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Uma das coisas boas de blog é que dá para ser bem menos dono da verdade do que se eu fosse um, sei lá, colunista de grande jornal ou revista. Ou melhor dizendo, dá para não ser dono da verdade ao longo do tempo, mas dá para ser muito dono da verdade num determinado instante. Dá para afirmar com grande convicção e pomposos efeitos retóricos alguma coisa, e pouco tempo depois duvidar dela. Enquanto um colunista de jornal tem de manter uma estabilidade de opiniões que, em última instância, leva à moderação – este supremo soporífero.
Este intróito é para dizer que às vezes eu questiono minhas próprias posições políticas. Mesmo aquelas que, como no caso da CPMF, eu bombardeei em cima de vocês numa fieira indigesta de posts. E também para admitir que tenho minhas obsessões. Ler e comentar os posts do Alon é uma delas. É curioso, eu já tive acessos de cólera quando ele defendeu em mais de uma ocasião o Stálin, mas continuo lendo porque acho que é dos poucos comentaristas políticos de fato inteligentes porraí.
Bem, o Alon teceu duas análises políticas que particularmente se engastaram nas minhas reflexões. No fundo as duas chegam ao mesmo lugar. Vou explicá-las de forma bem esquemática. A primeira, na campanha eleitoral, veio depois que as intenções de voto do Alckmin despencaram no início do segundo turno, na esteira de, entre outras coisas, aquele debate em que o picolé de chuchu virou macho e estapeou com vontade o Lula.
A interpretação do Alon é de que, quando o PSDB vai naquela linha agressiva, udenista-lacerdista, plena de ira moralista de classe média, o partido repele o povão, perde votos e condena-se ao fracasso.
A segunda análise, mote deste post aqui, é fresquinha, discute o fim da CPMF e vai na mesma linha. O partido raivoso e rabugento de Arthur Virgílio, cheio de indignação de que o resultado da labuta da classe média seja crescentemente canalizado na forma de impostos para financiar Bolsa-Família e saúde pra zé-povinho, é um projeto político perdedor.
Bem, eu sei que o Alon já trabalhou com o PSDB e o PT, nessa ordem, mas a minha impressão é de que alma dele é petistazinha da silva. Então, quando eu leio aquelas análises, é inevitável a sensação de que, mais do que o sucesso do PSDB, os conselhos do Alon aos tucanos, se seguidos, seriam muito úteis ao PT.
Acontece que, sendo tudo muito complexo (eita clichezinho safado), é possível que, mesmo que as análises do Alon sobre o PSDB sejam muito interesseiras, consciente ou inconscientemente, elas possam ter um fundo de verdade. Em outras palavras, é possível de fato que os tucanos percam votos, talvez até muitos votos, e se estigmatizem junto ao povão, quando fazem coisas como partir para cima do Lula num debate eleitoral ou votar contra a CPMF. É possível que a pecha de “partido que rouba o dinheiro da saúde dos pobres” grude nos tucanos para a eternidade. É possível? Sei lá. Mas saber lá já é sinal de que não acho impossível.
Porque, no fundo, a satisfação que senti naqueles dois momentos têm um componente interno, que eu claramente identifico como vingativo e rancoroso. O fato é o seguinte: eu tenho raiva do PT (um amigo meu dizia que ter raiva é coisa de bicha, que macho sente ódio – mas ódio também é coisa de bicha, convenhamos, e, de qualquer forma, eu sou um péssimo odiador). Mas o fato é que há elementos de sede de vingança na minha bronca do PT. Eu acho que tenho montanhas de motivos para tanto, mas só de pensar em listá-los já me dá uma desânimo de bigornas carregadas no lombo. Resumindo: quando eu acreditava e torcia pelo governo FHC, e mesmo antes, sempre que qualquer governo tentava fazer qualquer coisa sensata na seara econômica, eu assistia ao espetáculo deprimente do PT caluniando, sabotando, propondo demagogias grotescas, etc. Isto acumula ressentimento, sem dúvida.
Bem, e chegamos ao governo Lula. Com o advento do paloccismo, eu me vi transportado a um nirvana cívico inesperado – o capeta posteriormente desmascarado fez um trabalho totalmente duca na Fazenda, melhor do que o dos neolibs do FH. Os resultados estão aí hoje, com a economia bombando a 5%. Mas, para minha grande decepção, pouco antes das coisas começarem a ficar boas de verdade, o Palocci caiu e o Lula resolveu dar uma guinada populista-estatista no discurso. E é tremendamente irritante ver todas as glórias do melhor momento econômico nacional em muito tempo recaírem sobre a penca de half-wits que durante décadas combateu todas as políticas que estão na raiz do sucesso atual. É de doer. E é de fazer com que uma coisinha qualquer perversa lá dentro chegue perto de torcer contra, de desejar que algo dê errado para acabar com a euforia das bestas sortudas.
E então, será que é tudo isso que explica a minha felicidade pelo fim da CPMF? Será que estou sendo movido apenas por mesquinhos ressentimentos udenistas contra o sucesso dum iletrado no poder? E, ao apoiar posturas rancorosas e vingativas do PSDB, estarei contribuindo com a minha gotinha d’água para o enterro definitivo de uma alternativa política ao populismo petista?
Não seria mais sensato cair no extremo oposto à paranóia olavista, e gratificar-me confortavelmente com o fato de que os enragés no poder estão no geral fazendo muito bem para o desenvolvimento capitalista no Brasil? – com uma chateaçãozinha aqui, outra ali, mas ficar ranhetando com detalhes é coisa de velho ranzinza. Se eu tivesse muuuiiito dinheiro na Bolsa, certamente esta seria a minha postura. Passaria as tardes na praia de Ipanema lendo debaixo de uma barraca, com entremeios de mergulhos estratégicos para maximizar o prazer da função frio-calor num dia quente com a água do mar gelada. A arte zen de ler na praia com mergulhos periódicos. CPMF? Que CPMF? Tão votando alguma CPMF?
Eu fui tão longe nesse preâmbulo-com-a-defesa-da-tese-oposta-à-verdadeira-tese que agora está ficando difícil voltar atrás e desenvolver o ‘por outro lado’. Mas não posso encerrar este post sem o poroutrolado. Vou resumi-lo muito. Por outro lado, o PT cresceu e chegou ao poder odiando, ressentindo-se e entregando-se à volúpia dos baixos prazeres da política. Por outro lado, política talvez seja assim mesmo, e o PSDB deva mesmo se deixar carregar pelos seus instintos mais selvagens, intransigentes, perversos. Por outro lado, o Lula com a CPMF iria se sentir o novo imperador do Brasil, e é até possível que em grande parte se tornasse o novo imperador do Brasil. Por outro lado, acertar pelos menos uma bem no meio das fuças do Guia Genial, num momento em que o sucesso está latejando quente na cabeça presidencial, e ele está tão propenso ao overacting, não pode ser tão ruim assim para o País. Por outro lado, em política é preciso às vezes demarcar claramente o terreno e sair de cima do muro e, afinal de contas, há um eleitorado no Brasil puto com a combinação de impostos escorchantes e serviços públicos que são um deboche.
E tem, finalmente, um grande poroutrolado econômico (e foda-se o futuro do PSDB). Um pouco menos de imposto (e é só um pouco mesmo, diante da barbaridade que a arrecadação está crescendo) significa um pouco menos de descontrole na despesa pública. Significa que os caras vão ter que sentar, pensar, pesar, racionalizar. O péssimo funcionamento do setor público é talvez o maior problema brasileiro. E cortar o ecstasy
presidencial talvez ajude a começar a resolvê-lo.
PS: Mas a verdadeira mensagem deste post é que eu estou na dúvida


