Versão preliminar sujeita a revisões estilísticas, gramaticais e de conteúdo (que provavelmente nunca serão feitas)
Parte I
Era uma vez um sujeito, o sr B, que vivia em um ambiente altamente insalubre, e que tinha hábitos desregrados e prejudiciais a saúde. Essa combinação de fatores acabou por minar sua saúde aos poucos, deixando-o frágil e presa fácil de qualquer doença. Um dia, ele adoeceu para valer, de uma moléstia muito grave. Foi piorando, piorando, definhando, passou pelas mãos de um monte de médicos e chegou finalmente à UTI, quase desenganado.
Foi quando surgiu um médico, o dr T, com um tratamento revolucionário. Como não havia nada a perder, a família consentiu, e o sr B foi submetido àquela nova terapia, que envolvia não só alguns remédios potentes mas também uma série de mudança de hábitos de vida. Os resultados positivos da medicação apareceram logo e o quadro se estabilizou.
Quanto às mudanças nos hábitos de vida, houve grande dificuldade em implementá-las. O sr B resistia, sabotava. Mas, ao fim e ao cabo, uma parte razoável do novo regime de vida acabou se firmando.
A trajetória da cura, porém, foi muito acidentada. Em primeiro lugar, as medicações tinham graves efeitos colaterais, que não foram bem administrados pelo dr T. Em segundo, a demora do sr B em adotar o novo estilo de vida, num momento em que, apesar de superado o risco de vida, sua saúde ainda era muito frágil, expunha-o a crises e recaídas. Aliás, o próprio dr T foi um pouco leniente no início quanto à mudança de estilo de vida, confiando demais na medicação. Foi apenas depois de uma recaída particularmente dramática que ele impôs de forma mais inflexível a mudança disciplinar. Essas crises eram, na sua maior parte, causadas por agentes externos, ataques especulativos contra um organismo ainda frágil em seu sistema imune.
A família acabou trocando de médico, em meio a uma daquelas graves crises. Mas o fato é que, pouco a pouco, o organismo do paciente foi se fortalecendo, o novo regime de vida foi ficando raízes, e as crises rarearam, até que um dia o sr B ficou inteiramente curado.
Por coincidência, pouco depois da troca de médicos, houve uma grande transformação no ambiente da cidade na qual nosso herói habitava, que deixou de ser insalubre e tornou-se, na verdade, extremamente saudável e revigorante. No mundo em que ele habitava, a influência do meio-ambiente sobre a saúde era particularmente decisiva. Além disso, o novo médico, o dr P, reforçou a disciplina dos novos hábitos de vida do sr B. Essa combinação de fatores ( desculpem repetir a expressão) deu um fabuloso impulso às condições do sr B, que iniciou uma fase de saúde de vaca premiada.
Alguns anos depois, no entanto, uma catástrofe se abateu sobre a região onde o sr B morava, e o ambiente ficou totalmente insalubre de novo. Aliás, durante algum tempo, ficou bem mais insalubre do que em qualquer momento anterior da história. Na antiga fase de vida do sr B, quando ele era um sujeito doentio e frágil, o seu médico de então, o dr T, recomendava repouso absoluto quando havia alguma ameaça ambiental à sua saúde.
O novo médico, porém, observando que o seu paciente agora estava extremamente saudável, e com uma notável capacidade de resistir à insalubridade do ambiente (anos de vida disciplinada haviam surtido efeito), não só não recomendou repouso absoluto, como disse para o sr B intensificar o regime de exercícios físicos (a essa altura, o sr B já era um triatleta razoavelmente bem-sucedido). Aliás, outros médicos, com outros pacientes parecidos, em situação similar, também recomendaram exercícios em vez de repouso absoluto.
E o fato é que o sr B tirou de letra aquela crise de insalubridade ambiental, ficando ainda mais saudável com o regime extra de exercícios físicos. O sr B entrava agora na fase mais esplendorosamente saudável da sua vida.
Parte II
Um dia, os dois médicos que trataram do sr B se encontraram, e começaram a discutir quem tinha tido um desempenho profissional melhor.
A discussão foi vencida pelo dr P, com uma esmagadora e impressionante coleção de informações e números. Basicamente, o dr P dividiu a vida pós-doença grave do sr B em duas fases. O período 1 foi aquele em que ele foi tratado pelo dr T, e o período 2 foi aquele em que ele foi tratado pelo próprio dr P. Vamos, então, à surra argumentativa que o dr P aplicou no dr T:
1) No início do período 1, o sr B estava prostrado numa cama. No fim do período 1, o sr B ainda estava prostrado numa cama. É verdade que, no ínicio, era um leito de UTI, e, no fim, em casa. De qualquer forma, começou a gestão do dr T prostrado, e terminou prostrado.
Já no período 2, o sr B começou prostrado numa cama e terminou como campeão de triatletismo da cidade onde morava. Dá para comparar?
2) Nos exames de sangue no início do período 1, todos os parâmetros estavam muito abaixo, ou muito acima, dos níveis mínimos e máximos. Ao fim do período 1, os parâmetros, embora tivessem revertido o movimento de piora, ainda estavam aquém ou além dos níveis saudáveis.
No início do período 2, os parâmetros estavam aquém ou além dos níveis aceitáveis. Ao fim do período 2, os parâmetros estavam espetacularmente saudáveis. Dá para comparar?
3) No período 1, qualquer pequena piora do ambiente externo levava o sr B a crises e recaídas.
No período 2, o sr B enfrentou uma verdadeira catástrofe ambiental, e sua saúde saiu fortalecida. Dá para comparar?
4) A doença fez o sr B perder muito peso. Assim, no início do período 1, quando ele passava pela fase mais grave, seu peso caiu para 56 kg (quando o normal era 75). Ao final do período 1, ele já estava ganhando algum peso, e tinha atingido 60. O ganho, portanto, foi de 4 kg, ou 7%.
Já no período 2, o sr B saiu de 60 kg para 80 kg de puro músculo, num ganho espetacular de 33%. E, se for tomado o índice de massa muscular, enquanto no período 1 não houve nenhum ganho (da UTI para a cama em casa não foi possível ao sr. B desenvolver nenhuma musculatura), no período 2 houve um aumento de 1.372% nesse índice. Dá para comparar?
5) Bem, o sr B não tinha condições de correr no período 1, mas, para efeitos de acompanhamento médico, os enfermeiros, assim que ele pôde sair da UTI, marcavam o tempo de deslocamento entre o seu leito e o banheiro do hospital, a dez metros de distância. Logo no início, ele demorava 30 segundos. Portanto, 10 metros por 30 segundos, o que dá uma velocidade de 0,25 km por hora. De volta para casa, nos seus pequenos deslocamentos do quarto ao banheiro, ou da sala para o quarto, o sr B atingiu a velocidade de 0,5 km por hora ao final do período 1. O ganho, portanto, foi de 50% no período.
No início do período 2, o sr B deslocava-se a 0,5 km por hora. No final, na fase de triatleta, corria 10 quilômetros em meia hora, a uma velocidade, portanto, de 20 km por hora. O ganho no período foi de 3.900%. Em termos de percurso máximo, o sr B saiu de 20 metros no período 1 para 40 km (maratona, é claro) no período 2, uma evolução, portanto, de 1.999.900%. Dá para comparar?
6) No início do período 1, o sr B tinha apenas uma namorada gorda e feia, que o abandonou na pior fase de tratamento. No final do período 1, em casa, convalescendo, o sr B não tinha nenhuma vida sexual. Piora, portanto.
No início do período 2, o sr B não tinha nenhuma vida sexual. No final, já na sua fase de campeão de maratona da sua cidade, ele tinha cinco namoradas, sendo três delas top-model. Dá para comparar?
7) No início do período 1, o sr. B não tinha nenhuma popularidade na sua cidade, sendo conhecido apenas pelos seus familiares e amigoss, ou aproximadamente 40 pessoas. Uma pesquisa conduzida na ocasião revelou que o seu prestígio junto a esses poucos conhecidos era de mediano a ruim. No final da fase 1, a sua reputação continuava na mesma.
No início da fase 2, o sr B só era conhecido por cerca de 40 pessoas, familiares e amigos, para os quais o seu prestígio era de mediano a ruim. Ao final da fase 2, maratonista campeão, com cinco namoradas, e participando ativamente da vida social da sua cidade, o sr B tornou-se conhecido de todos os 100 mil habitantes, para os quais seu prestígio situava-se entre alto e muito alto. Dá para comparar?
Bem, esses eram apenas os principais entre os 20 itens da lista com a qual o dr P arrasou o dr T na discussão sobre qual havia sido melhor médico. Havia um grupo de pessoas assistindo ao debate, e a maioria esmagadora delas concluiu que, de fato, o dr P era muito melhor médico. Muitos tentaram agendar ali mesmo consultas para si e seus familiares com o dr P.
O dr T tentou, inutilmente, argumentar que ele pegara um paciente à beira da morte, e conseguira salvá-lo com sua terapia revolucionário. Que fora ele quem conseguira mudar completamente o estilo de vida do sr B, que fez com que os seus hábitos se tornassem muito mais saudáveis.
Lembrou também que o sr B resistiu muito aos novos hábitos de vida, que só adotou muito lentamente, o que foi uma das razões para o prolongado e difícil processo de cura, cheio de recaídas. Foi isso também que fez, em última instância, que, ao final da sua gestão como médico, o sr B ainda estivesse com a saúde fragilizada, e passando por um forte recaída. Ainda assim, reiterou o dr T, ele já estava estruturalmente curado, tanto que, passada aquela última crise, e com o reforço ainda maior do novo regime de vida, longo no início da gestão do dr P, o sr B curou-se definitivamente e iniciou a sua atual fase super-saudável.
Aliás, lembrou o dr T, na época em que ele tratava do sr B, o dr P ainda não era médico, e, na verdade, era amigo e companheiro do paciente. Naquele tempo, fora o dr P quem, com mais veemência, combatia o novo regime de vida saudável receitado pelo dr T. O dr P foi, inclusive, bem sucedido (emb0ra não tenha sido o único a atuar nesse sentido) em fazer com que o paciente adotasse apenas muito lentamente, e com muitas falhas, a disciplina recomendada. Nesse sentido, argumentou o dr. T, o dr P, na verdade, contribuiu para que a cura fosse mais prolongada, e que, ao final da sua gestão (do dr T), o paciente ainda estivesse de cama em casa.
O dr T observou ainda que, quando souberam que aquele amigo louco que combateu o regime de vida saudável seria o novo médico, todas as pessoas em torno do sr B se desesperaram, pois sabiam que, se ele abandonasse a nova disciplina, as chances de uma crise mortal seriam enormes. Como, nesse mundo em que eles viviam, as percepções negativas das pessoas eram transmitidas ao meio-ambiente, isso fez com que houvesse uma terrível piora ambiental bem na época da troca de médicos, responsável, em boa parte, pela aguda crise que caracterizou o final da gestão do dr T. Logo, no entanto, revelou-se que o dr P tinha de fato virado um bom médico e que tinha renegado totalmente as suas idéias anti-disciplina defendidas anteriormente. Aliás, no início do seu tratamento, o dr P tornou ainda mais duro o regime de vida do sr B, como já mencionado.
Tudo isso o dr T argumentou, inutilmente. Ele reconheceu, inclusive, que tinha administrado muito mal os efeitos colaterais do tratamento revolucionário, e que isso também tinha sido uma das razões (e das mais importantes) para a demora na cura e para as muitas recaídas. Ele notou, porém, que, enquanto ele tinha administrado mal os efeitos colaterais – algo que também havia ocorrido à época com quase todos os médicos que tiveram pacientes com o mesmo quadro, e que haviam aplicado aquele tratamento, ou tratamentos parecidos –, o dr P simplesmente combateu o tratamento que salvou a vida do sr B, fez tudo para que o sr B não seguisse o regime de vida prescrito para acompanhar o tratamento, e garantiu a todos que aquilo não iria dar certo.
Um momento particularmente candente da dicusssão foi quando o dr P provocou o dr T: “Quando havia pioras na salubridade ambiental, você mandava o sr. B fazer repouso absoluto, e, sem se exercitar, ele piorava ainda mais. Veja que, comigo, é muito diferente: enfrentando a pior crise de insalubridade da história, eu mandei o sr. B se exercitar, e sua saúde ainda melhorou.”
O dr T ficou perplexo. Como médico, era óbvio que o dr P sabia que, dada as condições de saúde do sr B quando houve piores ambientais na época de tratamento pelo dr T, seria uma tentativa de homicídio recomendar que o paciente se exercitasse, em vez de fazer repouso absoluto. Mas o público que assistia ao debate não quis nem saber: na crise ambiental, o dr P mandou o paciente se exercitar, e ele explodia em saúde algum tempo depois; já, na crise ambiental do passado, o dr T mandou o paciente ficar em repouso absoluto, e, mesmo assim, ele continuou muito mal e demorou a melhorar. Mais pontos, muitos mais, para o dr P.
O dr T foi ficando cada vez mais na defensiva. Ele partiu então para reconhecer vários méritos na gestão do dr P, para ver se, em troca, o dr P concordaria que também houve méritos na sua. O dr T admitiu que, como na sua gestão a saúde do sr B ainda era muito precária e a todo momento havia crises e recaídas, ele preocupou-se excessivamente com a estabilidade do paciente, deixando em segundo plano uma visão de futuro sobre o paciente já curado. Assim, ele reconheceu que toda a ação do dr P em termos de estímulos à carreira atlética e à vida social e sexual do sr B foi extremamente válida e eficaz. O dr T acrescentou que, mesmo que os resultados jamais pudessem ter sido os mesmos na sua gestão, dada a ainda muito debilitada saúde do sr B, ainda assim teria sido sábio, em retrospectiva, já ter começado naquela época a incentivar um pouco essas atividades de uma vida propriamente saudável. Na verdade, ele até fez isso em algumas áreas, mas bem menos do que poderia ou deveria ter feito, pensando retrospectivamente. O dr T penitenciou-se pela sua omissão.
Feito isso, o drT tentou receber em troca alguma reciprocidade na auto-crítica e no reconhecimento do mérito alheio, por parte do dr P. Basicamente, o dr T pediu ao dr P que reconhecesse o seguinte:
1) Quando o dr T era o médico do sr B, o dr P, ainda antes de se tornar médico, foi uma péssima influência para o paciente. O dr P combateu veementemente a medicação revolucionária e fez tudo para que o sr B não mudasse o seu regime de vida. O dr T queria agora que o dr P reconhecesse que o tratamento fora fundamental para salvar a vida do paciente, que ele fora contra o tratamento, e que havia errado.
2) O dr T pediu para o dr P reconhecer também que as suas (do dr P) pressões contra o tratamento foram uma das causas, não a única nem a principal, para o lento e sofrido processo de cura, com tantas crises e recaídas. Aliás, nesse ponto o dr T fez mais uma autocrítica. Talvez ele mesmo tenha sido um pouco leniente na imposição do novo regime de vida, na fase inicial do tratamento. Mas ele lembrou que, se o dr P na época fez uma oposição violenta ao novo regime de vida no nível de disciplina em que fora proposto, imagine quão mais violenta não teria sido a sua oposição se a proposta fosse ainda mais rigorosa.
3) O dr T pediu também para o dr P que admitisse que, ao começar a tratar o paciente, ele seguiu rigorosamente o regime de disciplina que havia sido proposto e imposto nos tempos de tratamento dele, dr T. E que havia (o dr P), inclusive, reforçado o regime. O dr T reconheceu, por sua vez, que, mais recentemente, o dr P tinha relaxado muito o regime, com bons resultados (até agora), porque a saúde incrível atingida pelo sr B já permitia alguns excessos e farras. Ainda assim, frisava o dr T, isso em nada desmentia o fato de que fora fundamental o rigor do regime na fase de cura que se prolongou desde o início da medicação até o reforço da disciplina no início da gestão do dr P. O dr T queria que o dr P reconhecesse isso.
4) Finalmente, o dr T pedia para que o dr P voltasse atrás na grotesca comparação entre as recomendações médicas nas crises ambientais dos períodos 1 e 2. O dr T pediu que o dr P reconhecesse que uma terapia à base de exercícios físicos naquelas crises em que a saúde do sr B era extremamente vulnerável seria uma receita mortal.
O dr P ignorou todos os apelos do dr T. Ele olhou para a multidão (sim, agora já era uma multidão) que acompanhava os debates, e repetiu, num tom crescentemente inflamado:
“Vejam, vejam aqui! Leiam a minha lista de 20 comparações entre o período 1 e o período 2. Aliás, já estou aumentando a lista, em breve teremos 30 itens comparativos. Vamos comparar as gestões. Você ( o dr T) pegou um paciente numa cama e o deixou numa cama (o dr P omitiu que a primeira era da UTI e a segunda da própria casa do sr B), você acabou com vida sexual do sr B, não conseguiu nenhum avanço na vida social, teve progressos absolutamente medíocres em qualquer medida – peso, velocidade, bem-estar, conquistas pessoais, pode escolher.”
“E compare comigo! Peguei aquele ser doentio, em meio a uma crise horrível, e, com meu incrível tratamento, muito diferente do seu, o transformei num triatleta campeão, cheio de medalhas e taças, com uma vida sexual incrível, popularíssimo na sua própria cidade. Prestem bem atenção a tudo isso, vocês que escutam essa nossa discussão, antes de escolherem quem será o seu médico.”
Em meio aos aplausos delirantes da multidão, o sr P saiu carregado nos braços do povo. Já o sr T saiu cabisbaixo pela porta lateral, mas foi consolado por um velhinho que assistira, com uma expressão de ironia resignada, a todo o debate: “Não esquenta não, campanha eleitoral é assim mesmo”