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abril 30, 2008

Brasil iu iu!

Somos invesment grade! Da Standard & Poor's. Considere-se risco não especulativo a partir de hoje. E prepare-se para paroximos de "nunca antes na história desse país"



Tema para debate

"O baiano toca berimbau porque só tem uma corda. Se tivesse mais, não conseguiria"
Antonio Dantas, baiano sim sinhô


Na Folha de hoje:

Na Bahia, coordenador atribui resultado a 'baixo QI dos baianos'
Renata Baptista

Para o coordenador do curso de medicina da UFBA (Universidade Federal da Bahia), Antônio Dantas, 69, o baixo rendimento dos alunos da faculdade no Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes) se deve ao "baixo QI dos baianos".
Os alunos de medicina da UFBA obtiveram conceito dois no exame. "Se não houve boicote dos estudantes, o que não acredito, o resultado mostra a baixa inteligência dos alunos".
(...) O coordenador disse que o suposto baixo QI dos baianos é hereditário e verificado "por quem convive (com pessoas nascidas na Bahia)".

Meu comentário: Odioso. E mais odiosa ainda é a corrente que sustenta que o problema é preguiça

PS: Tenho sangue baiano
PS2: Será que esse cara é parente do Daniel Dantas?



O enigma Argentina

No meu post sobre a Argentina, o Na prática a teoria é outra expressou uma perplexidade que também me angustia: como os argentinos, com o nível educacional que têm, podem votar em quem votam? Carlos Menem? Cristina Kirchner? Os sujeitos ainda não superaram o peronismo!

Outra coisa incompreensível: como a Argentina, com os indicadores educacionais que tem, pode fazer tanta bobagem na economia? Do começo dos anos 90 até 2001, foi a burrada do câmbio fixo. Além de insistir na âncora cambial por muito mais tempo que o Brasil, eles usaram uma modalidade mais radical – o currency board. Nos anos Kirchner, há o descaso com a inflação, os tabelamentos, os impostos sobre exportações, a manipulação dos índices de preços – veja bem, os sujeitos estão roubando a inflação em plena democracia. É coisa de país africano. É claro que a economia brasileira ainda está cheia de problemas, mas o simples fato de nós não roubarmos a inflação dá um sinal claro de quanto estamos à frente do país vizinho. E ainda há no Brasil quem veja a Argentina como modelo econômico.

Mas há algo ainda mais desconcertante: como os argentinos, com o nível educacional que têm, usam aqueles cabelos? Buenos Aires é a capital mundial do mullet. Todo argentino tem, teve ou terá cabelo comprido, independentemente de idade, cor e classe social. Como uma cobra que periodicamente troca de pele, o argentino periodicamente deixa o cabelo crescer, quase sempre com o uso de mullets. Em Puerto Madero, eu vi vários molequinhos com menos de cinco anos com cabelos compridos, andando com seus pais portadores de mullets. No hotel em que eu fiquei, o gerente, de uns 65 anos, tinha mullets discretos, na medida em que um mullet pode ser discreto. Foi a terceira vez que eu fui a Buenos Aires, e em todas elas eu vi a mesma tragédia capilar



Dream team

Você já leu os outros blogs do nosso portal, o Apostos? Não? Então vai lá, meu filho. Você não sabe o que está perdendo. É um blog melhor que o outro. Ah, um segredo: o negócio vai ficar ainda melhor nos próximos dias



abril 28, 2008

Em favor das formigas

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Simpáticas, apetitosas, trabalhadeiras


Declaração peremptória: eu não tenho nojo de formiga. Vi recentemente aquele filme, Estômago, que é bastante nojento, mas não me enojei especificamente com a cena em que os prisioneiros comem formigas fritas. E tem algo mais irritante do que novas teorias jornalístico-científicas que tentam jogar por terra nossas crenças mais aferradas e queridas da infância? Pois não é que eu não li outro dia que formigas são sujas sim, que freqüentam ambientes de higiene pouco recomendável (ok, eu admito que sim, mas em toda uma vida de observação da natureza nunca notei que formigas fossem particularmente apegadas – e está bem empregado aqui – a cocô), e que, portanto, você deve ter nojo sim daquelas formiguinhas passeando no açucareiro, quase tanto quanto o que você sentiria se houvesse uma barata lá dentro. Bull shit! Recuso-me a ter nojo de formiga – com as camadas mais profundas e constitutivas do nosso ser não se mexe.

E subitamente me pus a pensar em como tratamos de forma abjeta as formigas. Existe até uma palavra, formicida, que obviamente é apenas um pulo até ‘formicídio’, para designar um dos agentes dos massacres constantes a que submetemos esta inocente (uma picadinha de formiga, sempre em legítima defesa, não é o fim do mundo, convenhamos) e simpática espécie. A humanidade não está nem aí. Falamos em formicídio como se fosse a coisa mais natural do mundo, sem um pingo de remorso, sem a mais leve sensação de culpa coletiva. Agora, ai de quem jogar um hamster pela janela do quarto andar (tenho um amigo que fez isto, juro). Vira na mesma hora um monstro, um assassino, um destruidor, estuprador da mãe natureza.

Estou meio sem inspiração para terminar este post. Acho que vou interromper por aqui e dar um pulo na cozinha para colocar o açucareiro na geladeira. Está juntando um monte de formiga



abril 27, 2008

A invasão brasileira

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Livraria Ateneo, em Buenos Aires: Brazilian free

Não tem aquela história de que São Paulo é a cidade mais nordestina do Brasil? Pois bem, Buenos Aires é hoje a cidade mais brasileira da América Latina. Eu estive lá na semana passada e lhes garanto: tinha mais brasileiro do que em São Paulo. Com o câmbio valorizado por aqui e desvalorizado por lá, eu quase me senti rico. Eu ia comprar umas três empresas com o dinheiro das férias, mas, como não confio em país em que o governo rouba a inflação, decidi continuar a financiar a dívida pública brasileira. Afinal, o governo daqui paga bem.

O brasileiro que vai ao exterior é sabidamente sacoleiro. Eu mesmo, que não sou muito consumista, tive que comprar, além de alguns livros, umas roupinhas. A senhora Matamoros viu uma brasileira comprando cinco botas iguais numa loja, sob o olhar desconsolado do marido. “Mas onde é que você vai usar isso no Rio?”, perguntou o coitado. E a dondoca estava longe de ser exceção. Em todos os lugares de Buenos Aires, os brasileiros estavam lá, comprando alucinadamente, como se não houvesse amanhã.

Em todos os lugares, menos em um. Se o argentino não quiser ouvir português, tem um lugar seguro: é só ir a uma livraria. Eu fiquei uma semana em Buenos Aires, e devo ter ido umas 12 vezes a livrarias. Só vi brasileiro no último dia. Os patrícios gostam mesmo é de comprar cuero

PS: Foi a minha terceira ida a Buenos Aires, e mais uma vez pude verificar que o argentino da piada só existe em anedota. Eu fui muito bem tratado em todos os lugares, e não apenas por quem estava tentando me vender alguma coisa. Argentino só é intragável em jogo da seleção – não há nada mais desleal do que jogador argentino em partidas contra o Brasil. Eu lembro de duas agressões grotescas em dois jogos diferentes das eliminatórias na Argentina, se eu não me engano as duas contra Cafu, uma do Simeone e outra do Kili González. Faltas para quebrar a perna. O juiz, claro, não expulsou nenhum dos dois



abril 25, 2008

Yes, nós temos fascistas

Eu fiquei uma semana fora do país, teve até terremoto nesse período, mas o assunto do momento continua a ser o assassinato de Isabella Nardoni. É insuportável. Eu não agüento a cobertura em tempo integral de um assunto que não merece esse acompanhamento maciço e sensacionalista - e aqui vou discordar de parte do que a Nariz Gelado e o Filthy McNasty, nossos bravos companheiros no Apostos, escreveram nestes dois posts.

O crime é bárbaro e chocante, como diria o conselheiro Acácio, e não há quem não fique indignado com o assassinato de uma criança indefesa. A questão é que, por mais evidências que existam nesse caso, o pai e a madrasta ainda não foram julgados e condenados. Foram indiciados e são os principais suspeitos, é certo, mas a atitude asquerosa da polícia e do promotor, vazando informações e dando entrevistas a todo momento, já os mostra como culpados.

Grandes redes de televisão e revistas, que em tese fazem jornalismo sério, recorrem a expedientes típicos de programas como o Aqui Agora. Isso fica evidente quando a Globo interrompe a programação normal e fica três horas sem exibir comerciais para acompanhar o caso. O discurso de que o assunto é relevante e merece essa cobertura full time não convence, pelo menos não a mim. O que há é desespero por audiência. Os pudores de fazer uma cobertura como a do jornalismo mais sensacionalista já foram para o vinagre. Junte isso ao oportunismo da polícia e do promotor e fica esse circo em cima de um assunto que, por mais hediondo que seja, não deveria monopolizar a atenção.

Para completar o quadro de horrores, aparecem aqueles cães hidrófobos que ficam gritando mata! lincha! quando o pai, a madrasta e os familiares da criança vão depor. Por mais chocante que seja o crime, eu fico chocado com esse comportamento fascista de gente disposta a linchar suspeitos - por enquanto, é isso o que eles são. Aliás, eles merecem ser tratados com dignidade, antes, durante e depois do julgamento, mesmo que sejam culpados. Se eles forem julgados e condenados, que fiquem muito tempo na cadeia, mas só depois do julgamento e da condenação. A não ser que haja quem prefira o linchamento público antecipado, o que não me parece uma boa idéia



abril 15, 2008

Pega na mentira

De um artigo de Marcos Nobre hoje na Folha:

"E, no entanto, um programa como o Bolsa Família foi em grande medida conquistado contra a ortodoxia econômica, mesmo se esta depois adaptou a idéia à sua própria lógica."

Mentira, claro. Ok, desinformação, sejamos bonzinhos. Nunca vi um economista ortodoxo contra o Bolsa-Família. E olha que conheço pencas deles. Muitos defendiam transferências focadas de renda aos mais pobres bem antes de surgir o BF. E houve o célebre xingamento (idiota, imbecil, não me lembro o epíteto) da Maria da Conceição Tavares, musa (e dá-lhe de destruir palavras, por Toutatis!) da esquerda, direcionado ao Marcos Lisboa, então secretário de Política Econômica da Fazenda. Crime do Lisboa? Defender as transferências focalizadas nos mais pobres, ou em outras palavras, o Bolsa-Família, antes do programa surgir, quando Lula ainda perdia tempo com a debilidade-mental do Fome Zero. Conceição achava um acinte que algum programa não fosse "universal" - isto é, dirigido a todo mundo, e não apenas aos pobres. Na época, quando verifiquei que parte celebrada da esquerda era contra dar dinheiro aos pobres, quase sentei no meio-fio para chorar de desânimo. Graças a Deus Lula não foi idiota e teve o meritíssimo de lançar o Bolsa-Família com força total. E hoje temos apenas o Ali Kamel, as senhoras de Ipanema que lêem o Ali Kamel e o Reinaldo Azevedo contra o Bolsa-Família. Mas eu já vi muito intelectual de esquerda, da pesada, falando mal do programa, além da Conceição. Hoje estão calados. O mico sobrou na mão do Kamel, que é de direita. Vai ver que é isso que está confundindo o Marcos Nobre



O xaveco suicida

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Aí, ô gata, num tô defendendo o cara não

Eu já comprovei empiricamente 'n' vezes. Não existe nada pior a fazer se você está numa mesa de bar a fim de comer alguém do que defender o Malan. Evidentemente, 93% das mulheres não sabem quem é Malan, e acham o papo bizarro no mau sentido. As 7% que conhecem ficam enojadas ao descobrir o neoliberal repulsivo que você é.

Bem, vocês de imediato dirão que eu sou o tipo do cara que defende Malan em mesa de bar. Eu negarei, negarei com toda a veemência de que minha alma cansada é capaz. De qualquer maneira, eu já ouvi milhares de vezes o nosso ex-ministro da Fazenda ser acusado de fazer "terrorismo eleitoral" durante a campanha presidencial de 2002, quando disse que o programa econômico petista pré-Carta ao Povo Brasileiro (que a Veja em raro momento de ironia feliz observou que deveria se chamar 'Carta ao Mercado Financeiro') estava deixando os mercados em pânico, e era a razão por trás da tenebrosa fuga de capitais sofrida pelo Brasil na época.

Pois agora o correspondente Ricardo Balthazar, do Valor, confirma que Malan dizia a verdade, em reportagem sobre transcrições das reuniões de diretoria do Federal Reserve (Fed), o Banco Central americano. Não há melhor síntese do sentimentos do mercado financeiro global do que o que vai na cabeça dos diretores máximos do Fed. Na reportagem, Balthazar mostra que o lendário chairman Alan Greenspan e o diretor do importantíssimo Fed regional de Nova York, William McDonough, estavam super-preocupados com a vitória de Lula e temiam um contágio de pânico financeiro América Latina afora.

Agora presta atenção, gatinha, o último CD do Seu Jorge é coisa de gênio, sacô

(este post é extensão de um comentário meu no Hermenauta)



abril 14, 2008

Os três patetas, ou anula lá

Mais uma eleição se aproxima, e mais uma vez eu devo anular o voto. Os prováveis candidatos à prefeitura de São Paulo são péssimos. O pior de tudo é que os dois principais postulantes à vaga – Geraldo Alckmin e Marta Suplicy – não têm o menor interesse no cargo. Ambos se acham capacitados a vôos mais altos. A prefeitura será um fardo para eles, de olho no governo de São Paulo ou na presidência. Se ganharem a eleição, vão fazer o possível para repetir o que fez José Serra em 2006. É muito provável que uma das cidades mais complexas do mundo tenha como prefeito alguém que só pensa em outro cargo.

Alckmin mostrou toda a sua mediocridade na eleição de 2006. Por teimosia, impôs a sua candidatura. Poucas vezes houve um candidato tão vazio. Ninguém sabia muito bem qual era a sua proposta para o país – provavelmente nem ele. No segundo turno, conseguiu virar refém da estratégia petista. Para rebater o carimbo de privatista, posou para uma fotografia com uma jaqueta com o logotipo de várias estatais. Ridículo. Os resultados dos alunos paulistas nos testes de ensino mostram ainda que a sua gestão à frente do governo de São Paulo foi muito mal em educação. O Estado mais rico do país tem mostrado um desempenho pífio nos exames de avaliação de estudantes. Obra de Gabriel Chalita – e, claro, de Alckmin.

Marta Suplicy é outra que só engana os incautos. Deixou a prefeitura em péssima situação financeira e fez obras discutíveis e desnecessárias, como os túneis da Rebouças. Uma iniciativa importante como o Bilhete Único não absolve quem quebrou as contas da cidade. Quem usa o sistema de saúde da prefeitura também reclamava muito da situação na gestão da petista. Marta gosta de posar como vítima do preconceito, dizendo que isso a fez perder a eleição de 2004. Bobagem. Tidos como preconceituosos, os paulistanos já colocaram todo tipo de gente na prefeitura. Elegeram um populista maluco em 1985, uma nordestina de esquerda em 1988, um descendente de libaneses desonesto em 1992, um negro desconhecido em 1996 e uma sexóloga de esquerda em 2000. Quando era menos conhecida, Marta venceu a eleição contra Paulo Maluf e Alckmin. Em 2004, enfrentando um candidato forte como José Serra, perdeu o pleito porque a maior parte da população não quis que ela continuasse. Quando era menos conhecida, foi eleita. Quando era mais conhecida, perdeu. É o oposto do preconceito.

Gilberto Kassab pertence ao Democratas, o que para mim já basta. Em São Paulo, o PFL era a linha auxiliar do malufismo, sinônimo do que há de pior na política brasileira. Kassab, vale lembrar, foi secretário de Planejamento de Celso Pitta, um dos piores prefeitos que qualquer cidade do mundo já teve. Eu não esqueço esses detalhes. Para mim, eles não são secundários. Eu tampouco aprovo a sua gestão. O projeto Cidade Limpa é legalzinho? É, mas não basta. Quem usa o sistema de saúde da cidade diz que o quadro é bastante crítico. As idas e vindas na questão do trânsito mostram um sujeito perdido, querendo tomar iniciativas de impacto, mas sem analisá-las com cuidado. Ah, dizer que a Cracolândia não existe mais também é algo ridículo. Ela apenas mudou de lugar, como mostraram várias reportagens nos últimos meses.

Para finalizar, os três tentam atrair Orestes Quércia, oferecendo a candidatura a vice ao PMDB e prometendo apoiar o ex-governador na disputa pelo Senado em 2010. Mendigam apoio político e o tempo na televisão do PMDB. Quércia não dá. Em termos de honestidade, se equipara a Maluf. É, como Maluf, o que há de pior na política brasileira. Quebrou o Estado quando o administrou. É um política ultrapassado e clientelista, mas Alckmin, Marta e Kassab rastejam em troca de seu apoio. Isso dá uma medida do baixo nível que passou a dominar a política no Brasil nos últimos anos.

Anular o voto equivale a deixar os outros escolherem por você, diz o chavão. Pode ser. Mas quando as opções são muito ruins, eu prefiro escolher não escolher. Eu anulei o voto para presidente, governador e senador em 2006. Fico feliz em não ter dado o voto para nenhum dos candidatos. Nada do que eles representavam me agradava. Anular o voto, em situações como essa, dá uma sensação de liberdade maravilhosa. Eu não compro mais essa idéia de que votar é escolher o menos pior. Se todos são ruins, paciência. Eu não voto em ninguém.

PS: Ah, tem a Soninha. Como eu já disse neste post, ela parece bem intencionada, mas é uma candidata café com leite. E eu também não voto em candidata café com leite



abril 11, 2008

Quando a sandice encontra o nonsense

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Eu vi a verdade: tereis uma moeda única!

Junte o Beato Salu e o marido da Patrícia Pillar e você terá com certeza a produção de sandices da melhor estirpe. Num seminário em Porto Alegre, os dois defenderam a adoção de uma moeda única na América do Sul. Paulo Guedes, Beato Salu para os íntimos, já inventou até um nome para a bagaça: peso real. “Hoje há uma zona de influência do dólar, que é a América do Norte, tem a área do euro, na Europa, e a região asiática, com a China. Enquanto isso Brasil, Paraguai e Argentina ficam cada um no seu pequeno esforço, em pequena escala. Vamos fazer convergir as políticas tributarias e as políticas trabalhistas. Já que do ponto de vista geopolítico o presidente Lula tem sido tão hábil e ele já firmou uma liderança no continente, essa política pode se substancializar para a formação de uma área econômica mais forte”, disse o Beato Salu, provavelmente com o olhar iluminado dos profetas. Ciro Gomes apoiou a proposta.

É a típica idéia que não tem nenhuma viabilidade. O Mercosul, que reúne apenas alguns países da América do Sul, tem pretensões de ser uma união aduaneira, mas mal consegue ser uma área de livre comércio. Uma moeda única pressupõe uma convergência macroeconômica complexa e provavelmente impraticável nos próximos 200 anos. Na América Latina, os desvarios de Hugo Chávez e a estratégia inflacionária da Argentina ainda são levados a sério como alternativas de política econômica. Imagine ter um banco central único. Qual modelo será seguido? O do BC brasileiro, que às vezes dá tiro de canhão para matar mosquito, ou o da Argentina e o da Venezuela, que usa estilingue para enfrentar dragão?

Já que eu falei no Beato Salu, aproveito para fazer uma profeciazinha, que ninguém é de ferro: a moeda única sul-americana não será vista nem pelos netos dos netos dos netos dos meus netos

PS: Este texto é baseado num comentário que eu fiz neste post no Na prática a teoria é outra, grande blog em que encontrei a referência à proposta de moeda única



Haja saco!

Olha só o que eu descobri, um blog chavista com o revelador nome de aporrea. É 'aporrinha' em espanhol



Rápida perplexidade

Vejam os três post antes deste. Os dois primeiros (em ordem de postagem), que tratam de uma questão interessante, mas, digamos, não-crucial para futuro do Brasil, o infanticídio indígena, já têm quase 100 comentários. O último (ou penúltimo, se contarmos este aqui), com apenas dois comentários, trata de um projeto, já aprovado pelo Senado, de autoria de Paulo "Flagelo dos Deuses" Paim que, se vier a ser implementado algum dia, é o equivalente fiscal de um bombardeio maciço de todo o território nacional com bombas de hidrogênio e nitrogênio, seguido de um meticuloso salgamento de cada centímetro quadrado dos nossos 8 milhões de quilômetros igualmente quadrados. Num punhado de décadas, tudo o que restaria do País seria um plaquinha em algum lugar do planalto central onde se leria "território abandonado por inviabilização institucional - considere-se inviabilizado se estiver em qualquer ponto do ex-território nacional brasileiro".

Tudo bem, me dizem, o Lula vai vetar. Mas, ainda assim, trata-se do Senado Federal, votando por unanimidade, em raro momento de situação e oposição de mãozinhas dadas, o apocalipse fiscal. Isto para você não é um escândalo?

Tudo bem II, Previdência é o segundo assunto mais chato que existe, depois da guerra da Teles, mas tanto no segundo caso quanto muito mais no primeiro, estamos falando de coisas sérias demais para serem ignoradas (e a luta da nossa brava Janaína mostra por que não devemos ignorar assuntos áridos e complicados).

Ok, agora vou pra praia

PS: Parafraseando Tim Maia, eu não fumo nem cheiro, só exagero um pouquinho (mas o espírito da coisa está na medida certa)



abril 10, 2008

Paim, o flagelo dos deuses

Na parte escondidinha, para não enfear o blog

(e vejam o que a Leitoa diz, com toda a razão, sobre a nossa oposição de merda)

De um site eletrônico de notícias econômicas:

10:44 PREVIDÊNCIA NÃO COMENTA SOBRE PROJETOS QUE ELEVAM SEUS GASTOS

Brasília, 10 - O Ministério da Previdência e Assistência Social não deve se manifestar, em princípio,
sobre os projetos aprovados ontem pelo Senado extinguindo o fator previdenciário e reajustando pela
correção do salário mínimo os proventos de todos os aposentados, medidas de forte impacto nas
contas da Previdência. A Assessoria de Comunicação Social do Ministério acaba de informar que
como os projetos ainda estão em tramitação no Congresso, tendo de passar ainda pela Câmara dos
Deputados, o Ministério, por enquanto, não deverá fazer qualquer comentário. O ministro Luiz Marinho
está despachando em seu gabinete.

Os projetos, de autoria do senador Paulo Paim (PT-SP), foram aprovados na forma de emendas ao
projeto do governo estabelecendo uma política de reajustes do salário mínimo até 2011. Mesmo se
manifestando contrário às medidas, argumentando que elevam o déficit previdenciário, o líder do
governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), deu encaminhamento favorável aos projetos.


MÍRIAM LEITÃO
Na calada da noite...
Oposição foi irresponsável em mudança na previdência

Foi uma irresponsabilidade do Senado ontem aprovar um projeto como o do senador Paulo Paim, que provoca um retrocesso no pouco que se fez de reforma previdenciária. Essa emenda do Paim tem um custo incalculável de bilhões para o Tesouro Nacional. O projeto foi aprovado na calada da noite, ajudado por uma manobra da oposição, interessada apenas para criar constrangimentos para o governo. Os senadores aprovaram uma emenda que estende aos aposentados do INSS os mesmos reajustes concedidos ao salário mínimo. (leia aqui a matéria no Globo Online)

Esta é a mesma oposição que, quando esteve no poder, fez o fator previdenciário, que é uma forma de adiar a aposentadoria levando em conta o aumento da expectativa de vida da população. Na época, como o governo não conseguiu ampliar o limite da idade mínima para aposentadoria - o Brasil é país da aposentadoria precoce - essa fórmula fez com que se ajudasse a atenuar o problema, adiando um pouco a aposentadoria.

A vinculação de todos os benefícios ao salário mínimo prejudica o trabalhador da ativa. Isso vai dificultar que aconteçam novos reajustes do salário mínimo porque, a cada aumento, vai subir também o custo geral da previdência.

É bom lembrar que o Brasil é um país que possui 6% da população com mais de 65 anos, e a previdência já quebrou, é deficitária. O que será do futuro, quando os atuais jovens tiverem na hora de aposentar?

O país precisa de uma grande reforma da previdência e vem fazendo uma reforma em gotas homeopáticas por causa dos empecilhos do Congresso e dos lobbies. O pouco que se conseguiu perde-se com esta medida.

Agora que o projeto foi alterado, ele terá que voltar para a Câmara. Mas, e se numa outra calada da noite, a oposição querendo apenas criar constrangimentos para o governo, e deputados do governo, querendo apenas fazendo demagogia, aprovarem este projeto?

Tudo isso é para obrigar o presidente, um ex-sindicalista, a vetar a aprovação da lei, caso ela passe pelo Congresso. Mas e se Lula também resolver apoiá-la?



abril 08, 2008

O Bom Selvagem II

Bem, meus pitacos sérios (ô Hermenauta, presta atenção) no debate iniciado pelo Matamoros no post abaixo:

1) O que o Matamoros quis, com razão, enfatizar é que a cultura ocidental contemporânea é muito melhor do que culturas não-ocidentais contemporâneas, como a indígena ou a islâmica (parte dela). A gente não aprova matar criança como objetivo principal de uma ação, e a gente não extirpa clitóris. Eu acho que o que falei num post recente sobre defender o capitalismo se aplica ao caso do Matamoros aqui. É óbvio que a cultura ocidental é melhor. Então por que falar nisso? Porque tem gente que diz que não, que defende a superioridade, ou pelo menos a equivalência moral, relativamente à cultura ocidental, de culturas que sancionam moralmente matar crianças como objetivo principal de uma ação, ou extirpar clitóris de meninas. A única razão para proclamar o óbvio é um certo dever cívico e humano de se contrapor à negação do óbvio, que muitas vezes tem conseqüências funestas. Aliás, há uma razão evidente para a superioridade da cultura ocidental. Nós somos mais adiantados, e eles mais atrasados (e podem me xingar de etnocêntrico, de acreditar na "miragem" do progresso humano, etc etc)

2) Quanto ao Iraque. Eu acho diferente do infanticídio. Por piores que sejam as intenções do Bush, e por mais equivocado que ele esteja, a ação americana no Iraque não tem como objetivo principal (por isto a qualificação no item anterior) matar crianças. Eu acho que é uma questão moral relativamente simples. Todos concordam que uma guerra justa deve ser travada. Todos concordam que numa guerra justa, você deve evitar ao máximo baixas civis, de mulheres, crianças e velhos. Todos concordam que, mesmo tentando evitar ao máximo, haverá baixas civis, de mulheres, crianças e velhos. E todos concordam que isto não é o mesmo que praticar infanticídio. Bem, no caso do Bush, as acusações possíveis são de que a guerra não é justa, e de que não se fez o esforço máximo para evitar baixas civis. Naturalmente, ele vai se defender negando estas duas alegações, o que mostra que, independentemente de estar certo ou errado, Bush está num plano moral superior (por estar numa cultura superior) ao daqueles que nem se preocupariam em se defender da alegação de que matam crianças, pois consideram que matar crianças como objetivo principal de uma ação é, em determinadas circunstâncias, perfeitamente válido



abril 07, 2008

O bom selvagem

Eu já não tenho simpatia por índio, e histórias como esta só fazem piorar a imagem que eu tenho da categoria. Reportagem da Folha de ontem mostra que cerca de 20 das 200 etnias indígenas que existem no país ainda praticam o infanticídio. Gêmeos, por exemplo, são mortos por serem considerados uma maldição. A prática também ocorre no caso de “filhos de mães solteiras, crianças com problema mental ou físico, ou doença não identificada pela tribo”. É o humanismo do bom selvagem.

Quando leio esse tipo de coisa, os meus instintos etnocêntricos falam mais alto. Como sou antiquado e preconceituoso, fico horrorizado com essas tradições, assim como acho inaceitável que alguns muçulmanos extirpem o clitóris de suas filhas. São culturas piores – isso mesmo, piores – do que outras que prezam valores como os expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ainda que na prática poucas sociedades a sigam na íntegra, o simples fato de o documento existir mostra um avanço em relação a outras que têm entre suas tradições o infanticídio ou a extirpação do clitóris. Eu não hesito em celebrar a superioridade de uma cultura que preza o respeito aos direitos e às liberdades do homem, além de proclamar a tolerância à diferença. O etnocentrismo pode ser um humanismo



abril 03, 2008

Momento Paulo Coelho

curva3.jpg
Todo cuidado é pouco com o jegue depois da curva


Aceitar a existência da burrice é uma das etapas mais difíceis no caminho da sabedoria



abril 02, 2008

Investment grade

peru2.JPG
Que que eu ganho com isso (em quéchua)?


Cesse tudo o que a musa chavista canta
que outro Peru mais alto se alevanta

Fitch has become the first of the three main rating agencies to elevate Peru to investment grade. The agency has upgraded Peru's long-term foreign currency Issuer Default Rating to 'BBB-' from 'BB+' and its long-term local currency rating to 'BBB' from 'BBB-', both with a stable outlook.
Relatório do Dresdner Kleinwort

Mas eu acho que o Peru ainda pode balançar - um bom pedaço da população fica tiritando de frio e pobreza lá em cima dos Andes, meio imune aos benefícios do capitalismo, e ruminando a idéia de eleger o maluco do Humala. O Alan García, aliás, está impopularíssimo (aquele cara lá do foto não está achando a menor graça até agora na ascensão do Peru)



abril 01, 2008

Por que não me declaro liberal

Bom de blog é poder dar vazão à ignorância travestida de sapiência para impressionar bocós:

A causa do oprimido é imbatível politicamente, com uma única exceção: quando o populacho é uma turba agressiva, ou descende de turbas agressivas, e tem da experiência própria ou no inconsciente coletivo a memória de bater mais do que de apanhar, ou talvez, melhor dizendo, a idéia de que foi feito muito mais para bater do que para apanhar. Neste caso, a causa do oprimido pode ser derrotada tanto por um belicismo explícito, como o nazi-fascismo, quanto pela ideologia do “nós somos muito melhores que os outros, e portanto vamos ignorá-los e viver na nossa próspera ignorância, e com todos aqueles preconceitos que amamos tanto”, um resumo da filosofia red-neck que vence eleição volta e meia nos Estados Unidos.

Mas quando você vem para a América Latina, onde as massas são muito mais imbuídas de opressão do que de qualquer outra coisa, é praticamente impossível derrotar o discurso do oprimido. Em outras palavras, a esquerda tende a predominar, para horror e desespero de intelectuais conservadores com graus variados de loucura.

(Detalhe: não estou tratando aqui do centro político, que obviamente se sobrepõe muitas vezes tanto à patetice de direita quando à de esquerda - e sem deixar ele mesmo de ser pateta, de certa forma)

Só que tem a economia, estúpidos. O bom da economia é que fazer merda, dá merda. Pode levar tempo, pode demorar bem mais do que se supõe, pode às vezes acontecer que ondas de sorte encubram os estragos das merdas e dêem a sensação de que elas passaram impunes, pode acontecer do cara que faz a coisa certa entregar a direção pro cara que defende a merda no momento exato em que as coisas coisas começam a melhorar, criando a sensação de que quem pensa merda produz coisa boa.

Só que, ao fim e ao cabo, a realidade vai, de uma forma irregular, intermitente, sofridamente paulatina, separando a merda da coisa certa, e revelando para quem cuida das coisas, de forma incontornável, cabal, impossível de ignorar, o que deve ser feito e o que não deve ser feito. Até chegar o ponto em que, por mais imbuído de ideologia que esteja um sujeito com mão na massa, e por mais que a ideologia dele o predisponha a fazer merda, fazê-la torna-se quase como enfiar propositadamente um carro a 120 km por hora em cima de um poste. Ele simplesmente não consegue, na última hora bota o pé no freio, desvia. Este é um processo demorado. Ainda tem muita gente porraí voando em cima de muro. Mas as duras lições de cada pancada vão criando uma disciplina discreta, quase invisível, nas castas encarregadas de tocar as coisas sérias.

No plano político, como o discurso do oprimido continua imbatível, você vê coisas espantosas, como o Lula fazendo pouca merda na economia mas encabeçando um certo triunfalismo esquerdista cujas ondas destrutivas vão estourar em outras plagas, como a Venezuela ou a Bolívia, enquanto o Brasil segue relativamente intacto. Essa disseminação discreta, quase secreta, formiguinhenta, do bom-senso econômico e tecnocrático, em repartições técnicas cinzentas e imperceptíveis, escapa totalmente aos nossos arautos do apocalipse esquerdista, mergulhados que estão nas delícias perversas da baixa politicagem, nos textos emborolados do liberalismo clássico, na nuvem tóxica do excitamento masturbatório com a descoberta de supostos sentidos na maré confusa dos fatos históricos (uma atitude mental, aliás, que guarda muita semelhança com a teleologia fanática de boa parte da esquerda).

É por isto que eu nem gosto de dizer que sou liberal, embora, pragmaticamente, picotando a realidade em pedacinhos e analisando uma coisa de cada vez – como estas duas boas instituções anglo-saxãs, Jack the Ripper e o ceticismo filosófico –, eu seja muito liberal em uma porrada de coisas. Mas como detesto a grandiloqüência da minha própria voz quando penso em mim mesmo declarando que “eu sou um liberal”, prefiro me classificar como um pragmático defensor do capitalismo (e só defendo porque tem uns idiotas que atacam – se não houvesse, eu seria apenas um cara lendo um livro num sofá)



Autores

* Marcos Matamoros
* F. Arranhaponte


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