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Outro dia estava na fila da van quando percebi que uma poça de líquido viscoso alastrava-se em torno dos meus pés. Curvei-me, arregacei as pernas encharcadas das calças e, abismado, notei que minhas convicções jorravam pelo joelho. Já vem de algum tempo esse processo, o esvaziamento progressivo das certezas. Mas nunca antes havia assumido uma feição tão concreta, ou melhor, líquida: jatos de convicção expelidos pelos joelhos.
Há, devo confessar, uma certa sensação de alívio, de desanuviamento, em sangrar certezas. O sangue fica mais ralo, o corpo e a mente algo mais lépidos. Mas a contrapartida é a inanidade discursiva e até mesmo, me vejo obrigado a admitir, mental. Um problema é que fica difícil postar aqui no blog, a não ser que seja para, sei lá, cometer um miniconto ou louvar a boniteza do tico-tico. Fora estes arroubos pseudo-artísticos, o típico post (90% dos meus e dos colegas blogueiros) é um espasmo de convicção invocadinha e exibida, um tapa verbal na cara dos manés que vão ter que ouvir o que é bom para tosse. Mesmo quando camuflado em eruditos truques intelectuais, ou besuntado de ironia até o ponto da incompreensão - e mesmo quando o ponto em si é absolutamente nefelibático e materialmente irrelevante (esses são os piores) -, o post tende a ser a vontade irritada de uma alma desolada de ensinar uma boa verdade ao restante dos mortais. Ficamos isolados ali no nosso canto, convicções fermentando furiosamente no vaso lacrado da mente, até que um post explode para fora – uma espécie de “vocês vão ter que me aturar” intelectual.
Daí que o vazamento de certezas atrapalha a atividade blogueira, porque reduz a pressão interna, cria um milieu inconsistente e vago, e nenhuma reflexão ganha energia suficiente para se projetar em post. Se chegamos ao ponto de convicções escorrerem pelo joelho, como no meu caso, é grave – está se aproximando da paralisia blogueira absoluta.
Mas sempre se pode escrever sobre a boniteza do tico-tico. Sim. A boniteza do tico-tico. Tralalá


