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Minha filha de nove anos aos prantos na minha cama. Pranto peculiarmente dramático. Suspende o choro por alguns segundos, os olhos fixos na direção da parede, então começa a dar uma golfadas rascantes de ar, e retoma: as lágrimas esguicham como no clichê dos desenhos animados. O motivo é a morte, o fim de tudo, a transitoriedade da vida e das coisas. É difícil consolá-la. Contrariando a pregação da moda do Dawkins, e meu próprio agnosticismo tendente ao ateísmo, eu mancamente aceno com alguma chance de vida pós-morte, mas de nada adianta. A eternidade pela qual ela clama é disso aqui mesmo, a gente estar junto, assistir ao DVD do Feitiço do Tempo (e logo esse!), subir a Pedra Bonita para não ver (porque estava encoberto) os homens pularem de asas-deltas e parapentes (que nomes esdrúxulos, em inglês é hang-glider e paraglider, de uma lógica cristalina). Mas, como tudo na vida, a onda sombria e metafísica da minha filha vai se dissolvendo, outras coisas capturam a sua atenção, e na hora da pizza antes de dormir ela já voltou ao seu eu normal que é muito alegre. Mas então... a pizza não é de calabresa, resume-se a uma reles marguerita. Ela quer calabresa, eu digo que vamos comer a pizza que temos, e that's that. Ela fixa o olhar na parede, numa expressão quase petrificada. Seguem-se golfadas rascantes de ar e pronto, o choro convulso recomeça, talvez ainda mais denso, mais dolorido. Eu me consolo. Que bom que uma boa calabresa ainda cale mais fundo do que Deus e a vida após a morte


