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fevereiro 29, 2008

Lolitcha, the movie

A usina de idéias do Torre de Marfim não pára. Nos bastidores do blog, há várias discussões que lembram as que eram travadas pelos membros do Bloomsbury – eu me refiro ao wit, e não à viadagem. Desta vez, o nosso brainstorm pariu um projeto que irá revolucionar a cinematografia brasileira. Que Terra em transe, que nada. Cidade de Deus? Tropa de elite? Francamente. Nenhum deles será páreo para Lolitcha.

Nós batemos o martelo hoje. Vamos fazer uma adaptação de Lolita para a realidade brasileira. A ação se passará em Fortaleza. Humberto Humberto, interpretado por José Dumont, é um gago que trabalha como aliciador de menores para casas de prostituição. Ele encara seu emprego com estóica dedicação, até que conhece Josicleide, menina de oito anos incompletos, mas com um corpinho de seis.

Começa aí uma paixão avassaladora. Obcecado por sua ninfeta – ou ninfetcha, como ele diz - Humberto Humberto leva a menina para a sua casa. Depois de alguns meses de uma felicidade um pouco atormentada, ele passa a ser acossado pela polícia, e foge com a sua musa pelo interior do Ceará, Piauí e Maranhão, numa Variant 72 – é a parte road movie do projeto. A idéia é fazer um cruzamento entre Nabokov, pornochanchada e cinema novo, um filme comercial com denúncia social. Não tem como não dar certo. A Petrobras já se interessou



fevereiro 28, 2008

Avacalhândia

O Brasil é um país realmente fuleiro. Avacalhar é o que nós fazemos de melhor. Veja o caso do roubo dos computadores da Petrobras. Tudo sugeria uma operação sofisticada, envolvendo espionagem industrial. Os detalhes mais importantes sobre o campo de Júpiter já estariam em mãos criminosas. Que nada. Ao que tudo indica, foi um crime comum, cometido por uns coiós que não tinham idéia do que haviam roubado. Provavelmente iam vender os laptops por uns duzentos mangos para algum receptador picareta.

A outra prova de nossa fuleirice é o fim da polêmica Reinaldo Azevedo e Gerald Thomas. É verdade que foi algo quase tão desimportante quanto Cuba, mas a briga estava boa – aliás, Reinaldo Azevedo destruiu o dono da ópera seca, e estava certo em quase todas as críticas ao amigo do Beckett. A discussão foi pesada, com agressões violentas. De repente, o negócio descambou para a farsa. Gerald Thomas ligou para o Reinaldo, os dois bateram um papo e pronto: se tornaram amiguinhos. Façam-me o favor



fevereiro 26, 2008

Cuba não tem a menor importância

Mas tem mais que o Fidel. Que já teve. Ok, a música é boa. Os charutos também



fevereiro 25, 2008

Lula não é bobo

Lulainteligente3.jpg

Um dos grandes problemas para a oposição é que Lula é muito mais inteligente do que ela gosta de acreditar. A condução da política econômica é o exemplo mais claro disso. Ela está longe de ser a ideal, é claro. O crescimento desenfreado dos gastos correntes, a um ritmo muito superior ao do PIB, é um erro. Faz o governo investir menos em infra-estrutura do que poderia e leva a política monetária a ser mais dura do que todo mundo gostaria, além de impedir a redução da carga tributária. Mas Lula fez questão de manter um esforço fiscal razoável, capaz de reduzir a relação entre a dívida pública e o PIB, ainda que obtido à custa de aumento simultâneo de receitas e despesas. Quando o Senado derrubou a CPMF, Lula deixou claro que a meta de superávit primário seria mantida.

Outro ponto fundamental é que Lula concedeu na prática autonomia ao Banco Central (BC). Por mais que a esquerda do partido esbraveje, o BC domou a inflação, ajudando a garantir a reeleição de Lula. Em 2006, o IPCA teve alta de apenas 3,14%. No ano passado, a inflação ganhou algum terreno, fechando em 4,5%, mas nem de longe os preços parecem fora de controle.

Ao mesmo tempo, aproveitando-se do cenário internacional favorável, o governo reduziu o seu endividamento externo e aumentou fortemente o nível de reservas. Pôde comemorar na semana passada o fato de o país ter se tornado um credor externo líquido. Nenhuma novidade para quem acompanha o assunto de perto, mas algo perfeito para ser faturado politicamente. Num momento de crise internacional, o câmbio oscilou pouco. Com a calmaria dos últimos dias, voltou a se valorizar.

O resultado é que o país cresce a um ritmo razoável, com aumento do emprego e da renda e forte expansão do investimento. Para tristeza da oposição e para sorte da esquerda, Lula optou por uma política econômica razoavelmente sensata.

É claro que ele também ampliou os programas sociais, apostando inteligentemente no Bolsa Família, um programa com muito mais qualidades do que defeitos. Ao mesmo tempo, trilhou o caminho do populismo, ao conceder aumentos muito elevados para o salário mínimo – mas, ainda assim, sustentáveis do ponto de vista fiscal, pelo menos no médio prazo. A questão é que de nada adiantaria o crescimento de renda proporcionado pelos programas sociais e pelo aumento do salário mínimo se não houvesse inflação baixa. Os ganhos de renda evaporariam rapidamente.

O curioso é que há gente que ainda vê na Venezuela um exemplo a ser seguido. Com uma política monetária de quinta categoria – a inflação ficou em 22,5% no ano passado -, Chávez perde prestígio, mesmo com o petróleo a US$ 100 o barril. Para piorar, o país enfrenta o desabastecimento de vários produtos. Como Lula não é bobo, não vai seguir o caminho de Chávez. O divertido é que parte da esquerda continua a reclamar da política econômica



Sementes da filosofia

Minha filha de nove anos aos prantos na minha cama. Pranto peculiarmente dramático. Suspende o choro por alguns segundos, os olhos fixos na direção da parede, então começa a dar uma golfadas rascantes de ar, e retoma: as lágrimas esguicham como no clichê dos desenhos animados. O motivo é a morte, o fim de tudo, a transitoriedade da vida e das coisas. É difícil consolá-la. Contrariando a pregação da moda do Dawkins, e meu próprio agnosticismo tendente ao ateísmo, eu mancamente aceno com alguma chance de vida pós-morte, mas de nada adianta. A eternidade pela qual ela clama é disso aqui mesmo, a gente estar junto, assistir ao DVD do Feitiço do Tempo (e logo esse!), subir a Pedra Bonita para não ver (porque estava encoberto) os homens pularem de asas-deltas e parapentes (que nomes esdrúxulos, em inglês é hang-glider e paraglider, de uma lógica cristalina). Mas, como tudo na vida, a onda sombria e metafísica da minha filha vai se dissolvendo, outras coisas capturam a sua atenção, e na hora da pizza antes de dormir ela já voltou ao seu eu normal que é muito alegre. Mas então... a pizza não é de calabresa, resume-se a uma reles marguerita. Ela quer calabresa, eu digo que vamos comer a pizza que temos, e that's that. Ela fixa o olhar na parede, numa expressão quase petrificada. Seguem-se golfadas rascantes de ar e pronto, o choro convulso recomeça, talvez ainda mais denso, mais dolorido. Eu me consolo. Que bom que uma boa calabresa ainda cale mais fundo do que Deus e a vida após a morte



fevereiro 21, 2008

Os tortuosos caminhos do voto

Eu considero Philip Roth o maior escritor vivo. Sou fã dele há muito tempo. Mas eu confesso que fiquei um pouco perplexo com essa frase de Roth sobre as eleições americanas. Numa entrevista a Der Spiegel, ele explica por que se interessou por Obama: “I’m interested in the fact that he’s black. I feel the race issue in this country is more important than the feminist issue. I think that the importance to blacks would be tremendous. He’s an attractive man, he’s smart, he happens to be tremendously articulate. His position in the Democratic Party is more or less okay with me. And I think it would be important to American blacks if he became president.”

Eu sei de longa data que Roth é democrata. Já li várias entrevistas em que ele trata de questões políticas, em geral de modo bastante pertinente. Não é o caso dessa vez. “Estou interessado no fato de que ele é negro”? É verdade que Roth lista na resposta outras características para justificar a sua simpatia por Obama, mas fica claro que o fato de se tratar de um negro tem um peso muito grande no seu interesse pelo candidato.

Raça ou gênero são péssimos critérios para definir um voto. O que realmente importa é saber quem é o candidato mais preparado e com as melhores propostas – para um eleitor democrata, também é fundamental pensar em quem tem mais chance de derrotar o candidato republicano. O conselheiro Acácio poderia subscrever essa frase, mas os motivos pelos quais as pessoas decidem o voto estão longe de se pautarem por esse critério óbvio – e racional.

É importante que mulheres e negros sejam candidatos a presidente, mas é muito mais importante que os candidatos sejam preparados, tenham boas propostas e sejam capazes de implementá-las. Se aparecer um transexual judeu negro com essas características, terá o meu voto, mas não por ser transexual, judeu e negro.

Ah, mas você não acha importante que uma mulher ou um negro cheguem à presidência dos EUA ou do Brasil? Depende. Veja o caso de Benedita da Silva. É mulher, negra e favelada. Muita gente achava fantástico votar nela por causa dessas características. Acontece que ela é incompetente, nepotista e acha que o dinheiro público pode usado sem critério. Não tinha a menor condição de ser governadora ou ministra, obviamente não por ela ser negra e mulher, mas por ser despreparada



fevereiro 19, 2008

Por que ando postando tão pouco

Outro dia estava na fila da van quando percebi que uma poça de líquido viscoso alastrava-se em torno dos meus pés. Curvei-me, arregacei as pernas encharcadas das calças e, abismado, notei que minhas convicções jorravam pelo joelho. Já vem de algum tempo esse processo, o esvaziamento progressivo das certezas. Mas nunca antes havia assumido uma feição tão concreta, ou melhor, líquida: jatos de convicção expelidos pelos joelhos.

Há, devo confessar, uma certa sensação de alívio, de desanuviamento, em sangrar certezas. O sangue fica mais ralo, o corpo e a mente algo mais lépidos. Mas a contrapartida é a inanidade discursiva e até mesmo, me vejo obrigado a admitir, mental. Um problema é que fica difícil postar aqui no blog, a não ser que seja para, sei lá, cometer um miniconto ou louvar a boniteza do tico-tico. Fora estes arroubos pseudo-artísticos, o típico post (90% dos meus e dos colegas blogueiros) é um espasmo de convicção invocadinha e exibida, um tapa verbal na cara dos manés que vão ter que ouvir o que é bom para tosse. Mesmo quando camuflado em eruditos truques intelectuais, ou besuntado de ironia até o ponto da incompreensão - e mesmo quando o ponto em si é absolutamente nefelibático e materialmente irrelevante (esses são os piores) -, o post tende a ser a vontade irritada de uma alma desolada de ensinar uma boa verdade ao restante dos mortais. Ficamos isolados ali no nosso canto, convicções fermentando furiosamente no vaso lacrado da mente, até que um post explode para fora – uma espécie de “vocês vão ter que me aturar” intelectual.

Daí que o vazamento de certezas atrapalha a atividade blogueira, porque reduz a pressão interna, cria um milieu inconsistente e vago, e nenhuma reflexão ganha energia suficiente para se projetar em post. Se chegamos ao ponto de convicções escorrerem pelo joelho, como no meu caso, é grave – está se aproximando da paralisia blogueira absoluta.

Mas sempre se pode escrever sobre a boniteza do tico-tico. Sim. A boniteza do tico-tico. Tralalá



fevereiro 18, 2008

Populismo no Vaticano

Bento 16 não perde tempo. Ele quer ser um dos papas mais produtivos de todos os tempos. Segundo a BBC Brasil, “em quase três anos de pontificado, o papa Bento 16 fez 563 beatos e 14 santos, totalizando 577 --um terço dos 1.828 nomeados por João Paulo 2° em seus 27 anos no comando da Igreja Católica”. Esse é o papa intelectual, colaborando para aumentar a vasta indústria do obscurantismo e charlatanismo católicos.

Em 2007, Bento 16 visitou o Brasil e participou da canonização de frei Galvão, o primeiro santo 100% brasileiro. O sujeito é tratado como se fosse um gênio filosófico e na verdade vem para cá para sancionar um culto que explora a fé de pessoas ignorantes.

A produtividade elevada parece um sinal de populismo. Muita gente dizia que Bento 16 iria lutar por uma igreja com menos, mas melhores fiéis. Ao fazer do Vaticano uma máquina de beatificações e canonizações, ele mostra uma disposição insuspeita para atender as demandas das bases católicas, que precisam de um beato ou santo para chamar de seu. Enquanto mantém o discurso católico tradicional, obscurantista e anticientífico, condenando as pesquisas com células-tronco embrionárias, Bento 16 também trata de cuidar dos seus currais religiosos. É o pontificado de resultados



fevereiro 16, 2008

Custa explicar?

Estou deixando a Inglaterra apos duas semanas, e uma das coisas que me pareceu novidade aqui (a novidade seria a intensificacao da tendencia) sao os textinhos explicativos nas lojas, escritos a mao, para os mais variados tipos de mercadoria: vinhos, CDs, livros, etc. Pode ser a era do supremo filistinismo – qualquer boco, como eu, entra por exemplo numa loja descolada de CDs em Brick Lane e, em vez de ficar boiando e lamentando a total desorientacao quanto ao que acontece no mundo pop rock, vai la e le que a sonoridade de determinado CD de hip hop mistura a agressividade da vida passada do cantor como traficante com toques de melancolia derivados da longa convalescencia depois que ele levou nove tiros (meu Deus, eu falo de filistinismo, e ai devem pensar que vou exemplificar com a vulgarizacao que seria um textinho para explicar para os sem-nocao um livro do, digamos, Evelyn Waugh - mas o meu exemplo e um cantor de hip-hop ; eu, supremo filisteu!).

Bem, a visao positiva deste facilitario e que o vendedor teve que dar tratos a bola para criar um texto sintetico, informal e didatico sobre o vinho australiano, o ultimo livro do Martin Amis ou o CD do rapper baleado. Entao, poderiamos talvez considerar esta tendencia como um toque pessoal e simpatico, que humaniza o voraz consumo londrino.

No final das contas, e comercio mesmo. Eu nao comprei o CD do rapper traficante, mas quase (e so de felicidade por ter entendido a “proposta”)

PS: Never mind a acentuacao



fevereiro 15, 2008

Descruza o seu que eu descruzo o meu

Poucas coisas são mais chatas do que as disputas empresariais no setor de telecomunicações. O caso Daniel Dantas-Brasil Telecom-Citibank é provavelmente a segunda história mais insuportável do jornalismo econômico brasileiro de todos os tempos, superada apenas pelo descruzamento das participações acionárias da Vale do Rio Doce e da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Há relatos não confirmados de leitores que morreram com o jornal na mão, no café da manhã, ao enfrentar alguns parágrafos de reportagens sobre o assunto.

O problema é que a novela no setor de teles continua, enquanto a história da Vale e da CSN acabou. O noticiário sobre as negociações entre a Oi e a Brasil Telecom me enche de tédio. Eu não tenho o menor interesse no assunto, não adianta. Torço para uma solução rápida, para que ele suma da mídia. Pode ser qualquer uma. A Oi compra a Brasil Telecom? Muito bom. O BNDES abre uma linha especial para a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) comprar as duas empresas, que terão Joãosinho Trinta como CEO? Tudo bem. Qualquer coisa serve, desde que o assunto saia do noticiário.

Esse tipo de assunto insuportável me faz entender como é a vida daqueles sujeitos que sofreram um acidente e perderam a memória recente. O Fantástico mostra um caso desses a cada seis meses. Eu li várias matérias que explicavam como Daniel Dantas obtivera o controle da Brasil Telecom tendo como participação acionária o equivalente a quatro balas juquinha. Depois de cinco minutos, eu não lembrava mais de nada. A única diferença entre mim e os sujeitos do Fantástico é que eu não lamentava o esquecimento do que tinha lido havia poucos instantes – pelo contrário



fevereiro 12, 2008

A estupidez do trote

Eu leio que veteranos da Escola Politécnica da USP deram o “trote de elite”* nos calouros. Parece que desta vez o negócio não foi muito violento, mas apenas estúpido. Bichos (ou bixos, sei lá) foram pintados, tiveram os seus cabelos cortados e foram obrigados a rolar na lama. Outro calouro teve cubos de gelo colocados em sua cueca. Que coisa inteligente.

Eu sempre tive birra de trote. Quando eu estudava na ECA-USP, uma das poucas coisas das quais eu me orgulhava era o modo como os calouros eram recebidos. No meu ano como bicho, eu não fui nem pintado. Havia quase que só o trote cultural. Um deles, bem divertido, consistia numa palestra com falsos atores e diretores de filmes pornográficos, que deixou alguns calouros mais inocentes horrorizados – nas televisões do auditório, eram exibidos filmes brasileiros como Mulheres taradas com animais, supostamente feitos pelos ex-alunos da ECA que haviam enveredado pelo mundo pornô.

Ninguém tinha o cabelo cortado, e nem era obrigado a fazer coisas humilhantes. O único problema é que a ausência de trote violento era a maior qualidade da ECA. Os cursos são muito fracos, ou pelo menos eram, no fim dos anos 80 e começo dos 90. Mas pelo menos dos trotes nós podíamos nos orgulhar – aliás, gostaria de saber se a coisa continua civilizada por lá.

Em outras unidades da USP, a realidade era bem diferente. Na Poli e na Medicina, a boçalidade era a regra. Lembro de um calouro de engenharia que quebrou a perna, ao jogar bola perto, ou dentro, de um corregozinho. Um amigo que morava com engenheiros disse que alguns veteranos ficaram possessos – como é que o bicho pode ser tão burro a ponto de quebrar a perna? Para os debilóides, a culpa era do coitado do calouro.

Na Medicina, os relatos dos trotes também eram de chorar. Os sujeitos entram num dos cursos mais disputados do país e agem – ou agiam – como animais. Em 1999, o pior ocorreu, e o calouro Edison Tsung Chi Hsueh morreu afogado na piscina da atlética da faculdade, num dia de trote. Pelo que eu li na internet, parece que o trote foi abolido por lá. Assim espero. Em escolas militares, o negócio era muito pesado – e, acredito, isso não mudou.

Eu sempre achei o trote uma estupidez. Ficar careca por que passei na faculdade? Dã. Os defensores da prática gostam de dizer que se trata de um rito de passagem. Bobagem. Humilhar e desrespeitar alguém que acabou de entrar na universidade é coisa de debilóide. Pode parecer um tema menor, mas não é. Pessoas mais frágeis sofrem nesses momentos. E há vários relatos de tragédias, como a do estudante de medicina da USP. Ter orgulho de dar ou sofrer torte é incompreensível para mim

* Que gente criativa, não? Estão a reboque do Tom Cavalcanti, que também faz paródia do filme em seu programa, destinado a quem tem QI abaixo de 60



fevereiro 11, 2008

Ars gratia artis II

NuBalthus3.jpg
Para que não digam que eu sou pudico



fevereiro 09, 2008

Ars gratia artis

Balthus3.jpg
Balthus, antídoto contra a vulgaridade



fevereiro 08, 2008

Mais nojo da política

Acompanhar a política brasileira exige uma paciência e um estômago que eu não tenho mais. Existe coisa mais insuportável do que essa história dos cartões corporativos? É claro que é necessário mais fiscalização no uso dos cartões. Há indícios claros de que há dinheiro sendo mal gasto, sem nenhum critério. Houve abusos evidentes, como no caso da ex-ministra Matilde Ribeiro. Investigação sobre o assunto é mais do que bem-vinda. Controles institucionais rígidos e transparência no uso do dinheiro público são indispensáveis à democracia.

O problema é que a discussão política no país se concentra apenas nisso há vários dias, e tudo indica que continuará a monopolizar as atenções por semanas ou meses. Eu fiquei na dúvida apenas se, com a história dos gastos com cartões em São Paulo, o assunto terá maior ou menor vida últil - é possível que a oposição recolha um pouco as armas, porque os governos do PSDB também poderão ser investigados. Ah, é claro que acho bom que se investigue também os gastos com cartões São Paulo. O que me deixa exasperado é que esse tema consuma toda a energia política do país. Não me parece que o assunto exija uma CPI, seja federal, seja estadual.

Como eu já disse algumas vezes, eu tenho uma visão antiquada de política. Acho que, além da disputa por poder, é fundamental que se discutam assuntos mais importantes, que levem em conta os interesses do país. Esse tipo de discussão mais nobre sumiu do mapa, e não há o menor sinal de que vai reaparecer



fevereiro 06, 2008

Capitalismo selvagem

DSCN0493c.JPG
Tobias aprendeu a lidar com os russos

Ironia das ironias. O berço do socialismo real virou epítome do capitalismo selvagem. Não se fala de outra coisa nas európias: os mili e bilionários russos e a sua forma extravagante de viver, e de gastar dinheiro, é claro. Vodka, drogas e mulheres aos borbotões, orgias desenfreadas, carros impensavelmente caros, gangsterismo rolando à solta e, principalmente, grana, muita muita grana. Em Londres, me dizem, os oligarcas fazem fila para comprar casas no chiquérrimo bairro de Hampstead. Residências vêm sendo vendidas na capital britânica pelo equivalente a 20, 30, 40 milhões de libras (multiplique por dois e acrescente um chorinho para chegar a dólares) para petro-bilionários árabes e russos, com o odd magnata indiano da siderurgia também entrando na brincadeira. Mas, de alguma forma, é sempre dos russos que o povo fala, pelo seu jeito extremado de ser, e eu começo a desconfiar que os ricos do país são ainda mais dostoievskianos que os pobres.

Meu instrutor de esqui tem uma história ilustrativa sobre o ponto acima. Para início de conversa, me confessou que, ao contrário de muitos dos seus colegas, ele trabalha com russos. Precisamos nos adaptar às diferentes culturas, me disse Tobias, um norueguês-suíço-surfista-esquiador-nômade, atrás de geleiras e novas zelândias no verão do hemisfério norte, e já bem aloprado em si mesmo. Ele acrescenta que consegue acompanhar os clientes russos na bebida, mas só até certo ponto (eu não consegui acompanhar Tobias nem na primeira meia-hora, e olhem que eu bebo).

O único incidente mais sério havido com os russos, prossegue meu instrutor, foi quando ele alugou um chalé em Chamonix, herança da sua mulher francesa, para uma tropa de meia-dúzia de compatriotas de Putin. Pelo disse-me-disse da vizinhança, Tobias constatou que nem tudo era perfeita normalidade no chalé, e, indo lá conferir, descobriu que os russos tinham trazido consigo um entourage de 23 mulheres (ou seriam 27? Minha memória para números é nula). “Hookers”, frisou meu instrutor, como se fosse preciso deixar as coisas ainda mais claras. Mas os russos pagaram a diferença direitinho, emendou Tobias, e o chalé estava razoavelmente preservado ao fim do aluguel. O que mostra que mesmo o mais despirocado dos Brics sabe a importância de respeitar contratos



O grotesco indesculpável

Se existe algo que me tira do sério no carnaval é o tratamento vip que recebem os bicheiros que mandam nas escolas de samba. A Folha mostra hoje como Aniz Abraão David, o Anísio, foi cumprimentado por políticos e celebridades no sambódromo na segunda-feira. Patrono da Beija-Flor, Anísio saiu da cadeia em dezembro, depois de ter sido preso na operação Hurricane. Todo mundo sabe que ele é bicheiro, mas isso não impede que figuras como o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, e o deputado Rodrigo Maia (DEM) o tratem com deferência no carnaval.

Não são apenas políticos que agem desse modo. A reportagem diz que Luana Piovani foi lá dar um beijinho no patrono da Beija-Flor, e relata que José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, desfilou junto de Anísio. Um sujeito que deveria estar em cana é tratado como gente decente.

O pior, porém, é que a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) recebe uma boa grana do poder público. Segundo reportagem do Globo no domingo, a Liesa, dominada por bicheiros, obteve cerca de R$ 85 milhões neste ano, dos quais R$ 25 milhões dos governos federal, estadual e municipal. É grotesco e indesculpável. A única atitude razoável é não dar um real para a liga. Bandido não deve receber dinheiro público e acabou. É óbvio, porém, que isso não vai mudar. Nos próximos anos, a Liesa continuará dominada por bicheiros e traficantes, e os governos continuarão a dar dinheiro para os sujeitos.

Esse tipo de tolerância ao que não deve ser tolerado explica por que o governo federal e os governos estaduais aliaram-se à corja da CBF para trazer a Copa de 2014 para o país. Não é por outro motivo que sujeitos com folha corrida viram ministros ou presidentes de estatais.

E não me chamem de udenista. Em todos esses casos, transigir significa ser cúmplice de criminosos. Dizer que não há outro modo de fazer política no Brasil – dar dinheiro para escola de samba é fazer política - é tão grotesco e indesculpável quanto tratar bicheiro com respeito



fevereiro 03, 2008

Telecoteco, balacobaco, ziriguidum

Eu falo mal do carnaval, mas tenho que reconhecer que em poucas épocas do ano o trash se manifesta de modo tão poético. Nada se compara à cobertura da Rede TV!. Como não compra os direitos de transmissão dos desfiles, a emissora coloca Nelson Rubens no estúdio, ao lado de uma Janaína não sei das quantas, com seis pseudo-gostosas atrás, que ficam o tempo todo sambando, sem perder o sorriso.

A precariedade é a regra. Em busca de subcelebridades e subputas, os repórteres da Rede TV! mostram bastidores totalmente irrelevantes do carnaval. Entre os repórteres, talentos como Adriana Bombom e Iris do Big Brother. Na sexta-feira de madrugada, Leo Aquilla - se não sabe quem é, informe-se, filisteu! - entrevista uma subcelebridade que desfilaria pela Águia de Ouro. Transcorre então o seguinte diálogo, depois de Leo Aquilla elogiar a desconhecida:

- Então você vale ouro?
- Eu valo.

É ou não é o maior espetáculo da Terra?




Autores

* Marcos Matamoros
* F. Arranhaponte


Links

* Alexandre Soares Silva
* Chá das Cinco
* Diacrônico
* Filthy McNasty
* FYI
* JP Coutinho
* Manobra, 1979
* Número 12
* puragoiaba
* Roma Dewey


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