julho 03, 2009
O ciclo infernal do subdesenvolvimento
julho 02, 2009
Torre de marfim no Twitter
Os nossos milhões de fãs podem ficar tranquilos: nós também estamos no Twitter. Não sabemos direito como usar e nem se teremos o que dizer em 140 caracteres, mas resolvemos ver no que dá
Os nossos milhões de fãs podem ficar tranquilos: nós também estamos no Twitter. Não sabemos direito como usar e nem se teremos o que dizer em 140 caracteres, mas resolvemos ver no que dá
julho 01, 2009
No pussyfooting

Bem, se o Matamoros não entende de Honduras, imagine eu de balé e dança. Mas sempre me arrastam para isso e para aquilo de que não manjo lhufas, e me lembro de uma vez, muitas e muitas encarnações atrás, quando eu era bem jovencito, de ter sido levado para uma apresentação de balé no Rio da Pina Bausch, de quem nunca ouvira falar. Nem me lembro mais onde foi, certamente não no Municipal. Arriscaria que foi no final da década de 70 ou início da de 80, mais provavelmente nesta segunda. Dois momentos muito marcantes daquele dia. Eu já tinha visto, acho, uma coreografia famosa do Béjart para a Sagração da Primavera. E aí eu assisti daquela vez à Sagração da Pina Bausch. Não me recordo (vocês já devem ter enchido o saco de "não me lembro") se havia mais de um bailarino, mas o que ficou foi um longo momento solo da bailarina, uma alemã germanicamente gostosa, isto é, com uma ossatura larga, superfícies mais angulosas do que roliças, braços e pernas musculosos e robustos no limite de não comprometer o sex-appeal. Na coreografia, a Fraulein meio que surtava expressionistamente, bem vanguarda alemã, e de forma excitantemente sexual. No ápice do negócio, e ápice da música também, ela arrancou o vestidinho rosa claro curtíssimo (e que coxas!) grudado na pele e que parecia transparente (vocês logo saberão que não era) e que, é claro, contribuía muito para o erotismo da dança e, por baixo, restou nada mais nada menos do que um vestidinho de idêntico formato, e identicamente curto, só que vermelho sangue. Aí a mulher arrebatou de vez e no final do número ela acaba estatelada no chão, depois de frêmitos e contorsões - e me permitam ser repetitivo - verdadeiramente alemães e verdadeiramente expressionistas, de tal forma que ficamos, fiquei, na dúvida se a queda fazia parte da coreografia ou se, daquela vez, ela tinha extrapolado tanto que acabou toda arfante e avassalada no chão. Sensacional! Tesudíssimo!
O segundo momento talvez seja no tal Café Müller, considerada sua mais importante obra. Era um café, meio tipo no final de expediente, com um bando de cadeiras e algumas mesas espalhadas para tudo que é canto, talvez cadeiras apoiadas de cabeça para baixo em mesas, e os bailarinos dançavam afastando, ou literalmente atirando para o lado, as mesas e cadeiras à sua frente. Mas a lembrança é de um personagem, que eu acho que é dessa coreografia, mas não posso jurar, que anda o tempo todo de um lado para o outro, e é curvo (mas este detalhe, embora esteja o tempo todo lá, meio que não vem claramente ao pensamento consciente), e usa um sobretudo pesadíssimo, tipo inverno em Dresden. No finalzinho do ato, o cidadão, ou a cidadã, mais provalvemente ã, de repente tira o sobretudo e instantaneamente o caminhar curvo, derrubado, penoso sai de cena e ela dá corridinhas toda lépida e fagueira, e ereta, de um canto para o outro, como se o sobretudo carregasse séculos e séculos de opressão civilizatória, européia e sei lá mais o quê. Duca, duca!
Foste foda, Pina

Bem, se o Matamoros não entende de Honduras, imagine eu de balé e dança. Mas sempre me arrastam para isso e para aquilo de que não manjo lhufas, e me lembro de uma vez, muitas e muitas encarnações atrás, quando eu era bem jovencito, de ter sido levado para uma apresentação de balé no Rio da Pina Bausch, de quem nunca ouvira falar. Nem me lembro mais onde foi, certamente não no Municipal. Arriscaria que foi no final da década de 70 ou início da de 80, mais provavelmente nesta segunda. Dois momentos muito marcantes daquele dia. Eu já tinha visto, acho, uma coreografia famosa do Béjart para a Sagração da Primavera. E aí eu assisti daquela vez à Sagração da Pina Bausch. Não me recordo (vocês já devem ter enchido o saco de "não me lembro") se havia mais de um bailarino, mas o que ficou foi um longo momento solo da bailarina, uma alemã germanicamente gostosa, isto é, com uma ossatura larga, superfícies mais angulosas do que roliças, braços e pernas musculosos e robustos no limite de não comprometer o sex-appeal. Na coreografia, a Fraulein meio que surtava expressionistamente, bem vanguarda alemã, e de forma excitantemente sexual. No ápice do negócio, e ápice da música também, ela arrancou o vestidinho rosa claro curtíssimo (e que coxas!) grudado na pele e que parecia transparente (vocês logo saberão que não era) e que, é claro, contribuía muito para o erotismo da dança e, por baixo, restou nada mais nada menos do que um vestidinho de idêntico formato, e identicamente curto, só que vermelho sangue. Aí a mulher arrebatou de vez e no final do número ela acaba estatelada no chão, depois de frêmitos e contorsões - e me permitam ser repetitivo - verdadeiramente alemães e verdadeiramente expressionistas, de tal forma que ficamos, fiquei, na dúvida se a queda fazia parte da coreografia ou se, daquela vez, ela tinha extrapolado tanto que acabou toda arfante e avassalada no chão. Sensacional! Tesudíssimo!
O segundo momento talvez seja no tal Café Müller, considerada sua mais importante obra. Era um café, meio tipo no final de expediente, com um bando de cadeiras e algumas mesas espalhadas para tudo que é canto, talvez cadeiras apoiadas de cabeça para baixo em mesas, e os bailarinos dançavam afastando, ou literalmente atirando para o lado, as mesas e cadeiras à sua frente. Mas a lembrança é de um personagem, que eu acho que é dessa coreografia, mas não posso jurar, que anda o tempo todo de um lado para o outro, e é curvo (mas este detalhe, embora esteja o tempo todo lá, meio que não vem claramente ao pensamento consciente), e usa um sobretudo pesadíssimo, tipo inverno em Dresden. No finalzinho do ato, o cidadão, ou a cidadã, mais provalvemente ã, de repente tira o sobretudo e instantaneamente o caminhar curvo, derrubado, penoso sai de cena e ela dá corridinhas toda lépida e fagueira, e ereta, de um canto para o outro, como se o sobretudo carregasse séculos e séculos de opressão civilizatória, européia e sei lá mais o quê. Duca, duca!
Foste foda, Pina
junho 30, 2009
O golpe em Honduras e a democracia
Eu não conheço nada sobre Honduras. Sei apenas que a capital é Tegucigalpa e que o país se envolveu numa guerra ridícula com El Salvador, a Guerra do Futebol. Eu também nunca tinha ouvido falar em Manuel Zelaya, e não sabia que ele tinha se aproximado de Hugo Chávez. Não tenho informações para ser contra ou a favor de Zelaya, mas quem realmente preza a democracia não apoia um golpe de Estado. Se Zelaya infringiu as normas constitucionais, que seja afastado do cargo por meios democráticos.
Eu não conheço a Constituição e outras leis de Honduras, mas acredito que elas devem prever mecanismos pacíficos para o impedimento do presidente, sem que seja necessária a intervenção das Forças Armadas. Não estou dizendo que haja motivos para o impeachment, porque não conheço o que se passa em Honduras, como provavelmente a maior parte dos brasileiros.
Tudo o que eu disse acima é o mais pedestre bom senso em termos de democracia. Mas não para Reinaldo Azevedo. Ele escreveu este post no domingo, em que apoia o golpe, ainda que faça a ressalva de que “por enquanto as Forças Armadas garantem a Constituição democrática”. Quem é democrata de verdade não aplaude golpes de Estado. Se essa é a direita brasileira que se pretende inteligente e democrática, a esquerda brasileira pode comemorar. Ao apoiar um golpe militar na América Latina, o sujeito se adapta mais um pouco à caricatura que a esquerda costuma fazer da direita no Brasil. Fica parecido com o dr. Fantástico. Ele até que tenta reprimir as tendências autoritárias, mas não consegue lutar contra a própria natureza
Eu não conheço nada sobre Honduras. Sei apenas que a capital é Tegucigalpa e que o país se envolveu numa guerra ridícula com El Salvador, a Guerra do Futebol. Eu também nunca tinha ouvido falar em Manuel Zelaya, e não sabia que ele tinha se aproximado de Hugo Chávez. Não tenho informações para ser contra ou a favor de Zelaya, mas quem realmente preza a democracia não apoia um golpe de Estado. Se Zelaya infringiu as normas constitucionais, que seja afastado do cargo por meios democráticos.
Eu não conheço a Constituição e outras leis de Honduras, mas acredito que elas devem prever mecanismos pacíficos para o impedimento do presidente, sem que seja necessária a intervenção das Forças Armadas. Não estou dizendo que haja motivos para o impeachment, porque não conheço o que se passa em Honduras, como provavelmente a maior parte dos brasileiros.
Tudo o que eu disse acima é o mais pedestre bom senso em termos de democracia. Mas não para Reinaldo Azevedo. Ele escreveu este post no domingo, em que apoia o golpe, ainda que faça a ressalva de que “por enquanto as Forças Armadas garantem a Constituição democrática”. Quem é democrata de verdade não aplaude golpes de Estado. Se essa é a direita brasileira que se pretende inteligente e democrática, a esquerda brasileira pode comemorar. Ao apoiar um golpe militar na América Latina, o sujeito se adapta mais um pouco à caricatura que a esquerda costuma fazer da direita no Brasil. Fica parecido com o dr. Fantástico. Ele até que tenta reprimir as tendências autoritárias, mas não consegue lutar contra a própria natureza
Melô do Zelaya
Eu vou pra Tegucigalpa
Eu vou
Eu saí de pijama branco*
Eu saí
Eu vou de chapéu de cowboy
Eu vou
Eu vou convidar Cristina
Eu vou
Se Cristina não quiser ir
Eu vou só
Eu vou só
Eu vou só
Se Cristina não quiser ir
Eu vou só
Eu vou só
Eu vou só sem Cristina
Mas eu vou
*Sexta foto
Eu vou pra Tegucigalpa
Eu vou
Eu saí de pijama branco*
Eu saí
Eu vou de chapéu de cowboy
Eu vou
Eu vou convidar Cristina
Eu vou
Se Cristina não quiser ir
Eu vou só
Eu vou só
Eu vou só
Se Cristina não quiser ir
Eu vou só
Eu vou só
Eu vou só sem Cristina
Mas eu vou
*Sexta foto
junho 29, 2009
Futebol é coisa de macho?
Um americano escrevendo que nosso futebol nunca vai pegar lá me veio com essa:
I grew up in a place and at a time when if you said you enjoyed soccer, other guys would look at you as if you were caught wearing lace underwear. To be fair, most of the people from that farm milieu felt the same about people who played golf and drank scotch.
A íntegra está aqui
Um americano escrevendo que nosso futebol nunca vai pegar lá me veio com essa:
I grew up in a place and at a time when if you said you enjoyed soccer, other guys would look at you as if you were caught wearing lace underwear. To be fair, most of the people from that farm milieu felt the same about people who played golf and drank scotch.
A íntegra está aqui
junho 27, 2009
Reflexões maduras
São variações sobre mais ou menos o mesmo
Então, assim,
Os problemas do mundo não serão resolvidos pela minha raivinha
ou, mais ambicioso,
O curso do universo é indiferente à minha raivinha
o que me remete a
Estou cada vez mais inindignado
o que é diferente, espero que entendam, de
Estou cada vez menos indignado
e, por falar nisso,
A ininindignação pode ser um caminho para a iluminação
E a indignação, com boa vontade, nunca vai muito além da úlcera
e daí chegamos a
Estou cada vez mais anti-gincana - só curto o que é absolutamente fácil
ou, rocamboleando,
O mais tênue sinal de dificuldade já me soa como provocação de mau-gosto de baixas divindades
Para concluir, uma destas cenas+frases ligeiramente enigmáticas que carregamos na memória até o túmulo:
Um senhor nordestino num antigo trabalho meu, com pretensões a aristocrata freyriano, e um desenvolvido senso de humor naquele twilight entre o voluntário e o involuntário, comentou uma vez, cum sorriso gostosamente zombeteiro, o meu terno novo:
"Tsk, tsk. Não tem barra italiana. Não sabe curtir"
Mas tem uma nota de pé de post: desconfiem do discurso blasé. É sintoma de neurose preocupativa. O verdadeiro inindignado não perde tempo pensando besteira
São variações sobre mais ou menos o mesmo
Então, assim,
Os problemas do mundo não serão resolvidos pela minha raivinha
ou, mais ambicioso,
O curso do universo é indiferente à minha raivinha
o que me remete a
Estou cada vez mais inindignado
o que é diferente, espero que entendam, de
Estou cada vez menos indignado
e, por falar nisso,
A ininindignação pode ser um caminho para a iluminação
E a indignação, com boa vontade, nunca vai muito além da úlcera
e daí chegamos a
Estou cada vez mais anti-gincana - só curto o que é absolutamente fácil
ou, rocamboleando,
O mais tênue sinal de dificuldade já me soa como provocação de mau-gosto de baixas divindades
Para concluir, uma destas cenas+frases ligeiramente enigmáticas que carregamos na memória até o túmulo:
Um senhor nordestino num antigo trabalho meu, com pretensões a aristocrata freyriano, e um desenvolvido senso de humor naquele twilight entre o voluntário e o involuntário, comentou uma vez, cum sorriso gostosamente zombeteiro, o meu terno novo:
"Tsk, tsk. Não tem barra italiana. Não sabe curtir"
Mas tem uma nota de pé de post: desconfiem do discurso blasé. É sintoma de neurose preocupativa. O verdadeiro inindignado não perde tempo pensando besteira
junho 26, 2009
Homenagem a Michael Jackson

Don't stop til you get enough
Falar bem de Michael Jackson sem recorrer a clichês é provavelmente impossível. Preparem-se, porque neste post eu vou recorrer a vários. Os meus interesses musicais hoje são outros – basicamente jazz e bossa nova -, mas é inegável: Off the wall e Thriller são dois grandes discos, com alguns momentos verdadeiramente geniais. Depois deles, a música de Michael Jackson nunca mais foi a mesma, mas os dois LPs já bastam. Outra coisa: o clip de Thriller, por mais kitsch que pareça aos olhos de hoje, realmente mudou a história de como se faz o troço. (Eu falei que ia repetir os principais lugares comuns sobre o sujeito, não falei?). Ah, e eu também acho o moonwalk legal.
Mas a grande qualidade de Michael Jackson foi fazer duas das músicas mais dançantes da história. Você pode odiar Michael Jackson, mas, se não sente vontade de dançar quando começa a ouvir Don’t stop til you get enough e Billie Jean, é porque você está tecnicamente morto

Don't stop til you get enough
Falar bem de Michael Jackson sem recorrer a clichês é provavelmente impossível. Preparem-se, porque neste post eu vou recorrer a vários. Os meus interesses musicais hoje são outros – basicamente jazz e bossa nova -, mas é inegável: Off the wall e Thriller são dois grandes discos, com alguns momentos verdadeiramente geniais. Depois deles, a música de Michael Jackson nunca mais foi a mesma, mas os dois LPs já bastam. Outra coisa: o clip de Thriller, por mais kitsch que pareça aos olhos de hoje, realmente mudou a história de como se faz o troço. (Eu falei que ia repetir os principais lugares comuns sobre o sujeito, não falei?). Ah, e eu também acho o moonwalk legal.
Mas a grande qualidade de Michael Jackson foi fazer duas das músicas mais dançantes da história. Você pode odiar Michael Jackson, mas, se não sente vontade de dançar quando começa a ouvir Don’t stop til you get enough e Billie Jean, é porque você está tecnicamente morto
junho 25, 2009
Sarney adere à luta contra o PIG
De uma agência de notícias on-line:
14:33 SARNEY, EM NOTA: HÁ UMA CAMPANHA MIDIÁTICA PARA ATINGIR-ME
Brasília, 25 - O presidente do Senado, José Sarney, afirmou em nota que a matéria de hoje do jornal O Estado de S.Paulo, é uma campanha da mídia contra ele. Na nota Sarney atribui como um dos motivos dessa campanha o fato de ele apoiar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Sarney não explica as ações de José Adriano Cordeiro Sarney para intermediar a concessão de empréstimos a funcionários do Senado e diz apenas que considera que os esclarecimentos prestados pelo neto, em nota já divulgada, são suficientes.
Esta é a íntegra da nota:
"Sobre a matéria divulgada hoje pelo jornal O Estado de S.Paulo, considero os esclarecimentos prestados pelo meu neto, José Adriano Cordeiro Sarney, pessoa extremamente qualificada, com mestrado na Sorbonne, e pós graduação em Harvard, suficientes para mostrar a verdadeira face de uma campanha midiática para atingir-me, na qual não excluo a minha posição política, nunca ocultada, de apoio ao presidente Lula e seu governo"(Denise Madueño).
Comentário arranhapôntico: o apoio do nobre senador é uma ajuda inestimável aos esforços para acelerar a putrefação da grande mídia. Agora só falta a adesão da extrema-esquerda
De uma agência de notícias on-line:
14:33 SARNEY, EM NOTA: HÁ UMA CAMPANHA MIDIÁTICA PARA ATINGIR-ME
Brasília, 25 - O presidente do Senado, José Sarney, afirmou em nota que a matéria de hoje do jornal O Estado de S.Paulo, é uma campanha da mídia contra ele. Na nota Sarney atribui como um dos motivos dessa campanha o fato de ele apoiar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Sarney não explica as ações de José Adriano Cordeiro Sarney para intermediar a concessão de empréstimos a funcionários do Senado e diz apenas que considera que os esclarecimentos prestados pelo neto, em nota já divulgada, são suficientes.
Esta é a íntegra da nota:
"Sobre a matéria divulgada hoje pelo jornal O Estado de S.Paulo, considero os esclarecimentos prestados pelo meu neto, José Adriano Cordeiro Sarney, pessoa extremamente qualificada, com mestrado na Sorbonne, e pós graduação em Harvard, suficientes para mostrar a verdadeira face de uma campanha midiática para atingir-me, na qual não excluo a minha posição política, nunca ocultada, de apoio ao presidente Lula e seu governo"(Denise Madueño).
Comentário arranhapôntico: o apoio do nobre senador é uma ajuda inestimável aos esforços para acelerar a putrefação da grande mídia. Agora só falta a adesão da extrema-esquerda
Um projeto acadêmico em busca de um autor

Um personagem injustiçado
O sequestro do preto velho no cinema nacional – história de uma ausência
Figura arquetípica da nação, o preto velho é uma não presença no cinema brasileiro. De Limite a Tropa de elite, a ausência do símbolo da sabedoria afrodescendente no país escancara o preconceito racial no Brasil. Nem Glauber Rocha teve coragem de incluí-lo em seus filmes. Este projeto busca investigar as causas da exclusão do mítico personagem do cinema nacional. Quem há de discordar que Noite Vazia ganharia em densidade se Walter Hugo Khouri tivesse colocado pelo menos um preto velho na trama?

Um personagem injustiçado
O sequestro do preto velho no cinema nacional – história de uma ausência
Figura arquetípica da nação, o preto velho é uma não presença no cinema brasileiro. De Limite a Tropa de elite, a ausência do símbolo da sabedoria afrodescendente no país escancara o preconceito racial no Brasil. Nem Glauber Rocha teve coragem de incluí-lo em seus filmes. Este projeto busca investigar as causas da exclusão do mítico personagem do cinema nacional. Quem há de discordar que Noite Vazia ganharia em densidade se Walter Hugo Khouri tivesse colocado pelo menos um preto velho na trama?
junho 23, 2009
Mas como eles se divertem!

Se isto não dá grupo de comediantes, meu nome não é Arranhaponte. Pensei em Trio da Fuzarca. Não é grandes nomes não (e né nada original), mas também eu não estou inspirado hoje

Se isto não dá grupo de comediantes, meu nome não é Arranhaponte. Pensei em Trio da Fuzarca. Não é grandes nomes não (e né nada original), mas também eu não estou inspirado hoje
junho 22, 2009
Lost in translation

Torcida do Flamengo protesta contra a venda de Obina
Parte da esquerda blogueira brasileira deve estar feliz com que se passa no Irã. Lá, o PIG não tem vez. A imprensa está impedida de noticiar o que se passa. Há jornalista que foi deportado. Há jornalista que foi preso. Nesse cenário, o Twitter tem sido o principal meio de divulgação da briga entre flamenguistas e vascaínos.
Mas há um detalhe que talvez deixe contrariado o pessoal da esquerda blogueira: quem usa o Twitter no Irã em geral é contra o governo democrático dos companheiros Ali Khamenei e Mahmud Ahmadinejad. Se fosse por aqui, é provável que a história fosse outra. Com o PIG calado, grande parte dos blogueiros e twitteiros passaria a fazer reportagens investigativas a favor do governo. Imagino a cobertura sobre a Petrobras, mostrando como a empresa ajuda a economia, a política e a cultura do país. Aliás, a Petrobras, que patrocina o Flamengo e todos os filmes feitos no Brasil, poderia começar a apoiar blogueiros que quase choram de emoção ao escrever sobre a estatal.
Mas, voltando ao Irã, é bem possível que tudo não passe de um engano. Afinal, nenhuma língua é mais intraduzível e dada a confusões do que o persa. Talvez Ali Khamenei não tenha ameaçado reprimir os manifestantes. Talvez as imagens que foram veiculadas no Ocidente como manifestações e confrontos mostrem na verdade apenas o rescaldo de brigas entre flamenguistas e vascaínos. Tudo pode não passar de erros de tradução, como certamente foi a condenação à morte de Salman Rushdie pelo aiatolá Khomeini, esse símbolo da tolerância do Islã

Torcida do Flamengo protesta contra a venda de Obina
Parte da esquerda blogueira brasileira deve estar feliz com que se passa no Irã. Lá, o PIG não tem vez. A imprensa está impedida de noticiar o que se passa. Há jornalista que foi deportado. Há jornalista que foi preso. Nesse cenário, o Twitter tem sido o principal meio de divulgação da briga entre flamenguistas e vascaínos.
Mas há um detalhe que talvez deixe contrariado o pessoal da esquerda blogueira: quem usa o Twitter no Irã em geral é contra o governo democrático dos companheiros Ali Khamenei e Mahmud Ahmadinejad. Se fosse por aqui, é provável que a história fosse outra. Com o PIG calado, grande parte dos blogueiros e twitteiros passaria a fazer reportagens investigativas a favor do governo. Imagino a cobertura sobre a Petrobras, mostrando como a empresa ajuda a economia, a política e a cultura do país. Aliás, a Petrobras, que patrocina o Flamengo e todos os filmes feitos no Brasil, poderia começar a apoiar blogueiros que quase choram de emoção ao escrever sobre a estatal.
Mas, voltando ao Irã, é bem possível que tudo não passe de um engano. Afinal, nenhuma língua é mais intraduzível e dada a confusões do que o persa. Talvez Ali Khamenei não tenha ameaçado reprimir os manifestantes. Talvez as imagens que foram veiculadas no Ocidente como manifestações e confrontos mostrem na verdade apenas o rescaldo de brigas entre flamenguistas e vascaínos. Tudo pode não passar de erros de tradução, como certamente foi a condenação à morte de Salman Rushdie pelo aiatolá Khomeini, esse símbolo da tolerância do Islã
Pra quê?

Essa aí é supostamente* a carinha** da Neda, que foi filmada morrendo assassinada nos conflitos em Teerã. Meu comentário sobre a situação no Irã: é linda a moça.
Tirei deste link aqui
* Incluí esse "supostamente" porque, como vocês sabem, sem que as organizações criminosas da Grande Mídia possam trabalhar direito no Irã, nós temos apenas os hiper-confiáveis blogs como fonte de informação
** A minha namorada habitualmente protesta contra o uso de "cara" para "rosto", e afirma que quem tem cara é cachorro. Mas mantenho o cara, ou carinha, por uma questão de autenticidade

Essa aí é supostamente* a carinha** da Neda, que foi filmada morrendo assassinada nos conflitos em Teerã. Meu comentário sobre a situação no Irã: é linda a moça.
Tirei deste link aqui
* Incluí esse "supostamente" porque, como vocês sabem, sem que as organizações criminosas da Grande Mídia possam trabalhar direito no Irã, nós temos apenas os hiper-confiáveis blogs como fonte de informação
** A minha namorada habitualmente protesta contra o uso de "cara" para "rosto", e afirma que quem tem cara é cachorro. Mas mantenho o cara, ou carinha, por uma questão de autenticidade
junho 17, 2009
Em defesa de um honrado senador

"Não dou o peixe, ensino a pescar"
Já deixei claro num comentário num post abaixo: sou a favor do Sarney. Devo, é claro, uma explicação aos meus leitores, e ela é relativamente simples. Parto de uma descoberta econômica espetacular que, espero, ainda valer-me-á o Nobel: o Maranhão não tem PIB. Sim, é isso mesmo. Há, é verdade, alguma agricultura de subsistência, e registra-se o serviço de garotas de programa na parte velha de São Luiz. No meu paper sobre o assunto (assim que finalizar a parte matemática eu linko), eu demonstro que estas aparentes manifestações de agregação de valor são ilusórias. O argumento, porém, é complexo, e não vou desenvolvê-lo aqui. Peço que me concedam provisioriamente a licença de desenvolver a defesa do Sarney com base na premissa de que o Maranhão não tem PIB (vá lá, não é preciso muito esforço para concordar com esse ponto). Numa situação deste tipo, a única forma de os padrões maranhenses de vida se elevarem consistentemente é o desenvolvimento do rent-seeking (seeking no resto da União, é claro). É fundamental, portanto, que o rent-seeking se dê num ambiente competitivo. Assim, se o Sarney sugasse menos os cofres públicos, ou se distribuísse o butim para além do seu clã, ele de certa forma estaria minando o espírito de competitividade no rent-seeking dos demais maranhenses. É aquela velha história liberal de que o egoísmo é fundamental para o desenvolvimento humano. À medida que todos competem para obter o melhor para si, as riquezas são criadas mais velozmente e o conjunto se beneficia. A diferença é que no Maranhão, por não haver PIB, não há sentido em competir para criar valor. O único caminho é competir para sugar valor
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"Não dou o peixe, ensino a pescar"
Já deixei claro num comentário num post abaixo: sou a favor do Sarney. Devo, é claro, uma explicação aos meus leitores, e ela é relativamente simples. Parto de uma descoberta econômica espetacular que, espero, ainda valer-me-á o Nobel: o Maranhão não tem PIB. Sim, é isso mesmo. Há, é verdade, alguma agricultura de subsistência, e registra-se o serviço de garotas de programa na parte velha de São Luiz. No meu paper sobre o assunto (assim que finalizar a parte matemática eu linko), eu demonstro que estas aparentes manifestações de agregação de valor são ilusórias. O argumento, porém, é complexo, e não vou desenvolvê-lo aqui. Peço que me concedam provisioriamente a licença de desenvolver a defesa do Sarney com base na premissa de que o Maranhão não tem PIB (vá lá, não é preciso muito esforço para concordar com esse ponto). Numa situação deste tipo, a única forma de os padrões maranhenses de vida se elevarem consistentemente é o desenvolvimento do rent-seeking (seeking no resto da União, é claro). É fundamental, portanto, que o rent-seeking se dê num ambiente competitivo. Assim, se o Sarney sugasse menos os cofres públicos, ou se distribuísse o butim para além do seu clã, ele de certa forma estaria minando o espírito de competitividade no rent-seeking dos demais maranhenses. É aquela velha história liberal de que o egoísmo é fundamental para o desenvolvimento humano. À medida que todos competem para obter o melhor para si, as riquezas são criadas mais velozmente e o conjunto se beneficia. A diferença é que no Maranhão, por não haver PIB, não há sentido em competir para criar valor. O único caminho é competir para sugar valor
junho 16, 2009
Ô paisinho chato, sô
Olha, o meu palpite educado pela minha absoluta falta de saco para ler qualquer coisa sobre o Irã é de que o Ahmadinejad ganhou. No mundo emergente todo, candidatos que tocam pandeiro (é a minha tradução livre para o verbo inglês "to pander") para as massas ignaras e apostam num nacionalismo brucutu têm levado a melhor sobre os janotinhas pseudo-cosmopolitas que agradam à classe média com bom gosto e bons modos. Vejam o Zuma na África do Sul, para ficar só num exemplo. Mas, como eu disse, é um palpite de quem não sabe absolutamente nada sobre o Irã, então pelamordalá critiquem-me ou calem-se para frente. E quem quiser apoiar minha tese que traga os dados e os argumentos que me faltam. Mas o que eu queria mesmo dizer é que o Irã me irrita, essa titiquinha de país que não é nada além de petróleo com toda essa atenção mundial só porque diz que diz que não diz que pode fazer a bomba. Eu, como brasileiro, potência emergente, sequioso de atenção e paparicos, convoco o resto do mundo a cagar e andar para o resultado das eleições iranianas - eles que são arianos que se entendam
Olha, o meu palpite educado pela minha absoluta falta de saco para ler qualquer coisa sobre o Irã é de que o Ahmadinejad ganhou. No mundo emergente todo, candidatos que tocam pandeiro (é a minha tradução livre para o verbo inglês "to pander") para as massas ignaras e apostam num nacionalismo brucutu têm levado a melhor sobre os janotinhas pseudo-cosmopolitas que agradam à classe média com bom gosto e bons modos. Vejam o Zuma na África do Sul, para ficar só num exemplo. Mas, como eu disse, é um palpite de quem não sabe absolutamente nada sobre o Irã, então pelamordalá critiquem-me ou calem-se para frente. E quem quiser apoiar minha tese que traga os dados e os argumentos que me faltam. Mas o que eu queria mesmo dizer é que o Irã me irrita, essa titiquinha de país que não é nada além de petróleo com toda essa atenção mundial só porque diz que diz que não diz que pode fazer a bomba. Eu, como brasileiro, potência emergente, sequioso de atenção e paparicos, convoco o resto do mundo a cagar e andar para o resultado das eleições iranianas - eles que são arianos que se entendam
junho 14, 2009
Perguntar não ofende
Gilberto Kassab esteve na Parada Gay. Uma dúvida: ele foi na pessoa física ou na jurídica?
Gilberto Kassab esteve na Parada Gay. Uma dúvida: ele foi na pessoa física ou na jurídica?
junho 13, 2009
A hora e a vez do Capitalismo de Estado
A grande crise econômica iniciada em 2008 provou que o capitalismo é tão bom que o pessoal entra em euforia e às vezes exagera. Não é difícil de prever: se a tchurma está enchendo a lata até transbordar, numa esbórnia que não quer saber de amanhã, em algum momento posterior um bando de zumbis estará na cama no quarto escuro, com compressas de água gelada na cabeça, pedindo pra mamã trazer a canjinha. Se alguém concluir daí que está provado que festa não é bom, favor internar. Curada a ressaca, o ser humano imediatamente começa a organizar o próximo baile - assim foi desde que o homem é homem, e assim será, ainda bem, até o dia em que ainda houver alguma graça em encarnar como homo sapiens.
Áliás, o carnaval econômico da década 00, que começou nos 90 e com boa vontade nos 80, pode desde já ser considerado o maior ato em prol do bem da humanidade desde que o primeiro troglodita precocemente iluminista impediu algum esmagamento de crânio por puro sentimento de piedade. China e Índia arrumaram emprego como fornecedores do bacanal consumista do Ocidente e, graças a isso, engrenaram firmes nos trilhos do desenvolvimento econômico em um ritmo ponderado pelo tamanho das populações que nunca se viu, nem de longe, nem de longíssimo, na história da humanidade. Bilhões saíram da – e me perdoem o clichê – abjeta pobreza em três décadas. O especulador financeiro globalizado, o grande lubrificador dessa suruba, é, portanto, o profissional que mais fez em prol do Bem ao longo da história da humanidade. Monumentos ao Especulador Desconhecido deveriam ser erigidos em praças públicas e centros cívicos nos quatro cantos do globo.
Mas se a grande crise de 2008/2009 em nadíssima arranha as credenciais do capitalismo como sistema vitorioso e triunfante, outros grandes fatos da história recente – esses sim – colocam em xeque o tipo de capitalismo apregoado por Mrs. Thatcher e Mr. Reagan. O sucesso estrondoso da China e dos países orientais são uma prova de que o capitalismo liberal não é necessariamente o bambambam que por algum tempo nós, neoliberais reacionários, achamos que fosse.
Em alguns aspectos – inimitáveis, porque desumanos para os nossos padrões – a China é hiper-liberal, como Milton Friedman nenhum jamais sonharia possível: mercado de trabalho selvagemente (sic) desregulado, ensino público pago, previdência minimalista, etc. O problema, porém, como já mencionei, é que nada disso é replicável em plagas ocidentais. Por outro lado, quase todos os tigres asiáticos utilizaram amplas doses de intervencionismo, numa relação incestuosa entre Estado e empresa que horroriza os liberais. Estes sempre tentaram mostrar que o sucesso asiático aconteceu apesar, e não por causa, do intervencionismo. Mas nunca me convenceram muito. Eu concordo quando eles dizem que o restante da agenda asiática – austeridade fiscal, solidez macroeconômica, educação exemplar – foi fundamental. Mas costumo achar que as pessoas bem sucedidas são pragmáticas e não idiotas. Não consegue entrar de forma convincente na minha cabeça que os asiáticos teriam gasto tanto tempo, energia e dinheiro em intervencionismo se não tivessem percebido que este ingrediente também fazia parte da poção mágica de desenvolvimento.
Talvez – um talvez prenhe de talvezismo – seja nessa direção que nós tentaremos ir aqui no Brasil, agora que o PSDB e sua agenda sócio-e-levemente-liberal parece ter implodido de vez, e o PT caminha assanhado em direção à tão almejada hegemonia, já meio que possível de divisar no horizonte poluído do destino histórico.
Estatais crescentemente poderosas, um punhado de megaempresas privadas controladas por fundos de pensão estatais e vitaminadas por crédito público subsiado de um BNDES cada vez maior, um partido hegemônico que se infiltra em todos os interstícios de convergência entre o poder econômico e o político (daqui a pouco, quem sabe, se você quiser subir numa estatal ou numa grande empresa controlada pela Previ, será útil se filiar ao PT; um pouco como deve rolar na China com o PC) - tudo isso me cheira a um novo modelo que vai sendo construído de uma forma semi-consciente e meio desajeitadona, bem brasileira. O novo modelo não vai, de jeito nenhum, destruir a rede empresarial puramente puramente privada, mas talvez a subordine a uma lógica diferente do capitalismo liberal, no qual tudo é mais horizontal, atomizado e há uma separação mais nítida (mas nunca totalmente) entre a esfera econômica e a política.
Há sérios problemas para o Brasil ser bem sucedido numa reedição do capitalismo de Estado. Um é que nós não temos estômago para o hiper-liberalismo laboral e previdenciário chinês, por exemplo. Outro é que, muito pelo contrário, nós transformamos nosso Estado numa imensa máquina redistributivista, que contribui muito pouco (para padrões asiáticos) para o esforço de poupança e investimento necessário para crescer em ritmo de tigre. Uma vez eu ouvi o economista Samuel Pessôa resumir de uma forma muito interessante a fórmula asiática de crescimento econômico turbinado: “Eles poupam muito, investem muito, estudam muito e trabalham muito”.
Um Estado como o brasileiro, que se esforça para inverter a máxima roseana de que “viver é muito perigoso”, trocando-a por “viva que o governo garante”, não me parece muito sintonizado com o ethos asiático de trabalhar como um chinês para que o neto viva como um coreano e quiçá o bisneto como um japonês há 30 anos.
De qualquer forma, dar nó em pingo d’água é o ofício dos estadistas. Se e quando o PT ou a esquerda num sentido mais amplo chegarem ao objetivo de ter tudo dominado no Brasil, o grande desafio será criar um novo capitalismo de Estado à brasileira que não atole e nos faça ingressar na trilha de crescimento acelerado dos asiáticos. Nós brasileiros sempre nos achamos vocacionados para realizar a tão acalentada fusão entre a cigarra e a formiga. Talvez a hora da verdade desse sonho esteja chegando
A grande crise econômica iniciada em 2008 provou que o capitalismo é tão bom que o pessoal entra em euforia e às vezes exagera. Não é difícil de prever: se a tchurma está enchendo a lata até transbordar, numa esbórnia que não quer saber de amanhã, em algum momento posterior um bando de zumbis estará na cama no quarto escuro, com compressas de água gelada na cabeça, pedindo pra mamã trazer a canjinha. Se alguém concluir daí que está provado que festa não é bom, favor internar. Curada a ressaca, o ser humano imediatamente começa a organizar o próximo baile - assim foi desde que o homem é homem, e assim será, ainda bem, até o dia em que ainda houver alguma graça em encarnar como homo sapiens.
Áliás, o carnaval econômico da década 00, que começou nos 90 e com boa vontade nos 80, pode desde já ser considerado o maior ato em prol do bem da humanidade desde que o primeiro troglodita precocemente iluminista impediu algum esmagamento de crânio por puro sentimento de piedade. China e Índia arrumaram emprego como fornecedores do bacanal consumista do Ocidente e, graças a isso, engrenaram firmes nos trilhos do desenvolvimento econômico em um ritmo ponderado pelo tamanho das populações que nunca se viu, nem de longe, nem de longíssimo, na história da humanidade. Bilhões saíram da – e me perdoem o clichê – abjeta pobreza em três décadas. O especulador financeiro globalizado, o grande lubrificador dessa suruba, é, portanto, o profissional que mais fez em prol do Bem ao longo da história da humanidade. Monumentos ao Especulador Desconhecido deveriam ser erigidos em praças públicas e centros cívicos nos quatro cantos do globo.
Mas se a grande crise de 2008/2009 em nadíssima arranha as credenciais do capitalismo como sistema vitorioso e triunfante, outros grandes fatos da história recente – esses sim – colocam em xeque o tipo de capitalismo apregoado por Mrs. Thatcher e Mr. Reagan. O sucesso estrondoso da China e dos países orientais são uma prova de que o capitalismo liberal não é necessariamente o bambambam que por algum tempo nós, neoliberais reacionários, achamos que fosse.
Em alguns aspectos – inimitáveis, porque desumanos para os nossos padrões – a China é hiper-liberal, como Milton Friedman nenhum jamais sonharia possível: mercado de trabalho selvagemente (sic) desregulado, ensino público pago, previdência minimalista, etc. O problema, porém, como já mencionei, é que nada disso é replicável em plagas ocidentais. Por outro lado, quase todos os tigres asiáticos utilizaram amplas doses de intervencionismo, numa relação incestuosa entre Estado e empresa que horroriza os liberais. Estes sempre tentaram mostrar que o sucesso asiático aconteceu apesar, e não por causa, do intervencionismo. Mas nunca me convenceram muito. Eu concordo quando eles dizem que o restante da agenda asiática – austeridade fiscal, solidez macroeconômica, educação exemplar – foi fundamental. Mas costumo achar que as pessoas bem sucedidas são pragmáticas e não idiotas. Não consegue entrar de forma convincente na minha cabeça que os asiáticos teriam gasto tanto tempo, energia e dinheiro em intervencionismo se não tivessem percebido que este ingrediente também fazia parte da poção mágica de desenvolvimento.
Talvez – um talvez prenhe de talvezismo – seja nessa direção que nós tentaremos ir aqui no Brasil, agora que o PSDB e sua agenda sócio-e-levemente-liberal parece ter implodido de vez, e o PT caminha assanhado em direção à tão almejada hegemonia, já meio que possível de divisar no horizonte poluído do destino histórico.
Estatais crescentemente poderosas, um punhado de megaempresas privadas controladas por fundos de pensão estatais e vitaminadas por crédito público subsiado de um BNDES cada vez maior, um partido hegemônico que se infiltra em todos os interstícios de convergência entre o poder econômico e o político (daqui a pouco, quem sabe, se você quiser subir numa estatal ou numa grande empresa controlada pela Previ, será útil se filiar ao PT; um pouco como deve rolar na China com o PC) - tudo isso me cheira a um novo modelo que vai sendo construído de uma forma semi-consciente e meio desajeitadona, bem brasileira. O novo modelo não vai, de jeito nenhum, destruir a rede empresarial puramente puramente privada, mas talvez a subordine a uma lógica diferente do capitalismo liberal, no qual tudo é mais horizontal, atomizado e há uma separação mais nítida (mas nunca totalmente) entre a esfera econômica e a política.
Há sérios problemas para o Brasil ser bem sucedido numa reedição do capitalismo de Estado. Um é que nós não temos estômago para o hiper-liberalismo laboral e previdenciário chinês, por exemplo. Outro é que, muito pelo contrário, nós transformamos nosso Estado numa imensa máquina redistributivista, que contribui muito pouco (para padrões asiáticos) para o esforço de poupança e investimento necessário para crescer em ritmo de tigre. Uma vez eu ouvi o economista Samuel Pessôa resumir de uma forma muito interessante a fórmula asiática de crescimento econômico turbinado: “Eles poupam muito, investem muito, estudam muito e trabalham muito”.
Um Estado como o brasileiro, que se esforça para inverter a máxima roseana de que “viver é muito perigoso”, trocando-a por “viva que o governo garante”, não me parece muito sintonizado com o ethos asiático de trabalhar como um chinês para que o neto viva como um coreano e quiçá o bisneto como um japonês há 30 anos.
De qualquer forma, dar nó em pingo d’água é o ofício dos estadistas. Se e quando o PT ou a esquerda num sentido mais amplo chegarem ao objetivo de ter tudo dominado no Brasil, o grande desafio será criar um novo capitalismo de Estado à brasileira que não atole e nos faça ingressar na trilha de crescimento acelerado dos asiáticos. Nós brasileiros sempre nos achamos vocacionados para realizar a tão acalentada fusão entre a cigarra e a formiga. Talvez a hora da verdade desse sonho esteja chegando
junho 10, 2009
A história secreta do Bolsa-Família
O Bolsa-Família vem sendo reivindicado pela esquerda como um dos maiores golaços do governo Lula, e de fato foi, como tantas vezes escrevi aqui. Será uma das principais peças de campanha contra os tucanos, sem dúvida, já que estes, mesmo tendo criado, quando no poder, os programas que viriam a ser unificados no BF, burramente entraram na onda azevedo-kamelo-mainardiana de atacá-lo durante o governo Lula. Agora é gramar: o partido que quer privatizar a Petrobrás e acabar com o Bolsa-Família.
A grande ironia do Bolsa-Família, porém, é que é um programa queridinho do Consenso de Washington, aplicado por bons alunos neoliberais como Chile e México, e detestado por uma boa parcela (mas não a totalidade) do pensamento social de esquerda, não apenas antes do PT chegar ao governo, mas até durante o início da era Lula. Celebremente, a Maria da Conceição Tavares chamou o Marcos Lisboa (ex-secretário de Política Econômica do Palocci, ex-presidente do IRB e atualmente diretor executivo do Itaú-Unibanco), um defensor da ideia dos programas de transferência condicional de renda (O BF é isto), e um dos caras mais inteligentes que eu já conheci, de "burro", porque ela contrapunha o focalismo detestável do BF às políticas sociais universalistas.
Um dia em que tiver saco, escrevo a história secreta do BF. Precisaria de umas longas conversas com alguns personagens chave. Bem, é chato demais. Provavelmente, jamais terei saco. Então fico no resumo mesmo: depois do desastre inicial do Fome Zero e do ministério da Benedita, um ou dois técnicos muito próximos em pensamento à tecnocracia tucana e neoliberal, mas que também transitavam bem no PT, conseguiram colocar de pé o Bolsa-Família, enfrentando pressões contrárias de alguns famosos intelectuais petistas da área social. A genialidade do Lula consistiu justamente em apoiar o lado que rasgou o programa social da campanha (que era basicamente o Fome Zero).
Bem, só para ilustrar um pouquinho como a esquerda tradicional era hostil e, na melhor das hipóteses, indiferente ao Bolsa-Família, mesmo quando este já estava em pleno andamento, vou postar aqui uma reportagem do Estadão (que me foi enviada por uma daquelas pessoas chave) cobrindo a 28ª Anpocs, a tradicional reunião anual em Caxambu da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais. São sociólogos, antropólogos e cientistas políticos, e eu nem preciso dizer que é uma crowd esmagadoramente de esquerda e que votou/vota maciçamente no PT, com a exceção daqueles que criticam o Lula pela esquerda, como o Francisco de Oliveira, e preferem o P-Sol. Deve haver, reconheço, um típico participante da Anpocs tucano para cada 100, 150 petistas ou ainda mais à esquerda. Pois vejam bem o que diz esta matéria da organização criminosa dos Mesquita sobre a visão dos participantes da Anpocs sobre o BF na já adiantada data de outubro de 2004 (o BF foi lançado em meados de 2003):
31/10/2004
Transferência de renda fora do debate
CAXAMBU (MG)
Os programas de transferência de renda ainda não entraram no radar dos cientistas sociais brasileiros, a julgar pela programação do 28.ª Reunião Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), encerrada na sexta-feira. Nas dezenas de mesas redondas, seminários e trabalhos apresentados, pouco se tratou de programas como o Bolsa -Família, que já atinge 20 milhões de brasileiros pobres e miseráveis, e consome cerca de R$ 5 bilhões do Orçamento federal.
O Bolsa-Família vem sendo reivindicado pela esquerda como um dos maiores golaços do governo Lula, e de fato foi, como tantas vezes escrevi aqui. Será uma das principais peças de campanha contra os tucanos, sem dúvida, já que estes, mesmo tendo criado, quando no poder, os programas que viriam a ser unificados no BF, burramente entraram na onda azevedo-kamelo-mainardiana de atacá-lo durante o governo Lula. Agora é gramar: o partido que quer privatizar a Petrobrás e acabar com o Bolsa-Família.
A grande ironia do Bolsa-Família, porém, é que é um programa queridinho do Consenso de Washington, aplicado por bons alunos neoliberais como Chile e México, e detestado por uma boa parcela (mas não a totalidade) do pensamento social de esquerda, não apenas antes do PT chegar ao governo, mas até durante o início da era Lula. Celebremente, a Maria da Conceição Tavares chamou o Marcos Lisboa (ex-secretário de Política Econômica do Palocci, ex-presidente do IRB e atualmente diretor executivo do Itaú-Unibanco), um defensor da ideia dos programas de transferência condicional de renda (O BF é isto), e um dos caras mais inteligentes que eu já conheci, de "burro", porque ela contrapunha o focalismo detestável do BF às políticas sociais universalistas.
Um dia em que tiver saco, escrevo a história secreta do BF. Precisaria de umas longas conversas com alguns personagens chave. Bem, é chato demais. Provavelmente, jamais terei saco. Então fico no resumo mesmo: depois do desastre inicial do Fome Zero e do ministério da Benedita, um ou dois técnicos muito próximos em pensamento à tecnocracia tucana e neoliberal, mas que também transitavam bem no PT, conseguiram colocar de pé o Bolsa-Família, enfrentando pressões contrárias de alguns famosos intelectuais petistas da área social. A genialidade do Lula consistiu justamente em apoiar o lado que rasgou o programa social da campanha (que era basicamente o Fome Zero).
Bem, só para ilustrar um pouquinho como a esquerda tradicional era hostil e, na melhor das hipóteses, indiferente ao Bolsa-Família, mesmo quando este já estava em pleno andamento, vou postar aqui uma reportagem do Estadão (que me foi enviada por uma daquelas pessoas chave) cobrindo a 28ª Anpocs, a tradicional reunião anual em Caxambu da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais. São sociólogos, antropólogos e cientistas políticos, e eu nem preciso dizer que é uma crowd esmagadoramente de esquerda e que votou/vota maciçamente no PT, com a exceção daqueles que criticam o Lula pela esquerda, como o Francisco de Oliveira, e preferem o P-Sol. Deve haver, reconheço, um típico participante da Anpocs tucano para cada 100, 150 petistas ou ainda mais à esquerda. Pois vejam bem o que diz esta matéria da organização criminosa dos Mesquita sobre a visão dos participantes da Anpocs sobre o BF na já adiantada data de outubro de 2004 (o BF foi lançado em meados de 2003):
31/10/2004
Transferência de renda fora do debate
CAXAMBU (MG)
Os programas de transferência de renda ainda não entraram no radar dos cientistas sociais brasileiros, a julgar pela programação do 28.ª Reunião Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), encerrada na sexta-feira. Nas dezenas de mesas redondas, seminários e trabalhos apresentados, pouco se tratou de programas como o Bolsa -Família, que já atinge 20 milhões de brasileiros pobres e miseráveis, e consome cerca de R$ 5 bilhões do Orçamento federal.
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junho 05, 2009
O mico do ano
David Carradine inovou. Morreu num acidente autoerótico. Isso é para poucos. Quatrilhões, quintilhões, sextilhões de bronhas foram tocadas na história da humanidade até hoje e ninguém, ou quase ninguém, tinha morrido. Nem punheta mais é sexo seguro? E imagine o mico para a família: O seu pai morreu de quê? De punheta. Ah, uma dúvida: terá o gafanhoto morrido antes ou depois do clímax? Cartas à redação
David Carradine inovou. Morreu num acidente autoerótico. Isso é para poucos. Quatrilhões, quintilhões, sextilhões de bronhas foram tocadas na história da humanidade até hoje e ninguém, ou quase ninguém, tinha morrido. Nem punheta mais é sexo seguro? E imagine o mico para a família: O seu pai morreu de quê? De punheta. Ah, uma dúvida: terá o gafanhoto morrido antes ou depois do clímax? Cartas à redação




Merdalança como ponto de partida – reação idealista à merdalança – regras impossíveis de cumprir – opacidade para ocultar o descumprimento das regras (e permitir que a vida prossiga) – indetectabilidade das causas do mau funcionamento das instituições – frustração com a incapacidade de melhorar o funcionamento das instituições – na impossibilidade de detectar causas, nova safra de diagnósticos e tratamentos idealistas – novas regras impossíveis de cumprir – opacidade etc