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Os idiotas da subjetividade

Uma das especialidades do Torre de Marfim, ou da direita do podcast, é torturar números, segundo o Enio, um dos comentaristas do blog do Idelber. Numa discussão neste post, ele gentilmente nos ensinou que “o que devemos lembrar os neoliberais e seus simpatizantes é que estatísticas, números, estudos servem para sustentar posições políticas”. Fiquei grato pela lição. No mesmo comentário, ele diz que “fazer contas é apenas fazer contas, é um auxílio ao pensamento, e não o pensamento em si”, e acrescenta que “existe muita gente à esquerda que sabe fazer contas. Mas tem a honestidade de não ficar torturando números.”

Por aqui, nós não temos esse problema. Quando queremos sustentar uma idéia e distorcer a realidade, colocamos os números no pau-de-arara e eles confessam tudinho. Fico imaginando o que o Enio pensará ao ler o post abaixo, escrito pelo Arranhaponte. Depois de uns três ou quatro orgasmos, ele provavelmente dirá: “Tá vendo? A direita do podcast não pára de torturar números”.

É claro que não é isso o que fez o Arranhaponte e nem o que eu fiz quando discuti com ele no blog do Idelber. Eu prezo o uso de estatísticas e indicadores para apoiar idéias, como “um auxílio ao pensamento”, como diz o Enio, sempre tão irônico e professoral. Eu aprendo muito com ele.

No blog do Idelber, eu usei números para mostrar que o neoliberalismo brasileiro que vigorou a partir dos anos 90 curiosamente aumentou o tamanho do Estado brasileiro, em vez de diminuí-lo. A evolução da carga tributária e dos gastos públicos mostra isso claramente. Houve privatizações e alguma desregulamentação da economia desde o começo dos anos 90, mas ao mesmo tempo o peso dos impostos cresceu e as despesas públicas dispararam. De 1991 a 2007, a carga tributária pulou de 24% do PIB para 35% do PIB, e os gastos não financeiros da União aumentaram de 14% do PIB para 22% do PIB, de acordo com estimativas do Fábio Giambiagi, neste texto do Ipea. Os números, esses pobres seres torturados, mostram que o Estado brasileiro aumentou em plena vigência das políticas neoliberais. Curioso, não? No caso do post do Arranhaponte, os números servem para contextualizar melhor a evolução da mortalidade infantil em Cuba.

É claro que é possível fazer um uso mal-intencionado dos números. Isso não é privilégio da direita ou da esquerda. A questão é que demonizar o uso de estatísticas tem um pé no obscurantismo, como disse o Arranhaponte num comentário do post abaixo. É possível usar os números de modo honesto, e travar uma discussão honesta em cima deles. O divertido é que o próprio Enio recorre a estatísticas num comentário a outro post do Idelber, não sem resistir a uma menção engraçadinha aos torturadores de números da “Ivory Tower”. O argumento dele ganhou mais força. Não precisa ficar com vergonha de usar os números, rapaz. Dispensá-los é coisa dos idiotas da subjetividade

PS: Há um mês, estive em Recife, no encontro da Associação Nacional dos Centros de Pós-Graduação em Economia (Anpec). Assisti a umas 25 apresentações. Em todas elas havia um esforço firme de quantificação, mesmo no de economistas de universidades tidas como heterodoxas, como a UFRJ. O uso de modelos econométricos abundava nos trabalhos. Na maior parte dos casos, os números estavam a serviço das idéias. Hoje, o estudo sério da economia não abre mão da quantificação



Marcos Matamoros at 04:08 PM | Comentários (4)

Autores

* Marcos Matamoros
* F. Arranhaponte


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