« fevereiro 2008 | Main | abril 2008 »
março 30, 2008
Bumbum não se pede, bumbum se conquista
O alerta que vem do coco

Um dragãozinho saiu daí
Põe um indexador no contrato pra não se ferrar, tira do depósito a maquininha de remarcar, que eu tô voltando. Pega uns sindicatos para reclamar, uns burocratas para congelar, bota a Casa da Moeda pra trabalhar, que eu tô voltaaaaaaaannnnndo!!!
Calma, ainda não é tudo isso, mas hoje me assustei quando por trás de um coco a R$ 3 na calçada da praia do Leblon vislumbrei o dragão da maldade inflacionária esfregando as unhas sujas, tentativamente, nas bordas da Terra do Nunca Antes de Don Luleone (aquele que deu um beijo na testa do Severino).
Talvez seja difícil explicar isto, mas o coco na praia de Ipanema e do Leblon é metafisicamente um bem de R$ 2. O intervalo entre R$ 2 e R$ 2,5, que contempla uma oscilação de 25%, é mais do que suficiente para abrigar os ciclos sazonais da commodity. Tudo bem, mesmo uma pequena inflação, ao longo de um longo período, acabaria levando o coco a R$ 3. Mas pelos cálculos dos rocket scientists no departamento de pesquisa do Tower Consulting Partners, isto deveria ocorrer em algum momento entre 2010 e 2013, e não agora, assim sem mais ou menos, no apagar dos calores do verão.
O coco está para o TCP assim como o Big Mac para a The Economist. O coco condensa, in a rather big nutshell, ou sort of, todas as tendências e todas as facetas da dinâmica cíclica da economia global. Acompanhando a cotação do coco em Ipanema e no Leblon, temos feito previsões comprovadamente acuradas sobre o preço do petróleo, o câmbio euro X dólar e dólar X iene (os resultados foram curiosamente menos impressionantes com a libra esterlina) e, obviamente, sobre as tendências do PIB e da inflação no Brasil.
O coco a R$ 3 significa, definitivamente, luz amarela no semáforo (homenagem a São Paulo) inflacionário.
Vai ser interessante assistir a briga entre as duas correntes econômicas do governo: os cariris, liderados pelo ministro Mantega, e os bororós (célebres pela destreza com a borduna), chefiados pelo governor Meirelles, à medida que as ondas de pressão altista deflagradas pelo reajuste do coco se convertam em potencial tsunami inflacionário.
There will be blood

Um dragãozinho saiu daí
Põe um indexador no contrato pra não se ferrar, tira do depósito a maquininha de remarcar, que eu tô voltando. Pega uns sindicatos para reclamar, uns burocratas para congelar, bota a Casa da Moeda pra trabalhar, que eu tô voltaaaaaaaannnnndo!!!
Calma, ainda não é tudo isso, mas hoje me assustei quando por trás de um coco a R$ 3 na calçada da praia do Leblon vislumbrei o dragão da maldade inflacionária esfregando as unhas sujas, tentativamente, nas bordas da Terra do Nunca Antes de Don Luleone (aquele que deu um beijo na testa do Severino).
Talvez seja difícil explicar isto, mas o coco na praia de Ipanema e do Leblon é metafisicamente um bem de R$ 2. O intervalo entre R$ 2 e R$ 2,5, que contempla uma oscilação de 25%, é mais do que suficiente para abrigar os ciclos sazonais da commodity. Tudo bem, mesmo uma pequena inflação, ao longo de um longo período, acabaria levando o coco a R$ 3. Mas pelos cálculos dos rocket scientists no departamento de pesquisa do Tower Consulting Partners, isto deveria ocorrer em algum momento entre 2010 e 2013, e não agora, assim sem mais ou menos, no apagar dos calores do verão.
O coco está para o TCP assim como o Big Mac para a The Economist. O coco condensa, in a rather big nutshell, ou sort of, todas as tendências e todas as facetas da dinâmica cíclica da economia global. Acompanhando a cotação do coco em Ipanema e no Leblon, temos feito previsões comprovadamente acuradas sobre o preço do petróleo, o câmbio euro X dólar e dólar X iene (os resultados foram curiosamente menos impressionantes com a libra esterlina) e, obviamente, sobre as tendências do PIB e da inflação no Brasil.
O coco a R$ 3 significa, definitivamente, luz amarela no semáforo (homenagem a São Paulo) inflacionário.
Vai ser interessante assistir a briga entre as duas correntes econômicas do governo: os cariris, liderados pelo ministro Mantega, e os bororós (célebres pela destreza com a borduna), chefiados pelo governor Meirelles, à medida que as ondas de pressão altista deflagradas pelo reajuste do coco se convertam em potencial tsunami inflacionário.
There will be blood
março 29, 2008
A miséria ética
É um espetáculo deprimente. Com a economia crescendo com força e a popularidade nas alturas, o sucesso econômico e político do governo é indiscutível. Lula, porém, não se emenda. Jogou fora qualquer preocupação em relação à ética. Quando o novo ministro da Igualdade Racial tomou posse, ele fez um discurso inocentando Matilde Ribeiro, aquela que se lambuzou toda com o cartão corporativo. “Ela sai do governo sem ter cometido nenhum crime, nenhum delito, teve apenas falhas administrativas”, disse o Guia Genial. Todo mundo sabe que isso é mentira. O próprio Lula não bancou a ministra, porque sabia que ela, para usar um eufemismo, tinha usado o cartão indevidamente. Se não houve problemas, que Lula tivesse tido a coragem de mantê-la no cargo.
Na quarta-feira, Lula decidiu reabilitar Severino Cavalcanti, o símbolo do que há de pior na política brasileira – ignorante, incompetente, fisiológico e corrupto. “Aquela parte da elite paulista ou do Paraná que te convidava para fazer palestra todas as semanas para falar mal de alguns projetos hoje se o encontrarem na rua não o cumprimentam, e eu continuo tendo o mesmo respeito que eu tinha há muito tempo”, disse o Guia Genial. Ontem foi a vez de reabilitar Renan Calheiros. “Não vou permitir que alguém que não tenha moral de fazer crítica a alguém possa fazer com que eu rompa amizade que tenho com um companheiro que me ajudou tanto tempo como o companheiro Renan Calheiros ajudou no Senado”.
Essa é uma boa medida de Lula: um homem que respeita Severino e é companheiro de Renan Calheiros. Mas, para ele, ninguém que pertence ou pertenceu ao seu círculo erra. Ninguém comete crimes, ninguém comete deslizes éticos. Todos são injustiçados, vítimas da elite e da mídia golpista. José Dirceu e Antônio Palocci também, coitados. Saíram do governo porque eram dois dos petistas com maiores possibilidades de suceder Lula, não porque cometeram crimes. O curioso é que, no primeiro momento, Lula se livra desses colaboradores. Após algum tempo, em alguma cerimônia pública, elogia as vítimas da perseguição da oposição e da mídia, dizendo que não fizeram nada de errado.
E não me venham com essa história de que também houve corrupção no governo anterior. Houve, claro, embora eu ache que em menor escala do que no atual. Pode ser que eu esteja errado, mas isso não interessa. Não é porque eventuais casos de corrupção no governo tucano não foram punidos – e é uma pena que tenha sido assim – que há justificativas para a postura que Lula tem adotado. Ver apenas vítimas entre os ministros que ele mesmo condenou, ao afastá-los do cargo, assim como reabilitar gente como Severino e Renan, é um sintoma de miséria ética que tomou conta do governo. Em vez de se distanciar dessas figuras num momento em que a sua popularidade é elevadíssima, Lula prefere absolvê-las. Quanto mais popular fica, mais Lula se apequena
É um espetáculo deprimente. Com a economia crescendo com força e a popularidade nas alturas, o sucesso econômico e político do governo é indiscutível. Lula, porém, não se emenda. Jogou fora qualquer preocupação em relação à ética. Quando o novo ministro da Igualdade Racial tomou posse, ele fez um discurso inocentando Matilde Ribeiro, aquela que se lambuzou toda com o cartão corporativo. “Ela sai do governo sem ter cometido nenhum crime, nenhum delito, teve apenas falhas administrativas”, disse o Guia Genial. Todo mundo sabe que isso é mentira. O próprio Lula não bancou a ministra, porque sabia que ela, para usar um eufemismo, tinha usado o cartão indevidamente. Se não houve problemas, que Lula tivesse tido a coragem de mantê-la no cargo.
Na quarta-feira, Lula decidiu reabilitar Severino Cavalcanti, o símbolo do que há de pior na política brasileira – ignorante, incompetente, fisiológico e corrupto. “Aquela parte da elite paulista ou do Paraná que te convidava para fazer palestra todas as semanas para falar mal de alguns projetos hoje se o encontrarem na rua não o cumprimentam, e eu continuo tendo o mesmo respeito que eu tinha há muito tempo”, disse o Guia Genial. Ontem foi a vez de reabilitar Renan Calheiros. “Não vou permitir que alguém que não tenha moral de fazer crítica a alguém possa fazer com que eu rompa amizade que tenho com um companheiro que me ajudou tanto tempo como o companheiro Renan Calheiros ajudou no Senado”.
Essa é uma boa medida de Lula: um homem que respeita Severino e é companheiro de Renan Calheiros. Mas, para ele, ninguém que pertence ou pertenceu ao seu círculo erra. Ninguém comete crimes, ninguém comete deslizes éticos. Todos são injustiçados, vítimas da elite e da mídia golpista. José Dirceu e Antônio Palocci também, coitados. Saíram do governo porque eram dois dos petistas com maiores possibilidades de suceder Lula, não porque cometeram crimes. O curioso é que, no primeiro momento, Lula se livra desses colaboradores. Após algum tempo, em alguma cerimônia pública, elogia as vítimas da perseguição da oposição e da mídia, dizendo que não fizeram nada de errado.
E não me venham com essa história de que também houve corrupção no governo anterior. Houve, claro, embora eu ache que em menor escala do que no atual. Pode ser que eu esteja errado, mas isso não interessa. Não é porque eventuais casos de corrupção no governo tucano não foram punidos – e é uma pena que tenha sido assim – que há justificativas para a postura que Lula tem adotado. Ver apenas vítimas entre os ministros que ele mesmo condenou, ao afastá-los do cargo, assim como reabilitar gente como Severino e Renan, é um sintoma de miséria ética que tomou conta do governo. Em vez de se distanciar dessas figuras num momento em que a sua popularidade é elevadíssima, Lula prefere absolvê-las. Quanto mais popular fica, mais Lula se apequena
março 26, 2008
Dantocentrismo e sincera perplexidade
Quando tenho de trabalhar, às vezes me disperso das mais horrendas formas. Até ler o novo blog do Paulo Henrique Amorim ontem à noite eu li. Ô vocação pra Macunaíma, sô. E o que nunca cansa de me impressionar é o dantocentrismo. O PHA se comporta como alguém em luta contra forças titânicas que só querem o mal do Brasil. E o líder da legião bestial é o Daniel Dantas. E os negócios do DD, portanto, estão ligados a todas as coisas ruins que impedem a redenção do País. Mas peraí. O DD é (ou era/faço questão de não entender o caso mais chato de todos os tempos) dono de uma fração controladora de uma das três telefônicas fixas do país (tá tudo errado, talvez, mas finjam que a história é mais ou menos essa). É um negócio de centenas de milhões de dólares, quiçá um punhado de bilhões. OK, mas o PIB é 1,4 tri. Como é que podem o DD e seus negócios, esta briguinha chata por uma companhia telefônica, estarem no centro das questões mais candentes e cruciais da nacionalidade? E a indústria automobilística? E a floresta amazônica? E o tropicalismo? E a Vale do Rio Doce, a Petrobrás? E o samba? O jogo do bicho? A Daslu? São Paulo Fashion Week? Litoral do Ceará? Bumba-meu-Boi? Hospital Alberto Einstein? Flamengo? Cataratas do Iguaçu? Florianópolis? Itaipu? Cozinha baiana? Duplas Sertanejas? Etc? Como todas estas facetas igualmente relevantes do nosso formoso país se encaixam no grande esquema das coisas encabeçado pelo Daniel Dantas? Aguardo respostas de quem entende do assunto
Quando tenho de trabalhar, às vezes me disperso das mais horrendas formas. Até ler o novo blog do Paulo Henrique Amorim ontem à noite eu li. Ô vocação pra Macunaíma, sô. E o que nunca cansa de me impressionar é o dantocentrismo. O PHA se comporta como alguém em luta contra forças titânicas que só querem o mal do Brasil. E o líder da legião bestial é o Daniel Dantas. E os negócios do DD, portanto, estão ligados a todas as coisas ruins que impedem a redenção do País. Mas peraí. O DD é (ou era/faço questão de não entender o caso mais chato de todos os tempos) dono de uma fração controladora de uma das três telefônicas fixas do país (tá tudo errado, talvez, mas finjam que a história é mais ou menos essa). É um negócio de centenas de milhões de dólares, quiçá um punhado de bilhões. OK, mas o PIB é 1,4 tri. Como é que podem o DD e seus negócios, esta briguinha chata por uma companhia telefônica, estarem no centro das questões mais candentes e cruciais da nacionalidade? E a indústria automobilística? E a floresta amazônica? E o tropicalismo? E a Vale do Rio Doce, a Petrobrás? E o samba? O jogo do bicho? A Daslu? São Paulo Fashion Week? Litoral do Ceará? Bumba-meu-Boi? Hospital Alberto Einstein? Flamengo? Cataratas do Iguaçu? Florianópolis? Itaipu? Cozinha baiana? Duplas Sertanejas? Etc? Como todas estas facetas igualmente relevantes do nosso formoso país se encaixam no grande esquema das coisas encabeçado pelo Daniel Dantas? Aguardo respostas de quem entende do assunto
março 23, 2008
A fool such as I

There must be some way out of here
Aqui vai uma dica de filme, à moda do grande Sérgio Faria: Eu não estou lá. Não assista, é uma merda. Se você não é fã incondicional do ídolo fanhoso, não veja. O filme é chato. O filme é comprido. O filme tem referências que fazem sentido apenas para os dylanmaníacos. E, mesmo se eu fosse um especialista no universo do sujeito, seriam grandes as chances de que eu achasse o troço entediante. Se você não idolatra o fanho de Minnesota, não chegue perto.
Mas eu estou na verdade reclamando de barriga cheia. Eu vi o filme no Espaço Unibanco, no sábado à noite. Na mesma sessão, quem estava? Sim, ele mesmo: Eduardo Suplicy, que chegou atrasado, com os trailers na tela. Depois de hesitar por alguns minutos, sentou-se na primeira fileira. Eu passei a sessão inteira preocupado. Felizmente fiquei tenso à toa. Terminado o filme, Suplicy não cantou Blowin' in the wind

There must be some way out of here
Aqui vai uma dica de filme, à moda do grande Sérgio Faria: Eu não estou lá. Não assista, é uma merda. Se você não é fã incondicional do ídolo fanhoso, não veja. O filme é chato. O filme é comprido. O filme tem referências que fazem sentido apenas para os dylanmaníacos. E, mesmo se eu fosse um especialista no universo do sujeito, seriam grandes as chances de que eu achasse o troço entediante. Se você não idolatra o fanho de Minnesota, não chegue perto.
Mas eu estou na verdade reclamando de barriga cheia. Eu vi o filme no Espaço Unibanco, no sábado à noite. Na mesma sessão, quem estava? Sim, ele mesmo: Eduardo Suplicy, que chegou atrasado, com os trailers na tela. Depois de hesitar por alguns minutos, sentou-se na primeira fileira. Eu passei a sessão inteira preocupado. Felizmente fiquei tenso à toa. Terminado o filme, Suplicy não cantou Blowin' in the wind
Vai indo que eu não vou
A sabedoria popular* diz que todo homem deve escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho, ou algo parecido. Eu ainda não fiz nenhuma dessas coisas, é verdade, mas o cumprimento de três resoluções importantes que eu tomei desde cedo me fazem sentir um ser humano mais completo. Eu nunca fui à Nova Jerusalém assistir à encenação da Paixão de Cristo. Eu nunca fui a Parintins ver a briga entre o Caprichoso e o Garantido. Eu nunca fui ao sambódromo do Rio de Janeiro, nem para desfilar nem para assistir aos desfiles. Pode ser pouco para alguns, mas são realizações de que eu muito me orgulho. Morando no Brasil, resistir a elas é uma tarefa muito complicada
* Na lanchonete da empresa, à espera de um café, eu ouço uma versão um pouco diferente: É aquela história: todo mundo deve ter um filho, plantar uma árvore e ler um livro
A sabedoria popular* diz que todo homem deve escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho, ou algo parecido. Eu ainda não fiz nenhuma dessas coisas, é verdade, mas o cumprimento de três resoluções importantes que eu tomei desde cedo me fazem sentir um ser humano mais completo. Eu nunca fui à Nova Jerusalém assistir à encenação da Paixão de Cristo. Eu nunca fui a Parintins ver a briga entre o Caprichoso e o Garantido. Eu nunca fui ao sambódromo do Rio de Janeiro, nem para desfilar nem para assistir aos desfiles. Pode ser pouco para alguns, mas são realizações de que eu muito me orgulho. Morando no Brasil, resistir a elas é uma tarefa muito complicada
* Na lanchonete da empresa, à espera de um café, eu ouço uma versão um pouco diferente: É aquela história: todo mundo deve ter um filho, plantar uma árvore e ler um livro
março 21, 2008
O falastrão
Lula não perde aquela pose de pobre que de repente se vê por cima da carne seca. Isso ficou claro mais uma vez ontem, quando ele comentou a crise nos EUA e aproveitou para tirar uma casquinha dos economistas de bancos estrangeiros. “Quantos palpites os bancos deram sobre nós. Eles nem conheciam países como o Brasil, a Argentina e a Bolívia e, agora, quase todos eles, economistas de 29, 30 anos, tomaram uma bordoada com a crise americana. Eles queriam tanto cuidar dos outros que esqueceram de cuidar deles mesmos”, opinou o Guia Genial, com o lábio trêmulo e o olho rútilo.
Lula disse que os bancos estrangeiros adotaram o famoso faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço. É uma leitura possível. O que Lula não disse é que o Brasil está se dando bem na crise, até o momento, justamente porque adotou parte das recomendações dos bancos estrangeiros. O país manteve a política de superávits primários razoavelmente elevados, para manter a situação fiscal sob controle, e evitou o risco de calote – a estratégia sugerida por boa parte dos economistas de esquerda há não muitos anos. Além disso, com o cenário externo amplamente favorável e os preços das commodities em alta a partir de 2003, foi possível reduzir a vulnerabilidade externa, melhorando os indicadores de solvência sempre na mira das agências de classificação de risco, como a relação entre a dívida externa e as exportações ou entre a dívida externa e as reservas internacionais.
A crise atual deixa claro que muitos bancos e agências de rating foram muito mal em avaliar riscos. A questão é que isso não invalida boa parte do receituário pregado por essas instituições. O Brasil adotou parte dessa agenda, e é por causa da melhora da situação das contas externas e fiscais que o país está mais preparado para enfrentar as turbulências no cenário internacional. Se não tivesse feito isso, Lula simplesmente não poderia tripudiar sobre os bancos estrangeiros
Lula não perde aquela pose de pobre que de repente se vê por cima da carne seca. Isso ficou claro mais uma vez ontem, quando ele comentou a crise nos EUA e aproveitou para tirar uma casquinha dos economistas de bancos estrangeiros. “Quantos palpites os bancos deram sobre nós. Eles nem conheciam países como o Brasil, a Argentina e a Bolívia e, agora, quase todos eles, economistas de 29, 30 anos, tomaram uma bordoada com a crise americana. Eles queriam tanto cuidar dos outros que esqueceram de cuidar deles mesmos”, opinou o Guia Genial, com o lábio trêmulo e o olho rútilo.
Lula disse que os bancos estrangeiros adotaram o famoso faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço. É uma leitura possível. O que Lula não disse é que o Brasil está se dando bem na crise, até o momento, justamente porque adotou parte das recomendações dos bancos estrangeiros. O país manteve a política de superávits primários razoavelmente elevados, para manter a situação fiscal sob controle, e evitou o risco de calote – a estratégia sugerida por boa parte dos economistas de esquerda há não muitos anos. Além disso, com o cenário externo amplamente favorável e os preços das commodities em alta a partir de 2003, foi possível reduzir a vulnerabilidade externa, melhorando os indicadores de solvência sempre na mira das agências de classificação de risco, como a relação entre a dívida externa e as exportações ou entre a dívida externa e as reservas internacionais.
A crise atual deixa claro que muitos bancos e agências de rating foram muito mal em avaliar riscos. A questão é que isso não invalida boa parte do receituário pregado por essas instituições. O Brasil adotou parte dessa agenda, e é por causa da melhora da situação das contas externas e fiscais que o país está mais preparado para enfrentar as turbulências no cenário internacional. Se não tivesse feito isso, Lula simplesmente não poderia tripudiar sobre os bancos estrangeiros
março 20, 2008
Pares
Bem, a secretária eletrônica e o criado mudo sempre me pareceram feitos um para o outro
Bem, a secretária eletrônica e o criado mudo sempre me pareceram feitos um para o outro
março 19, 2008
Com ou sem?

Nathália, mulher de coragem
Polêmicas moralistas são sempre ridículas. Nathália, do Big Brother, está sendo esculachada porque disse que o certo é transar com camisinha, mas o bom é sem. A mulher tomou um monte de pedrada. A conceituada revista Flash estampa em sua capa: Cala a boca, Nathália.
É claro que o sexo pode ser muito bom com camisinha, mas a questão é que é melhor sem. Nathália poderia ter feito essa ressalva, mas ela não disse nenhuma barbaridade. Quem já fez sexo com e sem camisinha pode atestar a diferença. É por causa disso, aliás, que as pessoas insistem em transar sem preservativo.Os adeptos de uma interpretação mais viadesca dirão que isso se deve à pulsão de morte sempre presente no homem, ou atribuirão a insistência às complexas relações entre Eros e Tânatos. A resposta é mais simples. Sem camisinha, o sexo é melhor. Em tempos de aids, pouca gente tem coragem de dizê-lo em público, mas é a verdade, por mais que a Rosely Sayão diga que isso é uma bobagem

Nathália, mulher de coragem
Polêmicas moralistas são sempre ridículas. Nathália, do Big Brother, está sendo esculachada porque disse que o certo é transar com camisinha, mas o bom é sem. A mulher tomou um monte de pedrada. A conceituada revista Flash estampa em sua capa: Cala a boca, Nathália.
É claro que o sexo pode ser muito bom com camisinha, mas a questão é que é melhor sem. Nathália poderia ter feito essa ressalva, mas ela não disse nenhuma barbaridade. Quem já fez sexo com e sem camisinha pode atestar a diferença. É por causa disso, aliás, que as pessoas insistem em transar sem preservativo.Os adeptos de uma interpretação mais viadesca dirão que isso se deve à pulsão de morte sempre presente no homem, ou atribuirão a insistência às complexas relações entre Eros e Tânatos. A resposta é mais simples. Sem camisinha, o sexo é melhor. Em tempos de aids, pouca gente tem coragem de dizê-lo em público, mas é a verdade, por mais que a Rosely Sayão diga que isso é uma bobagem
março 15, 2008
A verdadeira doença holandesa

Algum economista ainda fará um estudo revolucionário mostrando como a indústria do sexo contribui para a valorização do câmbio no Brasil. O escândalo da cafetina brasileira deportada dos EUA me lembrou de uma fonte muito importante de remessa de dólares para o Brasil: as prostitutas brasileiras que mostram o seu talento no exterior. É evidente que uma parte delas, talvez a maior, envia dinheiro para o país, contribuindo para valorizar o câmbio e reduzir a competitividade das exportações brasileiras.
Além disso, essa não é a única fonte de moeda estrangeira ligada à indústria do sexo que derruba o dólar. O Brasil, é bom lembrar, é um dos destinos favoritos de europeus e americanos para o turismo sexual. Atrás de prostituição infantil ou não, os gringos inundam o país com seus dólares. Em vez de se preocupar com essas questões, o governo brasileiro decide taxar o capital de curto prazo que entra no país para ganhar dinheiro honestamente, financiando a dívida pública e aproveitando para ganhar um trocado. Bando de ingratos

Algum economista ainda fará um estudo revolucionário mostrando como a indústria do sexo contribui para a valorização do câmbio no Brasil. O escândalo da cafetina brasileira deportada dos EUA me lembrou de uma fonte muito importante de remessa de dólares para o Brasil: as prostitutas brasileiras que mostram o seu talento no exterior. É evidente que uma parte delas, talvez a maior, envia dinheiro para o país, contribuindo para valorizar o câmbio e reduzir a competitividade das exportações brasileiras.
Além disso, essa não é a única fonte de moeda estrangeira ligada à indústria do sexo que derruba o dólar. O Brasil, é bom lembrar, é um dos destinos favoritos de europeus e americanos para o turismo sexual. Atrás de prostituição infantil ou não, os gringos inundam o país com seus dólares. Em vez de se preocupar com essas questões, o governo brasileiro decide taxar o capital de curto prazo que entra no país para ganhar dinheiro honestamente, financiando a dívida pública e aproveitando para ganhar um trocado. Bando de ingratos
março 14, 2008
Role Model
Essa esquerda...
Eu não sei por que perco tempo com isso, juro. É doença mesmo, e eu vou conversar com meu psicanalista (mas, caramba! eu não faço psicanálise). Para não poluir muito nossa Torre, o comecinho vai aqui e o resto na extended entry. Meu conselho: não cliquem no continue reading.
Não há uma diferença substancial, de natureza, entre os governos Chávez e Lula: ambos se mantêm nos limites do regime burguês. Em situações distintas, ambos pretendem uma “utopia contemporânea” destinada ao fracasso: a impossível regulação social do capitalismo, afirma Valério Arcary, para quem a América Latina vive uma vaga revolucionária que, para ser vitoriosa, exige a ruptura com o imperalismo. Membro da direção nacional do PSTU, doutor em história social pela USP e autor dos livros As Esquinas Perigosas da História (Xamã, São Paulo, 2004) e O Encontro da Revolução com a História (Xamã, São Paulo, 2006), Arcary concedeu a seguinte entrevista a Caros Amigos:
Eu não sei por que perco tempo com isso, juro. É doença mesmo, e eu vou conversar com meu psicanalista (mas, caramba! eu não faço psicanálise). Para não poluir muito nossa Torre, o comecinho vai aqui e o resto na extended entry. Meu conselho: não cliquem no continue reading.
Não há uma diferença substancial, de natureza, entre os governos Chávez e Lula: ambos se mantêm nos limites do regime burguês. Em situações distintas, ambos pretendem uma “utopia contemporânea” destinada ao fracasso: a impossível regulação social do capitalismo, afirma Valério Arcary, para quem a América Latina vive uma vaga revolucionária que, para ser vitoriosa, exige a ruptura com o imperalismo. Membro da direção nacional do PSTU, doutor em história social pela USP e autor dos livros As Esquinas Perigosas da História (Xamã, São Paulo, 2004) e O Encontro da Revolução com a História (Xamã, São Paulo, 2006), Arcary concedeu a seguinte entrevista a Caros Amigos:
Por outro lado, aconteceu uma coisa muito interessante nos últimos dez anos: o movimento de massas derruba não mais ditadores, mas sim presidentes eleitos, como no Equador, na Bolívia, na Argentina. O que isso indica?
É um fato histórico novo. Nunca antes dessa experiência tínhamos revoluções democráticas contra o regime democrático liberal. As situações revolucionárias abriam-se, essencialmente, em situações terminais, contra regimes de exceção, ditatoriais. Agora, desabou o tabu marxista de que insurreições não triunfavam contra regimes legitimamente sufragados. Ao longo dos últimos vinte, 25 anos, tivemos na América Latina regimes democráticos que herdaram, das antigas ditaduras, economias semicoloniais, com uma inserção mais frágil no mercado mundial, e Estados com peso debilitado no sistema internacional. A estagnação produziu o agravamento de todas as doenças sociais: delinqüência, marginalização em grande escala, o avanço do crime organizado, a lumpenização das sociedades, a migração em massa, a decadência da educação pública, das artes, da cultura. Mas as sociedades não podem mergulhar no abismo indefinidamente. Essa nova vaga de revoluções democráticas é uma reação. Graças à nova vaga, Tabaré, Lula, Ortega, Kirchner não podem mais fazer o que Menem, Fernando Henrique e Fujimori fizeram na Argentina, no Brasil ou no Peru. Mas o problema de fundo permanece: os imigrantes não voltaram, o desemprego, mesmo quando diminuiu, manteve-se num patamar muito mais elevado do que era o quadro anterior. Haverá uma segunda onda, provavelmente ainda mais radicalizada, de mobilizações da América Latina. O problema de fundo é que o proletariado brasileiro não voltou a cumprir o papel que teve em 1978 ou 1984. Em algum momento, entre 1993 e 1995, ocorreu no Brasil uma inversão global de forças em relação ao período que se abriu entre 1978 e 1989.
março 13, 2008
O brasileiro e a tortura

Único retrato conhecido de Anacleto de Avignon
O Globo divulgou uma pesquisa no domingo mostrando que 26% dos brasileiros aceitam a tortura para obter informações de suspeitos. O percentual é de 42% entre os que ganham mais de cinco salários mínimos, caindo para 19% entre os que recebem até um salário mínimo. Mostrando o poder humanista da educação no Brasil, 40% dos que têm curso com superior acham bonito colocar o elemento no pau-de-arara.
Eu sou pessimista em relação ao ser humano, um bicho muito pior do que a maior parte das pessoas gosta de reconhecer. Mesmo assim, fiquei chocado com os números, principalmente com o percentual de pessoas com curso superior que aceitam a tortura. Além de o número em si ser altíssimo, em tese quem tem mais escolaridade tenderia a não revelar uma opinião dessas, por saber que não é o que se espera de alguém com mais instrução – o que pode tornar o quadro ainda pior: pode ser que haja dentro do armário um número mais elevado de pessoas com curso superior que defendem a tortura. Eu sempre achei que apenas uma minoria de hidrófobos reacionários considerasse positivo esse método de obtenção de informações, mas pelo jeito a minoria de hidrófobos reacionários é menos minoritária do que eu pensava.
Se verdadeiros, talvez os números ajudem a explicar por que a polícia brasileira continua a se valer da tortura com uma freqüência bem mais do que razoável. Afinal, uma parte não desprezível da população apóia explicitamente o método. Achei curioso, aliás, que a pesquisa tenha tido pouca repercussão. Eu tinha certeza de que a esquerda usaria os números para mostrar a perversidade de parte da nossa elite – e, se os números estiverem corretos, não estariam longe da verdade.
Mas talvez os números não sejam muito diferentes em outros países. Como eu disse, sou pessimista em relação ao ser humano. Grande parte do meu pessimismo, aliás, se deve à leitura das obras do genial e pouco conhecido Anacleto de Avignon. A sua visão do homem é bastante negativa. Um de seus aforismos mais famosos recomenda: “Malfeito e mal-intencionado, o homem é quase sempre indigno de confiança e respeito. Espera pouco do teu semelhante, porque quase nada de bom virá de um ser em que não se deve ter esperança”*
* O leitor atento terá percebido que o aforismo de Anacleto tem semelhanças com a famosa frase do Barão de Itararé, “de onde menos se espera, daí é que não sai nada”. Eu nunca tive dúvidas de que o nosso célebre humorista era leitor do gênio de Avignon. Só não vê a fonte de inspiração quem não quer

Único retrato conhecido de Anacleto de Avignon
O Globo divulgou uma pesquisa no domingo mostrando que 26% dos brasileiros aceitam a tortura para obter informações de suspeitos. O percentual é de 42% entre os que ganham mais de cinco salários mínimos, caindo para 19% entre os que recebem até um salário mínimo. Mostrando o poder humanista da educação no Brasil, 40% dos que têm curso com superior acham bonito colocar o elemento no pau-de-arara.
Eu sou pessimista em relação ao ser humano, um bicho muito pior do que a maior parte das pessoas gosta de reconhecer. Mesmo assim, fiquei chocado com os números, principalmente com o percentual de pessoas com curso superior que aceitam a tortura. Além de o número em si ser altíssimo, em tese quem tem mais escolaridade tenderia a não revelar uma opinião dessas, por saber que não é o que se espera de alguém com mais instrução – o que pode tornar o quadro ainda pior: pode ser que haja dentro do armário um número mais elevado de pessoas com curso superior que defendem a tortura. Eu sempre achei que apenas uma minoria de hidrófobos reacionários considerasse positivo esse método de obtenção de informações, mas pelo jeito a minoria de hidrófobos reacionários é menos minoritária do que eu pensava.
Se verdadeiros, talvez os números ajudem a explicar por que a polícia brasileira continua a se valer da tortura com uma freqüência bem mais do que razoável. Afinal, uma parte não desprezível da população apóia explicitamente o método. Achei curioso, aliás, que a pesquisa tenha tido pouca repercussão. Eu tinha certeza de que a esquerda usaria os números para mostrar a perversidade de parte da nossa elite – e, se os números estiverem corretos, não estariam longe da verdade.
Mas talvez os números não sejam muito diferentes em outros países. Como eu disse, sou pessimista em relação ao ser humano. Grande parte do meu pessimismo, aliás, se deve à leitura das obras do genial e pouco conhecido Anacleto de Avignon. A sua visão do homem é bastante negativa. Um de seus aforismos mais famosos recomenda: “Malfeito e mal-intencionado, o homem é quase sempre indigno de confiança e respeito. Espera pouco do teu semelhante, porque quase nada de bom virá de um ser em que não se deve ter esperança”*
* O leitor atento terá percebido que o aforismo de Anacleto tem semelhanças com a famosa frase do Barão de Itararé, “de onde menos se espera, daí é que não sai nada”. Eu nunca tive dúvidas de que o nosso célebre humorista era leitor do gênio de Avignon. Só não vê a fonte de inspiração quem não quer
março 10, 2008
Pergunta singela
Bem, vocês já devem ter percebido que nem eu nem o Matamoros (e menos ainda o Matamoros do que eu, eu diria) somos exatamente fãs do Reinaldo Azevedo. Recentemente, ele intensificou as razões pelas quais nós definitivamente não fazemos parte da sua legião de admiradores. Eu também não sou um fã do Nassif, tenhos várias restrições, mas entrar num debate chamando o adversário de "ratazana" (como fez o RA, contra o Nassif) evidentemente evoca os piores momentos da direita (nem precisa explicar). Aliás, a série anti-Veja do Nassif, embora sofrendo, para mim, do ônus de ser escrita pelo Nassif (eu não compro a sua afetada isenção pelo valor de face), tem, sem dúvida nenhuma, muita coisa que deve ser aquilo mesmo. Confiram. Mas não é de nada disso que eu queria falar. Tem ainda mais um 'mas' neste post tortuoso. É para dizer que, não obstante o já escrito, o RA fez hoje uma pergunta muito pertinente.
Afinal de contas, qual é a reivindicação das Farc?
Aguardo respostas consistentes dos amigos de esquerda
Bem, vocês já devem ter percebido que nem eu nem o Matamoros (e menos ainda o Matamoros do que eu, eu diria) somos exatamente fãs do Reinaldo Azevedo. Recentemente, ele intensificou as razões pelas quais nós definitivamente não fazemos parte da sua legião de admiradores. Eu também não sou um fã do Nassif, tenhos várias restrições, mas entrar num debate chamando o adversário de "ratazana" (como fez o RA, contra o Nassif) evidentemente evoca os piores momentos da direita (nem precisa explicar). Aliás, a série anti-Veja do Nassif, embora sofrendo, para mim, do ônus de ser escrita pelo Nassif (eu não compro a sua afetada isenção pelo valor de face), tem, sem dúvida nenhuma, muita coisa que deve ser aquilo mesmo. Confiram. Mas não é de nada disso que eu queria falar. Tem ainda mais um 'mas' neste post tortuoso. É para dizer que, não obstante o já escrito, o RA fez hoje uma pergunta muito pertinente.
Afinal de contas, qual é a reivindicação das Farc?
Aguardo respostas consistentes dos amigos de esquerda
março 08, 2008
Historinha deprimente
Eu também fiquei revoltado, indignado, com a expulsão dos brasileiros da Espanha. Mas depois, quando se pensa que o número de imigrantes brasileiros ilegais por lá subiu de quase nada para 100 mil em poucos anos, a minha incontornável atitude mental é a de pensar que nosso pleito nacional por entrada de quase todos os compatriotas em solo espanhol é objetivamente insustentável. E o fato de que eles tratam no limite do suportável os expulsandos? De novo, revoltante. Mas, num second thought, logicamente justificável: se a espera para a deportação fosse confortável, diminuir-se-ia o custo da tentativa. E a idéia, naturalmente, é desestimular a tentativa de brasileiros de imigrarem ilegalmente para a Espanha (e UE at large). Quantos aos brasileiros que não estão tentando imigrar ilegalmente, e que acabam entrando (saindo, para ser mais preciso) injustamente na história, eu diria que eles pagam o pato de ter compatriotas que estão imigrando ilegalmente em massa. Daí surge a idéia de me revoltar contra este contingente de brasileiros. Tipo enfiar uns tabefes no próximo brazuca com cara de imigrante ilegal que eu encontrar esgueirando-se pelos cantos das ruas na Europa. Mas, num third thought, como é que eu posso culpar um sujeito que desrespeita fronteiras geográficas na sua escalada social ao longo da vida? E os bárbaros no Império Romano (a parte não violenta, osmótica, da conquista)? E os portugas arrombando o Tratado de Tordesilhas? E uma cacetada de outros casos de movimentos não-autorizados de populações que fizeram a história do mundo e que a minha preguiça e minha inguinorança me impedem de acrescentar aqui? Nossos tatarararararavós que ainda não tinham noção do que é ser humano tiraram visto para se mandar out of Africa?
Enfim, esta história da expulsão dos brasileiros da Espanha é mais uma do tipo em que não há nenhum convolução mental que possa tornar a coisa mais digerível. É desagradável, e não há nada que possamos fazer a respeito
PS: Talvez uma idéia fosse a Espanha de fato exigir visto dos brasileiros, de tal forma que a maior parte da triagem fosse feita aqui mesmo
Eu também fiquei revoltado, indignado, com a expulsão dos brasileiros da Espanha. Mas depois, quando se pensa que o número de imigrantes brasileiros ilegais por lá subiu de quase nada para 100 mil em poucos anos, a minha incontornável atitude mental é a de pensar que nosso pleito nacional por entrada de quase todos os compatriotas em solo espanhol é objetivamente insustentável. E o fato de que eles tratam no limite do suportável os expulsandos? De novo, revoltante. Mas, num second thought, logicamente justificável: se a espera para a deportação fosse confortável, diminuir-se-ia o custo da tentativa. E a idéia, naturalmente, é desestimular a tentativa de brasileiros de imigrarem ilegalmente para a Espanha (e UE at large). Quantos aos brasileiros que não estão tentando imigrar ilegalmente, e que acabam entrando (saindo, para ser mais preciso) injustamente na história, eu diria que eles pagam o pato de ter compatriotas que estão imigrando ilegalmente em massa. Daí surge a idéia de me revoltar contra este contingente de brasileiros. Tipo enfiar uns tabefes no próximo brazuca com cara de imigrante ilegal que eu encontrar esgueirando-se pelos cantos das ruas na Europa. Mas, num third thought, como é que eu posso culpar um sujeito que desrespeita fronteiras geográficas na sua escalada social ao longo da vida? E os bárbaros no Império Romano (a parte não violenta, osmótica, da conquista)? E os portugas arrombando o Tratado de Tordesilhas? E uma cacetada de outros casos de movimentos não-autorizados de populações que fizeram a história do mundo e que a minha preguiça e minha inguinorança me impedem de acrescentar aqui? Nossos tatarararararavós que ainda não tinham noção do que é ser humano tiraram visto para se mandar out of Africa?
Enfim, esta história da expulsão dos brasileiros da Espanha é mais uma do tipo em que não há nenhum convolução mental que possa tornar a coisa mais digerível. É desagradável, e não há nada que possamos fazer a respeito
PS: Talvez uma idéia fosse a Espanha de fato exigir visto dos brasileiros, de tal forma que a maior parte da triagem fosse feita aqui mesmo
março 06, 2008
Pílulas machistas*

"Ai, o meu terapeuta é lacaniano, mas eu leio escondido os livros do Jung"
Ser macho é atualmente uma tarefa difícil. Num mundo afrescalhado, o heterossexual tem que policiar o seu discurso se não quiser cair na mais pura viadagem. Qualquer referência cultural pode ser comprometedora. Para ajudar o heterossexual desorientado, eu pensei primeiro em fazer um decálogo com os mandamentos do macho, mas, além da dificuldade de arrumar dez, o Arranhaponte matou a questão ao lembrar que, “como diria o Lula, decálogo de macho pode ter no máximo uns três mandamentos.” Acatando o conselho do meu co-blogueiro, aqui vão três:
- Nunca se refira a uma coincidência como sincronicidade, principalmente se ela ocorrer com outro macho. Se citar Jung, danou-se. Macho não cita Jung, a não ser para depreciá-lo. Sincronicidade não existe e, se existisse, seria coisa de viado. Macho acredita em coincidência, mas não muita, porque se não vira viadagem.
- Macho não faz análise e não vai ao psiquiatra. Se for absolutamente necessário, vai a um analista freudiano. A única dúvida que macho se permite nessa área é discutir quem foi mais picareta: Jung ou Lacan? Ah, claro. Macho não toma prozac. Detalhe importante: nunca chame analista de terapeuta, mesmo que ele se identifique desse modo.
- Filosofia é um terreno perigoso para o macho. Toda a filosofia grega deve ser evitada. É de conhecimento público que quase todo filósofo grego mantinha com algum discípulo mais novo o mesmo tipo de relação que o Reinaldo Azevedo tem com o Gerald Thomas. Wittgenstein também é melhor evitar. Além dos motivos óbvios, não perca o seu tempo, porque você não vai entender mesmo. Filosofia de macho é a do Nietzsche, e olhe lá
* Este post tem uma óbvia influência de um antigo texto do Luís Fernando Verissimo, chamado Homem que é homem, publicado no livro O analista de Bagé

"Ai, o meu terapeuta é lacaniano, mas eu leio escondido os livros do Jung"
Ser macho é atualmente uma tarefa difícil. Num mundo afrescalhado, o heterossexual tem que policiar o seu discurso se não quiser cair na mais pura viadagem. Qualquer referência cultural pode ser comprometedora. Para ajudar o heterossexual desorientado, eu pensei primeiro em fazer um decálogo com os mandamentos do macho, mas, além da dificuldade de arrumar dez, o Arranhaponte matou a questão ao lembrar que, “como diria o Lula, decálogo de macho pode ter no máximo uns três mandamentos.” Acatando o conselho do meu co-blogueiro, aqui vão três:
- Nunca se refira a uma coincidência como sincronicidade, principalmente se ela ocorrer com outro macho. Se citar Jung, danou-se. Macho não cita Jung, a não ser para depreciá-lo. Sincronicidade não existe e, se existisse, seria coisa de viado. Macho acredita em coincidência, mas não muita, porque se não vira viadagem.
- Macho não faz análise e não vai ao psiquiatra. Se for absolutamente necessário, vai a um analista freudiano. A única dúvida que macho se permite nessa área é discutir quem foi mais picareta: Jung ou Lacan? Ah, claro. Macho não toma prozac. Detalhe importante: nunca chame analista de terapeuta, mesmo que ele se identifique desse modo.
- Filosofia é um terreno perigoso para o macho. Toda a filosofia grega deve ser evitada. É de conhecimento público que quase todo filósofo grego mantinha com algum discípulo mais novo o mesmo tipo de relação que o Reinaldo Azevedo tem com o Gerald Thomas. Wittgenstein também é melhor evitar. Além dos motivos óbvios, não perca o seu tempo, porque você não vai entender mesmo. Filosofia de macho é a do Nietzsche, e olhe lá
* Este post tem uma óbvia influência de um antigo texto do Luís Fernando Verissimo, chamado Homem que é homem, publicado no livro O analista de Bagé
março 05, 2008
Esquadrão de ouro
Nas últimas semanas, surgiram várias novidades no Apostos. Primeiro, a página do nosso portal mudou. Ficou mais bonita e mais funcional. Isso é importante, mas não é o mais importante. A grande notícia é que nós fizemos contratações de peso nos últimos tempos. O time, que já era bom, ficou imbatível. Tem o Antonio Fernando Borges. Tem a Janaína Leite. Tem o Leopoldo Godoy. E tem agora o Filthy McNasty. Todos craques. Não tem para ninguém. O próximo passo é conquistar o país, o mundo e, por que não dizer?, o Universo
Nas últimas semanas, surgiram várias novidades no Apostos. Primeiro, a página do nosso portal mudou. Ficou mais bonita e mais funcional. Isso é importante, mas não é o mais importante. A grande notícia é que nós fizemos contratações de peso nos últimos tempos. O time, que já era bom, ficou imbatível. Tem o Antonio Fernando Borges. Tem a Janaína Leite. Tem o Leopoldo Godoy. E tem agora o Filthy McNasty. Todos craques. Não tem para ninguém. O próximo passo é conquistar o país, o mundo e, por que não dizer?, o Universo
março 04, 2008
Post de esquerda
É, amigo, de vez em quando é inevitável, com a qualidade da direita que temos. O Ali Kamel, aplaudido pelo Reinaldo Azevedo, investe contra a ignomínia que é os pobres usarem o dinheiro do Bolsa Família para comprar eletrodomésticos no lugar de alimentos. Ele diz que o BF foi feito para combater a suposta fome de 54 milhões de brasileiros. Eu não sabia. Pensei que tivesse sido feito para aliviar a miséria e a pobreza de 50 e tantos milhões. O RA diz que o AK notabiliza-se como um jornalista que pesquisa seus assuntos, e que assim os aborda com níveis não comumente encontráveis de rigor e seriedade. Balela, as análises são pedestres, e o argumento dele de que gastos de 0,4% do PIB (o BF) num orçamento público de 37% - gastos aqueles destinados a aliviar a pobreza e a miséria de quase 30% dos brasileiros - fazem uma falta danada para a educação é de um absurdo surreal. Por que você não tira o dinheiro extra da educação dos restantes 36,6%, ô Kamel?!
Com teses deste nível sendo defendidas pela direita, num país onde a maioria é pobre, não dá para reclamar (muito) da hegemonia gramsciana
É, amigo, de vez em quando é inevitável, com a qualidade da direita que temos. O Ali Kamel, aplaudido pelo Reinaldo Azevedo, investe contra a ignomínia que é os pobres usarem o dinheiro do Bolsa Família para comprar eletrodomésticos no lugar de alimentos. Ele diz que o BF foi feito para combater a suposta fome de 54 milhões de brasileiros. Eu não sabia. Pensei que tivesse sido feito para aliviar a miséria e a pobreza de 50 e tantos milhões. O RA diz que o AK notabiliza-se como um jornalista que pesquisa seus assuntos, e que assim os aborda com níveis não comumente encontráveis de rigor e seriedade. Balela, as análises são pedestres, e o argumento dele de que gastos de 0,4% do PIB (o BF) num orçamento público de 37% - gastos aqueles destinados a aliviar a pobreza e a miséria de quase 30% dos brasileiros - fazem uma falta danada para a educação é de um absurdo surreal. Por que você não tira o dinheiro extra da educação dos restantes 36,6%, ô Kamel?!
Com teses deste nível sendo defendidas pela direita, num país onde a maioria é pobre, não dá para reclamar (muito) da hegemonia gramsciana
março 03, 2008
Análise do momento geopolítico sul-americano
O Matamoros me pede para escrever um post contestando a idéia do Alon de montar um cordão sanitário em torno do presidente Álvaro Uribe, cujo corolário último é substituí-lo por um presidente de esquerda, via um grande acordo com as Farc, Chávez e Correa, do Equador (rolaria uma eleiçãozinha, pelo que entendi, cujo resultado já está definido pelo Alon - qualquer zebra, sempre se pode reativar a guerrilha).
Também de acordo com minha precária capacidade de entendimento, a próxima peça de dominó a cair, nos grandiosos planos alônicos para a América do Sul, é o Peru. Quem sabe ressuscitando o Sendero Luminoso não dê para replicar a estratégia colombiana, para finalizar (me permitam a expressão de jiu-jitsu) o presidente Alan García.
Mas eu respondi ao Matamoros que não tenho mais saco de fazer este gênero de post político. A única coisa que eu tenho a dizer, de fato, é que, aproveitando o clima de caos em que a guerra Colômbia X Venezuela mergulhará a América do Sul, o Brasil poderia, em operações militares relâmpago, reconquistar o Uruguai e completar o trabalho do saudoso D. Pedro II no Paraguai. Viva o Império!
O Matamoros me pede para escrever um post contestando a idéia do Alon de montar um cordão sanitário em torno do presidente Álvaro Uribe, cujo corolário último é substituí-lo por um presidente de esquerda, via um grande acordo com as Farc, Chávez e Correa, do Equador (rolaria uma eleiçãozinha, pelo que entendi, cujo resultado já está definido pelo Alon - qualquer zebra, sempre se pode reativar a guerrilha).
Também de acordo com minha precária capacidade de entendimento, a próxima peça de dominó a cair, nos grandiosos planos alônicos para a América do Sul, é o Peru. Quem sabe ressuscitando o Sendero Luminoso não dê para replicar a estratégia colombiana, para finalizar (me permitam a expressão de jiu-jitsu) o presidente Alan García.
Mas eu respondi ao Matamoros que não tenho mais saco de fazer este gênero de post político. A única coisa que eu tenho a dizer, de fato, é que, aproveitando o clima de caos em que a guerra Colômbia X Venezuela mergulhará a América do Sul, o Brasil poderia, em operações militares relâmpago, reconquistar o Uruguai e completar o trabalho do saudoso D. Pedro II no Paraguai. Viva o Império!




Mulher melancia, musa da nova geração
Cultor do mundo trash, eu confesso uma lacuna grave em meu currículo: descobri há apenas duas semanas o que era exatamente a dança do créu e quem era a Mulher Melancia. A complexidade e a sofisticação do créu já mereceriam um estudo aprofundado, mas o que me chamou a atenção no meu mergulho no universo do funk foram as alcunhas inteligentes e dignificantes que recebem as musas e as letras cada vez mais elaboradas das músicas. O MC Créu conta entre as suas dançarinas com a Mulher Jaca e a Mulher Moranguinho, que substituiu a Mulher Melancia na banda (é banda que se diz?). Mister Catra contra-atacou, e lançou a Mulher Filé. Ainda bem que aquele papo de mulher objeto ficou para trás.
Mas o que realmente me comove são as coreografias e as letras. Confira este vídeo da Mulher Melancia, com seu 1,2 metro de rabo, dançando o créu – em cinco velocidades, é claro – em homenagem ao Flamengo, numa academia. Reparem ao fundo os molequinhos que devem ter entre cinco e oito anos. É educativo. Também vale a pena dar uma olhada no requebrado da Mulher Filé, e na letra da música Conquista, de Mister Catra. Quem notar a semelhança com a sofisticação de algumas letras de Chico Buarque não se terá enganado:
Gatinha
Eu sou realista, hein!
Atenção, gatinha! Atenção, gatinha!
Na disciplina, Na disciplina,é...
A gente só invade depois...
Que a gata pisca
Bumbum não se pede
Bumbum se conquista
Seu bumbum é uma arte
Gata, eu sou um artista
Devagar, devagar
Só pra não sair da pista
Bumbum não se pede
Bumbum se conquista
Em cima, duas covinhas
No meio, uma listra
Bumbum não se pede
Bumbum se conquista
Rebola,rebola...
Rebola,vem...
Rebola, rebola, rebola...
Vem que vem...
É isso aí. Com a sua elegância, o funk ganha terreno no gosto popular. Na sexta-feira, uma reportagem da Folha mostrou que o axé veio, viu e venceu. E quando eu digo que o povo gosta de pão com merda, de preferência com pouco pão, ainda há quem diga que é exagero