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Bom de blog é poder dar vazão à ignorância travestida de sapiência para impressionar bocós:
A causa do oprimido é imbatível politicamente, com uma única exceção: quando o populacho é uma turba agressiva, ou descende de turbas agressivas, e tem da experiência própria ou no inconsciente coletivo a memória de bater mais do que de apanhar, ou talvez, melhor dizendo, a idéia de que foi feito muito mais para bater do que para apanhar. Neste caso, a causa do oprimido pode ser derrotada tanto por um belicismo explícito, como o nazi-fascismo, quanto pela ideologia do “nós somos muito melhores que os outros, e portanto vamos ignorá-los e viver na nossa próspera ignorância, e com todos aqueles preconceitos que amamos tanto”, um resumo da filosofia red-neck que vence eleição volta e meia nos Estados Unidos.
Mas quando você vem para a América Latina, onde as massas são muito mais imbuídas de opressão do que de qualquer outra coisa, é praticamente impossível derrotar o discurso do oprimido. Em outras palavras, a esquerda tende a predominar, para horror e desespero de intelectuais conservadores com graus variados de loucura.
(Detalhe: não estou tratando aqui do centro político, que obviamente se sobrepõe muitas vezes tanto à patetice de direita quando à de esquerda - e sem deixar ele mesmo de ser pateta, de certa forma)
Só que tem a economia, estúpidos. O bom da economia é que fazer merda, dá merda. Pode levar tempo, pode demorar bem mais do que se supõe, pode às vezes acontecer que ondas de sorte encubram os estragos das merdas e dêem a sensação de que elas passaram impunes, pode acontecer do cara que faz a coisa certa entregar a direção pro cara que defende a merda no momento exato em que as coisas coisas começam a melhorar, criando a sensação de que quem pensa merda produz coisa boa.
Só que, ao fim e ao cabo, a realidade vai, de uma forma irregular, intermitente, sofridamente paulatina, separando a merda da coisa certa, e revelando para quem cuida das coisas, de forma incontornável, cabal, impossível de ignorar, o que deve ser feito e o que não deve ser feito. Até chegar o ponto em que, por mais imbuído de ideologia que esteja um sujeito com mão na massa, e por mais que a ideologia dele o predisponha a fazer merda, fazê-la torna-se quase como enfiar propositadamente um carro a 120 km por hora em cima de um poste. Ele simplesmente não consegue, na última hora bota o pé no freio, desvia. Este é um processo demorado. Ainda tem muita gente porraí voando em cima de muro. Mas as duras lições de cada pancada vão criando uma disciplina discreta, quase invisível, nas castas encarregadas de tocar as coisas sérias.
No plano político, como o discurso do oprimido continua imbatível, você vê coisas espantosas, como o Lula fazendo pouca merda na economia mas encabeçando um certo triunfalismo esquerdista cujas ondas destrutivas vão estourar em outras plagas, como a Venezuela ou a Bolívia, enquanto o Brasil segue relativamente intacto. Essa disseminação discreta, quase secreta, formiguinhenta, do bom-senso econômico e tecnocrático, em repartições técnicas cinzentas e imperceptíveis, escapa totalmente aos nossos arautos do apocalipse esquerdista, mergulhados que estão nas delícias perversas da baixa politicagem, nos textos emborolados do liberalismo clássico, na nuvem tóxica do excitamento masturbatório com a descoberta de supostos sentidos na maré confusa dos fatos históricos (uma atitude mental, aliás, que guarda muita semelhança com a teleologia fanática de boa parte da esquerda).
É por isto que eu nem gosto de dizer que sou liberal, embora, pragmaticamente, picotando a realidade em pedacinhos e analisando uma coisa de cada vez – como estas duas boas instituções anglo-saxãs, Jack the Ripper e o ceticismo filosófico –, eu seja muito liberal em uma porrada de coisas. Mas como detesto a grandiloqüência da minha própria voz quando penso em mim mesmo declarando que “eu sou um liberal”, prefiro me classificar como um pragmático defensor do capitalismo (e só defendo porque tem uns idiotas que atacam – se não houvesse, eu seria apenas um cara lendo um livro num sofá)


