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O Brasil tem enfim um super-herói de verdade. Protógenes Queiroz pode não ter nome de super-herói, mas tem a convicção dos puros e, para sua sorte, encara um supervilão à sua altura. De que adiantariam os superpoderes se não houvesse um vilão que encarnasse o mal como o encarna Daniel Dantas? É questão de tempo para que Protógenes tenha um séquito de seguidores, encantados com o sujeito que descobriu que Naji Nahas, aquele safadinho, consegue saber com antecedência o que o Federal Reserve vai fazer com os juros americanos.
Como todo super-herói, Protógenes sabe que participa da mais velha batalha da história do mundo, encenada milhares de vezes sobre a face da terra: a disputa entre o Bem e o Mal. Num dos trechos do relatório, ele escreve que Daniel Dantas “utiliza a sua inteligência para praticar o mal”. Eu sempre achei que Daniel Dantas agisse para fazer valer os seus próprios interesses, ao que tudo indica usando todos os meios para conseguir os seus objetivos, inclusive alguns altamente inescrupulosos, como tentativas de suborno. O que o relatório de Protógenes deixa claro é que Daniel Dantas é muito mais do que isso. Ele está a serviço do lado negro da força. É algo como um Darth Vader baiano. Ainda bem que nós temos um Luke Skywalker ativo e operante.
O sujeito é implacável. No relatório, ele diz que não vai permitir que façam lambanças com o fundo soberano brasileiro: ““Ante as ameaças de corsários saqueadores das riquezas do nosso país, deixo aqui registrado que o ‘amanuense’, que ora subscreve a presente peça, e por ‘cautela’ alerto aos incautos, seja de forma individual ou organizados criminosamente para tal finalidade, que estarei de prontidão comparado a um integrante da Brigada dos Tigres, fazendo um acompanhamento detalhado do futuro Fundo Soberano". Brigada dos Tigres é legal. Será que eles se reúnem na Sala de Justiça?
Eu não li a íntegra do relatório e não sou advogado. Esses episódios, porém, mostram que Protógenes se julga um portador da Verdade, que acredita ser um guardião do Bem. Quem tem essa mentalidade pode cometer abusos, como o pedido de prisão da jornalista Andréa Michael, da Folha. A tipificação de crimes financeiros complexos exige uma análise técnica e sem paixões. É perfeitamente possível que Protógenes tenha feito um relatório impecável desse ponto de vista, mas a sede em proclamar o Bem e condenar o Mal pode atrapalhar os trabalhos do super-herói brasileiro. Ter disposição e coragem para investigar um sujeito poderoso como Daniel Dantas é importante. Acreditar que os dois protagonizam uma guerra entre o Bem e o Mal, contudo, não é o comportamento mais adequado para um delegado da Polícia Federal.
Por fim, eu me permito dar um conselho a Protógenes: super-heróis devem cuidar da própria aparência e devem assear-se com freqüência diária. Em sua viagem aos intestinos do Brasil, Protógenes ficou cinco dias sem trocar de roupa, segundo reportagem de Bob Fernandes. Pela minha experiência com histórias em quadrinhos, combater um supervilão não é incompatível com a higiene pessoal


