julho 14, 2008

O super-herói brasileiro

O Brasil tem enfim um super-herói de verdade. Protógenes Queiroz pode não ter nome de super-herói, mas tem a convicção dos puros e, para sua sorte, encara um supervilão à sua altura. De que adiantariam os superpoderes se não houvesse um vilão que encarnasse o mal como o encarna Daniel Dantas? É questão de tempo para que Protógenes tenha um séquito de seguidores, encantados com o sujeito que descobriu que Naji Nahas, aquele safadinho, consegue saber com antecedência o que o Federal Reserve vai fazer com os juros americanos.

Como todo super-herói, Protógenes sabe que participa da mais velha batalha da história do mundo, encenada milhares de vezes sobre a face da terra: a disputa entre o Bem e o Mal. Num dos trechos do relatório, ele escreve que Daniel Dantas “utiliza a sua inteligência para praticar o mal”. Eu sempre achei que Daniel Dantas agisse para fazer valer os seus próprios interesses, ao que tudo indica usando todos os meios para conseguir os seus objetivos, inclusive alguns altamente inescrupulosos, como tentativas de suborno. O que o relatório de Protógenes deixa claro é que Daniel Dantas é muito mais do que isso. Ele está a serviço do lado negro da força. É algo como um Darth Vader baiano. Ainda bem que nós temos um Luke Skywalker ativo e operante.

O sujeito é implacável. No relatório, ele diz que não vai permitir que façam lambanças com o fundo soberano brasileiro: ““Ante as ameaças de corsários saqueadores das riquezas do nosso país, deixo aqui registrado que o ‘amanuense’, que ora subscreve a presente peça, e por ‘cautela’ alerto aos incautos, seja de forma individual ou organizados criminosamente para tal finalidade, que estarei de prontidão comparado a um integrante da Brigada dos Tigres, fazendo um acompanhamento detalhado do futuro Fundo Soberano". Brigada dos Tigres é legal. Será que eles se reúnem na Sala de Justiça?

Eu não li a íntegra do relatório e não sou advogado. Esses episódios, porém, mostram que Protógenes se julga um portador da Verdade, que acredita ser um guardião do Bem. Quem tem essa mentalidade pode cometer abusos, como o pedido de prisão da jornalista Andréa Michael, da Folha. A tipificação de crimes financeiros complexos exige uma análise técnica e sem paixões. É perfeitamente possível que Protógenes tenha feito um relatório impecável desse ponto de vista, mas a sede em proclamar o Bem e condenar o Mal pode atrapalhar os trabalhos do super-herói brasileiro. Ter disposição e coragem para investigar um sujeito poderoso como Daniel Dantas é importante. Acreditar que os dois protagonizam uma guerra entre o Bem e o Mal, contudo, não é o comportamento mais adequado para um delegado da Polícia Federal.

Por fim, eu me permito dar um conselho a Protógenes: super-heróis devem cuidar da própria aparência e devem assear-se com freqüência diária. Em sua viagem aos intestinos do Brasil, Protógenes ficou cinco dias sem trocar de roupa, segundo reportagem de Bob Fernandes. Pela minha experiência com histórias em quadrinhos, combater um supervilão não é incompatível com a higiene pessoal



julho 13, 2008

Indagações aleatórias

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Nada a ver com o post (nem com o Daniel Dantas)


Por que criança gosta de cheiro de gasolina?



julho 12, 2008

Um vilão, não o vilão

A prisão de Daniel Dantas pode fazer um bem danado ao país. Não, eu não falo de prisões temporárias ou preventivas, que duram algumas horas ou dias, mas de uma prisão por condenação pelos crimes dos quais ele é acusado. Tudo indica que o sujeito praticou uma série de crimes pesados – escrevo “tudo indica” porque ele ainda não foi condenado e não se conhecem os detalhes de todas as acusações –, que merecem punições duras.

Se for considerado culpado, será importante ver um sujeito do porte de Daniel Dantas na cadeia. E é claro que não importa se outros criminosos não estão presos. Isso não o absolve de crimes que ele tenha praticado. É um raciocínio de uma obviedade acaciana, mas os fãs de Lula, por exemplo, acham que não se aplica ao presidente. Todos os erros e crimes que ele e seus ministros cometem devem ser perdoados e relativizados, porque Fernando Henrique Cardoso, Fernando Collor, José Sarney ou Tomé de Souza também cometeram equívocos semelhantes em algum momento. É um argumento tão grotesco que não deveria ser usado por ninguém.

Colocar na cadeia um grande corruptor, que parece ter cometido uma série de falcatruas, é o primeiro e mais óbvio motivo por que seria muito positiva a prisão de Daniel Dantas. O outro motivo é que, com ele na cadeia, grande parte da esquerda poderá ver que o alcance das picaretagens do sujeito não é tão grande quanto se pensa. Mesmo quando os intestinos do país tiverem sido totalmente revolvidos, do duodeno ao reto, passando pelo jejuno e pelo cólon, o Brasil não estará livre da corrupção e do mal.

Se ficar provado que integrantes do governo Fernando Henrique ou do governo Lula o favoreceram ilegalmente, que sejam julgados e condenados. Tudo indica que o sujeito transgrediu a lei muitas vezes – a tentativa de suborno do delegado da Polícia Federal dá uma idéia dos métodos usados por ele. A estratégia de se aproximar de políticos de todos os partidos importantes para obter vantagens para os seus negócios também é mais do que suspeita.

Tudo isso deve ser apurado e julgado. Mas a transformação de Daniel Dantas num supervilão, cuja prisão fará raiar a liberdade no horizonte do Brasil, é de um maniqueísmo primário. Daniel Dantas talvez até seja o coisa ruim, mas não é a única fonte de problemas do país



julho 07, 2008

As commodities e os especuladores

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O enredo é perfeito para quem gosta de teorias conspiratórias. Inescrupulosos gestores de fundos de investimento especulam sem limites nos mercados futuros e jogam para cima os preços das commodities, fazendo indefesos cidadãos do Terceiro Mundo passarem fome. A história faz vibrar os fãs do maniqueísmo. Como desconfio de todas as teorias conspiratórias – eu sempre achei que Lee Harvey Oswald realmente matou John Kennedy -, não comprava a idéia. Quando eu vi os aumentos de preços que as mineradoras conseguiram obter neste ano para o minério de ferro, de até quase 100%, ficou claro para mim que a questão fundamental era o aumento da demanda. O minério de ferro não é negociado nos mercados futuros, e os preços são definidos em negociações diretas entre mineradoras e os seus clientes.

Publicado no Valor na sexta-feira, este artigo de Márcio Garcia, da PUC-Rio, traz este e vários outros argumentos que mostram como a tese da especulação está cheia de furos. Garcia, que sabe das coisas, faz uma análise técnica e desapaixonada do assunto. Se a culpa da alta de preços fosse realmente dos especuladores, os estoques de commodities teriam que aumentar, mas, na maior parte dos casos, estão em queda, como nota Paul Krugman neste texto. Para tristeza dos adeptos de teorias conspiratórias, tudo indica que não são os desalmados hedge funds os culpados pela disparada dos preços de commodities



julho 04, 2008

O que realmente interessa no caso Ingrid Betancourt

Ingrid Betancourt já falou de tudo sobre os seis anos de cativeiro, menos sobre o essencial. O que o povo quer saber mesmo é se ela ficou seis anos invicta. Ingrid Betancourt apelou à estratégia Clara Rojas ou passou todo o tempo fazendo justiça com as próprias mãos? E uma outra coisa: imagine seis anos sem depilação íntima? Aposto no efeito Cláudia Ohana (se você quiser a foto da Playboy que chocou a minha geração, clique aqui). Fosse eu editor de uma revista colombiana, investiria nessa pauta



julho 02, 2008

A inimiga do povo

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Os culpados pela espiral inflacionária

A mídia faz um mal danado ao país, pelo que eu leio por aí. Em artigo publicado ontem no Valor, Yoshiaki Nakano diz que “o estardalhaço que a imprensa vem fazendo sobre a recente aceleração da inflação está alimentando as expectativas inflacionárias, e corremos o risco de caminharmos para um debate emocional, obscurecendo o seu entendimento e o seu controle”. Em seu blog, José Dirceu diz que “a percepção da inflação também aumentou não só pela realidade, nacional e internacional, mas também pelo contínuo e incessante bombardeio alarmista do próprio BC, amplificado pela mídia, particularmente pela Rede Globo”. Por fim, Guido Mantega diz que há “um certo alarmismo ‘nas análises sobre a inflação brasileira e que o noticiário pode gerar pânico e levar à corrida de donas-de-casa para fazer estoques de produtos”, segundo o Valor Online.

A inflação está em alta, como até os mais néscios podem perceber. Os alimentos dispararam e há uma aceleração clara dos preços de serviços. A escalada das commodities e a atividade econômica aquecida têm feito a inflação subir. A demanda doméstica cresceu 7,5% nos 12 meses encerrados em março.

Depois de três anos com os índices de preços bem comportados, a aceleração da inflação é obviamente uma notícia importante. A cesta básica, por exemplo, subiu até 52% em 12 meses, mostra a Folha de hoje. Se os números não estão errados, é claro que não é estardalhaço ou alarmismo. O IPCA ficou em 3,14% em 2006, 4,5% em 2007 e pode superar 6,5% neste ano. O IGP-M acumula alta de 13,44% em 12 meses.

Culpar a imprensa – o esporte favorito dos sem-imaginação e dos mal-intencionados – não vai derrubar a inflação. O que querem esses iluminados? Que os fortes aumentos da inflação não sejam noticiados, ou que sejam relegados ao pé de página dos jornais e revistas e mereçam apenas um registro nos telejornais? Não é o Jornal Nacional que joga mais lenha na fogueira da inflação.

Uma demanda aquecida demais e gastos públicos que ainda crescem muito – embora as despesas do governo federal aumentem a um ritmo menor neste ano – são um pano de fundo perfeito para intensificar a alta dos preços, num momento em que as commodities estão na estratosfera. Culpar a mídia por alimentar as expectativas de inflação é ignorância ou má fé



junho 27, 2008

O paraíso das idéias cretinas

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O Febeapá no Brasil não pára nunca. No Valor de ontem, o economista Eduardo Strachman, da Unesp, propõe uma série de mudanças para o regime de metas de inflação. Há propostas conhecidas, outras ruins e uma totalmente estapafúrdia: “a ampliação do Comitê de Política Monetária (Copom), com alguns representantes dos setores industrial, de serviço e agrícola, e não apenas do sistema financeiro”. A idéia do sujeito é uma variação piorada da que sugere a entrada de representantes da economia real no Conselho Monetário Nacional (CMN).

Entre várias outras atribuições, o CMN fixa a meta de inflação a ser perseguida pelo BC. Essa proposta já é bastante ruim – mas Strachman conseguiu piorá-la. Imagine o Paulo Skaf e o Abram Szajman no Copom, definindo o rumo dos juros? E por que não o Samuel Klein, da Casas Bahia? “Eu aprendi política monetária na escola da vida”, diria o simpático Klein. Paulo Skaf, claro, sempre votaria por cortes de 2 pontos percentuais dos juros, mesmo com a inflação perto de dois dígitos.

Outro gênio é Hélio Jaguaribe. É verdade que ele foi ministro do Collor, mas o sujeito deu aula em Harvard, Stanford e no MIT. Eu esperava que ele pelo menos não trilhasse o caminho do grotesco absoluto. Eu estava errado: a Folha publica um artigo de Jaguaribe em que ele sugere a criação da Amazoniabrás. Estou falando sério. Vale a pena citar um trecho:

“A Amazônia requer uma ativa interveniência do Estado. Não apenas, nem principalmente, por meio de normas regulatórias que, ademais de não serem produtivas, são completamente ineficazes, pela incapacidade de seu consistente monitoramento. A indispensável e urgente intervenção do Estado na Amazônia deve ter caráter operacional.

Trata-se, em primeiro lugar, de complementar os dados já disponíveis com um completo levantamento geoeconômico da região. E trata-se, adicional e principalmente, de constituir uma grande empresa pública, a Empresa Brasileira da Amazônia -Amazoniabras-, para promover a exploração racional, eqüitativa e ecologicamente responsável desse grande tesouro vegetal e mineral. Algo à semelhança do que foi -e continua sendo- a Petrobras para o petróleo.”

É isso aí: mais uma grande empresa pública, para inchar ainda mais o Estado, criar mais cargos públicos e levar mais ineficiência à administração da Amazônia. Não é brilhante?

Como se vê, sobram idéias cretinas no Brasil. Falta, porém, uma empresa que coordene e administre os esforços de tanta estupidez, hoje operando sem foco e de modo desorganizado. Para mudar esse quadro, só com mais uma estatal. Eu sugiro a criação da Cretinobrás. Mão-de-obra qualificada é que não vai faltar



junho 24, 2008

Mais miséria ética

Então é isso aí. A Folha mostra hoje que Roberto Teixeira esteve pelo menos seis vezes no Palácio do Planalto para falar com Lula, duas delas para tratar diretamente da venda da VarigLog para o fundo americano Matlin Patterson. Lula é o verdadeiro homem cordial. Não dá nenhuma importância às distinções entre o público e o privado e não vê nenhum problema no fato de seus amigos e familiares se beneficiarem do fato de ser presidente. Esse caso é muito mais grave que o dos gastos com cartões corporativos, mas não parece chamar tanto a atenção. Parece que há uma fadiga de escândalos, mais isso não torna o tráfico de influência menos obsceno.

No campo da ética, Lula tem se comportado de modo abominável. Absolve qualquer um – Antonio Palocci, Severino Cavalcanti, Jader Barbalho, Renan Calheiros, Matilde Ribeiro, é tudo gente injustiçada. É óbvio que um presidente não pode permitir que um amigo como Roberto Teixeira transite com desenvoltura no Planalto, ainda mais se tem negócios que dependem, em maior ou menor medida, de decisões ou da influência do governo. Para Lula, porém, isso não é problema.

E não me venham dizer que ocorreram coisas semelhantes em outros governos. Acho que não houve na administração Fernando Henrique Cardoso um equivalente a Roberto Teixeira. E, mesmo que tenha havido, é grotesca essa tática de inocentar Lula com crimes e erros de seus antecessores. Eu teria vergonha de usar um argumento desses para defender alguém que eu admiro



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