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O brasileiro e a tortura

Anacletodeavignon3.jpg
Único retrato conhecido de Anacleto de Avignon

O Globo divulgou uma pesquisa no domingo mostrando que 26% dos brasileiros aceitam a tortura para obter informações de suspeitos. O percentual é de 42% entre os que ganham mais de cinco salários mínimos, caindo para 19% entre os que recebem até um salário mínimo. Mostrando o poder humanista da educação no Brasil, 40% dos que têm curso com superior acham bonito colocar o elemento no pau-de-arara.

Eu sou pessimista em relação ao ser humano, um bicho muito pior do que a maior parte das pessoas gosta de reconhecer. Mesmo assim, fiquei chocado com os números, principalmente com o percentual de pessoas com curso superior que aceitam a tortura. Além de o número em si ser altíssimo, em tese quem tem mais escolaridade tenderia a não revelar uma opinião dessas, por saber que não é o que se espera de alguém com mais instrução – o que pode tornar o quadro ainda pior: pode ser que haja dentro do armário um número mais elevado de pessoas com curso superior que defendem a tortura. Eu sempre achei que apenas uma minoria de hidrófobos reacionários considerasse positivo esse método de obtenção de informações, mas pelo jeito a minoria de hidrófobos reacionários é menos minoritária do que eu pensava.

Se verdadeiros, talvez os números ajudem a explicar por que a polícia brasileira continua a se valer da tortura com uma freqüência bem mais do que razoável. Afinal, uma parte não desprezível da população apóia explicitamente o método. Achei curioso, aliás, que a pesquisa tenha tido pouca repercussão. Eu tinha certeza de que a esquerda usaria os números para mostrar a perversidade de parte da nossa elite – e, se os números estiverem corretos, não estariam longe da verdade.

Mas talvez os números não sejam muito diferentes em outros países. Como eu disse, sou pessimista em relação ao ser humano. Grande parte do meu pessimismo, aliás, se deve à leitura das obras do genial e pouco conhecido Anacleto de Avignon. A sua visão do homem é bastante negativa. Um de seus aforismos mais famosos recomenda: “Malfeito e mal-intencionado, o homem é quase sempre indigno de confiança e respeito. Espera pouco do teu semelhante, porque quase nada de bom virá de um ser em que não se deve ter esperança”*

* O leitor atento terá percebido que o aforismo de Anacleto tem semelhanças com a famosa frase do Barão de Itararé, “de onde menos se espera, daí é que não sai nada”. Eu nunca tive dúvidas de que o nosso célebre humorista era leitor do gênio de Avignon. Só não vê a fonte de inspiração quem não quer



Marcos Matamoros at 03:45 PM | Comentários (21)

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* Marcos Matamoros
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