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(O post tem spoilers)
Eu assisti hoje A vida dos outros. Saí emocionado do cinema, o que não é comum. O filme é delicado e comovente, sem ser piegas. Mostra a mudança por que passa o capitão Wiesler, da Stasi, de modo sutil e elegante. Funcionário modelo da polícia secreta da Alemanha Oriental, Wiesler recebe a incumbência de vigiar o escritor e dramaturgo Georg Dreyman. Wiesler logo percebe que a sua missão é encontrar um pretexto que incrimine Dreymann como inimigo do regime. O ministro da Cultura – que pediu a investigação - está interessado na mulher do dramaturgo, uma atriz famosa. Wiesler monta um esquema de escuta na casa de Dreyman.
Enquanto espiona o escritor, Wiesler entra em contato com uma vida que é em tudo diferente da sua. Dreyman tem uma mulher bonita e uma vida social e cultural ativa. Wiesler vive sozinho, num apartamento anódino como ele. Tem uma vida cinzenta.
Em vez de ser consumido pela inveja, o contato com a vida de Dreyman aos poucos humaniza Wiesler. Ele rouba um livro de Brecht da casa do escritor, e se emociona com a leitura. Chora ao escutar uma sonata executada pelo escritor ao piano, quando este recebe a notícia do suicídio de um grande diretor banido pelo regime, de quem era amigo.
Com a morte do amigo, Dreyman resolve se insurgir contra o regime. Decide escrever um artigo para ser publicado na Der Spiegel, na Alemanha Ocidental. Em vez de denunciar Dreyman, Wiesler também se insurge contra o regime. Passa a proteger o dramaturgo. Arrisca-se e perde o seu posto na Stasi. O homem cinzento tem um gesto de grandeza.
É um filme bonito. Mostra algo que poderia ser piegas nas mãos de outro diretor: a mudança para melhor de um burocrata que, na primeira cena do filme, participa de uma cena de tortura psicológica. O diretor, que tem apenas 33 anos, escapou da armadilha de fazer um filme “edificante”. Em vez disso, Florian Henckel von Donnersmarck fez um grande filme.
Ao ver A vida dos outros, eu me lembrei de um grande livro: Sostiene Pereira, do italiano Antonio Tabucchi. O livro conta a história de um jornalista idoso, que cuida da página cultural de um jornal português durante a ditadura salazarista. Diferentemente de Wiesler, não tem nenhum envolvimento com a ditadura. É um homem bom e totalmente apolítico.
Mas a política tromba com Pereira. Ele se envolve com um jovem jornalista engajado, que é assassinado em sua casa. O medíocre Pereira tem então uma atitude heróica: enganando o tipógrafo, consegue publicar na página cultural do jornal em que trabalha um artigo em que narra o assassinato do jovem jornalista, em plena ditadura salazarista. Pereira é um homem bem diferente de Wiesler, mas faz algo parecido com o que faz o capitão da Stasi: abandona a sua vida medíocre e tem um ato de grandeza, enfrentando uma ditadura. Tabucchi também evita o sentimentalismo e escreve um livro bonito.
São duas obras otimistas. Contam histórias de pessoas que mudam – mesmo velhas, mesmo cinzentas, mesmo se, como no caso de A vida dos outros, participam ativamente de uma ditadura. O grande mérito de Donnersmarck e Tabucchi é fazer o que fizeram de um modo elegante e inteligente. Não é pouco


