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janeiro 29, 2008
Autoconfiança e cara de pau
janeiro 26, 2008
O profeta do caos
"The US has already entered into a recession and this recession will be much uglier than the mild recessions of 1990-91 and 2001 as a shopped out, saving less and debt burdened consumer is on the ropes and faltering.
The world will not decouple from the US hard landing; there will be significant recoupling and a sharp global economic slowdown. When the US sneezes the rest of the world catches the cold; and today the US will not experience just a simple common cold but rather a protracted and severe case of pneumonia; thus, the real and financial contagion to other economies will be severe.
Whatever the Fed does now is too little too late; the Fed had a wrong diagnosis of the economy and was behind the curve for over a year. The Fed claimed that the housing slump would bottom out a year ago; instead we have the worst housing recession in US history still getting much worse now.”
As palavras são de Nouriel Roubini*, economista da Universidade de Nova York e criador do RGE Monitor. Roubini vive os seus momentos de glória. Nos últimos anos, enquanto a maioria dos analistas mantinha o otimismo em relação às perspectivas da economia global, Roubini foi um dos poucos, ao lado de Stephen Roach, a traçar quadros pessimistas. Errou o timing da crise, mas pode hoje cantar vitória. Ele vinha alertando há muito tempo para os riscos da bolha imobiliária americana, assim como para o déficit das contas externas dos EUA.
Roubini decidiu dobrar a aposta. Não basta ter acertado que haveria uma crise séria. Ele tem que dizer que não haverá apenas uma recessão, mas uma recessão severa. O descolamento do resto do mundo dos EUA é bobagem. A economia global passará por uma forte desaceleração. Tudo o que o Fed fizer será insuficiente, e será tarde demais. Você acha que o negócio está ruim? Vai piorar muito antes de melhorar.
Eu discuti o apocalipse de Roubini com um economista que admiro. Ele não compra o cenário apocalíptico. Acha que Roubini está aproveitando a onda como profeta do caos. Lembra que ele tem previsto uma recessão nos últimos 10 anos – uma hora ele tinha acertar. “Minha impressão é que, agora que tirou a sorte grande, ele quer quebrar a banca”.
Quem faz previsões apocalípticas muitas vezes se apaixona pelas próprias previsões catastrofistas. Entra então numa corrida, provavelmente inconsciente, para projetar cenários cada vez mais negros. Embora seja muito inteligente e intelectualmente sério, Roubini parece caminhar nessa direção.
Ninguém me perguntou e eu não tenho a mínima condição de analisar seriamente o assunto, mas lá vai o meu palpite. Acho que há uma boa possibilidade de Roubini estar errado. A tese do decoupling – parcial, é claro – apenas os muito panglossianos acreditavam no total – não me parece uma bobagem absurda. E, acima de tudo, torço para que ele esteja errado. Se Roubini estiver certo, é melhor começar a estocar alimentos
* O texto completo está no continue reading
"The US has already entered into a recession and this recession will be much uglier than the mild recessions of 1990-91 and 2001 as a shopped out, saving less and debt burdened consumer is on the ropes and faltering.
The world will not decouple from the US hard landing; there will be significant recoupling and a sharp global economic slowdown. When the US sneezes the rest of the world catches the cold; and today the US will not experience just a simple common cold but rather a protracted and severe case of pneumonia; thus, the real and financial contagion to other economies will be severe.
Whatever the Fed does now is too little too late; the Fed had a wrong diagnosis of the economy and was behind the curve for over a year. The Fed claimed that the housing slump would bottom out a year ago; instead we have the worst housing recession in US history still getting much worse now.”
As palavras são de Nouriel Roubini*, economista da Universidade de Nova York e criador do RGE Monitor. Roubini vive os seus momentos de glória. Nos últimos anos, enquanto a maioria dos analistas mantinha o otimismo em relação às perspectivas da economia global, Roubini foi um dos poucos, ao lado de Stephen Roach, a traçar quadros pessimistas. Errou o timing da crise, mas pode hoje cantar vitória. Ele vinha alertando há muito tempo para os riscos da bolha imobiliária americana, assim como para o déficit das contas externas dos EUA.
Roubini decidiu dobrar a aposta. Não basta ter acertado que haveria uma crise séria. Ele tem que dizer que não haverá apenas uma recessão, mas uma recessão severa. O descolamento do resto do mundo dos EUA é bobagem. A economia global passará por uma forte desaceleração. Tudo o que o Fed fizer será insuficiente, e será tarde demais. Você acha que o negócio está ruim? Vai piorar muito antes de melhorar.
Eu discuti o apocalipse de Roubini com um economista que admiro. Ele não compra o cenário apocalíptico. Acha que Roubini está aproveitando a onda como profeta do caos. Lembra que ele tem previsto uma recessão nos últimos 10 anos – uma hora ele tinha acertar. “Minha impressão é que, agora que tirou a sorte grande, ele quer quebrar a banca”.
Quem faz previsões apocalípticas muitas vezes se apaixona pelas próprias previsões catastrofistas. Entra então numa corrida, provavelmente inconsciente, para projetar cenários cada vez mais negros. Embora seja muito inteligente e intelectualmente sério, Roubini parece caminhar nessa direção.
Ninguém me perguntou e eu não tenho a mínima condição de analisar seriamente o assunto, mas lá vai o meu palpite. Acho que há uma boa possibilidade de Roubini estar errado. A tese do decoupling – parcial, é claro – apenas os muito panglossianos acreditavam no total – não me parece uma bobagem absurda. E, acima de tudo, torço para que ele esteja errado. Se Roubini estiver certo, é melhor começar a estocar alimentos
* O texto completo está no continue reading
Indeed, this morning I was again - like last year - a speaker in the main session at the Davos WEF on the global economic outlook. This year - in addition to myself - Steve Roach also presented a very bearish outlook for the US and global economy.
In summary here are the main points I made at this session:
The US has already entered into a recession and this recession will be much uglier than the mild recessions of 1990-91 and 2001 as a shopped out, saving less and debt burdened consumer is on the ropes and faltering.
The world will not decouple from the US hard landing; there will be significant recoupling and a sharp global economic slowdown. When the US sneezes the rest of the world catches the cold; and today the US will not experience just a simple common cold but rather a protracted and severe case of pneumonia; thus, the real and financial contagion to other economies will be severe.
Whatever the Fed does now is too little too late; the Fed had a wrong diagnosis of the economy and was behind the curve for over a year. The Fed claimed that the housing slump would bottom out a year ago; instead we have the worst housing recession in US history still getting much worse now. The Fed claimed that the subprime would be a niche and contained problem; instead we have had massive contagion to the entire financial system as a credit bubble and excessive debt and leverage occurred throughout the economy and the financial system. The Fed claimed that the housing problems would not spread to the rest of the economy; instead we had had real and financial spillovers and now a fall of most components of aggregate demand: housing, capex spending, commerical real estate investment and now, ominously, private consumption that represents 70% of demand.
The US stock market is now entering in a seriously bearish territory and will fall much more sharply throughout the year as earnings sharply drop in the recession; the Bernanke put and the aggressive Fed easing will not rescue the stock market or the financial markets as a severe recession is unavoidable regardless of what the Fed does. Fed easing cannot resolve severe insolvency problems among consumers, mortgage lenders, home builders, highly leveraged financial institutions and, soon, enough among over indebted corporate firms.
Equity markets around the world are now plunging and will plunge much more as investors are realizing that a severe US recession will lead to a sharp global economic slowdown and a significant fall in profits across the world. In an integrated global economy both economic growth rates and markets are highly correlated.
Many risky assets will face downward pressure in 2008, not just US and global equities: junk bond yield spreads will widen as bankruptcies spread; corporations will default in great number; housing bubbles will pop in many countries and lead to falls in home prices; securitized products - in housing, real estate and otherwise, will experience further massive losses.
Losses in the financial system will be greater than $1 trillion; thus there is a serious risk of a systemic banking and financial crisis. The credit crunch will become much more severe as capital of financial institutions is eroded and reintermediation of financial flows into the banking system occurs.
Certainly the audience this morning was much more receptive to my arguments than they were a year ago. And certainly the stock markets reaction to the Fed desperate 75bps easing shows that even investors now realize that the Fed will not be able to rescue the US and the global economy from a severe economic downturn.
janeiro 22, 2008
Aforismos em tempos sombrios
O negócio está preto. Para tentar evitar uma recessão e diminuir o pânico do mercado, o Federal Reserve cortou os juros de 4,25% para 3,5% ao ano, numa reunião extraordinária. O desespero dos investidores me lembrou a frase que um consultor me disse há mais de dez anos, no começo da crise asiática. Eu perguntei qual era a melhor estratégia a ser adotada no meio da turbulência, e ele, como se fosse um La Rochefoucald, decretou: Quando chove caralho, o negócio é escolher o mais fino
O negócio está preto. Para tentar evitar uma recessão e diminuir o pânico do mercado, o Federal Reserve cortou os juros de 4,25% para 3,5% ao ano, numa reunião extraordinária. O desespero dos investidores me lembrou a frase que um consultor me disse há mais de dez anos, no começo da crise asiática. Eu perguntei qual era a melhor estratégia a ser adotada no meio da turbulência, e ele, como se fosse um La Rochefoucald, decretou: Quando chove caralho, o negócio é escolher o mais fino
janeiro 21, 2008
A Dilma o que é de Dilma
É claro que Edison Lobão é uma escolha sem sentido e irresponsável para o ministério de Minas e Energia, como eu mesmo já escrevi aqui. Num momento em que há um risco de falta de energia, escolher quem nada entende do assunto para o cargo é ridículo. Mas, com a atenção focada exclusivamente em Lobão, a maior parte das pessoas deixa em segundo plano o fato de que, se houver algum problema grave no setor, a culpa é da ministra Dilma Rousseff, e não do sujeito que pinta o cabelo. Ela foi ministra de Minas e Energia por um bom tempo e, mesmo quando assumiu a Casa Civil, continuou a mandar na pasta. É na conta de Dilma que o risco de apagão deve ser debitado. O curioso é que ela segue com a imagem de ser uma ilha de competência no governo. Mas talvez a questão possa ser resolvida rapidamente: quem sabe Roberto Mangabeira café com leite Unger não consegue bolar um plano mirabolante para acabar com o problema da falta de energia?
É claro que Edison Lobão é uma escolha sem sentido e irresponsável para o ministério de Minas e Energia, como eu mesmo já escrevi aqui. Num momento em que há um risco de falta de energia, escolher quem nada entende do assunto para o cargo é ridículo. Mas, com a atenção focada exclusivamente em Lobão, a maior parte das pessoas deixa em segundo plano o fato de que, se houver algum problema grave no setor, a culpa é da ministra Dilma Rousseff, e não do sujeito que pinta o cabelo. Ela foi ministra de Minas e Energia por um bom tempo e, mesmo quando assumiu a Casa Civil, continuou a mandar na pasta. É na conta de Dilma que o risco de apagão deve ser debitado. O curioso é que ela segue com a imagem de ser uma ilha de competência no governo. Mas talvez a questão possa ser resolvida rapidamente: quem sabe Roberto Mangabeira café com leite Unger não consegue bolar um plano mirabolante para acabar com o problema da falta de energia?
janeiro 17, 2008
A bonequinha de luxo da Sapucaí
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Viviane Araújo, mulher de classe
Viviane Araújo, como se sabe, é a musa do Torre de Marfim. Com a proximidade do carnaval, eu decidi acompanhar mais de perto os seus passos. Entrei numa comunidade de seus fãs no Orkut, e percebi que pouco faço por ela. Há gente que dedica boa parte do tempo à nossa musa. As discussões por lá são acaloradas, e qualquer coisa relacionada a Viviane é relatada com paixão. Eu descobri que eu tenho muito o que aprender sobre a atual namorada do Radamés.
A última polêmica em que essa mulher tão injustiçada se meteu foi com Ivo Meirelles, ex-presidente de bateria da Mangueira. Pelo que eu entendi, há alguns meses estava tudo certo para que Viviane ocupasse o estratégico cargo de madrinha da bateria da escola. O sonho, porém, não vai se concretizar. Segundo Viviane, Belo, o seu ex-marido, mexeu os pauzinhos e conseguiu o lugar para a sua atual namorada, Gracyanne – para quem não sabe, dançarina do Tchakabum.
Ivo Meirelles reagiu, dizendo que Viviane é garota de programa. Muito digna, ela decidiu processar o mangueirista. Disse que não é garota de programa e, mesmo que fosse, mereceria respeito. Muitos de vocês talvez achem que a briga é muito mundana, mas ela me parece muito mais interessante e reveladora dos desvãos da alma humana do que a maior parte da disputa política neste país. A batalha pela aprovação da CPMF, por exemplo, não tem um quinto da complexidade que há no affair Viviane-Belo-Gracyanne-Ivo Meirelles. Mas não fiquem preocupados: Viviane vai ser a madrinha de bateria do Salgueiro.
Viviane desperta paixões. Nas comunidades no Orkut, não são apenas os marmanjos que admiram a musa do Torre. Nada disso. Muitas mulheres participam, elogiando a simpatia, a humildade, a garra e a coragem de Viviane. Há 126 comunidades relacionadas a ela. A maior parte de admiradores, umas poucas de detratores. Há algumas que não se conformam com a separação, e querem que ela volte com Belo, o pagodeiro loiro.
Os tópicos de discussão são sempre inteligentes. Um deles pede para que se defina Viviane em uma palavra. Definições como gostoza (desse modo mesmo), tesuda e espetacular abundam. Um dos fãs escreve que Viviane Araújo prova a existência de Deus. Outro pergunta se ela fez faculdade, e não fica sem resposta: alguém responde que acha que sim, porque leu em algum lugar que ela fez educação física. Que tipo de gente quer saber se Viviane Araújo fez faculdade? Se ela não tiver curso superior, o sujeito pára de homenageá-la?
Mas nada supera o pedido de um fã, em um tópico da comunidade com o maior número de participantes: So seu fa pofavo me adisiona*. Além de mostrar um domínio completo da língua, o sujeito não conseguiu perceber que estava numa comunidade dedicada a Viviane, e não no seu perfil no Orkut. Se bem que é fácil entender a confusão: uma mulher como Viviane pode deixar qualquer um desnorteado
* Eu já musiquei esse verso. Um dos próximos projetos do Torre de Marfim é fazer um clipe dessa música – chamada, claro, So seu fa -, que contará com a participação de Viviane
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Viviane Araújo, mulher de classe
Viviane Araújo, como se sabe, é a musa do Torre de Marfim. Com a proximidade do carnaval, eu decidi acompanhar mais de perto os seus passos. Entrei numa comunidade de seus fãs no Orkut, e percebi que pouco faço por ela. Há gente que dedica boa parte do tempo à nossa musa. As discussões por lá são acaloradas, e qualquer coisa relacionada a Viviane é relatada com paixão. Eu descobri que eu tenho muito o que aprender sobre a atual namorada do Radamés.
A última polêmica em que essa mulher tão injustiçada se meteu foi com Ivo Meirelles, ex-presidente de bateria da Mangueira. Pelo que eu entendi, há alguns meses estava tudo certo para que Viviane ocupasse o estratégico cargo de madrinha da bateria da escola. O sonho, porém, não vai se concretizar. Segundo Viviane, Belo, o seu ex-marido, mexeu os pauzinhos e conseguiu o lugar para a sua atual namorada, Gracyanne – para quem não sabe, dançarina do Tchakabum.
Ivo Meirelles reagiu, dizendo que Viviane é garota de programa. Muito digna, ela decidiu processar o mangueirista. Disse que não é garota de programa e, mesmo que fosse, mereceria respeito. Muitos de vocês talvez achem que a briga é muito mundana, mas ela me parece muito mais interessante e reveladora dos desvãos da alma humana do que a maior parte da disputa política neste país. A batalha pela aprovação da CPMF, por exemplo, não tem um quinto da complexidade que há no affair Viviane-Belo-Gracyanne-Ivo Meirelles. Mas não fiquem preocupados: Viviane vai ser a madrinha de bateria do Salgueiro.
Viviane desperta paixões. Nas comunidades no Orkut, não são apenas os marmanjos que admiram a musa do Torre. Nada disso. Muitas mulheres participam, elogiando a simpatia, a humildade, a garra e a coragem de Viviane. Há 126 comunidades relacionadas a ela. A maior parte de admiradores, umas poucas de detratores. Há algumas que não se conformam com a separação, e querem que ela volte com Belo, o pagodeiro loiro.
Os tópicos de discussão são sempre inteligentes. Um deles pede para que se defina Viviane em uma palavra. Definições como gostoza (desse modo mesmo), tesuda e espetacular abundam. Um dos fãs escreve que Viviane Araújo prova a existência de Deus. Outro pergunta se ela fez faculdade, e não fica sem resposta: alguém responde que acha que sim, porque leu em algum lugar que ela fez educação física. Que tipo de gente quer saber se Viviane Araújo fez faculdade? Se ela não tiver curso superior, o sujeito pára de homenageá-la?
Mas nada supera o pedido de um fã, em um tópico da comunidade com o maior número de participantes: So seu fa pofavo me adisiona*. Além de mostrar um domínio completo da língua, o sujeito não conseguiu perceber que estava numa comunidade dedicada a Viviane, e não no seu perfil no Orkut. Se bem que é fácil entender a confusão: uma mulher como Viviane pode deixar qualquer um desnorteado
* Eu já musiquei esse verso. Um dos próximos projetos do Torre de Marfim é fazer um clipe dessa música – chamada, claro, So seu fa -, que contará com a participação de Viviane
janeiro 16, 2008
Das voltas que o mundo dá *
Agora, ivagina só. Uma canetada aguardando a sua hora e a sua vez na mesa do FHC, pela qual uma mega-negócio de Dantas, Jereissatis, Citis e fundos de pensão se viabiliza. O que estaria fazendo o PT numa hora dessas?
* às vezes o clichê é insubstituível
Agora, ivagina só. Uma canetada aguardando a sua hora e a sua vez na mesa do FHC, pela qual uma mega-negócio de Dantas, Jereissatis, Citis e fundos de pensão se viabiliza. O que estaria fazendo o PT numa hora dessas?
* às vezes o clichê é insubstituível
janeiro 15, 2008
Princípios arranhapônticos de Economia Política I
Postulado nº 1
Toda e qualquer coisa que for concedida a um grupo será sempre considerada justa por este mesmo grupo, que lutará para ampliá-la e mantê-la eternamente
Isto a propósito das cotas, objeto de interessante debate no Idelber. Bem, para início de conversa, não sei se sou a favor de cotas raciais ou não. Eu me considero um anaeróbico bem discrepante neste quesito, porque fico invocado quase igual a um militante do movimento negro com o Ali Kamel dizendo o que que os negros devem pensar. Se insistirem muito, é capaz de eu dizer "tá bem" para alguma cota racial. Na verdade, acho que a cota por renda (e o Brasil classifica bem pobre por renda - vide o Bolsa-Família) cobre quase perfeitamente a cota racial, porque há mais negros pobres, e não cria 1/10 dos problemas. Mas sou meio agnóstico nesta questão.
Agora, meu lado homo economicus sabe que, uma vez abertas (e já foram abertas) as comportas das cotas raciais, não tem mais como fechar. Voltem ao postulado nº 1 de Economia Política arranhapôntica, e notarão que a clientela da cota racial vai lutar por ela (achando justo lá no fundo d'alma) para todo o sempre.
Se vocês inventarem uma cota para germano-descendentes, alegando que eles foram ludibriados nas condições contratuais quando chegaram para trabalhar na plantação no Brasil (sei lá, eles dirão que foram enviados pro meio de uma selva braba no Paraná, e neca dos campos gentis e da remuneração e alimentação adequados que foram combinados com o agente de imigração - deve ter acontecido isso mais ou menos - conheço o empresariado nacional), podem crer que eles a considerarão justa e lutarão para mantê-la eternamente. Vai ter fila daquela gente com sobrenome terminado em "en", tenistas, top models, líderes do DEM, pedindo a sua cota. Como já é tudo muito rico, é capaz de pedirem para transformar a cota num deságio na TJLP do BNDES que financia os seus investimentos. Mas que vão querer para sempre, vão.
Bem, é claro que cota para afro-descendente é muito melhor do que cota para germano-descendente. O que eu quis dizer é que vai ser virtualmente impossível distinguir os argumentos desinteressados na cota racial dos argumentos do lobby que já está se formando para mantê-las e aumentá-las, igualzinho ao lobby que existe para manter qualquer distribuição de dinheiro ou bens públicos, das justas às injustas, indo do Bolsa-Família à indenização para quem combateu a ditadura à Zona Franca de Manaus.
Aliás, gozado. Lá no debate do Idelber tem um cara que, invocando a Constituição, diz mais ou menos assim: primeiro concedam a cota, depois a gente discute se é bom ou não. Este deveria ser o lema da Associação Mundial dos Lobbies: "Primeiro dá, depois a gente discute". O postulado nº 1 explica direitinho o porquê
Postulado nº 1
Toda e qualquer coisa que for concedida a um grupo será sempre considerada justa por este mesmo grupo, que lutará para ampliá-la e mantê-la eternamente
Isto a propósito das cotas, objeto de interessante debate no Idelber. Bem, para início de conversa, não sei se sou a favor de cotas raciais ou não. Eu me considero um anaeróbico bem discrepante neste quesito, porque fico invocado quase igual a um militante do movimento negro com o Ali Kamel dizendo o que que os negros devem pensar. Se insistirem muito, é capaz de eu dizer "tá bem" para alguma cota racial. Na verdade, acho que a cota por renda (e o Brasil classifica bem pobre por renda - vide o Bolsa-Família) cobre quase perfeitamente a cota racial, porque há mais negros pobres, e não cria 1/10 dos problemas. Mas sou meio agnóstico nesta questão.
Agora, meu lado homo economicus sabe que, uma vez abertas (e já foram abertas) as comportas das cotas raciais, não tem mais como fechar. Voltem ao postulado nº 1 de Economia Política arranhapôntica, e notarão que a clientela da cota racial vai lutar por ela (achando justo lá no fundo d'alma) para todo o sempre.
Se vocês inventarem uma cota para germano-descendentes, alegando que eles foram ludibriados nas condições contratuais quando chegaram para trabalhar na plantação no Brasil (sei lá, eles dirão que foram enviados pro meio de uma selva braba no Paraná, e neca dos campos gentis e da remuneração e alimentação adequados que foram combinados com o agente de imigração - deve ter acontecido isso mais ou menos - conheço o empresariado nacional), podem crer que eles a considerarão justa e lutarão para mantê-la eternamente. Vai ter fila daquela gente com sobrenome terminado em "en", tenistas, top models, líderes do DEM, pedindo a sua cota. Como já é tudo muito rico, é capaz de pedirem para transformar a cota num deságio na TJLP do BNDES que financia os seus investimentos. Mas que vão querer para sempre, vão.
Bem, é claro que cota para afro-descendente é muito melhor do que cota para germano-descendente. O que eu quis dizer é que vai ser virtualmente impossível distinguir os argumentos desinteressados na cota racial dos argumentos do lobby que já está se formando para mantê-las e aumentá-las, igualzinho ao lobby que existe para manter qualquer distribuição de dinheiro ou bens públicos, das justas às injustas, indo do Bolsa-Família à indenização para quem combateu a ditadura à Zona Franca de Manaus.
Aliás, gozado. Lá no debate do Idelber tem um cara que, invocando a Constituição, diz mais ou menos assim: primeiro concedam a cota, depois a gente discute se é bom ou não. Este deveria ser o lema da Associação Mundial dos Lobbies: "Primeiro dá, depois a gente discute". O postulado nº 1 explica direitinho o porquê
Financial Times copia Torre de Marfim
Pô, e a propriedade intelectual, sêo FT? Olha aqui, cacete! Postado em 26 de novembro de 2007. Até o Fuku tu citô, ô mané!
Illiberal capitalism
By Gideon Rachman
Published: January 9 2008 02:00 | Last updated: January 9 2008 02:00
During the cold war it was natural to lump Russia and China together. They were the two great communist powers - the leading ideological adversaries of the west.
Then came 1989 - the year of the crushing of the students' revolt in China and the collapse of the Soviet empire. Communism had failed. Free markets and democracy seemed poised to sweep all before them. The spirit of the time was captured in Francis Fukuyama's famous article on "The End of History", published in Washington's National Interest magazine that summer. Mr Fukuyama did not argue that history had ended in the sense that there would be no more great events. Rather he claimed ideological victory for the west, suggesting that "liberal democracy may constitute the end point of man's ideological evolution".
Even though it swiftly became fashionable to dismiss Mr Fukuyama, a variant of his thesis has powerfully influenced US foreign policy ever since. The chain of thinking works something like this. Communism failed as an economic system. Russia and China have had to embrace free markets. Economic freedom will, in time, produce political freedom. A liberalised economy will generate new forces and tensions that will make it impossible to maintain an authoritarian political system.
The emergence of new technologies, allied to the globalisation of the world economy, gave another dimension to this argument. In 1993 Rupert Murdoch, the media mogul, contended that advances in communications technology had "proved an unambiguous threat to totalitarian regimes". In 2000 Bill Clinton suggested that liberty would be spread inexorably "by cell phone and cable modem".
Yet 19 years after the "end of history", Russia and China are not falling into line with the confident predictions of the liberal, democratic determinists. On the contrary, their political elites are pursuing an alternative to the prevailing western model. The new Russo-Chinese model is authoritarian rather than democratic. It attempts to marry capitalism with a large state role in the economy. It holds out the promise of western consumerism for a rising middle class, while rejecting western political liberalism. American rhetoric about human rights and democracy is dismissed as naive - or a deliberate effort to sow chaos. Rather than relying on democracy or communist ideology to create loyalty to the political system, the Russian and Chinese elites increasingly stress a combination of economic growth and nationalism. The two ideas are related because rising prosperity not only offers individual citizens new comforts - it also holds out the promise that the nation will be more respected around the world.
Pô, e a propriedade intelectual, sêo FT? Olha aqui, cacete! Postado em 26 de novembro de 2007. Até o Fuku tu citô, ô mané!
Illiberal capitalism
By Gideon Rachman
Published: January 9 2008 02:00 | Last updated: January 9 2008 02:00
During the cold war it was natural to lump Russia and China together. They were the two great communist powers - the leading ideological adversaries of the west.
Then came 1989 - the year of the crushing of the students' revolt in China and the collapse of the Soviet empire. Communism had failed. Free markets and democracy seemed poised to sweep all before them. The spirit of the time was captured in Francis Fukuyama's famous article on "The End of History", published in Washington's National Interest magazine that summer. Mr Fukuyama did not argue that history had ended in the sense that there would be no more great events. Rather he claimed ideological victory for the west, suggesting that "liberal democracy may constitute the end point of man's ideological evolution".
Even though it swiftly became fashionable to dismiss Mr Fukuyama, a variant of his thesis has powerfully influenced US foreign policy ever since. The chain of thinking works something like this. Communism failed as an economic system. Russia and China have had to embrace free markets. Economic freedom will, in time, produce political freedom. A liberalised economy will generate new forces and tensions that will make it impossible to maintain an authoritarian political system.
The emergence of new technologies, allied to the globalisation of the world economy, gave another dimension to this argument. In 1993 Rupert Murdoch, the media mogul, contended that advances in communications technology had "proved an unambiguous threat to totalitarian regimes". In 2000 Bill Clinton suggested that liberty would be spread inexorably "by cell phone and cable modem".
Yet 19 years after the "end of history", Russia and China are not falling into line with the confident predictions of the liberal, democratic determinists. On the contrary, their political elites are pursuing an alternative to the prevailing western model. The new Russo-Chinese model is authoritarian rather than democratic. It attempts to marry capitalism with a large state role in the economy. It holds out the promise of western consumerism for a rising middle class, while rejecting western political liberalism. American rhetoric about human rights and democracy is dismissed as naive - or a deliberate effort to sow chaos. Rather than relying on democracy or communist ideology to create loyalty to the political system, the Russian and Chinese elites increasingly stress a combination of economic growth and nationalism. The two ideas are related because rising prosperity not only offers individual citizens new comforts - it also holds out the promise that the nation will be more respected around the world.
The international manifestation of this shared ideology is the Shanghai Co-operation Organisation - a regional body formed in 2001 that brings together Russia, China and four Central Asian nations. The SCO preaches absolute respect for national sovereignty and has sought to limit American influence in Central Asia. The Russians and Chinese conducted joint military exercises in 2005 - their first since their 1969 border war. Last year these exercises were repeated under the auspices of the SCO.
At the United Nations, the two countries both frequently oppose western efforts to exert pressure on repressive governments - whether in Iran, Iraq, Sudan or Serbia. Robert Kagan, an American foreign-policy analyst, has argued that "an informal league of dictators has emerged, sustained and protected by Moscow and Beijing".
As during the cold war, it would be a mistake to think of Russia and China as embracing a monolithic world view. The Sino-Soviet split revealed the intense rivalries between Mao's China and the Soviet Union. Today, there is still a strong element of mutual suspicion and strategic rivalry, with the Russians wary of the potential expansion of China into sparsely-populated, mineral-rich Siberia.
The starting points of the two countries are also very different. China's economic boom has been going on for a generation and is broadly based on manufacturing. Russia's rapid expansion is more recent and more fragile - driven as it is by the rising price of oil and gas. After a helter-skelter period of economic and political liberalisation in the 1990s, the Putin years have seen a re-assertion of the power of the Russian state. The process of Chinese economic liberalisation has been more orderly and linear.
In politics, the Chinese Communist party is still in charge. The Russian Communist party is now formally in opposition. But former Soviet officials still dominate the Kremlin, albeit wearing new political clothes.
In foreign policy, Russia still thinks like a global power - while China is only just beginning to flex its muscles outside of Asia. A senior Chinese diplomat says: "When there is a major world event, the Russians always react immediately. We often have to think about it for a couple of days." Nonetheless, Russian military power is widely believed to be in decline, while the Chinese have embarked on a sustained military build-up.
But for all these differences, there are also increasingly strong similarities between the official ideologies of Russia and China. This is no longer because they both pay lip-service to a common set of Marxist-Leninist texts. Instead, it looks as if their ruling elites have arrived at similar ideas in reaction to similar economic and political pressures. The end product is a new, quasi-authoritarian ideology which - allied with economic success - could attract adherents. Writing in a recent edition of Foreign Affairs, Azar Gat, an Israeli academic, suggests that if western democracies run into economic problems, a "successful non-democratic Second World could then be regarded by many as an attractive alternative to liberal democracy."
In both Russia and China, official spokesmen are ambiguous in their statements about democracy. They will often argue that liberal democracy remains a valid long-term goal - but that their countries must be given time. Yes, they will be "democratic" - but they will not allow that idea to be defined for them by outsiders and foreigners. "Russia will find its own way to democracy," is the refrain in Moscow.
Dmitry Peskov, Vladimir Putin's spokesman, likes to say that there are no perfect democracies in the world. Russia has its problems, but so do the democracies of the west. President Hu Jintao of China has called democracy "the common pursuit of mankind". However, the official Chinese line tends to be that small steps are being taken towards a more democratic system - through village-level elections or contested elections within the Communist party - but that it is vital to avoid the "chaos" that could be unleashed by a naive rush towards democracy.
In both countries, fear of "chaos" is frequently stirred up to fend off demands for political liberalisation. In China, the word evokes the horrors of the Cultural Revolution, when the established social order was turned on its head. The fear that if the Communist party loses control, violence and social disorder could follow is also associated with the student revolt of 1989. In conversation, many Chinese seem to fear that democratisation could lead to separatism and civil war.
In Russia, Mr Putin's followers link the democratisation of the 1990s to falling living standards, lawlessness, national decline and the capture of the state by a small group of ultra-rich oligarchs. Opinion polls show that these arguments have considerable popular resonance.
Yet, for all the talk of gradual democratisation, the reality in both Russia and China is that the space for political freedom and dissent seems to be shrinking rather than expanding. There is still considerably more freedom of expression in Russia than in China. But national television - which is by far the most powerful media outlet - faithfully reflects the Kremlin line. Dissenting intellectuals are not sent to the Gulag these days. But they find it very difficult to get their views widely exposed. A series of mysterious murders of investigative journalists has also had a chilling effect on the media.
China, by contrast, never experienced the flowering of independent media that Russia saw in the 1990s. Even so Mr Hu has overseen a significant tightening of controls over the media. The Committee to Protect Journalists, a New York-based non-governmental organisation, lists more journalists jailed in China than in any other country it monitors - with several cases in 2007. Chinese controls over the internet - through the "great firewall of China" - have also proved surprisingly effective. Mr Clinton's confidence that it would be impossible to prevent the internet spreading subversive ideas has so far not been vindicated.
Optimists point to some contrary indicators, such as outbreaks of environmental activism - organised over the internet or by mobile phone. It is true that the network of social activities not directly controlled by the state has expanded, as the Chinese economy has grown and become more complicated. This has created new pressures to which the Communist party needs to respond. But the overall trend seems to be towards less media freedom rather than more; and therefore less scope for political expression and activism not approved by the party.
Access to political power remains tightly controlled in both countries. Russian elections are now widely seen as a way of legitimising prior decisions. Analysts of Russian politics are having to revert to Kremlinology to understand how the country is governed. The Russian presidential elections are in March - but it seems that the crucial decision has already been made, with Dmitry Medvedev anointed as Mr Putin's favoured candidate. In China, there was no hint at the recent Communist party congress that the party has any intention of surrendering its monopoly on political power.
Indeed, in both Russia and China the ruling party and political elites have been strengthening their power base by expanding into business. In Russia, the all-important energy sector is regarded as a foundation of national power - as well as the personal wealth of the ruling elite. Tellingly, the putative new president of Russia, Mr Medvedev, is currently chairman of Gazprom, the state-controlled gas monopoly. In China, hopes that a flourishing private sector might provide an alternative source of power to the Communist party have so far not been realised. On the contrary, the party's stake in large, cash-generative state monopolies has led some to joke that it is now "the world's biggest holding company".
In both Russia and China, the ruling authorities are using their newfound wealth to polish up and rediscover aspects of national culture that were discouraged in the heyday of communism. The Russian Orthodox Church is back in favour and the government is paying for the refurbishment of cathedrals. Mr Putin, a former Soviet intelligence agent, now says he reads the Bible. The Chinese government is sponsoring the building of Confucius Institutes around the world.
The re-discovery of national culture seems a benign enough development. But there is also a potentially dark side to the use of nationalist ideology in both Russia and China. President Putin's increasing assertiveness on the international scene has proved popular in Russia. Nationalist youth groups have been sponsored by the Kremlin and have been used to harry political opponents - and even foreign diplomats. A new manual for teachers of Russian history - praised by Mr Putin himself - is strongly nationalistic in tone. The need for national strength to ward off a scheming west is a central theme of the book.
In China, school pupils are also exposed to a strongly nationalistic curriculum - which paints the country as a perennial victim of outside interference, first by western colonialists and then by the Japanese. The need to recover national strength and for China to regain its rightful place in the world is a constant theme. One western professor at a Beijing university - who is generally very positive about modern China - cannot help worrying that many of his students "seem to have been taught that an eventual war with America is inevitable".
Yet while their rhetoric sometimes suggests that China and Russia once again see the west as a rival, western companies are also vital business partners. The economies of both countries depend on trading relationships with Europe and the US. Gazprom is eager to expand across western Europe. China's new sovereign wealth fund recently bought a $5bn (£2.5bn, €3.4bn) stake in Morgan Stanley, an investment bank and one of the biggest names on Wall Street.
The creation of mutual interests in a global economic system should help limit any new rivalry between the west and Russia and China. But hopes that the two countries would embrace the western political model now seem outdated and naive.
Momento Ronaldo Esper

Troca a roupa, minha filha
Tudo bem que Clara Rojas ficou quase seis anos na selva, mas alguém precisa avisá-la urgentemente de que essas roupinhas cor-de-rosa não estão com nada. Desse jeito, ela vai demorar mais de seis anos para arrumar um padrasto para Emmanuel

Troca a roupa, minha filha
Tudo bem que Clara Rojas ficou quase seis anos na selva, mas alguém precisa avisá-la urgentemente de que essas roupinhas cor-de-rosa não estão com nada. Desse jeito, ela vai demorar mais de seis anos para arrumar um padrasto para Emmanuel
janeiro 14, 2008
Pérolas do pensamento de esquerda II

Uribe, o fã número um das Farc
O raciocínio do Alon é poderoso: a existência das Farc interessa mais a Uribe do que às Farc. O Uribe que existe na cabeça do stalinista cordial caminha no fio da navalha: tem que trabalhar para reduzir a violência no país e a influência das Farc, mas não a ponto de neutralizá-las. Isso é que é realismo mágico
PS: Uribe deve estar em êxtase. As Farc seqüestraram ontem seis turistas colombianos. A popularidade do sujeito vai disparar

Uribe, o fã número um das Farc
O raciocínio do Alon é poderoso: a existência das Farc interessa mais a Uribe do que às Farc. O Uribe que existe na cabeça do stalinista cordial caminha no fio da navalha: tem que trabalhar para reduzir a violência no país e a influência das Farc, mas não a ponto de neutralizá-las. Isso é que é realismo mágico
PS: Uribe deve estar em êxtase. As Farc seqüestraram ontem seis turistas colombianos. A popularidade do sujeito vai disparar
Pérolas do pensamento de esquerda
Belo post do Alon, onde a gente aprende que o culpado pela guerra civil na Colômbia é o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe. As razões de Uribe para manter o país na guerra civil, segundo o Alon, é que ele só existe politicamente como opositor das Farc, e por isto não aceita fazer as pazes com as Farc, de tal forma que elas parem de travar guerra contra um governo democraticamente eleito, guerra na qual empregam métodos como tráfico, seqüestro e assassinato de civis. Se isto é verdade, é de se perguntar por que as Farc não pararam de fazer guerra contra governos anteriores que não tinham o mesmo perfil direitista do Uribe, e que tentaram negociar com a guerrilha.
Mas o mais interessante é a lógica da coisa quando a gente, digamos, retira o enchimento e fica só com a ossatura.
1) Você é legítimo (democraticamente eleito)
2) Alguém tenta te derrubar
3) Você combate esse alguém que tenta de derrubar
4) Você é considerado culpado pela guerra civil, porque você só existe politicamente enquanto combatente de quem tenta te derrubar. Quem tenta derrubar é inocentado - isto é, quem move um movimento de guerrilha para derrubar um governo democraticamente eleito não é responsável pela guerra civil resultante
A esquerda quer nos convencer (entra nesse "nós" quem quiser) de que é tão democrática quanto a gente. Mas a esquerda tem gente com toda a pinta de respeitável (como o Alon, e eu acredito que ele seja de fato) que defende coisas desse tipo quanto se trata de combater um governo de direita. Imagina se tivesse uma guerrilha de direita tentando derrubar o Chávez e eu fizesse um raciocínio desses.
É por isto que a gente é paranóico. É por isto que existem os Reinaldos Azevedos, os Olavos de Carvalho
Belo post do Alon, onde a gente aprende que o culpado pela guerra civil na Colômbia é o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe. As razões de Uribe para manter o país na guerra civil, segundo o Alon, é que ele só existe politicamente como opositor das Farc, e por isto não aceita fazer as pazes com as Farc, de tal forma que elas parem de travar guerra contra um governo democraticamente eleito, guerra na qual empregam métodos como tráfico, seqüestro e assassinato de civis. Se isto é verdade, é de se perguntar por que as Farc não pararam de fazer guerra contra governos anteriores que não tinham o mesmo perfil direitista do Uribe, e que tentaram negociar com a guerrilha.
Mas o mais interessante é a lógica da coisa quando a gente, digamos, retira o enchimento e fica só com a ossatura.
1) Você é legítimo (democraticamente eleito)
2) Alguém tenta te derrubar
3) Você combate esse alguém que tenta de derrubar
4) Você é considerado culpado pela guerra civil, porque você só existe politicamente enquanto combatente de quem tenta te derrubar. Quem tenta derrubar é inocentado - isto é, quem move um movimento de guerrilha para derrubar um governo democraticamente eleito não é responsável pela guerra civil resultante
A esquerda quer nos convencer (entra nesse "nós" quem quiser) de que é tão democrática quanto a gente. Mas a esquerda tem gente com toda a pinta de respeitável (como o Alon, e eu acredito que ele seja de fato) que defende coisas desse tipo quanto se trata de combater um governo de direita. Imagina se tivesse uma guerrilha de direita tentando derrubar o Chávez e eu fizesse um raciocínio desses.
É por isto que a gente é paranóico. É por isto que existem os Reinaldos Azevedos, os Olavos de Carvalho
janeiro 11, 2008
A república das bananas, parte 2.276.368
Edison Lobão, conhecido especialista em energia, deve ser o novo ministro de Minas e Energia. Há risco de uma crise no setor e Lula tende a colocar no cargo um sujeito que pinta o cabelo e tem como grande credencial ser aliado de José Sarney. Ele provavelmente não sabe nem trocar uma lâmpada sozinho, mas isso não o impede de fazer o sacrifício de aceitar o ministério. É que no Brasil é assim. Minas e Energia é uma pasta que existe para agradar aliados. No governo Lula, pertence ao PMDB, um partido que sempre tem quadros preparados para qualquer função.
Dilma Rousseff deve estar torcendo para que no fim de semana alguma revista ou jornal traga alguma denúncia pesada contra Lobão. Parece que apenas asism o ministério não ficará nas mãos de Lobão. Se ele é o melhor nome do PMDB para o cargo, imagine os piores.
É assim que se administra o país. A receita não é nova. No governo Fernando Henrique, o dono da pasta era o PFL. Por acaso, houve o apagão.
É por essas e outras que o meu nojo da política cresce a cada dia. Um ministério fundamental como o de Minas e Energia vira moeda de troca para a negociação com os partidos da base aliada. A história, por aqui, não se repete como farsa. Ela se repete como palhaçada
Edison Lobão, conhecido especialista em energia, deve ser o novo ministro de Minas e Energia. Há risco de uma crise no setor e Lula tende a colocar no cargo um sujeito que pinta o cabelo e tem como grande credencial ser aliado de José Sarney. Ele provavelmente não sabe nem trocar uma lâmpada sozinho, mas isso não o impede de fazer o sacrifício de aceitar o ministério. É que no Brasil é assim. Minas e Energia é uma pasta que existe para agradar aliados. No governo Lula, pertence ao PMDB, um partido que sempre tem quadros preparados para qualquer função.
Dilma Rousseff deve estar torcendo para que no fim de semana alguma revista ou jornal traga alguma denúncia pesada contra Lobão. Parece que apenas asism o ministério não ficará nas mãos de Lobão. Se ele é o melhor nome do PMDB para o cargo, imagine os piores.
É assim que se administra o país. A receita não é nova. No governo Fernando Henrique, o dono da pasta era o PFL. Por acaso, houve o apagão.
É por essas e outras que o meu nojo da política cresce a cada dia. Um ministério fundamental como o de Minas e Energia vira moeda de troca para a negociação com os partidos da base aliada. A história, por aqui, não se repete como farsa. Ela se repete como palhaçada
janeiro 09, 2008
Brasil, país do futuro
Depois de a dengue se tornar quase tão comum quanto a gripe, a febre amarela aparece para mostrar que o Brasil não é mesmo um país para principantes. Há rumores de que vem por aí uma epidemia de esquistossomose. Amarelão e úlcera de bauru correm por fora. Os piores temores provocados pelo meu livro de ciências da terceira série (ou a gente aprendia essas coisas depois?) começam a se concretizar. Para piorar, só falta ter uma onda de tênia saginata em São Paulo
Depois de a dengue se tornar quase tão comum quanto a gripe, a febre amarela aparece para mostrar que o Brasil não é mesmo um país para principantes. Há rumores de que vem por aí uma epidemia de esquistossomose. Amarelão e úlcera de bauru correm por fora. Os piores temores provocados pelo meu livro de ciências da terceira série (ou a gente aprendia essas coisas depois?) começam a se concretizar. Para piorar, só falta ter uma onda de tênia saginata em São Paulo
janeiro 08, 2008
Os idiotas da subjetividade
Uma das especialidades do Torre de Marfim, ou da direita do podcast, é torturar números, segundo o Enio, um dos comentaristas do blog do Idelber. Numa discussão neste post, ele gentilmente nos ensinou que “o que devemos lembrar os neoliberais e seus simpatizantes é que estatísticas, números, estudos servem para sustentar posições políticas”. Fiquei grato pela lição. No mesmo comentário, ele diz que “fazer contas é apenas fazer contas, é um auxílio ao pensamento, e não o pensamento em si”, e acrescenta que “existe muita gente à esquerda que sabe fazer contas. Mas tem a honestidade de não ficar torturando números.”
Por aqui, nós não temos esse problema. Quando queremos sustentar uma idéia e distorcer a realidade, colocamos os números no pau-de-arara e eles confessam tudinho. Fico imaginando o que o Enio pensará ao ler o post abaixo, escrito pelo Arranhaponte. Depois de uns três ou quatro orgasmos, ele provavelmente dirá: “Tá vendo? A direita do podcast não pára de torturar números”.
É claro que não é isso o que fez o Arranhaponte e nem o que eu fiz quando discuti com ele no blog do Idelber. Eu prezo o uso de estatísticas e indicadores para apoiar idéias, como “um auxílio ao pensamento”, como diz o Enio, sempre tão irônico e professoral. Eu aprendo muito com ele.
No blog do Idelber, eu usei números para mostrar que o neoliberalismo brasileiro que vigorou a partir dos anos 90 curiosamente aumentou o tamanho do Estado brasileiro, em vez de diminuí-lo. A evolução da carga tributária e dos gastos públicos mostra isso claramente. Houve privatizações e alguma desregulamentação da economia desde o começo dos anos 90, mas ao mesmo tempo o peso dos impostos cresceu e as despesas públicas dispararam. De 1991 a 2007, a carga tributária pulou de 24% do PIB para 35% do PIB, e os gastos não financeiros da União aumentaram de 14% do PIB para 22% do PIB, de acordo com estimativas do Fábio Giambiagi, neste texto do Ipea. Os números, esses pobres seres torturados, mostram que o Estado brasileiro aumentou em plena vigência das políticas neoliberais. Curioso, não? No caso do post do Arranhaponte, os números servem para contextualizar melhor a evolução da mortalidade infantil em Cuba.
É claro que é possível fazer um uso mal-intencionado dos números. Isso não é privilégio da direita ou da esquerda. A questão é que demonizar o uso de estatísticas tem um pé no obscurantismo, como disse o Arranhaponte num comentário do post abaixo. É possível usar os números de modo honesto, e travar uma discussão honesta em cima deles. O divertido é que o próprio Enio recorre a estatísticas num comentário a outro post do Idelber, não sem resistir a uma menção engraçadinha aos torturadores de números da “Ivory Tower”. O argumento dele ganhou mais força. Não precisa ficar com vergonha de usar os números, rapaz. Dispensá-los é coisa dos idiotas da subjetividade
PS: Há um mês, estive em Recife, no encontro da Associação Nacional dos Centros de Pós-Graduação em Economia (Anpec). Assisti a umas 25 apresentações. Em todas elas havia um esforço firme de quantificação, mesmo no de economistas de universidades tidas como heterodoxas, como a UFRJ. O uso de modelos econométricos abundava nos trabalhos. Na maior parte dos casos, os números estavam a serviço das idéias. Hoje, o estudo sério da economia não abre mão da quantificação
Uma das especialidades do Torre de Marfim, ou da direita do podcast, é torturar números, segundo o Enio, um dos comentaristas do blog do Idelber. Numa discussão neste post, ele gentilmente nos ensinou que “o que devemos lembrar os neoliberais e seus simpatizantes é que estatísticas, números, estudos servem para sustentar posições políticas”. Fiquei grato pela lição. No mesmo comentário, ele diz que “fazer contas é apenas fazer contas, é um auxílio ao pensamento, e não o pensamento em si”, e acrescenta que “existe muita gente à esquerda que sabe fazer contas. Mas tem a honestidade de não ficar torturando números.”
Por aqui, nós não temos esse problema. Quando queremos sustentar uma idéia e distorcer a realidade, colocamos os números no pau-de-arara e eles confessam tudinho. Fico imaginando o que o Enio pensará ao ler o post abaixo, escrito pelo Arranhaponte. Depois de uns três ou quatro orgasmos, ele provavelmente dirá: “Tá vendo? A direita do podcast não pára de torturar números”.
É claro que não é isso o que fez o Arranhaponte e nem o que eu fiz quando discuti com ele no blog do Idelber. Eu prezo o uso de estatísticas e indicadores para apoiar idéias, como “um auxílio ao pensamento”, como diz o Enio, sempre tão irônico e professoral. Eu aprendo muito com ele.
No blog do Idelber, eu usei números para mostrar que o neoliberalismo brasileiro que vigorou a partir dos anos 90 curiosamente aumentou o tamanho do Estado brasileiro, em vez de diminuí-lo. A evolução da carga tributária e dos gastos públicos mostra isso claramente. Houve privatizações e alguma desregulamentação da economia desde o começo dos anos 90, mas ao mesmo tempo o peso dos impostos cresceu e as despesas públicas dispararam. De 1991 a 2007, a carga tributária pulou de 24% do PIB para 35% do PIB, e os gastos não financeiros da União aumentaram de 14% do PIB para 22% do PIB, de acordo com estimativas do Fábio Giambiagi, neste texto do Ipea. Os números, esses pobres seres torturados, mostram que o Estado brasileiro aumentou em plena vigência das políticas neoliberais. Curioso, não? No caso do post do Arranhaponte, os números servem para contextualizar melhor a evolução da mortalidade infantil em Cuba.
É claro que é possível fazer um uso mal-intencionado dos números. Isso não é privilégio da direita ou da esquerda. A questão é que demonizar o uso de estatísticas tem um pé no obscurantismo, como disse o Arranhaponte num comentário do post abaixo. É possível usar os números de modo honesto, e travar uma discussão honesta em cima deles. O divertido é que o próprio Enio recorre a estatísticas num comentário a outro post do Idelber, não sem resistir a uma menção engraçadinha aos torturadores de números da “Ivory Tower”. O argumento dele ganhou mais força. Não precisa ficar com vergonha de usar os números, rapaz. Dispensá-los é coisa dos idiotas da subjetividade
PS: Há um mês, estive em Recife, no encontro da Associação Nacional dos Centros de Pós-Graduação em Economia (Anpec). Assisti a umas 25 apresentações. Em todas elas havia um esforço firme de quantificação, mesmo no de economistas de universidades tidas como heterodoxas, como a UFRJ. O uso de modelos econométricos abundava nos trabalhos. Na maior parte dos casos, os números estavam a serviço das idéias. Hoje, o estudo sério da economia não abre mão da quantificação
janeiro 07, 2008
Eu, chato, desvalorizando as façanhas cubanas
Vejam que interessante. Este link aqui eu roubei do blog do Alon, mostrando que a mortalidade infantil em Cuba baixou a 5,3 por 1000 nascidos, um número excelente. Eu já sabia, por outro lado, que Cuba tinha a menor mortalidade infantil da América Latina em 1960, um ano após os barbudos chegarem ao poder. Mas, para que não restassem dúvidas, procurei um dado anterior, e acabei encontrando aqui* (não sei por quê, mas o link cai sempre no item 31, Distribution and Services - cliquem na Table of Contents e entrem no item 34, Comparative Intenational Statistics). Vejam na página 101 que a mortalidade infantil de Cuba em 1956 era de 37,6. Na verdade, segundo os números da reportagem do Granma (vejam lá), ela até cresceu em 1961 e 1962, o que é compreensível, já que a revolução estava nos estágios iniciais e provavelmente o país ainda sofria as conseqüências da turbulência que sempre envolve uma ruptura como essa.
Esse documento aí em que consta a mortalidade infantil cubana, como alguns de vocês talvez já tenham notado, é o Statistical Abstract of the United States de 1960. É um documento estatístico do país publicado desde 1878. Está lá no site do US Census Bureau. Acontece que o Statistical Abstract tem uma sessão chamada "Comparative International Statistics", que é onde está o número não só de Cuba, e não só de mortalidade infantil, mas um montão de indicadores de um montão de países. Então, só para comparar, vejamos a mortalidade infantil de outros países tal como aparece no Statistical Abstract de 1960:
Cuba (1956) - 37,6
Estados Unidos (1959) - 26,4
Argentina (1958) - 61,1
Austria (1959) - 37,6 (igual à cubana)
Bolívia (1958) - 90,7
Brasil (1950) - 170
Chile (1958) - 126,8
Colômbia (1958) - 100
Itália (1959) - 44,9
Japão (1958) - 34,6
Espanha (1959) - 47,1
Reino Unido (1958) - 22,5
Uruguai (1956) - 73
Bem, resumo da história. A gente vê aqui que, em pleno bordel do Fulgencio Batista, Cuba tinha uma mortalidade infantil que era disparado a menor da América Latina, era igual à da Áustria, ligeiramente superior à do Japão e menor do que a da Itália e a da Espanha.
É preciso, portanto, parabenizar o ditador Fidel Castro por ter mantido o ótimo desempenho que a Cuba de Fulgencio já exibia em termos de baixa mortalidade infantil. Na verdade, Castro foi até um pouco adiante, já que hoje Cuba tem o indicador no nível dos países mais desenvolvidos, e até melhor que o americano (embora eu já tenha lido que o indicador americano é distorcido pelo que é considerado como criança "nascida vida", que é um conceito mais amplo do que em outros países, já que a altíssima tecnologia permite que se tente salvar bebês - às vezes com intervenções ainda na fase uterina - que em outros países falecem imediatamente ao nascer ou nascem mortos). Mas, se a gente analisar com cuidado, notaremos que o avanço da revolução cubana não foi esta coisa toda, quando cotejado com o de outros países. Vejamos, segundo os dados mais recentes da ONU, qual é a mortalidade infantil atual naquela mesma lista de países:
Cuba - 5
Estados Unidos - 6
Argentina - 13
Austria - 4
Bolívia - 46
Brasil - 24
Chile - 7
Colômbia - 19
Itália - 5
Japão - 3
Espanha - 4
Reino Unido - 5
Uruguai - 13
Em resumo, em cerca de 50 anos a revolução cubana conseguiu a façanha de reduzir a mortalidade infantil em 87%. Só que isto é menos do que, no mesmo período, reduziram a dita cuja países como Áustria (89,4%), Chile (o campeão, com 94,5%), Itália (88,9%), Japão (91,3%), e não é muito mais do que foi obtido pela Colômbia (81%), Uruguai (82,2%), Argentina (78,7%), Estados Unidos (77,3%) e Reino Unido (77,8%). O único que se destaca por ter reduzido bem menos que os outros é a Bolívia (49,3%).
Se a gente pensar em pontos percentuais de redução, Cuba, com 32,6, perde para Argentina (48,1), Áustria (33,6), Bolívia (44,7), Chile (119,8), Colômbia (81), Itália (39,9), Espanha (43,1) e Uruguai (60), e só ganha dos Estados Unidos (20,4), Japão (31,6) e Reino Unido (17,5).
Eu tirei o Brasil porque o dado do Statistical Abstract de 1960 referia-se a 1950, muito mais defasado do que o dos outros países. Poderia ter procurado um dado do final da década de 50 no IBGE mas fiquei com preguiça.
E por que tudo isso? É só para encher o saco dos fãs de Cuba, mesmo. Mesquinhos instintos anti-comunistas
Vejam que interessante. Este link aqui eu roubei do blog do Alon, mostrando que a mortalidade infantil em Cuba baixou a 5,3 por 1000 nascidos, um número excelente. Eu já sabia, por outro lado, que Cuba tinha a menor mortalidade infantil da América Latina em 1960, um ano após os barbudos chegarem ao poder. Mas, para que não restassem dúvidas, procurei um dado anterior, e acabei encontrando aqui* (não sei por quê, mas o link cai sempre no item 31, Distribution and Services - cliquem na Table of Contents e entrem no item 34, Comparative Intenational Statistics). Vejam na página 101 que a mortalidade infantil de Cuba em 1956 era de 37,6. Na verdade, segundo os números da reportagem do Granma (vejam lá), ela até cresceu em 1961 e 1962, o que é compreensível, já que a revolução estava nos estágios iniciais e provavelmente o país ainda sofria as conseqüências da turbulência que sempre envolve uma ruptura como essa.
Esse documento aí em que consta a mortalidade infantil cubana, como alguns de vocês talvez já tenham notado, é o Statistical Abstract of the United States de 1960. É um documento estatístico do país publicado desde 1878. Está lá no site do US Census Bureau. Acontece que o Statistical Abstract tem uma sessão chamada "Comparative International Statistics", que é onde está o número não só de Cuba, e não só de mortalidade infantil, mas um montão de indicadores de um montão de países. Então, só para comparar, vejamos a mortalidade infantil de outros países tal como aparece no Statistical Abstract de 1960:
Cuba (1956) - 37,6
Estados Unidos (1959) - 26,4
Argentina (1958) - 61,1
Austria (1959) - 37,6 (igual à cubana)
Bolívia (1958) - 90,7
Brasil (1950) - 170
Chile (1958) - 126,8
Colômbia (1958) - 100
Itália (1959) - 44,9
Japão (1958) - 34,6
Espanha (1959) - 47,1
Reino Unido (1958) - 22,5
Uruguai (1956) - 73
Bem, resumo da história. A gente vê aqui que, em pleno bordel do Fulgencio Batista, Cuba tinha uma mortalidade infantil que era disparado a menor da América Latina, era igual à da Áustria, ligeiramente superior à do Japão e menor do que a da Itália e a da Espanha.
É preciso, portanto, parabenizar o ditador Fidel Castro por ter mantido o ótimo desempenho que a Cuba de Fulgencio já exibia em termos de baixa mortalidade infantil. Na verdade, Castro foi até um pouco adiante, já que hoje Cuba tem o indicador no nível dos países mais desenvolvidos, e até melhor que o americano (embora eu já tenha lido que o indicador americano é distorcido pelo que é considerado como criança "nascida vida", que é um conceito mais amplo do que em outros países, já que a altíssima tecnologia permite que se tente salvar bebês - às vezes com intervenções ainda na fase uterina - que em outros países falecem imediatamente ao nascer ou nascem mortos). Mas, se a gente analisar com cuidado, notaremos que o avanço da revolução cubana não foi esta coisa toda, quando cotejado com o de outros países. Vejamos, segundo os dados mais recentes da ONU, qual é a mortalidade infantil atual naquela mesma lista de países:
Cuba - 5
Estados Unidos - 6
Argentina - 13
Austria - 4
Bolívia - 46
Brasil - 24
Chile - 7
Colômbia - 19
Itália - 5
Japão - 3
Espanha - 4
Reino Unido - 5
Uruguai - 13
Em resumo, em cerca de 50 anos a revolução cubana conseguiu a façanha de reduzir a mortalidade infantil em 87%. Só que isto é menos do que, no mesmo período, reduziram a dita cuja países como Áustria (89,4%), Chile (o campeão, com 94,5%), Itália (88,9%), Japão (91,3%), e não é muito mais do que foi obtido pela Colômbia (81%), Uruguai (82,2%), Argentina (78,7%), Estados Unidos (77,3%) e Reino Unido (77,8%). O único que se destaca por ter reduzido bem menos que os outros é a Bolívia (49,3%).
Se a gente pensar em pontos percentuais de redução, Cuba, com 32,6, perde para Argentina (48,1), Áustria (33,6), Bolívia (44,7), Chile (119,8), Colômbia (81), Itália (39,9), Espanha (43,1) e Uruguai (60), e só ganha dos Estados Unidos (20,4), Japão (31,6) e Reino Unido (17,5).
Eu tirei o Brasil porque o dado do Statistical Abstract de 1960 referia-se a 1950, muito mais defasado do que o dos outros países. Poderia ter procurado um dado do final da década de 50 no IBGE mas fiquei com preguiça.
E por que tudo isso? É só para encher o saco dos fãs de Cuba, mesmo. Mesquinhos instintos anti-comunistas
janeiro 02, 2008
Lampejos de auto-conhecimento
Eu percebo que sou irremediavelmente anti-fashion quando constato que seria incapaz de distinguir os óculos escuros de R$ 20 que acabo de comprar no camelô daquele de R$ 750,00 que minha namorada indicou como "bom" quando eu comprei um de R$ 90 (que já quebrou)
Eu percebo que sou irremediavelmente anti-fashion quando constato que seria incapaz de distinguir os óculos escuros de R$ 20 que acabo de comprar no camelô daquele de R$ 750,00 que minha namorada indicou como "bom" quando eu comprei um de R$ 90 (que já quebrou)



Vote em mim, eu sou mó legal
Autoconfiança é tudo. Veja o caso de Soninha. Comentarista esportiva e uma das participantes do Saia Justa, ela virou vereadora, mas acha pouco. Soninha foi candidata a deputada federal em 2006, mas não se elegeu. Neste ano, vai tentar um vôo mais alto. Saiu do PT e foi para o PPS para se candidatar à prefeitura.
Sim, eu sei que a cidade já teve prefeitos grotescos como Paulo Maluf e Celso Pitta. Perto deles, Soninha é quase uma estadista. Isso não muda o fato, porém, de que ela não tem preparo e vivência política para ser prefeita. O site do PPS cita uma reportagem do JT em que ela diz que vai eleger a mobilidade urbana como bandeira de campanha. É o típico tema descolado e bonitinho, que não deixa de ser importante, mas que é característico de campanhas de candidatos café com leite. Eu fico me perguntando se Soninha acha realmente que tem condições de ser prefeita. Numa entrevista ao site do PPS, ela diz que se vê com um “puta tesão assim nos próximos meses, discutindo programa de governo”. É discurso de adolescente candidata a presidente do grêmio estudantil.
Mas Soninha pelo menos parece bem intencionada, e sua candidatura à prefeitura é inofensiva. O que me incomoda é a autoconfiança de gente que assume cargos importantes em momentos delicados mesmo sem entender nada do assunto*. A sem cerimônia com que Nelson Jobim assumiu o ministério de Defesa no meio da crise aérea até hoje me deixa espantado. O homem não entendia, quer dizer, não entende, nada de Defesa e muito menos do setor aéreo, mas topou a missão com galhardia. No dia seguinte à posse, com a maior desfaçatez, dava entrevistas como se dominasse o assunto desde pequenininho. Para completar, fez um rapa na Anac e colocou na presidência do órgão regulador Solange Vieira, que entende tanto de aviação quanto ele. Cara de pau é isso aí
* Como eu já falei de Edison Lobão neste post, preferi citar outros casos