conhecíamos há décadas. O encontro reforçou algo em que eu acredito há muito tempo: apenas os cretinos escolhem os amigos por afinidades ideológicas. Eu já fiquei com vontade de gravar outro. Quem sabe eu não dou um pulo em New Orleans só para discordar um pouco mais do Idelber?
dezembro 03, 2007
A lenta marcha da civilização
A Venezuela derrota a constituição ditatorial do Chávez, 65% dos brasileiros são contra a trileição... não é que os cucarachos tamos aprendendo democracia, sô!
A Venezuela derrota a constituição ditatorial do Chávez, 65% dos brasileiros são contra a trileição... não é que os cucarachos tamos aprendendo democracia, sô!



Tá lá a Benazir fazendo comício, vem um cara, fuzila-a, se explode e leva mais 20 otários juntos. Pronto, cacete. Devemos voltar nossas atenções ao Paquistão. Aí a gente começa a ler artigos, comentários em blogs, começa a prestar atenção nas notícias sobre o país. Surgem textos alentados, como um do Tariq Ali que o Idelber me mandou, e que ainda não li. Bem, eu, sem ter lido nada muito de Paquistão, já tasquei um post resumindo meus pensamentos sobre a situação. E aí me ocorreu o seguinte. Talvez a melhor opção seja esta mesmo. Só saber o básico, estar muito cru no assunto, pegar o fato no que ele tem de mais elementar, e reagir com as entranhas e os preconceitos - ou, se preferir, com entranhados preconceitos. Volto ao começo. Tá lá a Benazir fazendo comício, vem um cara, fuzila-a, se explode e leva mais 20 otários juntos. A gente conhece mais ou menos a história do Paquistão. É sempre um eterno retorno disso mesmo. Pessoas matando as lideranças políticas relevantes, explodindo-se e levando o maior número possível de otários juntos. Bem, eu não sei se vou ler ou não o texto do Tariq Ali, mas talvez o melhor que eu possa fazer em relação ao Paquistão é algo na linha "vocês são todos uns merdas e vão para a puta que o pariu antes que eu me esqueça". Ora, quien soy yo, nenhum paquistanês vai me ouvir. Mas acho que esta seria a mais salutar reação da opinião pública mundial ao Paquistão. Simplesmente manifestar a repulsa pela coisa horrorosa que eles são politicamente. Se eu fosse o Paquistão, acho que esta seria a melhor forma de me fazerem melhorar: as pessoas me dizerem, sem frescuras, que eu sou um merda. Eu sentiria que não tem fuga nem escape dentro da merda que eu sou. Que eu não vou enrolar ninguém, que não adianta trazer as pessoas para perto, ficar íntimo delas, explicar meus motivos, minha razão, ir "naturalizando" (rá rá, roubei essa da esquerda e estou jogando de volta nos cornos dela) um homem-bomba aqui, um assassinato político ali, um clitoris arrancado acolá. Porque isto é um pouco a conseqüência de se mergulhar profundamente nos estudos destas regiões, geográficas ou sociais, em que os homens agem feito bestas. A gente vai entendendo, relativizando, ponderando, envolvendo-se, até o ponto em que eu consigo entender os motivos do Comando Vermelho para botar um rival do Terceiro Comando no micro-ondas, ou vejo um fundo de justiça no sujeito que serrou a cabeça do outro com faquinha de sobremesa e colocou o vídeo na Internet. Nestas horas, talvez o melhor seja reagir com uma combinação de preconceito, fígado, ignorância e, por que não dizer, intolerância