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Quem foi parceiro de Tom Jobim merece respeito
O fim do ano se aproxima, e eu tenho certeza de que Chico Buarque começa a ficar tenso. No Natal ou no ano novo, Chico provavelmente terá que encontrar Carlinhos Brown. Pouca gente sabe, mas o gênio da MPB se tornou um homem mais angustiado depois que Helena se casou com Brown. Não é racismo, claro que não. O que incomoda Chico são os insistentes pedidos de Brown para que os dois façam uma parceria.
Em Paris, em novembro, Chico já antevê a cena, tantas vezes repetida nos últimos anos. Enquanto ele evita a todo custo que os dois fiquem a sós, Carlito Marrón passa a noite inteira procurando o melhor momento para falar do projeto que acalenta há anos. Os dois brincam de gato e rato a noite toda. A casa, porém, não é tão grande para que Chico possa escapar. Em algum momento, Brown consegue o que quer, e os dois ficam a sós. Chico tenta ao máximo esconder o desconforto – a Helena e o Francisco não têm culpa, quer dizer, a Helena bem que podia ter casado com aquele amigo de infância que fazia Direito, mas deixa pra lá -, e entabula uma conversa sobre o neto, dizendo como ele está bonito e esperto – se bem que o moleque solta umas onomatopéias sem sentido de vez em quando, mas talvez seja da idade. Ou não.
Entre algumas onomatopéias sem sentido, Brown fala sobre “aquele antigo projeto nosso” - nosso é o caralho. O projeto é seu, tribalista. Eu já fui parceiro de Tom, Vinícius e Edu Lobo, não vem que não tem. Não vou macular uma carreira brilhante e deixar para a história uma parceria com um sujeito que não consegue nem falar direito. A parte mais difícil começa. Brown grita, pula, solta umas onomatopéias sem sentido. Ele está mostrando a música. Chico lembrava vagamente daqueles barulhos horrorosos de festas de anos anteriores. Ele fica perplexo. No ano anterior, ou no ano retrasado, a música lhe parecera ruim, mas não tão péssima quanto os barulhos que o seu genro faz no meio da festa. O pior é o olhar carente, sedento de aprovação.
- É, Carlinhos, a música é bonita, mas eu realmente estou sem tempo e sem inspiração para fazer a letra.
- Mas, sogrão, faz anos que eu peço. Será que neste ano não dá?
- Está difícil.
- E se você esboçar alguns versos, pelo menos? Daí eu completo.
O esforço para não rir da cara do genro é sobre-humano. O sujeito é ousado. Primeiro, sugere a parceria. Depois, mostra uma música horrenda. Agora se oferece para completar os meus versos?
- Não vai dar. Ainda vou fazer uns shows em 2008, e depois eu vou para Paris. Eu vou escrever mais um livro, a editora já está cobrando. E daí, você sabe. Serão muitos meses de dedicação exclusiva ao livro.
- Ah, tá bom. Mas quem sabe em 2009?
- É, quem sabe.
Chico olha em volta, buscando alguém que possa se juntar a eles. Interromper a conversa se torna quase uma necessidade física. Ninguém está próximo – é claro, nem a Helena agüenta o sujeito.
- Carlinhos, a conversa está boa, mas eu vou ter que ir ao banheiro.
Nem os mais íntimos sabem, mas Chico começou a escrever mais e a passar temporadas cada vez maiores em Paris justamente por causa de Carlinhos Brown. Ele teme que, se ficar muito tempo no Rio, as circunstâncias – ou um pedido de Helena – o levem a ceder aos apelos do genro. Ele sabe que a sua obra o torna imune a um disco irregular, ou mesmo a um disco fraco. Mas nem toda a genialidade de Construção, Sabiá, Anos Dourados, Beatriz, A Rosa resistiria a uma parceria com Carlinhos Brown. Tudo tem limite


