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Tobias aprendeu a lidar com os russos
Ironia das ironias. O berço do socialismo real virou epítome do capitalismo selvagem. Não se fala de outra coisa nas európias: os mili e bilionários russos e a sua forma extravagante de viver, e de gastar dinheiro, é claro. Vodka, drogas e mulheres aos borbotões, orgias desenfreadas, carros impensavelmente caros, gangsterismo rolando à solta e, principalmente, grana, muita muita grana. Em Londres, me dizem, os oligarcas fazem fila para comprar casas no chiquérrimo bairro de Hampstead. Residências vêm sendo vendidas na capital britânica pelo equivalente a 20, 30, 40 milhões de libras (multiplique por dois e acrescente um chorinho para chegar a dólares) para petro-bilionários árabes e russos, com o odd magnata indiano da siderurgia também entrando na brincadeira. Mas, de alguma forma, é sempre dos russos que o povo fala, pelo seu jeito extremado de ser, e eu começo a desconfiar que os ricos do país são ainda mais dostoievskianos que os pobres.
Meu instrutor de esqui tem uma história ilustrativa sobre o ponto acima. Para início de conversa, me confessou que, ao contrário de muitos dos seus colegas, ele trabalha com russos. Precisamos nos adaptar às diferentes culturas, me disse Tobias, um norueguês-suíço-surfista-esquiador-nômade, atrás de geleiras e novas zelândias no verão do hemisfério norte, e já bem aloprado em si mesmo. Ele acrescenta que consegue acompanhar os clientes russos na bebida, mas só até certo ponto (eu não consegui acompanhar Tobias nem na primeira meia-hora, e olhem que eu bebo).
O único incidente mais sério havido com os russos, prossegue meu instrutor, foi quando ele alugou um chalé em Chamonix, herança da sua mulher francesa, para uma tropa de meia-dúzia de compatriotas de Putin. Pelo disse-me-disse da vizinhança, Tobias constatou que nem tudo era perfeita normalidade no chalé, e, indo lá conferir, descobriu que os russos tinham trazido consigo um entourage de 23 mulheres (ou seriam 27? Minha memória para números é nula). “Hookers”, frisou meu instrutor, como se fosse preciso deixar as coisas ainda mais claras. Mas os russos pagaram a diferença direitinho, emendou Tobias, e o chalé estava razoavelmente preservado ao fim do aluguel. O que mostra que mesmo o mais despirocado dos Brics sabe a importância de respeitar contratos


