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A discussão econômica no Brasil é realmente cansativa. Boa parte dos economistas heterodoxos não pára de gritar contra o nível dos juros e do câmbio, mas raramente diz alguma palavra sobre a política fiscal. O Banco Central é visto por esses economistas como uma instituição comandada por um bando de tarados obcecados por juros altos, que fazem o país crescer pouco e o câmbio valorizar muito. O fato de os gastos públicos crescerem a um ritmo superior a 10% acima da inflação é convenientemente esquecido - se bem que o negócio está tão grave que até alguns desenvolvimentistas começaram a recomendar moderação para o governo.
É claro que é lícito discutir se o mais recente aumento dos juros era necessário. Vários economistas, inclusive alguns ortodoxos, diziam que não era. Talvez o BC seja excessivamente conservador? Talvez, mas todo o trabalho de tentar controlar a inflação fica com o BC*.
A política fiscal tem sido obscenamente expansionista, e assim vai continuar por muito tempo, no que depender de Lula. A liberdade do BC para conduzir a política monetária, aliás, deixa claro que Lula prefere aumento de juros a controle de gastos. Sugerir contenção de despesas é uma ofensa para o Guia Genial, que julga já ter feito todo o sacrifício fiscal em 2003, quando as despesas não financeiras caíram em termos reais. De lá para cá, começou a farra fiscal, quase toda concentrada em gastos correntes. O investimento cresceu um pouco, mas ainda é uma parcela ridícula do total das despesas do governo.
A política fiscal é rígida demais, claro, mas Lula não tem nenhum interesse e disposição para mudar esse quadro. Prefere continuar com reajustes expressivos para o salário mínimo, mesmo depois dos aumentos generosos do primeiro mandato, o que afeta as contas da Previdência e da assistência social. Além disso, continua a abrir o saco de bondades para os funcionários públicos. Cláudia Safatle, do Valor, mostra nesta coluna que, em quatro meses, Lula aumentou as despesas com os servidores em R$ 15 bilhões, mesmo depois de perder a CPMF.
Com essa política fiscal, há dificuldades para reduções mais fortes dos juros, o que contribui para a valorização do câmbio. Como não quer parar de gastar e está preocupado com o nível do dólar, o governo começa a criar distorções, como a cobrança do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para o investimento em renda fixa. Há rumores de que a idéia discutida pela equipe econômica é aumentar ainda mais a alíquota, para tentar frear a valorização do câmbio. Em vez de inventar moda, o governo deveria enfrentar a questão fiscal, mas é claro que isso não vai ocorrer
* Um dos argumentos mais capengas é de que o BC aumenta os juros porque foi capturado pelos interesses do sistema financeiro, e não porque está preocupado com a inflação. Por essa tese brilhante, os economistas de bancos começaram a defender a necessidade de elevar a Selic há alguns meses para preservar os ganhos de seus patrões. Afinal, coitados, os bancos ganharam pouco nos últimos anos. De setembro de 2005 a setembro de 2007, a Selic caiu de 19,75% para 11,25% ao ano, período em que o lucro dos bancos não parou de aumentar, em grande parte devido às operações de crédito. Mas isso não basta. Em alguma reunião da Febraban, os presidentes de Itaú, Bradesco, Unibanco, Real e HSBC certamente decidiram que estava na hora de agir: "Vamos mandar nossos economistas dizerem que está na hora de aumentar os juros, porque não dá para se contentar com essa rentabilidade merreca". O BC, obediente como um cachorrinho, aquiesceu


