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Eu leio que veteranos da Escola Politécnica da USP deram o “trote de elite”* nos calouros. Parece que desta vez o negócio não foi muito violento, mas apenas estúpido. Bichos (ou bixos, sei lá) foram pintados, tiveram os seus cabelos cortados e foram obrigados a rolar na lama. Outro calouro teve cubos de gelo colocados em sua cueca. Que coisa inteligente.
Eu sempre tive birra de trote. Quando eu estudava na ECA-USP, uma das poucas coisas das quais eu me orgulhava era o modo como os calouros eram recebidos. No meu ano como bicho, eu não fui nem pintado. Havia quase que só o trote cultural. Um deles, bem divertido, consistia numa palestra com falsos atores e diretores de filmes pornográficos, que deixou alguns calouros mais inocentes horrorizados – nas televisões do auditório, eram exibidos filmes brasileiros como Mulheres taradas com animais, supostamente feitos pelos ex-alunos da ECA que haviam enveredado pelo mundo pornô.
Ninguém tinha o cabelo cortado, e nem era obrigado a fazer coisas humilhantes. O único problema é que a ausência de trote violento era a maior qualidade da ECA. Os cursos são muito fracos, ou pelo menos eram, no fim dos anos 80 e começo dos 90. Mas pelo menos dos trotes nós podíamos nos orgulhar – aliás, gostaria de saber se a coisa continua civilizada por lá.
Em outras unidades da USP, a realidade era bem diferente. Na Poli e na Medicina, a boçalidade era a regra. Lembro de um calouro de engenharia que quebrou a perna, ao jogar bola perto, ou dentro, de um corregozinho. Um amigo que morava com engenheiros disse que alguns veteranos ficaram possessos – como é que o bicho pode ser tão burro a ponto de quebrar a perna? Para os debilóides, a culpa era do coitado do calouro.
Na Medicina, os relatos dos trotes também eram de chorar. Os sujeitos entram num dos cursos mais disputados do país e agem – ou agiam – como animais. Em 1999, o pior ocorreu, e o calouro Edison Tsung Chi Hsueh morreu afogado na piscina da atlética da faculdade, num dia de trote. Pelo que eu li na internet, parece que o trote foi abolido por lá. Assim espero. Em escolas militares, o negócio era muito pesado – e, acredito, isso não mudou.
Eu sempre achei o trote uma estupidez. Ficar careca por que passei na faculdade? Dã. Os defensores da prática gostam de dizer que se trata de um rito de passagem. Bobagem. Humilhar e desrespeitar alguém que acabou de entrar na universidade é coisa de debilóide. Pode parecer um tema menor, mas não é. Pessoas mais frágeis sofrem nesses momentos. E há vários relatos de tragédias, como a do estudante de medicina da USP. Ter orgulho de dar ou sofrer torte é incompreensível para mim
* Que gente criativa, não? Estão a reboque do Tom Cavalcanti, que também faz paródia do filme em seu programa, destinado a quem tem QI abaixo de 60


