« junho 2008 | Main | agosto 2008 »

julho 30, 2008

Os meus top 5

Depois de ver esta lista com os 100 discos de jazz mais importantes da história, feita por David Remnick, decidi fazer uma com os cinco melhores jogadores que eu vi jogar. Qual a relação entre as duas coisas? Nenhuma, mas deu vontade de fazer mesmo assim. Eu provavelmente vou tomar pedradas pelas escolhas de qualquer modo, mas aqui vai um esclarecimento necessário: comecei a acompanhar futebol mais de perto no fim dos anos 70 e começo dos anos 80. Não me xingue por não ter incluído Pelé, Rivellino, Cruijff ou Beckenbauer na lista. Eu limitei a escolha aos jogadores cuja carreira acompanhei mais de perto. Lá vai:

Romário – O melhor centroavante que eu vi jogar, disparado. Melhor que Careca, melhor que Van Basten, melhor que Reinaldo, melhor que Ronaldo. Eu não vi ninguém com metade de sua frieza nas finalizações. Romário estava sempre bem posicionado, tanto dentro da área como fora dela, sempre no lugar certo para receber o passe em vantagem em relação ao zagueiro. Com arranques curtos e dribles desconcertantes, se livrava com facilidade do marcador. Daí era só finalizar, o que ele fazia bem com as duas pernas. Baixinho, era um grande cabeceador, muito melhor que Ronaldo, bem mais alto do que ele. Eu assisti a um São Paulo x Flamengo no Morumbi, no Rio-São Paulo, em 1997, alguns anos depois do auge de Romário. No primeiro tempo, Romário não pegou na bola. A torcida são-paulina o chamou de viado. No segundo tempo, Romário pegou quatro vezes na bola. Fez dois gols, deu um para fazer e chutou uma bola na trave. O jogo acabou 3 a 1 para o Flamengo.

Maradona – É claro que Pelé foi mil vezes melhor do que Maradona, mas o argentino foi de fato o maior jogador que eu vi jogar. A única vez na minha vida em que eu torci para a seleção da Argentina foi na Copa de 1986. O homem ganhou o negócio praticamente sozinho – a Argentina tinha um time bem meia boca, em que se destacavam Burruchaga e Valdano, bons jogadores, mas não craques. O gol contra a Inglaterra, em que Maradona dribla seis jogadores, é o mais bonito de todas as Copas. O gol de mão também foi genial, por mais que horrorize os puristas. O homem matou a pau na Copa inteira, como no jogo contra a Bélgica. Era habilidoso e driblava absurdamente bem, colocando a bola onde queria com a perna esquerda. No Napoli, também jogou muito. Fez muitos gols de falta e deu passes maravilhosos para Careca.

Ronaldinho Gaúcho – É a escolha que, eu tenho certeza, será mais contestada. Em 2005 e na primeira metade de 2006, porém, Ronaldinho Gaúcho jogou muito. Na Copa de 2002, também esteve muito bem, principalmente no jogo contra a Inglaterra. Naquelea época, ele driblava espetacularmente e dava passes maravilhosos e inspirados. Uniu habilidade com objetividade – os dribles desconcertantes em geral eram feitos na direção do gol. Fez gols lindos e foi sem dúvida o melhor jogador da Champions League de 2005-2006. Desde a Copa de 2006, porém, parece outro jogador. Não parte para cima do marcador e em geral se limita a distribuir o jogo. Espero que isso mude. Se voltar a jogar 80% do que jogou em 2005 e 2006, será eleito mais uma vez o melhor do mundo.

Zidane – O último meia clássico do futebol. Elegante, habilidoso, forte e bom finalizador. Não era rápido, mas sabia fazer o jogo ficar rápido quando isso era necessário. Fez gols espetaculares na Juventus e no Real Madri. Dava passes perfeitos. Ganhou uma Copa e, em 2006, já veterano, matou o Brasil nas quartas-de-final. Todos os dias eu torço para que o São Paulo ache um jogador com as características de Zidane. Se jogar 30% do que Zidane jogava, será suficiente para resolver o problema do meio-campo do meu time.

Zico – Um dos craques brasileiros mais injustiçados do Brasil por quem não é flamenguista. Eu sempre achei bobagem a história de que Zico só jogava bem no Maracanã. Na Libertadores e o Mundial de 1981, o homem só não fez chover. Finalizava bem, fazia muitos gols e foi um dos melhores batedores de falta de todos os tempos. Era também um dos reis das asssistências, num tempo em que não se usava essa palavra ridícula. Nunes provavelmente deve uns 70% de seus gols aos passes de Zico. Jogou na Itália num time pequeno e quase foi o artilheiro do campeonato. Fez parte de um dos melhores times que eu vi jogar, a seleção brasileira de 1982. Eu vi há alguns anos os teipes de algumas daquelas partidas, e Zico jogou muito bem. Mesmo sem ter ganhado uma Copa, entra no meu top 5



julho 28, 2008

Ecos da abloguia

Île Saint-Louis.jpg


Eu ouvi o termo pela primeira vez pronunciado pelo Matamoros, e portanto a ele atribuo a autoria. Como teorizador serial, não há como não me debruçar mentalmente sobre o meu surto de abloguia, e a explicação mais convincente é a de que se desmilingüiu em mim a sabichonice, o élan vital do blogueiro. Dias e dias escoam sem que eu me sinta, nem por frações de segundo, sabichão, aquele estado maníaco levemente prazeroso, certamente neurótico e naturalmente indispensável para postar. Preocupo-me em que seja um efeito da idade, e procuro me consolar com a idéia de que se trata apenas de uma longa calmaria dos ventos da convicção.

As regras do Torre são claras, porém, e pesada é a multa pelo não-cumprimento das cotas mínimas de postagem. Só me resta vasculhar os meus arquivos mentais em busca de lembranças engraçadas ou interessantezinhas, e tentar produzir posts a partir destes fiapos de “esprit” passado. Um dos problemas é que praticamente apenas eu acho graça em muitos deles. Por exemplo, para enfatizar a minha monumental ignorância botânica (leio maravilhado romances ingleses do século XIX com incontáveis citações de tipos de flores e constato que não sei como são em 99% dos casos – mesmo que procure os nomes em português), eu, numa tirada que costumo repetir, repliquei à minha namorada, quando ela me exortou a comprar ingredientes para salada, que teria dificuldades em reconhecer uma alface, e que temia confundi-la com uma sequóia. Tive como tréplica apenas um olhar entre o neutro e o levemente desgostoso. Não é, evidentemente, que ela não tenha entendido a gracinha tentativa. Era mais uma questão de propriety, earnestness. Afinal, com salada não se brinca.

Achei que apenas o caso acima não era suficiente para amarrar um post, e aprofundei as buscas entre as quinquilharias da memória. Me decidi por um fato real, mas que apresentarei como uma pergunta séria às leitoras do Torre. Foi no tempo em que eu morava em Paris, num apartamento minúsculo na Île Saint-Louis. Tenho um amigo francês, matemático, cujo apartamento ficava, se não me engano (a geografia de Paris já se subtraiu aos meus neurônios), na região onde termina o Boulevard Saint-German, numa distância caminhante (caminhável?) do meu. Depois de uma primeira juventude moderadamente porra-louca, meu amigo entrou para “la finance”, na época em que o surgimento dos derivativos criou uma forte demanda por matemáticos. Ele ganhou dinheiro muito rapidamente, e exultava de uma forma cândida e simpática com a benevolência do seu destino. De vez em quando eu caminhava até o seu apartamento para tomar o café da manhã, que invariavelmente era acompanhado por uma taça ou duas de champagne. Eu sei, eu sei, os leitores mais maliciosos, tangidos por comichões homo-eróticos, já estão formulando suas aleivosias, mas o fato é que esses cafés da manhã com meu amigo refletiam mais um resultado com o sexo oposto relativamente menor do que as nossas pretensões do que qualquer preferência pela companhia masculina.

E o sexo feminino, obviamente, era um dos temas recorrentes nas nossas reflexões matinais. Foi numa dessas ocasiões que meu amigo me apresentou sua célebre teoria sobre champagne e mulheres. Confiante em seus dotes culinários, ele costumava convidar amigas para jantar em seu apartamento, invariavelmente com segundas intenções. Naquele dia, ele me mostrou alguns champagnes caríssimos, de marcas como Cristal, Taittinger, Bollinger, Dom Pérignon, que naturalmente não eram o que bebericávamos. Movido por pudores pequeno-burgueses, eu dei a entender que aquela opulência talvez fosse desnecessária, já que ele não era exatamente um apreciador de vinhos (na naite, devo confessar, bebíamos apenas cerveja). Meu amigo explicou que os champagnes de preços estratoféricos eram abertos especificamente nos jantares com as amigas, e com um objetivo muito preciso:

“É que depois de tomar um champagne Cristal 1979*, elas acham que seria falta de educação não dar”.

A pergunta que eu ia formular às nossas leitoras era “vocês dariam?”

Pensando um pouco melhor, achei que talvez fosse ofensivo, e resolvi refrasear:

“Vocês concordam?”


* Eu reconstituí a história tal como a havia contado para o Matamoros, por expressa exigência do mesmo. Os leitores da versão inicial, que não incluía o nome do champagne, me desculpem



julho 27, 2008

Alckmin já ganhou

A maior parte dos especialistas em política diz que a eleição em São Paulo está totalmente indefinida. Eu não acho. A não ser que ocorra uma reviravolta muito grande, Geraldo Alckmin vai ganhar a eleição sem grandes dificuldades. Como eu já escrevi aqui e aqui, o tucano não me agrada. No entanto, como já notaram alguns analistas, ele tem um trunfo eleitoral invejável: mesmo tendo sido governador de São Paulo por seis anos e tendo disputado uma eleição presidencial, Alckmin tem uma rejeição baixíssima para quem está há tanto tempo na política.

Na última pesquisa do Datafolha, apenas 18% dos entrevistados dizem que não votam de jeito nenhum no sujeito que adora Gabriel Chalita. Quem tem cerca de um terço das intenções de voto e uma rejeição de apenas 18% está muito perto da vitória. Marta Suplicy aparece com 36% na pesquisa mais recente do Datafolha, mas tem 34% de rejeição.

Para facilitar o trabalho de Alckmin, os candidatos que aparecem em terceiro e quarto lugares na pesquisa têm um perfil mais parecido com o seu do que com o de Marta. Gilberto Kassab tem 11% das intenções de voto e Paulo Maluf, 8%. Parece bastante provável que o tucano fique com a maior parte dos eleitores dessas duas tralhas.

O meu raciocínio pressupõe, claro, que Kassab é uma carta fora do baralho. Parece cedo para fazer esse prognóstico, mas o sujeito é prefeito há mais de dois anos não consegue uma distância razoável de Maluf. Além da Cidade Limpa, o sujeito que tentou “influenciar” a pesquisa do Datafolha faz um governo insosso, sem uma grande marca. Ah, claro: ele não tem carisma – fala com a língua presa, no melhor estilo roubavam o meu lanche na escola – e foi secretário de Planejamento de Celso Pitta.

É verdade que a lógica política mandava Alckmin não se candidatar, para manter a continuidade da aliança do PSDB com o DEM, mas Kassab se mostra a cada dia um candidato com pouca viabilidade eleitoral. E também é verdade que o tucano pode ter dificuldade para articular um discurso eleitoral, já que o PSDB na prática manda na prefeitura. Apesar de tudo isso, acho que Alckmin não terá dificuldade em emplacar o discurso do bom gestor – o que é muito discutível, como mostram os resultados do Estado de São Paulo nos testes de educação – e de sujeito confiável.

A baixa rejeição de Alckmin não foi suficiente para que ele ganhasse as eleições presidenciais de 2006, mas ele era relativamente desconhecido no resto do país e enfrentou um presidente muito popular, por causa da inflação baixa, do crescimento razoável e das políticas sociais. Em São Paulo, Alckmin é muito conhecido e tem como adversário uma candidata que desperta ódio em parte razoável do eleitorado.

Eu corro o risco de quebrar a cara, mas vaticino: Alckmin já pode preparar a faixa



julho 25, 2008

Falando mal da velhinha boca suja

Dercy3.jpg

Falar mal de quem morreu há pouco é o cúmulo da falta de elegância, mas vamos lá. Eu nunca achei graça em Dercy Gonçalves. Na verdade, ela sempre me deixou constrangido – um pouco por mim, por estar assistindo um programa do qual ela participava, e muito por ela. O humor exagerado de Dercy não me agradava nem como fenômeno trash, e olha que eu tenho uma queda pelo trash. Eu a via na televisão e ficava desconfortável com aquela velhinha que usava palavrão como vírgula.

A atriz Fafy Siqueira disse à Folha que há 14 anos quer mostrar que “Dercy Gonçalves não é só essa velhinha que ficava falando palavrão”. Segundo ela, que pretende montar uma peça sobre a velhinha que ficava falando palavrão, "Dercy foi a artista feminina mais importante do teatro brasileiro. Fundou uma companhia que tinha 80 pessoas. Produzia suas peças sozinha e pagava em dia”. Fafy pode até estar certa, mas o problema é que, desde que eu comecei a acompanhar a carreira de Dercy, há uns 25 anos ou mais, o seu sucesso se devia ao fato de que ela era uma velha boca suja, que dizia o que lhe viesse à cabeça, por mais constrangedor que fosse - para ela, para o interlocutor, para o espectador. Velhos que decidem ser autênticos e “desafiar convenções” o tempo todo costumam ser irritantes, pelo menos para mim.

Outra questão é o suposto talento de Dercy. Há muito tempo, eu vi Cala a boca, Etelvina, um filme bem mequetrefe estrelado por ela. Achei a atuação gaiata de Dercy bem ruim, embora a direção capenga e o roteiro bobinho certamente tenham parte da culpa. Eu também a vi na novela Que rei sou eu?, em que fez uma participação especial, também gaiata, também sem graça.

Para terminar, eu conto uma história que deixa o post menos mal humorado e até um pouco contraditório. Há 20 anos, o meu pai foi à casa de Dercy, tratar da instalação de aquecedores. Enquanto eles conversavam, o telefone tocou. Dercy atendeu e, em poucos minutos, xingou o interlocutor de todos os palavrões que o nosso bonito idioma abriga. Ela quase conseguiu chocar o meu pai, um homem que não costuma enrubescer com o uso do baixo calão. Quando desligou, sem que o meu pai perguntasse nada, Dercy explicou o motivo de tanto mau humor: “Você acredita que me ligaram da televisão querendo me dar prêmio de revelação? Eu tenho 800 anos, existe coisa mais ridícula do que ganhar prêmio de revelação com essa idade? Mandei todo o mundo para a puta que pariu!” Nessa ocasião, nem eu deixei de reconhecer que a velhinha acertou na mosca



julho 14, 2008

O super-herói brasileiro

O Brasil tem enfim um super-herói de verdade. Protógenes Queiroz pode não ter nome de super-herói, mas tem a convicção dos puros e, para sua sorte, encara um supervilão à sua altura. De que adiantariam os superpoderes se não houvesse um vilão que encarnasse o mal como o encarna Daniel Dantas? É questão de tempo para que Protógenes tenha um séquito de seguidores, encantados com o sujeito que descobriu que Naji Nahas, aquele safadinho, consegue saber com antecedência o que o Federal Reserve vai fazer com os juros americanos.

Como todo super-herói, Protógenes sabe que participa da mais velha batalha da história do mundo, encenada milhares de vezes sobre a face da terra: a disputa entre o Bem e o Mal. Num dos trechos do relatório, ele escreve que Daniel Dantas “utiliza a sua inteligência para praticar o mal”. Eu sempre achei que Daniel Dantas agisse para fazer valer os seus próprios interesses, ao que tudo indica usando todos os meios para conseguir os seus objetivos, inclusive alguns altamente inescrupulosos, como tentativas de suborno. O que o relatório de Protógenes deixa claro é que Daniel Dantas é muito mais do que isso. Ele está a serviço do lado negro da força. É algo como um Darth Vader baiano. Ainda bem que nós temos um Luke Skywalker ativo e operante.

O sujeito é implacável. No relatório, ele diz que não vai permitir que façam lambanças com o fundo soberano brasileiro: ““Ante as ameaças de corsários saqueadores das riquezas do nosso país, deixo aqui registrado que o ‘amanuense’, que ora subscreve a presente peça, e por ‘cautela’ alerto aos incautos, seja de forma individual ou organizados criminosamente para tal finalidade, que estarei de prontidão comparado a um integrante da Brigada dos Tigres, fazendo um acompanhamento detalhado do futuro Fundo Soberano". Brigada dos Tigres é legal. Será que eles se reúnem na Sala de Justiça?

Eu não li a íntegra do relatório e não sou advogado. Esses episódios, porém, mostram que Protógenes se julga um portador da Verdade, que acredita ser um guardião do Bem. Quem tem essa mentalidade pode cometer abusos, como o pedido de prisão da jornalista Andréa Michael, da Folha. A tipificação de crimes financeiros complexos exige uma análise técnica e sem paixões. É perfeitamente possível que Protógenes tenha feito um relatório impecável desse ponto de vista, mas a sede em proclamar o Bem e condenar o Mal pode atrapalhar os trabalhos do super-herói brasileiro. Ter disposição e coragem para investigar um sujeito poderoso como Daniel Dantas é importante. Acreditar que os dois protagonizam uma guerra entre o Bem e o Mal, contudo, não é o comportamento mais adequado para um delegado da Polícia Federal.

Por fim, eu me permito dar um conselho a Protógenes: super-heróis devem cuidar da própria aparência e devem assear-se com freqüência diária. Em sua viagem aos intestinos do Brasil, Protógenes ficou cinco dias sem trocar de roupa, segundo reportagem de Bob Fernandes. Pela minha experiência com histórias em quadrinhos, combater um supervilão não é incompatível com a higiene pessoal



julho 13, 2008

Indagações aleatórias

DSCN0826b.JPG
Nada a ver com o post (nem com o Daniel Dantas)


Por que criança gosta de cheiro de gasolina?



julho 12, 2008

Um vilão, não o vilão

A prisão de Daniel Dantas pode fazer um bem danado ao país. Não, eu não falo de prisões temporárias ou preventivas, que duram algumas horas ou dias, mas de uma prisão por condenação pelos crimes dos quais ele é acusado. Tudo indica que o sujeito praticou uma série de crimes pesados – escrevo “tudo indica” porque ele ainda não foi condenado e não se conhecem os detalhes de todas as acusações –, que merecem punições duras.

Se for considerado culpado, será importante ver um sujeito do porte de Daniel Dantas na cadeia. E é claro que não importa se outros criminosos não estão presos. Isso não o absolve de crimes que ele tenha praticado. É um raciocínio de uma obviedade acaciana, mas os fãs de Lula, por exemplo, acham que não se aplica ao presidente. Todos os erros e crimes que ele e seus ministros cometem devem ser perdoados e relativizados, porque Fernando Henrique Cardoso, Fernando Collor, José Sarney ou Tomé de Souza também cometeram equívocos semelhantes em algum momento. É um argumento tão grotesco que não deveria ser usado por ninguém.

Colocar na cadeia um grande corruptor, que parece ter cometido uma série de falcatruas, é o primeiro e mais óbvio motivo por que seria muito positiva a prisão de Daniel Dantas. O outro motivo é que, com ele na cadeia, grande parte da esquerda poderá ver que o alcance das picaretagens do sujeito não é tão grande quanto se pensa. Mesmo quando os intestinos do país tiverem sido totalmente revolvidos, do duodeno ao reto, passando pelo jejuno e pelo cólon, o Brasil não estará livre da corrupção e do mal.

Se ficar provado que integrantes do governo Fernando Henrique ou do governo Lula o favoreceram ilegalmente, que sejam julgados e condenados. Tudo indica que o sujeito transgrediu a lei muitas vezes – a tentativa de suborno do delegado da Polícia Federal dá uma idéia dos métodos usados por ele. A estratégia de se aproximar de políticos de todos os partidos importantes para obter vantagens para os seus negócios também é mais do que suspeita.

Tudo isso deve ser apurado e julgado. Mas a transformação de Daniel Dantas num supervilão, cuja prisão fará raiar a liberdade no horizonte do Brasil, é de um maniqueísmo primário. Daniel Dantas talvez até seja o coisa ruim, mas não é a única fonte de problemas do país



julho 07, 2008

As commodities e os especuladores

Especulador3.gif

O enredo é perfeito para quem gosta de teorias conspiratórias. Inescrupulosos gestores de fundos de investimento especulam sem limites nos mercados futuros e jogam para cima os preços das commodities, fazendo indefesos cidadãos do Terceiro Mundo passarem fome. A história faz vibrar os fãs do maniqueísmo. Como desconfio de todas as teorias conspiratórias – eu sempre achei que Lee Harvey Oswald realmente matou John Kennedy -, não comprava a idéia. Quando eu vi os aumentos de preços que as mineradoras conseguiram obter neste ano para o minério de ferro, de até quase 100%, ficou claro para mim que a questão fundamental era o aumento da demanda. O minério de ferro não é negociado nos mercados futuros, e os preços são definidos em negociações diretas entre mineradoras e os seus clientes.

Publicado no Valor na sexta-feira, este artigo de Márcio Garcia, da PUC-Rio, traz este e vários outros argumentos que mostram como a tese da especulação está cheia de furos. Garcia, que sabe das coisas, faz uma análise técnica e desapaixonada do assunto. Se a culpa da alta de preços fosse realmente dos especuladores, os estoques de commodities teriam que aumentar, mas, na maior parte dos casos, estão em queda, como nota Paul Krugman neste texto. Para tristeza dos adeptos de teorias conspiratórias, tudo indica que não são os desalmados hedge funds os culpados pela disparada dos preços de commodities



julho 04, 2008

O que realmente interessa no caso Ingrid Betancourt

Ingrid Betancourt já falou de tudo sobre os seis anos de cativeiro, menos sobre o essencial. O que o povo quer saber mesmo é se ela ficou seis anos invicta. Ingrid Betancourt apelou à estratégia Clara Rojas ou passou todo o tempo fazendo justiça com as próprias mãos? E uma outra coisa: imagine seis anos sem depilação íntima? Aposto no efeito Cláudia Ohana (se você quiser a foto da Playboy que chocou a minha geração, clique aqui). Fosse eu editor de uma revista colombiana, investiria nessa pauta



julho 02, 2008

A inimiga do povo

Imprensa3.gif
Os culpados pela espiral inflacionária

A mídia faz um mal danado ao país, pelo que eu leio por aí. Em artigo publicado ontem no Valor, Yoshiaki Nakano diz que “o estardalhaço que a imprensa vem fazendo sobre a recente aceleração da inflação está alimentando as expectativas inflacionárias, e corremos o risco de caminharmos para um debate emocional, obscurecendo o seu entendimento e o seu controle”. Em seu blog, José Dirceu diz que “a percepção da inflação também aumentou não só pela realidade, nacional e internacional, mas também pelo contínuo e incessante bombardeio alarmista do próprio BC, amplificado pela mídia, particularmente pela Rede Globo”. Por fim, Guido Mantega diz que há “um certo alarmismo ‘nas análises sobre a inflação brasileira e que o noticiário pode gerar pânico e levar à corrida de donas-de-casa para fazer estoques de produtos”, segundo o Valor Online.

A inflação está em alta, como até os mais néscios podem perceber. Os alimentos dispararam e há uma aceleração clara dos preços de serviços. A escalada das commodities e a atividade econômica aquecida têm feito a inflação subir. A demanda doméstica cresceu 7,5% nos 12 meses encerrados em março.

Depois de três anos com os índices de preços bem comportados, a aceleração da inflação é obviamente uma notícia importante. A cesta básica, por exemplo, subiu até 52% em 12 meses, mostra a Folha de hoje. Se os números não estão errados, é claro que não é estardalhaço ou alarmismo. O IPCA ficou em 3,14% em 2006, 4,5% em 2007 e pode superar 6,5% neste ano. O IGP-M acumula alta de 13,44% em 12 meses.

Culpar a imprensa – o esporte favorito dos sem-imaginação e dos mal-intencionados – não vai derrubar a inflação. O que querem esses iluminados? Que os fortes aumentos da inflação não sejam noticiados, ou que sejam relegados ao pé de página dos jornais e revistas e mereçam apenas um registro nos telejornais? Não é o Jornal Nacional que joga mais lenha na fogueira da inflação.

Uma demanda aquecida demais e gastos públicos que ainda crescem muito – embora as despesas do governo federal aumentem a um ritmo menor neste ano – são um pano de fundo perfeito para intensificar a alta dos preços, num momento em que as commodities estão na estratosfera. Culpar a mídia por alimentar as expectativas de inflação é ignorância ou má fé



Autores

* Marcos Matamoros
* F. Arranhaponte


Links

* Alexandre Soares Silva
* Chá das Cinco
* Diacrônico
* Filthy McNasty
* FYI
* JP Coutinho
* Manobra, 1979
* Número 12
* puragoiaba
* Roma Dewey


Posts Anteriores

Os meus top 5
Ecos da abloguia
Alckmin já ganhou
Falando mal da velhinha boca suja
O super-herói brasileiro
Indagações aleatórias
Um vilão, não o vilão
As commodities e os especuladores
O que realmente interessa no caso Ingrid Betancourt
A inimiga do povo


Arquivos

agosto 2008
julho 2008
junho 2008
maio 2008
abril 2008
março 2008
fevereiro 2008
janeiro 2008
dezembro 2007
novembro 2007
outubro 2007
setembro 2007
agosto 2007
julho 2007
junho 2007
maio 2007
abril 2007
março 2007
fevereiro 2007
janeiro 2007
dezembro 2006
novembro 2006
outubro 2006
setembro 2006
agosto 2006
julho 2006
junho 2006
maio 2006
abril 2006
Abril 2006
Março 2006
Fevereiro 2006
Janeiro 2006
Dezembro 2005
Novembro 2005
Outubro 2005
Setembro 2005


Syndicate this site (XML)

Busca





Powered by