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Nas últimas semanas, eu acompanhei de perto a reação de vários flamenguistas ao desempenho do time no campeonato carioca e na Libertadores. O entusiasmo dos fãs de Obina me espantou e me divertiu, mas também me deixou com uma ponta de inveja. Com a indigência do futebol brasileiro atual, não tenho mais a mesma empolgação com o esporte que eu tinha até há alguns anos. Como sou são-paulino, não é por falta de títulos, pelo contrário. A questão é que os torneios por aqui viraram, com boa vontade, uma segundona do futebol global. O São Paulo campeão brasileiro de 2007, por exemplo, era um time bem meia boca – e foi de fato o melhor time do campeonato, o que mostra o nível grotesco do Brasileirão.
Eu vi dois grandes times do São Paulo em ação: o de meados dos anos 80, com Dario Pereira, Pita, Silas, Careca e Müller, e o do começo dos anos 90, com Zetti (melhor que Rogério Ceni, e bem menos presunçoso), Raí, Müller, Palhinha, Cerezo e Leonardo, comandados por Telê Santana, o melhor treinador brasileiro de todos os tempos. Eu comemorei bastante o bicampeonato brasileiro em 2006 e 2007 e vibrei muito com a conquista da Libertadores e do Mundial de 2005 – especialmente porque o time de Paulo Autuori era razoável. Mas, perto das seleções tricolores de Telê, as equipes de Paulo Autuori e Muricy Ramalho dão até vergonha. Haja suspension of disbelief para acreditar que são grandes times.
Na maior parte das partidas disputadas neste ano, o São Paulo foi basicamente o time inglês da anedota. A única estratégia eficiente para fazer gols eram – e ainda são - os cruzamentos de Jorge Wagner para Adriano. O time começou a variar um pouco mais as jogadas nas últimas partidas, mas o número de passes errados, a presença de jogadores como Fábio Santos e Richarlyson e a falta de um padrão de jogo exasperam até o mais fanático dos tricolores. Eu vi dois jogos do São Paulo da Libertadores deste ano no Morumbi, contra o Audax Italiano e o Sportivo Luqueño. Foram duas vitórias magras – 2 a 1 e 1 a 0 -, em partidas totalmente grotescas. Eu fiquei feliz com a vitória – contra o Sportivo Luqueño, Adriano fez um gol aos 48 minutos do segundo tempo -, mas eu já vi muito casados e solteiros disputados depois de churrasco com maior qualidade técnica.
O flamenguista e o corintiano certamente lerão esse post com um ar de superioridade, dizendo para si mesmos: “É coisa de são-paulino. A paixão de um flamenguista (ou de um corintiano) é bem diferente”. Talvez seja mesmo. Mas, além de paixão, tem que ter uma boa dose de masoquismo para continuar acompanhando o futebol brasileiro com a mesma atenção de alguns anos.
Vejam o caso do Flamengo. O time foi campeão de um dos torneios mais decadentes do país, comandado por um técnico folclórico, na melhor das hipóteses. Os meus amigos flamenguistas, porém, pintaram com cores épicas a vitória sobre o Botafogo, outro time vagabundo. A imprensa carioca transformou Joel Santana num herói, lamentando a despedida do sujeito num tom laudatório e melancólico. Apenas a necessidade desesperada de acreditar que o time e o técnico eram mais do que medíocres explica tanta empolgação irrealista. A derrota para o América do México, numa das maiores amareladas de que se tem notícia, fez a torcida cair na real. E eu me pergunto: quem viu a era Zico não fica um pouco desconfortável em vibrar com a era Obina?
Que fique claro: não acho o futebol atual uma lástima. O que é uma lástima é o futebol jogado no Brasil. Na Europa, os campeonatos da Inglaterra, da Itália e da Espanha são muito interessantes, contando com os maiores craques do mundo – que os há, e em número bastante razoável. A Champions League costuma ter grandes jogos, e dá gosto ver um time como o Manchester United, que está longe de se valer apenas do small shower style para fazer gols. O Barcelona de 2006, o Milan de 2007 e o Manchester de 2008 são grandes times, sem nenhuma dúvida. Pode ser que no fim do ano o campeão europeu perca o Mundial Interclubes para o clube sul-americano, como fez o Liverpool diante do São Paulo em 2005 e o Barcelona diante do Internacional em 2006, mas é necessário um otimismo panglossiano para acreditar que o futebol jogado atualmente no Brasil pode ser comparado ao que se disputa na Europa. Por tudo isso, eu passei a ver o ludopédio em doses cada vez mais homeopáticas


