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maio 29, 2008
Subsidiando vencedores
Créu! *
FITCH ELEVA RATING DO BRASIL DE BB+ PARA BBB-; PERSPECTIVA ESTÁVEL
* exclamação que eu gostaria de ver atribuída ao Guia Genial assim que soube da boa nova
PS: Pra turma dos literatos, se algum passar por aqui, este BBB- é o tal do investment grade, o segundão em menos de dois meses
FITCH ELEVA RATING DO BRASIL DE BB+ PARA BBB-; PERSPECTIVA ESTÁVEL
* exclamação que eu gostaria de ver atribuída ao Guia Genial assim que soube da boa nova
PS: Pra turma dos literatos, se algum passar por aqui, este BBB- é o tal do investment grade, o segundão em menos de dois meses
maio 28, 2008
A arte zen de odiar o Brasil
É curioso. Eu gosto de samba e capoeira, tolero bem Chico Buarque e Caetano e, não obstante, tenho um fraco por odiadores do Brasil. É só eu bater os olhos em algum texto do Paulo Francis, do Diogo Mainardi ou do Lord ASS detonando a Pátria que minha vista gruda e eu não consigo largar até chegar ao fim. É um genuíno prazer, quase um vício, que me leva inclusive a caçar odiadores do Brasil porraí, quase como um colecionador. Aliás, eu conheço uns ótimos, a quem devo grandes momentos de curtição, e que guardo ciosamente só para mim, como um pescador que não revela os melhores pontos do rio. Hoje mesmo eu tive um ataque revitalizante de gargalhadas com um deles.
Às vezes eu me pergunto a razão desse meu vício não tão secreto, se na verdade eu gosto do Brasil e saio pelas nossas ruas na maior bonomia cumprimentando os populares e admirando com sinceridade seus hábitos singelos e encantadores. Uma hipótese é esta tendência masoquista de self-deprecrating, que inegavelmente possuo. Porque não há como negar que sou inapelável e irremediavelmente brasileiro, e meus tataratata'vós recuam nestas plagas malditas pelos menos alguns séculos, com a exceção de um único italiano contrabandeado como bisavô da minha avó ou coisa assim.
Mas há que se falar mal do Brasil com arte! É verdade que recentemente a prática disseminou-se um tantinho demais, vulgarizando-se e resvalando com freqüência para o tosco e o grosseiro. O sarcasmo é quase sempre um ingrediente necessário na nobre arte de falar mal do Brasil, mas há sarcasmos e sarcasmos. Eu prefiro aquele da face impertubável mas prenhe de sutis significados, revelando simultaneamente o utter disgust que queima nas entranhas e a nossa capacidade de manter uma fleugmática e pontiaguda ironia - e dessa combinação nasce uma arte zen, um caminho de elevação espiritual mesmo, uma verdadeira estrada da sabedoria.
Como um Morandi perenemente às voltas com suas garrafas pálidas, eu vejo o odiador do Brasil pelejando no seu gabinete, remodelando frases, polindo interjeições, recombinando os muitos objetos da náusea sempre em busca de novos ângulos, sínteses, epifanias.
Se tudo der errado no Brasil, e este paisinho de merda for condenado no tribunal da história como uma terra ignóbil e ignara, sempre restará uma pontinha de orgulho ferido no meu peito para proclamar que nenhum país produziu odiadores da Pátria tão classudos como os nossos
PS: E quem achar que este post é uma ironia rombuda contra os odiadores do Brasil merece tomar muito sarcasmo sulfúrico nos cornes
É curioso. Eu gosto de samba e capoeira, tolero bem Chico Buarque e Caetano e, não obstante, tenho um fraco por odiadores do Brasil. É só eu bater os olhos em algum texto do Paulo Francis, do Diogo Mainardi ou do Lord ASS detonando a Pátria que minha vista gruda e eu não consigo largar até chegar ao fim. É um genuíno prazer, quase um vício, que me leva inclusive a caçar odiadores do Brasil porraí, quase como um colecionador. Aliás, eu conheço uns ótimos, a quem devo grandes momentos de curtição, e que guardo ciosamente só para mim, como um pescador que não revela os melhores pontos do rio. Hoje mesmo eu tive um ataque revitalizante de gargalhadas com um deles.
Às vezes eu me pergunto a razão desse meu vício não tão secreto, se na verdade eu gosto do Brasil e saio pelas nossas ruas na maior bonomia cumprimentando os populares e admirando com sinceridade seus hábitos singelos e encantadores. Uma hipótese é esta tendência masoquista de self-deprecrating, que inegavelmente possuo. Porque não há como negar que sou inapelável e irremediavelmente brasileiro, e meus tataratata'vós recuam nestas plagas malditas pelos menos alguns séculos, com a exceção de um único italiano contrabandeado como bisavô da minha avó ou coisa assim.
Mas há que se falar mal do Brasil com arte! É verdade que recentemente a prática disseminou-se um tantinho demais, vulgarizando-se e resvalando com freqüência para o tosco e o grosseiro. O sarcasmo é quase sempre um ingrediente necessário na nobre arte de falar mal do Brasil, mas há sarcasmos e sarcasmos. Eu prefiro aquele da face impertubável mas prenhe de sutis significados, revelando simultaneamente o utter disgust que queima nas entranhas e a nossa capacidade de manter uma fleugmática e pontiaguda ironia - e dessa combinação nasce uma arte zen, um caminho de elevação espiritual mesmo, uma verdadeira estrada da sabedoria.
Como um Morandi perenemente às voltas com suas garrafas pálidas, eu vejo o odiador do Brasil pelejando no seu gabinete, remodelando frases, polindo interjeições, recombinando os muitos objetos da náusea sempre em busca de novos ângulos, sínteses, epifanias.
Se tudo der errado no Brasil, e este paisinho de merda for condenado no tribunal da história como uma terra ignóbil e ignara, sempre restará uma pontinha de orgulho ferido no meu peito para proclamar que nenhum país produziu odiadores da Pátria tão classudos como os nossos
PS: E quem achar que este post é uma ironia rombuda contra os odiadores do Brasil merece tomar muito sarcasmo sulfúrico nos cornes
Ain't no brainstorm like that, man
Os pedidos continuam avassaladores. Ok, mais um tiragosto dos diálogos na Torre:
Matamoros: O Nepal vai acabar com a monarquia
Arranhaponte: Que tristeza, é o fim de Shakespeare na vida real
Os pedidos continuam avassaladores. Ok, mais um tiragosto dos diálogos na Torre:
Matamoros: O Nepal vai acabar com a monarquia
Arranhaponte: Que tristeza, é o fim de Shakespeare na vida real
maio 27, 2008
Non-stop brainstorming Tower rides again - The Indian Question

É melhor ceder o apito do que os anéis, os dedos, os
braços, as pernas
Não deu para resistir às pressões. O barulho das massas acantonadas ao pé da Torre exigindo uma nova edição dos diálogos entre Matamoros e Arranhaponte tornou-se atordoante, tonitruante, impossível de ignorar. Então aí vai, de novo, o pensamento cristalino que brota límpido de primevas e originais fontes. Uma chance rara, a once in a life time opportunity (nada a ver, em princípio, com o Daniel Dantas) de assistir ao majestoso espetáculo do gênio em ato de criação pura, capturado no faiscante momento em que o fulgor dos embates entre duas mentes poderosas torna-se quase opressivo para o comum dos mortais:
Arranhaponte - Os acessos estão meio fraquinhos hoje. Já não é hora de bater em índio de novo?
Matamoros - Precisamos fazer posts. Sem post novo, os acessos caem mesmo. Você poderia fazer um contra índio também. Eu não sou o setorista do Torre no assunto.
Arranhaponte - Você é o setorista contra índio, não tente negar
Matamoros - É verdade. Você pode ocupar o nicho oposto, mas acho que os acessos vão cair se você defender a indiaiada
Arranhaponte - Eu sempre tive uma visão sintética sobre a questão indígena: eles querem apito, é tudo o que eu tenho a dizer
Matamoros - No Brasil, alguns querem também facão, comprado pelo CIMI, parece
Arranhaponte - É, eu sempre fui contra a ampliação do leque de bens de consumo dos índios. Eles se viravam muito bem com o apito
Matamoros - Apito era o máximo a que aspiravam. Podiam voltar a esse nível de desejo
Arranhaponte - Bem, admitamos que apito seja oversimplification, como querem alguns críticos do Torre. Mas e o nosso plano de aplacar a ira reivindicatória dos índios com miçangas (good ol') e cachorras do funk? É extremamente razoável, e chega a ser ofensivo que não tenha entrado na pauta de discussões sérias do país
Matamoros – Sei lá, sou cético quanto à qualquer abordagem da questão indígena que se pretenda definitiva. Você começa dando a mão, e eles querem logo decepar seu braço
Arranhaponte – Boa! Isso dá diálogo
Matamoros – Posta logo, posta logo

É melhor ceder o apito do que os anéis, os dedos, os
braços, as pernas
Não deu para resistir às pressões. O barulho das massas acantonadas ao pé da Torre exigindo uma nova edição dos diálogos entre Matamoros e Arranhaponte tornou-se atordoante, tonitruante, impossível de ignorar. Então aí vai, de novo, o pensamento cristalino que brota límpido de primevas e originais fontes. Uma chance rara, a once in a life time opportunity (nada a ver, em princípio, com o Daniel Dantas) de assistir ao majestoso espetáculo do gênio em ato de criação pura, capturado no faiscante momento em que o fulgor dos embates entre duas mentes poderosas torna-se quase opressivo para o comum dos mortais:
Arranhaponte - Os acessos estão meio fraquinhos hoje. Já não é hora de bater em índio de novo?
Matamoros - Precisamos fazer posts. Sem post novo, os acessos caem mesmo. Você poderia fazer um contra índio também. Eu não sou o setorista do Torre no assunto.
Arranhaponte - Você é o setorista contra índio, não tente negar
Matamoros - É verdade. Você pode ocupar o nicho oposto, mas acho que os acessos vão cair se você defender a indiaiada
Arranhaponte - Eu sempre tive uma visão sintética sobre a questão indígena: eles querem apito, é tudo o que eu tenho a dizer
Matamoros - No Brasil, alguns querem também facão, comprado pelo CIMI, parece
Arranhaponte - É, eu sempre fui contra a ampliação do leque de bens de consumo dos índios. Eles se viravam muito bem com o apito
Matamoros - Apito era o máximo a que aspiravam. Podiam voltar a esse nível de desejo
Arranhaponte - Bem, admitamos que apito seja oversimplification, como querem alguns críticos do Torre. Mas e o nosso plano de aplacar a ira reivindicatória dos índios com miçangas (good ol') e cachorras do funk? É extremamente razoável, e chega a ser ofensivo que não tenha entrado na pauta de discussões sérias do país
Matamoros – Sei lá, sou cético quanto à qualquer abordagem da questão indígena que se pretenda definitiva. Você começa dando a mão, e eles querem logo decepar seu braço
Arranhaponte – Boa! Isso dá diálogo
Matamoros – Posta logo, posta logo
maio 23, 2008
Esses tucanos...
Bem, eu não estou acompanhando em nada o assunto. Mas, com minha habitual falta de comedimento, vou comentar. Essa venda pelo Serra da Nossa Caixa (êta nominho caipira) para o BB, quando todos os bancos privados dizem que também estão interessados, me parece coisa de tucano que quer botar a mão no dinheiro mas não quer ser acusado de privatista (como seria caso vendesse a NC para, por exemplo, o Itaú). Senão vejamos: se tem um bando de bancos interessados, não faz sentido dizer que vai vender para um deles a priori. É muito melhor leiloar e vender pelo maior preço. Mas se o Serra leiloasse a NC, não daria para fugir da pecha de privatista. Claro, seria um leilão muito parecido com aqueles da privatização demoníaca do FH. E se um banco privado ganhasse, não ia ter a sopa com os funcionários que provavelmente acontecerá com o BB. Ia ter demissão, corte de benefícios, aquela coisa toda. Então o Serra prefere vender para o BB, reincidindo na covardia tucana em relação à privatização.
Será que é isso? O risco deste post é amanhã o Serra dizer que vai leiloar, dado o interesse manifestado por quase todos os principais bancos privados. Seria bom eu quebrar a cara nesse caso
Bem, eu não estou acompanhando em nada o assunto. Mas, com minha habitual falta de comedimento, vou comentar. Essa venda pelo Serra da Nossa Caixa (êta nominho caipira) para o BB, quando todos os bancos privados dizem que também estão interessados, me parece coisa de tucano que quer botar a mão no dinheiro mas não quer ser acusado de privatista (como seria caso vendesse a NC para, por exemplo, o Itaú). Senão vejamos: se tem um bando de bancos interessados, não faz sentido dizer que vai vender para um deles a priori. É muito melhor leiloar e vender pelo maior preço. Mas se o Serra leiloasse a NC, não daria para fugir da pecha de privatista. Claro, seria um leilão muito parecido com aqueles da privatização demoníaca do FH. E se um banco privado ganhasse, não ia ter a sopa com os funcionários que provavelmente acontecerá com o BB. Ia ter demissão, corte de benefícios, aquela coisa toda. Então o Serra prefere vender para o BB, reincidindo na covardia tucana em relação à privatização.
Será que é isso? O risco deste post é amanhã o Serra dizer que vai leiloar, dado o interesse manifestado por quase todos os principais bancos privados. Seria bom eu quebrar a cara nesse caso
Holandeses

Se um dia eu parar de culpar a necessidade de ganhar dinheiro ou a minha lendária preguiça, vou tomar vergonha na cara e dedicar um tempo para estudar a sério a pintura holandesa do século 17. A qualidade da arte da época é absurda. Mesmo muitos dos pintores menos conhecidos do período são muito bons. Veja o caso de Schalcken, autor dos dois primeiros quadros que ilustram este post. Eu vi as suas pinturas pela primeira vez em 1996 – acho que duas ou três – no Museu do Prado, e fiquei impressionado. Eram obras de dimensões pequenas, explorando o efeito da luz de velas sobre o rosto de um ou dois personagens e também sobre objetos, em interiores delicados. Este quadro aqui, por exemplo, tem 19 por 16 centímetros. Dois anos depois, vi mais um ou dois Schalckens na National Gallery, em Londres.

Mas, por mais interesse que eu tenha nos quadros de Schalken, ele não chega aos pés de Vermeer e Rembrandt. Em minha viagens, eu costumo dar sorte com exposições. Em 2001, vi uma de Vermeer no Metropolitan, em Nova York. Há pouco mais de 30 quadros do pintor, e a exposição tinha algo como 20. Além disso, era só atravessar a rua e ver mais três na Frick Collection. Vai demorar para haver outra exposição de Vermeer como aquela. Como eu sabia disso, fui vê-la duas vezes, para não esquecer do tratamento da luz inigualável, dos interiores elegantes, das figuras femininas simples e enigmáticas.
Em 2006, eu estava em Amsterdã, e a cidade estava tomada pelas homenagens aos 400 anos de Rembrandt. Vi três exposições maravilhosas, uma no Rijksmusem, uma na Rembrandt Huis e outra no Museu Van Gogh - esta última também com quadros de Caravaggio. Uma melhor que a outra. Fiquei impressionado não apenas com a versatilidade de Rembrandt, mas também com a sua precocidade. Mesmo no começo de carreira, pintou quadros muito bons. Vi muitos de seus auto-retratos. Eu me lembro de ter lido que, muito mais do que "investigações implacáveis de si mesmo", Rembrandt os pintava porque percebeu que havia um mercado cativo para essas obras. São quadros maravilhosos, e provavelmente os meus preferidos. Mas Rembrandt era tão genial que fazia também obras-primas monumentais, como The night watch, além de ser um mestre na gravura.
Quando vejo quadros dos pintores holandeses do século 17, eu lembro de uma frase de Drummond da qual gosto muito: “Acho que a literatura, tal como as artes plásticas e a música, é uma das grandes consolações da vida, e um dos modos de elevação do ser humano sobre a precariedade de sua condição”. Para terminar o post, deixo vocês na companhia de um Rembrandt


Se um dia eu parar de culpar a necessidade de ganhar dinheiro ou a minha lendária preguiça, vou tomar vergonha na cara e dedicar um tempo para estudar a sério a pintura holandesa do século 17. A qualidade da arte da época é absurda. Mesmo muitos dos pintores menos conhecidos do período são muito bons. Veja o caso de Schalcken, autor dos dois primeiros quadros que ilustram este post. Eu vi as suas pinturas pela primeira vez em 1996 – acho que duas ou três – no Museu do Prado, e fiquei impressionado. Eram obras de dimensões pequenas, explorando o efeito da luz de velas sobre o rosto de um ou dois personagens e também sobre objetos, em interiores delicados. Este quadro aqui, por exemplo, tem 19 por 16 centímetros. Dois anos depois, vi mais um ou dois Schalckens na National Gallery, em Londres.

Mas, por mais interesse que eu tenha nos quadros de Schalken, ele não chega aos pés de Vermeer e Rembrandt. Em minha viagens, eu costumo dar sorte com exposições. Em 2001, vi uma de Vermeer no Metropolitan, em Nova York. Há pouco mais de 30 quadros do pintor, e a exposição tinha algo como 20. Além disso, era só atravessar a rua e ver mais três na Frick Collection. Vai demorar para haver outra exposição de Vermeer como aquela. Como eu sabia disso, fui vê-la duas vezes, para não esquecer do tratamento da luz inigualável, dos interiores elegantes, das figuras femininas simples e enigmáticas.
Em 2006, eu estava em Amsterdã, e a cidade estava tomada pelas homenagens aos 400 anos de Rembrandt. Vi três exposições maravilhosas, uma no Rijksmusem, uma na Rembrandt Huis e outra no Museu Van Gogh - esta última também com quadros de Caravaggio. Uma melhor que a outra. Fiquei impressionado não apenas com a versatilidade de Rembrandt, mas também com a sua precocidade. Mesmo no começo de carreira, pintou quadros muito bons. Vi muitos de seus auto-retratos. Eu me lembro de ter lido que, muito mais do que "investigações implacáveis de si mesmo", Rembrandt os pintava porque percebeu que havia um mercado cativo para essas obras. São quadros maravilhosos, e provavelmente os meus preferidos. Mas Rembrandt era tão genial que fazia também obras-primas monumentais, como The night watch, além de ser um mestre na gravura.
Quando vejo quadros dos pintores holandeses do século 17, eu lembro de uma frase de Drummond da qual gosto muito: “Acho que a literatura, tal como as artes plásticas e a música, é uma das grandes consolações da vida, e um dos modos de elevação do ser humano sobre a precariedade de sua condição”. Para terminar o post, deixo vocês na companhia de um Rembrandt

maio 20, 2008
Pedido de ajuda
Eu tenho dezesseis anos e sou de esquerda, porque a minha namorada, que mora em Santa Teresa e se veste como o meu avô maconheiro, me disse que não gosta de burguesinho careta. Agora eu estou na maior confusão porque não sei se fico contra o agronegócio que quer destruir a Amazônia, ou contra as potências estrangeiras que querem roubar a Amazônia (alegando que nosso agronegócio está destruindo a Amazônia). Dá para ser contra os dois? Meu avô de alguma forma consegue este tipo de coisa, quando fuma muita maconha. Minha namorada fica irritada e muda de assunto, mas também consegue sempre manter a postura indignada. Ela me chamou de bundão quando eu disse que estava cada vez mais difícil conciliar as diferentes bandeiras pelas quais lutamos. Por favor, me ajudem. Eu sou um nerd e só tinha comido mulher uma vez, bêbado - sabe aquele tipo de mulher que no dia seguinte você não entende como comeu, do tipo que "se me pegarem abraçado pode separar que é briga"? Pois é, já a minha namorada de esquerda é super-gostosinha, perfumada, uma mulher que me enche de orgulho quando desfilamos juntos pelo Baixo Gávea... apesar daquelas roupas horríveis que me lembram o meu avô
Eu tenho dezesseis anos e sou de esquerda, porque a minha namorada, que mora em Santa Teresa e se veste como o meu avô maconheiro, me disse que não gosta de burguesinho careta. Agora eu estou na maior confusão porque não sei se fico contra o agronegócio que quer destruir a Amazônia, ou contra as potências estrangeiras que querem roubar a Amazônia (alegando que nosso agronegócio está destruindo a Amazônia). Dá para ser contra os dois? Meu avô de alguma forma consegue este tipo de coisa, quando fuma muita maconha. Minha namorada fica irritada e muda de assunto, mas também consegue sempre manter a postura indignada. Ela me chamou de bundão quando eu disse que estava cada vez mais difícil conciliar as diferentes bandeiras pelas quais lutamos. Por favor, me ajudem. Eu sou um nerd e só tinha comido mulher uma vez, bêbado - sabe aquele tipo de mulher que no dia seguinte você não entende como comeu, do tipo que "se me pegarem abraçado pode separar que é briga"? Pois é, já a minha namorada de esquerda é super-gostosinha, perfumada, uma mulher que me enche de orgulho quando desfilamos juntos pelo Baixo Gávea... apesar daquelas roupas horríveis que me lembram o meu avô
maio 19, 2008
De l'esprit des lois
O obscurantismo segue firme no Brasil. Na Folha de hoje, eu descubro que acaba de ser fundada a Associação Jurídico-Espírita (AJE) de São Paulo. Uma das teses da AJE é que cartas psicografadas sejam usadas por tribunais. "Não enxergaria nenhuma diferença entre uma declaração feita por mim ou por você e uma declaração mediúnica, que foi psicografada por alguém", diz na reportagem Alexandre Azevedo, juiz-auxiliar da presidência do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Mais adiante, o repórter conta que levantou “quatro decisões em que cartas psicografadas, supostamente atribuídas às vítimas do crime, foram usadas como provas para inocentar réus acusados de homicídio”. É isso aí que você leu. Esse critério sofisticado e moderno influencia decisões judiciais no Brasil.
Já que parece inevitável, faço duas sugestões que podem melhorar o uso desse instrumento tão importante para se chegar à verdade. O primeiro é a contratação de médiuns pelo Judiciário. A medida é fundamental para evitar que médiuns mal intencionados ou sem isenção influenciem a Justiça. A Zibia Gasparetto pode ajudar a definir critérios para selecionar o pessoal. Pena que Chico Xavier não esteja mais por aqui – se bem que talvez a dona Zíbia possa contatá-lo e pedir para ver se ele não pode dar uma mãozinha.
A outra sugestão é simples. Em alguns julgamentos de homicídio, o tribunal do júri, em vez de ouvir as intermináveis perorações do advogado de defesa e do promotor, deveria lançar mão da brincadeira do copo. Como se sabe, é algo infalível e rejeitado apenas pelos céticos de plantão. Se bem aplicada, evitará injustiças e economizará tempo e dinheiro aos cofres públicos
O obscurantismo segue firme no Brasil. Na Folha de hoje, eu descubro que acaba de ser fundada a Associação Jurídico-Espírita (AJE) de São Paulo. Uma das teses da AJE é que cartas psicografadas sejam usadas por tribunais. "Não enxergaria nenhuma diferença entre uma declaração feita por mim ou por você e uma declaração mediúnica, que foi psicografada por alguém", diz na reportagem Alexandre Azevedo, juiz-auxiliar da presidência do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Mais adiante, o repórter conta que levantou “quatro decisões em que cartas psicografadas, supostamente atribuídas às vítimas do crime, foram usadas como provas para inocentar réus acusados de homicídio”. É isso aí que você leu. Esse critério sofisticado e moderno influencia decisões judiciais no Brasil.
Já que parece inevitável, faço duas sugestões que podem melhorar o uso desse instrumento tão importante para se chegar à verdade. O primeiro é a contratação de médiuns pelo Judiciário. A medida é fundamental para evitar que médiuns mal intencionados ou sem isenção influenciem a Justiça. A Zibia Gasparetto pode ajudar a definir critérios para selecionar o pessoal. Pena que Chico Xavier não esteja mais por aqui – se bem que talvez a dona Zíbia possa contatá-lo e pedir para ver se ele não pode dar uma mãozinha.
A outra sugestão é simples. Em alguns julgamentos de homicídio, o tribunal do júri, em vez de ouvir as intermináveis perorações do advogado de defesa e do promotor, deveria lançar mão da brincadeira do copo. Como se sabe, é algo infalível e rejeitado apenas pelos céticos de plantão. Se bem aplicada, evitará injustiças e economizará tempo e dinheiro aos cofres públicos
maio 16, 2008
Impressões descuidadas do Chile

Que Suíça, que Inglaterra. O país mais circunspecto do mundo é o Chile. Santiago, pelo menos. Passei lá uns dias e me senti verdadeiramente oprimido pela sisudez dos santiaguinos. No metrô, na rua, nos restaurantes, tons sempre de cinza, preto, marrom, fisionomias contraídas, vozes baixas, uma sensação sufocante de tudo certinho e no seu devido lugar. Me deu vontade de estapear uns jovens universitários, aos gritos de "seja extravagante, porra". Nunca antes tinha me ocorrido, aliás, que a extravagância está relacionada à oxigenação. Retire-a completamente de um recinto, e a respiração fica difícil (embora não tenha visto nenhum chileno se contorcendo arroxeado no chão - eles se acostumaram a atmosferas de extravagância rarefeita, assim como os andinos em geral se dão bem com a escassez do oxigênio real). E os chilenos me pareceram incrivelmente disciplinados, uma sociedade castrense, que não ladra mas morde, e ruim de encarar num conflito militar. Em frente ao Palacio de La Moneda, havia umas tendas com uma exposição sobre não-sei-quantos-anos da criação dos carabineros, a polícia militar deles, se bem entendi. Um taxista que gostava do Pinochet me disse que os carabineros são a instituição mais respeitada do Chile. Apesar do handicap de isenção, acho que ele pode ter falado a verdade (citou pesquisas e coisa e tal). Na tal exposição, havia diversos deles, impecavelmente uniformizados (fiquei pensando nos nossos PMs gordões e amarrotados). Acho que os carabineros passaram o cerol nos tempos da ditadura, não foi? A indumentária mais antiga, mostrada em fotos na exposição, me pareceu muito inspirada nos uniformes nazistas, se bem que em uma certa época os uniformes em geral tinham mais ou menos aquele estilo. O taxista me disse que os carabineros são incorruptíveis, e que uma das idéias mais infelizes no Chile é a de tentar molhar a mão de algum (ou alguma). De novo, não tenho como comprovar, mas me pareceu factível. E não, não apóio forças policiais, corruptíveis ou não, que matam e torturam durante ditaduras, se este é o caso. De qualquer forma, na tal exposição havia fotos de carabineros devidamente paramentados em motos, skis, mergulho submarino, acompanhadas de mostras dos respectivos uniformes, dando a impressão daquelas tropas de elite modernosas e arrojadas, que despertam o entusiasmo varonil da população. E havia também este menininho aí fantasiado de carabinero, e arrastado com muito orgulho pela mão da mamãe. Conclusão: sei lá

Que Suíça, que Inglaterra. O país mais circunspecto do mundo é o Chile. Santiago, pelo menos. Passei lá uns dias e me senti verdadeiramente oprimido pela sisudez dos santiaguinos. No metrô, na rua, nos restaurantes, tons sempre de cinza, preto, marrom, fisionomias contraídas, vozes baixas, uma sensação sufocante de tudo certinho e no seu devido lugar. Me deu vontade de estapear uns jovens universitários, aos gritos de "seja extravagante, porra". Nunca antes tinha me ocorrido, aliás, que a extravagância está relacionada à oxigenação. Retire-a completamente de um recinto, e a respiração fica difícil (embora não tenha visto nenhum chileno se contorcendo arroxeado no chão - eles se acostumaram a atmosferas de extravagância rarefeita, assim como os andinos em geral se dão bem com a escassez do oxigênio real). E os chilenos me pareceram incrivelmente disciplinados, uma sociedade castrense, que não ladra mas morde, e ruim de encarar num conflito militar. Em frente ao Palacio de La Moneda, havia umas tendas com uma exposição sobre não-sei-quantos-anos da criação dos carabineros, a polícia militar deles, se bem entendi. Um taxista que gostava do Pinochet me disse que os carabineros são a instituição mais respeitada do Chile. Apesar do handicap de isenção, acho que ele pode ter falado a verdade (citou pesquisas e coisa e tal). Na tal exposição, havia diversos deles, impecavelmente uniformizados (fiquei pensando nos nossos PMs gordões e amarrotados). Acho que os carabineros passaram o cerol nos tempos da ditadura, não foi? A indumentária mais antiga, mostrada em fotos na exposição, me pareceu muito inspirada nos uniformes nazistas, se bem que em uma certa época os uniformes em geral tinham mais ou menos aquele estilo. O taxista me disse que os carabineros são incorruptíveis, e que uma das idéias mais infelizes no Chile é a de tentar molhar a mão de algum (ou alguma). De novo, não tenho como comprovar, mas me pareceu factível. E não, não apóio forças policiais, corruptíveis ou não, que matam e torturam durante ditaduras, se este é o caso. De qualquer forma, na tal exposição havia fotos de carabineros devidamente paramentados em motos, skis, mergulho submarino, acompanhadas de mostras dos respectivos uniformes, dando a impressão daquelas tropas de elite modernosas e arrojadas, que despertam o entusiasmo varonil da população. E havia também este menininho aí fantasiado de carabinero, e arrastado com muito orgulho pela mão da mamãe. Conclusão: sei lá
maio 14, 2008
Barraco no matagal II

Carlos Minc vai substituir Marina Silva. Como o Arranhaponte, eu não entendo nada do assunto. Não sei avaliar se Marina foi uma boa ministra. Ela pelo menos tinha credibilidade, principalmente por causa da pele verde malária, resultado das 357 vezes em que teve a doença. Mas Minc não dá. Como confiar num sujeito que tem cabelinho príncipe valente e usa coletinhos de quem passa férias em São Tomé das Letras, mesmo com mais de 50 anos? Eu não contrataria alguém com esse visual nem para servir cafezinho

Carlos Minc vai substituir Marina Silva. Como o Arranhaponte, eu não entendo nada do assunto. Não sei avaliar se Marina foi uma boa ministra. Ela pelo menos tinha credibilidade, principalmente por causa da pele verde malária, resultado das 357 vezes em que teve a doença. Mas Minc não dá. Como confiar num sujeito que tem cabelinho príncipe valente e usa coletinhos de quem passa férias em São Tomé das Letras, mesmo com mais de 50 anos? Eu não contrataria alguém com esse visual nem para servir cafezinho
Barraco no matagal

A Marina saiu. Eu não sei se gostei ou não dela (como ministra). Provavelmente não. Mas se ela brigou com o Mangabeira Unger, alguma qualidade deve ter. Um amigo meu me deu uma definição do titular da Sealopra que, segundo ele, é piada antiga, mas que eu não conhecia: um sujeito cuja ausência preenche uma importante lacuna. É isso aí. Não dá para confiar em quem pensa fazendo beicinho

A Marina saiu. Eu não sei se gostei ou não dela (como ministra). Provavelmente não. Mas se ela brigou com o Mangabeira Unger, alguma qualidade deve ter. Um amigo meu me deu uma definição do titular da Sealopra que, segundo ele, é piada antiga, mas que eu não conhecia: um sujeito cuja ausência preenche uma importante lacuna. É isso aí. Não dá para confiar em quem pensa fazendo beicinho
maio 12, 2008
A miséria do ludopédio, ou de Raí a Richarlyson
Nas últimas semanas, eu acompanhei de perto a reação de vários flamenguistas ao desempenho do time no campeonato carioca e na Libertadores. O entusiasmo dos fãs de Obina me espantou e me divertiu, mas também me deixou com uma ponta de inveja. Com a indigência do futebol brasileiro atual, não tenho mais a mesma empolgação com o esporte que eu tinha até há alguns anos. Como sou são-paulino, não é por falta de títulos, pelo contrário. A questão é que os torneios por aqui viraram, com boa vontade, uma segundona do futebol global. O São Paulo campeão brasileiro de 2007, por exemplo, era um time bem meia boca – e foi de fato o melhor time do campeonato, o que mostra o nível grotesco do Brasileirão.
Eu vi dois grandes times do São Paulo em ação: o de meados dos anos 80, com Dario Pereira, Pita, Silas, Careca e Müller, e o do começo dos anos 90, com Zetti (melhor que Rogério Ceni, e bem menos presunçoso), Raí, Müller, Palhinha, Cerezo e Leonardo, comandados por Telê Santana, o melhor treinador brasileiro de todos os tempos. Eu comemorei bastante o bicampeonato brasileiro em 2006 e 2007 e vibrei muito com a conquista da Libertadores e do Mundial de 2005 – especialmente porque o time de Paulo Autuori era razoável. Mas, perto das seleções tricolores de Telê, as equipes de Paulo Autuori e Muricy Ramalho dão até vergonha. Haja suspension of disbelief para acreditar que são grandes times.
Na maior parte das partidas disputadas neste ano, o São Paulo foi basicamente o time inglês da anedota. A única estratégia eficiente para fazer gols eram – e ainda são - os cruzamentos de Jorge Wagner para Adriano. O time começou a variar um pouco mais as jogadas nas últimas partidas, mas o número de passes errados, a presença de jogadores como Fábio Santos e Richarlyson e a falta de um padrão de jogo exasperam até o mais fanático dos tricolores. Eu vi dois jogos do São Paulo da Libertadores deste ano no Morumbi, contra o Audax Italiano e o Sportivo Luqueño. Foram duas vitórias magras – 2 a 1 e 1 a 0 -, em partidas totalmente grotescas. Eu fiquei feliz com a vitória – contra o Sportivo Luqueño, Adriano fez um gol aos 48 minutos do segundo tempo -, mas eu já vi muito casados e solteiros disputados depois de churrasco com maior qualidade técnica.
O flamenguista e o corintiano certamente lerão esse post com um ar de superioridade, dizendo para si mesmos: “É coisa de são-paulino. A paixão de um flamenguista (ou de um corintiano) é bem diferente”. Talvez seja mesmo. Mas, além de paixão, tem que ter uma boa dose de masoquismo para continuar acompanhando o futebol brasileiro com a mesma atenção de alguns anos.
Vejam o caso do Flamengo. O time foi campeão de um dos torneios mais decadentes do país, comandado por um técnico folclórico, na melhor das hipóteses. Os meus amigos flamenguistas, porém, pintaram com cores épicas a vitória sobre o Botafogo, outro time vagabundo. A imprensa carioca transformou Joel Santana num herói, lamentando a despedida do sujeito num tom laudatório e melancólico. Apenas a necessidade desesperada de acreditar que o time e o técnico eram mais do que medíocres explica tanta empolgação irrealista. A derrota para o América do México, numa das maiores amareladas de que se tem notícia, fez a torcida cair na real. E eu me pergunto: quem viu a era Zico não fica um pouco desconfortável em vibrar com a era Obina?
Que fique claro: não acho o futebol atual uma lástima. O que é uma lástima é o futebol jogado no Brasil. Na Europa, os campeonatos da Inglaterra, da Itália e da Espanha são muito interessantes, contando com os maiores craques do mundo – que os há, e em número bastante razoável. A Champions League costuma ter grandes jogos, e dá gosto ver um time como o Manchester United, que está longe de se valer apenas do small shower style para fazer gols. O Barcelona de 2006, o Milan de 2007 e o Manchester de 2008 são grandes times, sem nenhuma dúvida. Pode ser que no fim do ano o campeão europeu perca o Mundial Interclubes para o clube sul-americano, como fez o Liverpool diante do São Paulo em 2005 e o Barcelona diante do Internacional em 2006, mas é necessário um otimismo panglossiano para acreditar que o futebol jogado atualmente no Brasil pode ser comparado ao que se disputa na Europa. Por tudo isso, eu passei a ver o ludopédio em doses cada vez mais homeopáticas
Nas últimas semanas, eu acompanhei de perto a reação de vários flamenguistas ao desempenho do time no campeonato carioca e na Libertadores. O entusiasmo dos fãs de Obina me espantou e me divertiu, mas também me deixou com uma ponta de inveja. Com a indigência do futebol brasileiro atual, não tenho mais a mesma empolgação com o esporte que eu tinha até há alguns anos. Como sou são-paulino, não é por falta de títulos, pelo contrário. A questão é que os torneios por aqui viraram, com boa vontade, uma segundona do futebol global. O São Paulo campeão brasileiro de 2007, por exemplo, era um time bem meia boca – e foi de fato o melhor time do campeonato, o que mostra o nível grotesco do Brasileirão.
Eu vi dois grandes times do São Paulo em ação: o de meados dos anos 80, com Dario Pereira, Pita, Silas, Careca e Müller, e o do começo dos anos 90, com Zetti (melhor que Rogério Ceni, e bem menos presunçoso), Raí, Müller, Palhinha, Cerezo e Leonardo, comandados por Telê Santana, o melhor treinador brasileiro de todos os tempos. Eu comemorei bastante o bicampeonato brasileiro em 2006 e 2007 e vibrei muito com a conquista da Libertadores e do Mundial de 2005 – especialmente porque o time de Paulo Autuori era razoável. Mas, perto das seleções tricolores de Telê, as equipes de Paulo Autuori e Muricy Ramalho dão até vergonha. Haja suspension of disbelief para acreditar que são grandes times.
Na maior parte das partidas disputadas neste ano, o São Paulo foi basicamente o time inglês da anedota. A única estratégia eficiente para fazer gols eram – e ainda são - os cruzamentos de Jorge Wagner para Adriano. O time começou a variar um pouco mais as jogadas nas últimas partidas, mas o número de passes errados, a presença de jogadores como Fábio Santos e Richarlyson e a falta de um padrão de jogo exasperam até o mais fanático dos tricolores. Eu vi dois jogos do São Paulo da Libertadores deste ano no Morumbi, contra o Audax Italiano e o Sportivo Luqueño. Foram duas vitórias magras – 2 a 1 e 1 a 0 -, em partidas totalmente grotescas. Eu fiquei feliz com a vitória – contra o Sportivo Luqueño, Adriano fez um gol aos 48 minutos do segundo tempo -, mas eu já vi muito casados e solteiros disputados depois de churrasco com maior qualidade técnica.
O flamenguista e o corintiano certamente lerão esse post com um ar de superioridade, dizendo para si mesmos: “É coisa de são-paulino. A paixão de um flamenguista (ou de um corintiano) é bem diferente”. Talvez seja mesmo. Mas, além de paixão, tem que ter uma boa dose de masoquismo para continuar acompanhando o futebol brasileiro com a mesma atenção de alguns anos.
Vejam o caso do Flamengo. O time foi campeão de um dos torneios mais decadentes do país, comandado por um técnico folclórico, na melhor das hipóteses. Os meus amigos flamenguistas, porém, pintaram com cores épicas a vitória sobre o Botafogo, outro time vagabundo. A imprensa carioca transformou Joel Santana num herói, lamentando a despedida do sujeito num tom laudatório e melancólico. Apenas a necessidade desesperada de acreditar que o time e o técnico eram mais do que medíocres explica tanta empolgação irrealista. A derrota para o América do México, numa das maiores amareladas de que se tem notícia, fez a torcida cair na real. E eu me pergunto: quem viu a era Zico não fica um pouco desconfortável em vibrar com a era Obina?
Que fique claro: não acho o futebol atual uma lástima. O que é uma lástima é o futebol jogado no Brasil. Na Europa, os campeonatos da Inglaterra, da Itália e da Espanha são muito interessantes, contando com os maiores craques do mundo – que os há, e em número bastante razoável. A Champions League costuma ter grandes jogos, e dá gosto ver um time como o Manchester United, que está longe de se valer apenas do small shower style para fazer gols. O Barcelona de 2006, o Milan de 2007 e o Manchester de 2008 são grandes times, sem nenhuma dúvida. Pode ser que no fim do ano o campeão europeu perca o Mundial Interclubes para o clube sul-americano, como fez o Liverpool diante do São Paulo em 2005 e o Barcelona diante do Internacional em 2006, mas é necessário um otimismo panglossiano para acreditar que o futebol jogado atualmente no Brasil pode ser comparado ao que se disputa na Europa. Por tudo isso, eu passei a ver o ludopédio em doses cada vez mais homeopáticas
maio 10, 2008
Um projeto patriótico

Do Brasil para o mundo
Parece que o governo vai mesmo lançar um fundo soberano. O objetivo principal é permitir que o BNDES financie empresas brasileiras no exterior. Acho uma péssima idéia. Será mais um subsídio para empresas privadas. Mas, já que o negócio deve sair mesmo, eu vou pleitear uma graninha desse fundo para um projeto que amadureci na semana que passei em Buenos Aires: a Biscateria, uma cadeia de puteiros que funcionará no exterior com mão-de-obra exclusivamente brasileira.
Será o primeiro projeto do Torre fora do país. Nós vamos começar pela América Latina e depois invadir a Europa e o Japão. A idéia é simples: aproveitar as nossas vantagens comparativas nesse terreno e ampliar ainda mais esse fluxo de dólares para o país, num momento em que as contas externas se deterioram rapidamente.
Um argumento de peso para convencer o comitê de crédito do BNDES é que, ao contrário do que fazem os importadores de prostitutas brasileiras no exterior, a Biscateria se comprometerá a respeitar todos os direitos de suas funcionárias. A questão é que é bem possível que um projeto ousado como esse não receba recursos do fundo soberano. Tudo indica que a grana irá para as mãos mãos de empresas que já contam com acesso a dinheiro barato no exterior. Mesmo assim, não desistirei tão facilmente da Biscateria. Se o BNDES não apoiar, vou tentar uma parceria com Oscar Maroni. Pelo menos no fornecimento da mão-de-obra ele pode ajudar

Do Brasil para o mundo
Parece que o governo vai mesmo lançar um fundo soberano. O objetivo principal é permitir que o BNDES financie empresas brasileiras no exterior. Acho uma péssima idéia. Será mais um subsídio para empresas privadas. Mas, já que o negócio deve sair mesmo, eu vou pleitear uma graninha desse fundo para um projeto que amadureci na semana que passei em Buenos Aires: a Biscateria, uma cadeia de puteiros que funcionará no exterior com mão-de-obra exclusivamente brasileira.
Será o primeiro projeto do Torre fora do país. Nós vamos começar pela América Latina e depois invadir a Europa e o Japão. A idéia é simples: aproveitar as nossas vantagens comparativas nesse terreno e ampliar ainda mais esse fluxo de dólares para o país, num momento em que as contas externas se deterioram rapidamente.
Um argumento de peso para convencer o comitê de crédito do BNDES é que, ao contrário do que fazem os importadores de prostitutas brasileiras no exterior, a Biscateria se comprometerá a respeitar todos os direitos de suas funcionárias. A questão é que é bem possível que um projeto ousado como esse não receba recursos do fundo soberano. Tudo indica que a grana irá para as mãos mãos de empresas que já contam com acesso a dinheiro barato no exterior. Mesmo assim, não desistirei tão facilmente da Biscateria. Se o BNDES não apoiar, vou tentar uma parceria com Oscar Maroni. Pelo menos no fornecimento da mão-de-obra ele pode ajudar
maio 08, 2008
Pra calar a boca dos detratores

Os anos 70 tinham lá a sua elegância, sim. Taí a prova

Os anos 70 tinham lá a sua elegância, sim. Taí a prova
maio 06, 2008
É a política fiscal, estúpido
A discussão econômica no Brasil é realmente cansativa. Boa parte dos economistas heterodoxos não pára de gritar contra o nível dos juros e do câmbio, mas raramente diz alguma palavra sobre a política fiscal. O Banco Central é visto por esses economistas como uma instituição comandada por um bando de tarados obcecados por juros altos, que fazem o país crescer pouco e o câmbio valorizar muito. O fato de os gastos públicos crescerem a um ritmo superior a 10% acima da inflação é convenientemente esquecido - se bem que o negócio está tão grave que até alguns desenvolvimentistas começaram a recomendar moderação para o governo.
É claro que é lícito discutir se o mais recente aumento dos juros era necessário. Vários economistas, inclusive alguns ortodoxos, diziam que não era. Talvez o BC seja excessivamente conservador? Talvez, mas todo o trabalho de tentar controlar a inflação fica com o BC*.
A política fiscal tem sido obscenamente expansionista, e assim vai continuar por muito tempo, no que depender de Lula. A liberdade do BC para conduzir a política monetária, aliás, deixa claro que Lula prefere aumento de juros a controle de gastos. Sugerir contenção de despesas é uma ofensa para o Guia Genial, que julga já ter feito todo o sacrifício fiscal em 2003, quando as despesas não financeiras caíram em termos reais. De lá para cá, começou a farra fiscal, quase toda concentrada em gastos correntes. O investimento cresceu um pouco, mas ainda é uma parcela ridícula do total das despesas do governo.
A política fiscal é rígida demais, claro, mas Lula não tem nenhum interesse e disposição para mudar esse quadro. Prefere continuar com reajustes expressivos para o salário mínimo, mesmo depois dos aumentos generosos do primeiro mandato, o que afeta as contas da Previdência e da assistência social. Além disso, continua a abrir o saco de bondades para os funcionários públicos. Cláudia Safatle, do Valor, mostra nesta coluna que, em quatro meses, Lula aumentou as despesas com os servidores em R$ 15 bilhões, mesmo depois de perder a CPMF.
Com essa política fiscal, há dificuldades para reduções mais fortes dos juros, o que contribui para a valorização do câmbio. Como não quer parar de gastar e está preocupado com o nível do dólar, o governo começa a criar distorções, como a cobrança do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para o investimento em renda fixa. Há rumores de que a idéia discutida pela equipe econômica é aumentar ainda mais a alíquota, para tentar frear a valorização do câmbio. Em vez de inventar moda, o governo deveria enfrentar a questão fiscal, mas é claro que isso não vai ocorrer
* Um dos argumentos mais capengas é de que o BC aumenta os juros porque foi capturado pelos interesses do sistema financeiro, e não porque está preocupado com a inflação. Por essa tese brilhante, os economistas de bancos começaram a defender a necessidade de elevar a Selic há alguns meses para preservar os ganhos de seus patrões. Afinal, coitados, os bancos ganharam pouco nos últimos anos. De setembro de 2005 a setembro de 2007, a Selic caiu de 19,75% para 11,25% ao ano, período em que o lucro dos bancos não parou de aumentar, em grande parte devido às operações de crédito. Mas isso não basta. Em alguma reunião da Febraban, os presidentes de Itaú, Bradesco, Unibanco, Real e HSBC certamente decidiram que estava na hora de agir: "Vamos mandar nossos economistas dizerem que está na hora de aumentar os juros, porque não dá para se contentar com essa rentabilidade merreca". O BC, obediente como um cachorrinho, aquiesceu
A discussão econômica no Brasil é realmente cansativa. Boa parte dos economistas heterodoxos não pára de gritar contra o nível dos juros e do câmbio, mas raramente diz alguma palavra sobre a política fiscal. O Banco Central é visto por esses economistas como uma instituição comandada por um bando de tarados obcecados por juros altos, que fazem o país crescer pouco e o câmbio valorizar muito. O fato de os gastos públicos crescerem a um ritmo superior a 10% acima da inflação é convenientemente esquecido - se bem que o negócio está tão grave que até alguns desenvolvimentistas começaram a recomendar moderação para o governo.
É claro que é lícito discutir se o mais recente aumento dos juros era necessário. Vários economistas, inclusive alguns ortodoxos, diziam que não era. Talvez o BC seja excessivamente conservador? Talvez, mas todo o trabalho de tentar controlar a inflação fica com o BC*.
A política fiscal tem sido obscenamente expansionista, e assim vai continuar por muito tempo, no que depender de Lula. A liberdade do BC para conduzir a política monetária, aliás, deixa claro que Lula prefere aumento de juros a controle de gastos. Sugerir contenção de despesas é uma ofensa para o Guia Genial, que julga já ter feito todo o sacrifício fiscal em 2003, quando as despesas não financeiras caíram em termos reais. De lá para cá, começou a farra fiscal, quase toda concentrada em gastos correntes. O investimento cresceu um pouco, mas ainda é uma parcela ridícula do total das despesas do governo.
A política fiscal é rígida demais, claro, mas Lula não tem nenhum interesse e disposição para mudar esse quadro. Prefere continuar com reajustes expressivos para o salário mínimo, mesmo depois dos aumentos generosos do primeiro mandato, o que afeta as contas da Previdência e da assistência social. Além disso, continua a abrir o saco de bondades para os funcionários públicos. Cláudia Safatle, do Valor, mostra nesta coluna que, em quatro meses, Lula aumentou as despesas com os servidores em R$ 15 bilhões, mesmo depois de perder a CPMF.
Com essa política fiscal, há dificuldades para reduções mais fortes dos juros, o que contribui para a valorização do câmbio. Como não quer parar de gastar e está preocupado com o nível do dólar, o governo começa a criar distorções, como a cobrança do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para o investimento em renda fixa. Há rumores de que a idéia discutida pela equipe econômica é aumentar ainda mais a alíquota, para tentar frear a valorização do câmbio. Em vez de inventar moda, o governo deveria enfrentar a questão fiscal, mas é claro que isso não vai ocorrer
* Um dos argumentos mais capengas é de que o BC aumenta os juros porque foi capturado pelos interesses do sistema financeiro, e não porque está preocupado com a inflação. Por essa tese brilhante, os economistas de bancos começaram a defender a necessidade de elevar a Selic há alguns meses para preservar os ganhos de seus patrões. Afinal, coitados, os bancos ganharam pouco nos últimos anos. De setembro de 2005 a setembro de 2007, a Selic caiu de 19,75% para 11,25% ao ano, período em que o lucro dos bancos não parou de aumentar, em grande parte devido às operações de crédito. Mas isso não basta. Em alguma reunião da Febraban, os presidentes de Itaú, Bradesco, Unibanco, Real e HSBC certamente decidiram que estava na hora de agir: "Vamos mandar nossos economistas dizerem que está na hora de aumentar os juros, porque não dá para se contentar com essa rentabilidade merreca". O BC, obediente como um cachorrinho, aquiesceu



Manchete do Estado de S. Paulo mostra que a indústria automobilística é a queridinha da política industrial. Do total de R$ 6,1 bilhões em desonerações tributárias previstas até 2011, 52,8% ficarão com os fabricantes de automóveis. Como se sabe, o setor passa por um momento muito difícil. De janeiro a abril, a produção de veículos cresceu 23,5% em relação ao mesmo período do ano passado, enquanto o licenciamento cresceu 35,2%, segundo números da Anfavea. Ah, claro: isso se dá em cima de uma base de comparação elevada. São números terríveis, que dão pena. Um setor com esse desempenho precisa de apoio.
A política industrial não se limita a escolher vencedores. Ela faz questão de premiar os setores que já venceram