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Lula não perde aquela pose de pobre que de repente se vê por cima da carne seca. Isso ficou claro mais uma vez ontem, quando ele comentou a crise nos EUA e aproveitou para tirar uma casquinha dos economistas de bancos estrangeiros. “Quantos palpites os bancos deram sobre nós. Eles nem conheciam países como o Brasil, a Argentina e a Bolívia e, agora, quase todos eles, economistas de 29, 30 anos, tomaram uma bordoada com a crise americana. Eles queriam tanto cuidar dos outros que esqueceram de cuidar deles mesmos”, opinou o Guia Genial, com o lábio trêmulo e o olho rútilo.
Lula disse que os bancos estrangeiros adotaram o famoso faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço. É uma leitura possível. O que Lula não disse é que o Brasil está se dando bem na crise, até o momento, justamente porque adotou parte das recomendações dos bancos estrangeiros. O país manteve a política de superávits primários razoavelmente elevados, para manter a situação fiscal sob controle, e evitou o risco de calote – a estratégia sugerida por boa parte dos economistas de esquerda há não muitos anos. Além disso, com o cenário externo amplamente favorável e os preços das commodities em alta a partir de 2003, foi possível reduzir a vulnerabilidade externa, melhorando os indicadores de solvência sempre na mira das agências de classificação de risco, como a relação entre a dívida externa e as exportações ou entre a dívida externa e as reservas internacionais.
A crise atual deixa claro que muitos bancos e agências de rating foram muito mal em avaliar riscos. A questão é que isso não invalida boa parte do receituário pregado por essas instituições. O Brasil adotou parte dessa agenda, e é por causa da melhora da situação das contas externas e fiscais que o país está mais preparado para enfrentar as turbulências no cenário internacional. Se não tivesse feito isso, Lula simplesmente não poderia tripudiar sobre os bancos estrangeiros


