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Últimas palavras sobre um assunto chatíssimo

Eu gosto de tiradas liberais. Elas têm aquele quê de realismo profundo e anti-sentimental que, em Economia, é realismo mesmo (em outras esferas da vida o anti-sentimentalisto pode ser irrealista). Tem aquele dito de que "a receita causa o gasto". Em outras palavras, sempre que os impostos sobem, o governo inventa um jeito de gastar mais ainda. É simples, intuitivo, e tem como corolário que a única forma de se conter a expansão do governo e a derrama sobre a cidadania é parar de transferir tributos crescentes para Brasília. Agora imaginem o seguinte diálogo entre mim e um liberal de boa cepa, que tenha todas as idéias acima bem organizadinhas na cabeça, em algum momento de 2002 ou do início de 2003. Imaginemos também que houvesse algum imposto novo prestes a ser aprovado, para tapar o buraco de então nas contas públicas brasileiras.

Liberal - Eu sou contra este novo imposto, porque "a receita causa o gasto", e a única forma de conter este Estado perdulário, que já levou a carga tributária de vinte e poucos por cento do PIB para mais de trinta em uma década, é deixá-lo à míngua mesmo.

Eu - Concordo com tudo o que você disse e até com o que você não disse, em tese, porque os liberais geralmente têm razão em Economia. Mas ainda assim torço para que o imposto seja aprovado, porque não há nada pior do que o país quebrar.

Liberal - A única forma do Estado parar de gastar é fechar a torneira dos impostos. Eles vão ser obrigados a cortar despesa, no peito e na marra. Vai ver nem quebra. E,se quebrar, pode ser ruim no curto prazo, mas se a gente corta o oxigênio vai ser melhor a longo prazo.

Eu - Tudo menos quebrar. Olha aqui, ô liberal, pode ser o pior imposto do mundo, eu sou a favor. O governo não vai cortar despesa numa velocidade suficiente para fazer frente à falta de receita. E vai quebrar. Olha, se alguém me disser que a única forma de não quebrar é inventar um imposto que seja assim - o Bope invade a casa das famílias ricas e de classe média alta, mete bala na testa de todo mundo, e o governo mete a mão na bufunfa -, eu sou a favor. Tudo, vale tudo mesmo, tudo tudo, para não quebrar.

Liberal - E se invadirem a sua casa?

Eu - Não fode, liberal, vamos às putas

Cortina rápida. Passam-se cinco anos, e estamos em dezembro de 2007, com o Senado pendurado na aprovação ou não da CPMF. Não vou cansá-los com mais um diálogo meia-bomba. O que houve é que houve uma ruptura epistemológica entre os dois momentos (estou usando epistemológico só pelo efeito dramático, não encham o saco). Hoje, já não há o menor risco do Brasil quebrar por causa da não-aprovação de um imposto qualquer. Então toda a minha resistência aos argumentos de outrora do liberal (baseadas na suprema aversão ao vexame e ao desastre de quebrar, equivalente ao sujeito se cagar todo numa festa com uma roupa meio transparente) já não tem sentido. Os argumentos liberais eternos tornam-se novamente o imperativo lógico da discussão. Não há como discordar não-apelativamente de que a receita causa o gasto, e de que a aprovação do CPMF vai fazer o governo Lula entrar num despiroco ainda maior de despesas megalomaníacas e danosas à saúde da economia. É por isso que eu, que sempre fui um hipocondríaco econômico, agora me despreocupei desse lado. Por outro lado, a minha hipoconcria política e ideológica piorou. É preciso conter o delírio lulista. Abaixo a CPMF




F. Arranhaponte at 10:32 PM | Comentários (5)

Autores

* Marcos Matamoros
* F. Arranhaponte


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