« O bom selvagem | Main | Paim, o flagelo dos deuses »
Bem, meus pitacos sérios (ô Hermenauta, presta atenção) no debate iniciado pelo Matamoros no post abaixo:
1) O que o Matamoros quis, com razão, enfatizar é que a cultura ocidental contemporânea é muito melhor do que culturas não-ocidentais contemporâneas, como a indígena ou a islâmica (parte dela). A gente não aprova matar criança como objetivo principal de uma ação, e a gente não extirpa clitóris. Eu acho que o que falei num post recente sobre defender o capitalismo se aplica ao caso do Matamoros aqui. É óbvio que a cultura ocidental é melhor. Então por que falar nisso? Porque tem gente que diz que não, que defende a superioridade, ou pelo menos a equivalência moral, relativamente à cultura ocidental, de culturas que sancionam moralmente matar crianças como objetivo principal de uma ação, ou extirpar clitóris de meninas. A única razão para proclamar o óbvio é um certo dever cívico e humano de se contrapor à negação do óbvio, que muitas vezes tem conseqüências funestas. Aliás, há uma razão evidente para a superioridade da cultura ocidental. Nós somos mais adiantados, e eles mais atrasados (e podem me xingar de etnocêntrico, de acreditar na "miragem" do progresso humano, etc etc)
2) Quanto ao Iraque. Eu acho diferente do infanticídio. Por piores que sejam as intenções do Bush, e por mais equivocado que ele esteja, a ação americana no Iraque não tem como objetivo principal (por isto a qualificação no item anterior) matar crianças. Eu acho que é uma questão moral relativamente simples. Todos concordam que uma guerra justa deve ser travada. Todos concordam que numa guerra justa, você deve evitar ao máximo baixas civis, de mulheres, crianças e velhos. Todos concordam que, mesmo tentando evitar ao máximo, haverá baixas civis, de mulheres, crianças e velhos. E todos concordam que isto não é o mesmo que praticar infanticídio. Bem, no caso do Bush, as acusações possíveis são de que a guerra não é justa, e de que não se fez o esforço máximo para evitar baixas civis. Naturalmente, ele vai se defender negando estas duas alegações, o que mostra que, independentemente de estar certo ou errado, Bush está num plano moral superior (por estar numa cultura superior) ao daqueles que nem se preocupariam em se defender da alegação de que matam crianças, pois consideram que matar crianças como objetivo principal de uma ação é, em determinadas circunstâncias, perfeitamente válido


