7 de outubro de 2010

Da série ‘pequenas epifanias’

De todos os neoprogressistas que compõem a grande frente hegemônica do avanço das forças populares – Sarney, Jader, Garotinho, Netinho, Tiririca, você escolhe –, eu confesso ter um particular carinho por um nome, que vejo discretamente, aqui e acolá, dando os seus pitacos sobre a estratégia dilmista do segundo turno: o gato angorá, sobriquet de tão genial cunhagem pelo saudosíssimo Leonel, para se referir ao inefável Moreira Franco, com a sua eterna expressão de muxoxo satisfeito, o espírito público desenhado naquelas sobrancelhas de neve.

 É irônico. É pungente. É quase sublime

7 de outubro de 2010

Póxingá

Eu vi num vídeo na internet o Marcelo Madureira, ao lado do Diogo Mainardi, chamando o Lula de picareta, vagabundo, salafrário, esse tipo de coisa. E depois vi aí pela internet reações furiosas àquele vídeo, de indignação trêmula, de imprecações – e, curiosamente, não todas da geral do Fla-Flu, mas também da tribuna de honra, de pessoas que reputo sofisticadas.

Eu me lembro, no governo FH, quando eu o apoiava e torcia por ele, que o tipo de ataque que me deixava mais indignado não era o xingamento puro e simples, mas sim a crítica bem elaborada de má-fé (ou que eu julgava de má-fé). Xingar por xingar o presidente sempre me pareceu uma coisa agradável, um exercício saudável. Sei lá, me sinto bem por viver num país onde os presidentes são xingados por quem quiser xingá-los na TV. Acho isso altamente civilizado – não o ato de xingar, mas a sociedade que permite o xingamento.

Essa fúria, por parte de pessoas que respeito intelectualmente, contra o xingamento do Marcelo Madureira me desagrada um pouco. Elas tratam o Lula meio como um símbolo religioso, meio como um Alcorão que infiéis ameaçam queimar. Esse culto ao Lula inclui, por exemplo, o vídeo eleitoral em que o candidato eleito ao Senado pelo Rio, o Lindberg Faria, beija a mão do grande líder.

Esse clima bajulatório, reverencial, de adoração, me incomoda de fato. E aí eu fico até feliz quando aparece alguém xingando, só para contrariar. Eu não comungo em nada com as ideias do Madureira, porque não tenho a menor ideia de quais sejam as suas ideias, e nem a menor certeza de que de fato elas existam. Mas apoio seu xingamento, apenas porque xingar presidente é uma coisa legal.

Se tem um capacho que beija mão, é bom que tenha um cabeça-oca que xinga

6 de outubro de 2010

Uma oportunidade perdida

Campanha eleitoral não costuma combinar com discussão aprofundada de ideias, mas desta vez o negócio foi mais grotesco do que eu imaginava. Com um presidente com aprovação recorde e uma economia crescendo quase 8%, era natural que a eleição não fosse marcada por propostas de grandes mudanças na política econômica e na política social. Pode ser um cenário propício a debates um pouco aborrecidos, mas nem por isso  irrelevantes.  

Que nada. Nada mais distante do confronto de ideias do que o que se viu até agora. Para recuperar ou, sei lá, não perder mais votos entre os eleitores mais religiosos, Dilma se transforma numa carola incondicional. No ritmo que as coisas vão, alguém do PT vai sugerir que ela prometa uma guerra santa contra ateus e agnósticos, como primeira medida do governo. Tudo bem que a campanha “Dilma é a favor de matar criancinhas” (argumento sofisticado usado por Mônica Serra) é o fim da picada, mas torná-la beata é demais. 

Já Serra, tido como grande defensor da responsabilidade fiscal, vira um populista à Garotinho, ao prometer salário mínimo de R$ 600, aumento de 10% para as aposentadorias e dobrar o número de famílias atendidas pelo Bolsa Família. É possível que Serra tenha feito as promessas para se antecipar a acusações de que pretende acabar com o Bolsa Família ou que não tem sensibilidade social. Para mim, não justifica ceder a táticas populistas da pior espécie. 

E tem também Marina, em que votei sem grande empolgação. A candidata que em tese representa o modo mais moderno de fazer política cresceu no fim da campanha em parte graças ao voto de gente que se move pelo que há de mais atrasado e preconceituoso no país, gente que vê em Dilma um Herodes terrorista e em Michel Temer um satanista. 

Esse foi o primeiro turno. Nada sugere que a campanha vá melhorar no segundo, embora pelo menos os debates na televisão tendam a ser melhores, já que os candidatos serão obrigados a perguntar um para o outro. A minha expectativa, na verdade, é de que o nível será ainda mais baixo. Afinal, nada é tão ruim que não possa piorar – ou o que você acha que significa a involução das ideias de Plínio, um sujeito que aos 80 anos, em 2010, defende propostas que já soavam constrangedoras há muitas décadas, na boca de alguém de 20?

5 de outubro de 2010

Mais baboseira político-eleitoral

O PT conseguiu de fato virar o partido dos pobres, e fazer do PSDB o partido dos ricos. Há uma imensidão de coisas para comentar sobre essa frase inicial, mas vou resistir com todas minhas forças às digressões para evitar fazer um post estupidamente longo como o anterior.

Agora surge a questão dos evangélicos e do aborto. No Brasil, o evangélico é um pobre que tende politicamente ao conservadorismo em questões comportamentais.

O lado pobre do evangélico responde ao apelo petista, o que lideranças hábeis – eu diria até sofisticadas – como o Crivella entendem. Daí a aliança.

Mas o PT, como partido de esquerda, tem de lidar com a turma do come-pelas-bordas-do-plano-nacional-de-direitos-humanos. É um pessoal cujo sentido de vida é fazer a “causa” avançar. A causa é um guarda-chuva que abriga desde aquilo que a maioria dos riquinhos alienados que se pensam de centro-esquerda do eixo Morumbi-Leblon (Matamoros me informa que o Morumbi está mal empregado na expressão – e já digressiono de novo) apoiam, como o direito ao aborto e o casamento de homossexuais, até coisas típicas da esquerda cuecona (tive uma namorada que usava a expressão “comunista cuecão” – ela era comunista, e a alcunha, que não tenho a menor ideia de como surgiu, visava sobretudo o ex-marido – e digressiono mais ainda), como controle da mídia, política externa de apoio a ditadores ou caudilhos antiamericanos, etc.

O típico intelequitual tucano também é a favor do aborto e do casamento de homossexuais, mas não tem o impulso atávico de fazer a causa avançar rumo a uma grande causa finalística. Um político tucano não precisa lidar com intelequituais e bases que empurram essas bandeiras como parte do grande projeto rumo à utopia socialista.

Meu ponto é que a questão do aborto pode ser a ponta de um iceberg – o lado conservador do eleitorado evangélico pobre que vota no PT em conflito crescente com a turma do come-pelas-bordas-do-plano-nacional-de-direitos-humanos que vota no PT (a típica turma da grande causa finalística).

O PT pode manejar habilmente esse conflito por um bom tempo. É só ceder ao conservadorismo em bandeiras evangelicamente sensíveis, como aborto e homossexuais, e continuar “avançando”, e satisfazendo a turma do come-pelas-bordas-etc., em tudo o mais – da estatização máxima (que não é grandes coisas) que não atrapalhe os fundamentos ortodoxos da economia ao apoio a ditadores de esquerda e à defesa de um tópico e tênue chega-pra-lá no PIG, que não assuste a classe média e agrade à parte mais feroz da blogosfera progressista.

Mas o ponto é que os pobres evangélicos não serão tão pobres para sempre. O protestantismo sempre foi, em geral, mais pró-capitalista e pró-individualista do que o catolicismo. Esses caras podem se tornar um dia, de fato, uma parcela de classe média popular, que, à medida que se sinta capaz de desmamar dos benefícios do Estado, desenvolva instintos conservadores para além da esfera comportamental. Pode ser uma turma que um dia se irrite de fato com impostos escorchantes, privilégios estatais (e no Estado, com a política de altos salários e concursos dificílimos, hoje só entra a elite econômica e intelectual – certamente não os evangélicos), ineficiência, cidades imundas e disfuncionais (esse pessoal gosta das coisas “certinhas”), etc. Pode ser uma turma que um dia se indisponha, de alto a baixo, com a agenda da turma do “come-pelas-bordas” etc.

Enfim, pode ser que os problemas da esquerda com os evangélicos estejam apenas começando (mas esse é um processo longo, nada demais deve acontecer tão cedo – vocês acham que sou otário a ponto de fazer previsões cujo desfecho ocorra antes que vocês delas tenham se esquecido?).

É possível que se chegue a um ponto em que a esquerda se questione se vale a pena, para manter os evangélicos, fazer tantas concessões que já nem se seja de fato de esquerda, e em que os evangélicos se perguntem se vale a pena, para votar no partido dos pobres, apoiar indiretamente tantas coisas a que se opõem os seus instintos conservadores

5 de outubro de 2010

A parábola do sr B

Versão preliminar sujeita a revisões estilísticas, gramaticais e de conteúdo (que provavelmente nunca serão feitas)

 

Parte I

Era uma vez um sujeito, o sr B, que vivia em um ambiente altamente insalubre, e que tinha hábitos desregrados e prejudiciais a saúde. Essa combinação de fatores acabou por minar sua saúde aos poucos, deixando-o frágil e presa fácil de qualquer doença. Um dia, ele adoeceu para valer, de uma moléstia muito grave. Foi piorando, piorando, definhando, passou pelas mãos de um monte de médicos e chegou finalmente à UTI, quase desenganado.

Foi quando surgiu um médico, o dr T, com um tratamento revolucionário. Como não havia nada a perder, a família consentiu, e o sr B foi submetido àquela nova terapia, que envolvia não só alguns remédios potentes mas também uma série de mudança de hábitos de vida. Os resultados positivos da medicação apareceram logo e o quadro se estabilizou.

Quanto às mudanças nos hábitos de vida, houve grande dificuldade em implementá-las. O sr B resistia, sabotava. Mas, ao fim e ao cabo, uma parte razoável do novo regime de vida acabou se firmando.

A trajetória da cura, porém, foi muito acidentada. Em primeiro lugar, as medicações tinham graves efeitos colaterais, que não foram bem administrados pelo dr T. Em segundo, a demora do sr B em adotar o novo estilo de vida, num momento em que, apesar de superado o risco de vida, sua saúde ainda era muito frágil, expunha-o a crises e recaídas. Aliás, o próprio dr T foi um pouco leniente no início quanto à mudança de estilo de vida, confiando demais na medicação. Foi apenas depois de uma recaída particularmente dramática que ele impôs de forma mais inflexível a mudança disciplinar. Essas crises eram, na sua maior parte, causadas por agentes externos, ataques especulativos contra um organismo ainda frágil em seu sistema imune.

A família acabou trocando de médico, em meio a uma daquelas graves crises. Mas o fato é que, pouco a pouco, o organismo do paciente foi se fortalecendo, o novo regime de vida foi ficando raízes, e as crises rarearam, até que um dia o sr B ficou inteiramente curado.

Por coincidência, pouco depois da troca de médicos, houve uma grande transformação no ambiente da cidade na qual nosso herói habitava, que deixou de ser insalubre e tornou-se, na verdade, extremamente saudável e revigorante. No mundo em que ele habitava, a influência do meio-ambiente sobre a saúde era particularmente decisiva. Além disso, o novo médico, o dr P, reforçou a disciplina dos novos hábitos de vida do sr B. Essa combinação de fatores ( desculpem repetir a expressão) deu um fabuloso impulso às condições do sr B, que iniciou uma fase de saúde de vaca premiada.

Alguns anos depois, no entanto, uma catástrofe se abateu sobre a região onde o sr B morava, e o ambiente ficou totalmente insalubre de novo. Aliás, durante algum tempo, ficou bem mais insalubre do que em qualquer momento anterior da história. Na antiga fase de vida do sr B, quando ele era um sujeito doentio e frágil, o seu médico de então, o dr T, recomendava repouso absoluto quando havia alguma ameaça ambiental à sua saúde.

O novo médico, porém, observando que o seu paciente agora estava extremamente saudável, e com uma notável capacidade de resistir à insalubridade do ambiente (anos de vida disciplinada haviam surtido efeito), não só não recomendou repouso absoluto, como disse para o sr B intensificar o regime de exercícios físicos (a essa altura, o sr B já era um triatleta razoavelmente bem-sucedido). Aliás, outros médicos, com outros pacientes parecidos, em situação similar, também recomendaram exercícios em vez de repouso absoluto.

E o fato é que o sr B tirou de letra aquela crise de insalubridade ambiental, ficando ainda mais saudável com o regime extra de exercícios físicos. O sr B entrava agora na fase mais esplendorosamente saudável da sua vida.

Parte II

Um dia, os dois médicos que trataram do sr B se encontraram, e começaram a discutir quem tinha tido um desempenho profissional melhor.

A discussão foi vencida pelo dr P, com uma esmagadora e impressionante coleção de informações e números. Basicamente, o dr P dividiu a vida pós-doença grave do sr B em duas fases. O período 1 foi aquele em que ele foi tratado pelo dr T, e o período 2 foi aquele em que ele foi tratado pelo próprio dr P. Vamos, então, à surra argumentativa que o dr P aplicou no dr T:

 1) No início do período 1, o sr B estava prostrado numa cama. No fim do período 1, o sr B ainda estava prostrado numa cama. É verdade que, no ínicio, era um leito de UTI, e, no fim, em casa. De qualquer forma, começou a gestão do dr T prostrado, e terminou prostrado.

     Já no período 2, o sr B começou prostrado numa cama e terminou como campeão de triatletismo da cidade onde morava. Dá para comparar?

 2) Nos exames de sangue no início do período 1, todos os parâmetros estavam muito abaixo, ou muito acima, dos níveis mínimos e máximos. Ao fim do período 1, os parâmetros, embora tivessem revertido o movimento de piora, ainda estavam aquém ou além dos níveis saudáveis.                                                 

      No início do período 2, os parâmetros estavam aquém ou além dos níveis aceitáveis. Ao fim do período 2, os parâmetros estavam espetacularmente saudáveis. Dá para comparar?

 3) No período 1, qualquer pequena piora do ambiente externo levava o sr B a crises e recaídas.

     No período 2, o sr B enfrentou uma verdadeira catástrofe ambiental, e sua saúde saiu fortalecida. Dá para comparar?

 4) A doença fez o sr B perder muito peso. Assim, no início do período 1, quando ele passava pela fase mais grave, seu peso caiu para 56 kg (quando o normal era 75). Ao final do período 1, ele já estava ganhando algum peso, e tinha atingido 60. O ganho, portanto, foi de 4 kg, ou 7%.

     Já no período 2, o sr B saiu de 60 kg para 80 kg de puro músculo, num ganho espetacular de 33%. E, se for tomado o índice de massa muscular, enquanto no período 1 não houve nenhum ganho (da UTI para a cama em casa não foi possível ao sr. B desenvolver nenhuma musculatura), no período 2 houve um aumento de 1.372% nesse índice. Dá para comparar?

  5) Bem, o sr B não tinha condições de correr no período 1, mas, para efeitos de acompanhamento médico, os enfermeiros, assim que ele pôde sair da UTI, marcavam o tempo de deslocamento entre o seu leito e o banheiro do hospital, a dez metros de distância. Logo no início, ele demorava 30 segundos. Portanto, 10 metros por 30 segundos, o que dá uma velocidade de 0,25 km por hora. De volta para casa, nos seus pequenos deslocamentos do quarto ao banheiro, ou da sala para o quarto, o sr B atingiu a velocidade de 0,5 km por hora ao final do período 1. O ganho, portanto, foi de 50% no período.

     No início do período 2, o sr B deslocava-se a 0,5 km por hora. No final, na fase de triatleta, corria 10 quilômetros em meia hora, a uma velocidade, portanto, de 20 km por hora. O ganho no período foi de 3.900%. Em termos de percurso máximo, o sr B saiu de 20 metros no período 1 para 40 km (maratona, é claro) no período 2, uma evolução, portanto, de 1.999.900%. Dá para comparar?

 6) No início do período 1, o sr B tinha apenas uma namorada gorda e feia, que o abandonou na pior fase de tratamento. No final do período 1, em casa, convalescendo, o sr B não tinha nenhuma vida sexual. Piora, portanto.

      No início do período 2, o sr B não tinha nenhuma vida sexual. No final, já na sua fase de campeão de maratona da sua cidade, ele tinha cinco namoradas, sendo três delas top-model. Dá para comparar?

  7)  No início do período 1, o sr. B não tinha nenhuma popularidade na sua cidade, sendo conhecido apenas pelos seus familiares e amigoss, ou aproximadamente 40 pessoas. Uma pesquisa conduzida na ocasião revelou que o seu prestígio junto a esses poucos conhecidos era de mediano a ruim. No final da fase 1, a sua reputação continuava na mesma.

        No início da fase 2, o sr B só era conhecido por cerca de 40 pessoas, familiares e amigos, para os quais o seu prestígio era de mediano a ruim. Ao final da fase 2, maratonista campeão, com cinco namoradas, e participando ativamente da vida social da sua cidade, o sr B tornou-se conhecido de todos os 100 mil habitantes, para os quais seu prestígio situava-se entre alto e muito alto. Dá para comparar?

Bem, esses eram apenas os principais entre os 20 itens da lista com a qual o dr P arrasou o dr T na discussão sobre qual havia sido melhor médico. Havia um grupo de pessoas assistindo ao debate, e a maioria esmagadora delas concluiu que, de fato, o dr P era muito melhor médico. Muitos tentaram agendar ali mesmo consultas para si e seus familiares com o dr P.

O dr T tentou, inutilmente, argumentar que ele pegara um paciente à beira da morte, e conseguira salvá-lo com sua terapia revolucionário. Que fora ele quem conseguira mudar completamente o estilo de vida do sr B, que fez com que os seus hábitos se tornassem muito mais saudáveis.

Lembrou também que o sr B resistiu muito aos novos hábitos de vida, que só adotou muito lentamente, o que foi uma das razões para o prolongado e difícil processo de cura, cheio de recaídas. Foi isso também que fez, em última instância, que, ao final da sua gestão como médico, o sr B ainda estivesse com a saúde fragilizada, e passando por um forte recaída. Ainda assim, reiterou o dr T, ele já estava estruturalmente curado, tanto que, passada aquela última crise, e com o reforço ainda maior do novo regime de vida, longo no início da gestão do dr P, o sr B curou-se definitivamente e iniciou a sua atual fase super-saudável.

Aliás, lembrou o dr T, na época em que ele tratava do sr B, o dr P ainda não era médico, e, na verdade, era amigo e companheiro do paciente. Naquele tempo, fora o dr P quem, com mais veemência, combatia o novo regime de vida saudável receitado pelo dr T. O dr P foi, inclusive, bem sucedido (emb0ra não tenha sido o único a atuar nesse sentido) em fazer com que o paciente adotasse apenas muito lentamente, e com muitas falhas, a disciplina recomendada. Nesse sentido, argumentou o dr. T, o dr P, na verdade, contribuiu para que a cura fosse mais prolongada, e que, ao final da sua gestão (do dr T), o paciente ainda estivesse de cama em casa.

O dr T observou ainda que, quando souberam que aquele amigo louco que combateu o regime de vida saudável seria o novo médico, todas as pessoas em torno do sr B se desesperaram, pois sabiam que, se ele abandonasse a nova disciplina, as chances de uma crise mortal seriam enormes. Como, nesse mundo em que eles viviam, as percepções negativas das pessoas eram transmitidas ao meio-ambiente, isso fez com que houvesse uma terrível piora ambiental bem na época da troca de médicos, responsável, em boa parte, pela aguda crise que caracterizou o final da gestão do dr T. Logo, no entanto, revelou-se que o dr P tinha de fato virado um bom médico e que tinha renegado totalmente as suas idéias anti-disciplina defendidas anteriormente. Aliás, no início do seu tratamento, o dr P tornou ainda mais duro o regime de vida do sr B, como já mencionado.

Tudo isso o dr T argumentou, inutilmente. Ele reconheceu, inclusive, que tinha administrado muito mal os efeitos colaterais do tratamento revolucionário, e que isso também tinha sido uma das razões (e das mais importantes) para a demora na cura e para as muitas recaídas. Ele notou, porém, que, enquanto ele tinha administrado mal os efeitos colaterais – algo que também havia ocorrido à época com quase todos os médicos que tiveram pacientes com o mesmo quadro, e que haviam aplicado aquele tratamento, ou tratamentos parecidos –, o dr P simplesmente combateu o tratamento que salvou a vida do sr B, fez tudo para que o sr B não seguisse o regime de vida prescrito para acompanhar o tratamento, e garantiu a todos que aquilo não iria dar certo.

Um momento particularmente candente da dicusssão foi quando o dr P provocou o dr T: “Quando havia pioras na salubridade ambiental, você mandava o sr. B fazer repouso absoluto, e, sem se exercitar, ele piorava ainda mais. Veja que, comigo, é muito diferente: enfrentando a pior crise de insalubridade da história, eu mandei o sr. B se exercitar, e sua saúde ainda melhorou.”

O dr T ficou perplexo. Como médico, era óbvio que o dr P sabia que, dada as condições de saúde do sr B quando houve piores ambientais na época de tratamento pelo dr T, seria uma tentativa de homicídio recomendar que o paciente se exercitasse, em vez de fazer repouso absoluto. Mas o público que assistia ao debate não quis nem saber: na crise ambiental, o dr P mandou o paciente se exercitar, e ele explodia em saúde algum tempo depois; já, na crise ambiental do passado, o dr T mandou o paciente ficar em repouso absoluto, e, mesmo assim, ele continuou muito mal e demorou a melhorar. Mais pontos, muitos mais, para o dr P.

O dr T foi ficando cada vez mais na defensiva. Ele partiu então para reconhecer vários méritos na gestão do dr P, para ver se, em troca, o dr P concordaria que também houve méritos na sua. O dr T admitiu que, como na sua gestão a saúde do sr B ainda era muito precária e a todo momento havia crises e recaídas, ele preocupou-se excessivamente com a estabilidade do paciente, deixando em segundo plano uma visão de futuro sobre o paciente já curado. Assim, ele reconheceu que toda a ação do dr P em termos de estímulos à carreira atlética e à vida social e sexual do sr B foi extremamente válida e eficaz. O dr T acrescentou que, mesmo que os resultados jamais pudessem ter sido os mesmos na sua gestão, dada a ainda muito debilitada saúde do sr B, ainda assim teria sido sábio, em retrospectiva, já ter começado naquela época a incentivar um pouco essas atividades de uma vida propriamente saudável. Na verdade, ele até fez isso em algumas áreas, mas bem menos do que poderia ou deveria ter feito, pensando retrospectivamente.  O dr T penitenciou-se pela sua omissão.

Feito isso, o drT tentou receber em troca alguma reciprocidade na auto-crítica e no reconhecimento do mérito alheio, por parte do dr P. Basicamente, o dr T pediu ao dr P que reconhecesse o seguinte:

 1) Quando o dr T era o médico do sr B, o dr P, ainda antes de se tornar médico, foi uma péssima influência para o paciente. O dr P combateu veementemente a medicação revolucionária e fez tudo para que o sr B não mudasse o seu regime de vida. O dr T queria agora que o dr P reconhecesse que o tratamento fora fundamental para salvar a vida do paciente, que ele fora contra o tratamento, e que havia errado.

 2) O dr T pediu para o dr P reconhecer também que as suas (do dr P) pressões contra o tratamento foram uma das causas, não a única nem a principal, para o lento e sofrido processo de cura, com tantas crises e recaídas. Aliás, nesse ponto o dr T fez mais uma autocrítica. Talvez ele mesmo tenha sido um pouco leniente na imposição do novo regime de vida, na fase inicial do tratamento. Mas ele lembrou que, se o dr P na época fez uma oposição violenta ao novo regime de vida no nível de disciplina em que fora proposto, imagine quão mais violenta não teria sido a sua oposição se a proposta fosse ainda mais rigorosa.

3) O dr T pediu também para o dr P que admitisse que, ao começar a tratar o paciente, ele seguiu rigorosamente o regime de disciplina que havia sido proposto e imposto nos tempos de tratamento dele, dr T. E que havia (o dr P), inclusive, reforçado o regime. O dr T reconheceu, por sua vez, que, mais recentemente, o dr P tinha relaxado muito o regime, com bons resultados (até agora), porque a saúde incrível atingida pelo sr B já permitia alguns excessos e farras. Ainda assim, frisava o dr T, isso em nada desmentia o fato de que fora fundamental o rigor do regime na fase de cura que se prolongou desde o início da medicação até o reforço da disciplina no início da gestão do dr P. O dr T queria que o dr P reconhecesse isso.

4)  Finalmente, o dr T pedia para que o dr P voltasse atrás na grotesca comparação entre as recomendações médicas nas crises ambientais dos períodos 1 e 2. O dr T pediu que o dr P reconhecesse que uma terapia à base de exercícios físicos naquelas crises em que a saúde do sr B era extremamente vulnerável seria uma receita mortal.

O dr P ignorou todos os apelos do dr T. Ele olhou para a multidão (sim, agora já era uma multidão) que acompanhava os debates, e repetiu, num tom crescentemente inflamado:

“Vejam, vejam aqui! Leiam a minha lista de 20 comparações entre o período 1 e o período 2. Aliás, já estou aumentando a lista, em breve teremos 30 itens comparativos. Vamos comparar as gestões. Você ( o dr T) pegou um paciente numa cama e o deixou numa cama (o dr P omitiu que a primeira era da UTI e a segunda da própria casa do sr B), você acabou com vida sexual do sr B, não conseguiu nenhum avanço na vida social, teve progressos absolutamente medíocres em qualquer medida – peso, velocidade, bem-estar, conquistas pessoais, pode escolher.”

“E compare comigo! Peguei aquele ser doentio, em meio a uma crise horrível, e, com meu incrível tratamento, muito diferente do seu, o transformei num triatleta campeão, cheio de medalhas e taças, com uma vida sexual incrível, popularíssimo na sua própria cidade. Prestem bem atenção a tudo isso, vocês que escutam essa nossa discussão, antes de escolherem quem será o seu médico.”

Em meio aos aplausos delirantes da multidão, o sr P saiu carregado nos braços do povo. Já o sr T saiu cabisbaixo pela porta lateral, mas foi consolado por um velhinho que assistira, com uma expressão de ironia resignada, a todo o debate: “Não esquenta não, campanha eleitoral é assim mesmo”

28 de setembro de 2010

O eleitorado global do Lula

Tem uma parcela dos adoradores do Lula, daqueles que amam muito, tipo coisa de pele mesmo, para os quais o José Serra não teria o menor problema em vender a ideia tucana de que existe uma total continuidade entre os sucessos do governo Lula e as reformas iniciadas na era FHC. São os membros da elite financeira global. Vejam os dois artigos abaixo, ambos do FT:

The realities behind the cult of Lula

By Gideon Rachman

Published: September 27 2010 20:56 | Last updated: September 27 2010 20:56

Next week sees the retirement of the man described by Barack Obama as “the most popular politician on earth”. President Luiz Inácio Lula da Silva of Brazil, known simply as Lula, steps down after eight years in office, with a stratospheric approval rating of about 80 per cent. As a result, the Brazilian presidential election on October 3 will be a celebration of the past, as much as a signpost to the future. The almost certain winner will be Lula’s hand-picked successor, Dilma Rousseff.

Lula has not quite achieved the global renown and secular sainthood of Nelson Mandela. But the Lula and Mandela myths have something in common. In both cases, a moving personal struggle has merged with a compelling national story, turning a single man into a potent symbol of a whole country’s transformation.

The Lula story has already been turned into a film, even before the man has left office – and it is easy to see why. Lula was one of eight children in a poor family from one of the remotest regions of Brazil. He left school early, worked as a shoeshine boy and then as a lathe operator before becoming a militant trade-union leader. He was briefly imprisoned under Brazil’s military dictatorship. His first wife died young, while pregnant. But Lula triumphed over the odds to become “the poor boy who came from a shack to be president of Brazil”.

Brazil grew richer and more powerful during his presidency. But, like Mr Mandela, Lula resisted the temptation to cling to power. He has not tried to rewrite the rules to get a third term in office. In any case, with a protégé to succeed him, he will remain a very powerful figure.

Lula’s personal story has merged with the national narrative. For many years, Brazil has had something of a national inferiority complex. But like the poor boy made good, the country is now increasingly confident and assertive. The country has foreign reserves of more than $250bn and has recently discovered massive oil deposits offshore. Brazil provides the first letter of the Bric acronym that now defines the emergence of new, global powers. But it is less scary than China, less authoritarian than Russia and less chaotic than India.

The smiling, bearded avuncular Lula was the perfect, charismatic frontman for Brazil, reflected in successful campaigns to win the right to host both the Olympics and the football World Cup. Lula’s formal retirement will allow Brazil to reflect on how far the country has come.

Of course, there are elements of myth in the Lula story. His personal and political life contain episodes of ruthlessness that are glossed over in the biopic version. Brazil’s transition to democracy took place well before he took office. The foundations of the country’s economic success were laid by the reforms of his predecessor, Fernando Henrique Cardoso. One of Lula’s biggest economic contributions was simply not to mess things up – and this was achieved by the abandonment of the far-left policies that he had once advocated. It is true that Lula inherited a fiscal crisis and handled it with determination and aplomb. But much of the subsequent economic boom was down to the lucky fact of a global commodities boom, powered by Chinese demand. Lula has gained deserved credit for his anti-poverty policies. He has done less well in fighting corruption.

The notion of Lula the freedom-fighter also needs qualification. At home, the outgoing president has defended democracy. But he has pursued a foreign policy that is either cynical or naive – praising authoritarians such as Hugo Chávez in Venezuela and Fidel Castro in Cuba and pursuing an unlikely and irresponsible courtship of Iran’s President Mahmoud Ahmadi-Nejad.

Yet, for all the inevitable qualifications, Lula will deserve much of the hoopla and praise that surrounds his retirement. He will go down as the president who oversaw two historic transitions.

The first was the completion of Brazil’s embrace of capitalism and globalisation. In his early campaigns for the presidency, Lula had denounced “neoliberalism”. In office, he tackled inflation, paid back debt and fostered the conditions for Brazilian business to thrive internationally. As he noted wryly in a recent FT article: “There is no little irony in the fact that the union leader who once shouted ‘IMF out’ in the streets has become the president who paid off Brazil’s debts to the same institution – and ended up lending it $14bn.”

Brazil’s embrace of international capitalism under Lula has laid the foundation for the second transition, which has global significance. That is the emergence of a new “new world order” over the past decade. Unlike the previous “new world order” the latest iteration is not based on a “unipolar world” centred around the US and dominated by the west. The defining characteristic of this new “new world order” is the emergence of major economic and political powers in Asia and Latin America – with Brazil right at the forefront.

Just a few months ago, at a summit of the Brics, Lula proclaimed that – “Brazil, Russia, India and China have a fundamental role in creating a new international order”. Eight years ago, when Lula first took office, that statement would have sounded like hyperbole. Today, it simply sounds like a statement of fact. That is why the story of Brazil under Lula is much more than a movie-friendly myth.

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Jim O’Neill on two Brazilian presidents

By Jim O’Neill

Published: September 24 2010 17:01 | Last updated: September 24 2010 17:01

I would like to suggest a great future lunch for the FT, or at least for me: it would be on Ipanema beach with both Fernando Henrique Cardoso and Luiz Inácio Lula da Silva to debate Brazil’s future, and I would be sitting in the middle alternating between sipping a Caipirinha, taking in the sights but remembering to adjudicate occasionally between my very wise guests.

For much of the past two years, I have often found myself saying to people that Lula has claim to be regarded as the most successful G20 policymaker of the past decade. I occasionally stop, in fact, to wonder whether he might be a direct descendant of his predecessor, Cardoso, in some clever disguise. For it was much of what he inherited from Cardoso that gave Lula the platform to be such a success. And where Lula has been so smart is that he has chosen to keep most of what he inherited. The additional key to Lula’s success has been his touch with the Brazilian masses, which has allowed him to translate the benefits of stability to the many, enabling people to rise up the income scale. In turn, this has added a virtuous circularity to it all, giving policymakers the credibility needed to persist with stability-orientated policy.

I am fond of telling the story of how back in 2001, when I introduced the Bric acronym, many, especially in Brazil, thought I had taken leave of my senses. Lula was going to be the latest in a long list of policy leaders who would take Brazil back down to deep depths of crisis. I took a gamble. But the reason I included the “B” was because of the fruits of Cardoso’s policies, in particular, the introduction of inflation targeting and the decision to allow Brazil’s currency, now the real, to float. Many Brazilians had been used to living amid huge uncertainty, largely because of rampant inflation. Here, with Cardoso and then Lula, was the potential to break that multi-decade process, and to transform Brazil into a new country. Or, at least, one that wasn’t the country that had always failed to deliver. With this one bold move, Brazil could become the country of now.

Fast forward to today. While Brazil’s demographics make it extremely unlikely that the country can grow at Chinese or Indian levels for a sustained period, it could grow at five to six per cent for many years. On Goldman Sachs’s measure of basic economic sustainability/ productivity growth, our Growth Environment Scores, Brazil currently scores the highest of the four Brics, just ahead of China. It also does well on general macro issues and many key micro issues including technology and education – relative to the other Brics. Yet, the scores are not as high as they need to be to get to the best standards of the developed world. Too little international trade, too big government and too big a degree of corruption are three areas for major improvement.

Jim O’Neill is chairman of Goldman Sachs’s asset management

 

Se eu fosse parte dos 4% que lançam olhares fulminantes para negromestiços em aeroportos de Miamis, talvez até pensasse: “Pô, que injustiça! Se até analfabeto pode votar, por que investidor internacional de olhos azuis não pode?” Mas não ia adiantar muito, acho que eles votariam na candidata do Lula

 

 

26 de setembro de 2010

Esse tal de republicanismo

Leiam com atenção o trecho da entrevista do Cesar Maia, no Globo:

O GLOBO: Como prefeito, o senhor não teve problemas para receber recursos do governo federal?

CESAR: O presidente Lula, o Lula AV (antes das vaias na abertura do Pan, no Maracanã), pegava uma carta que nós trocamos e lia nos comícios dele. Ele dizia: a carta mostra que a relação administrativa que eu tenho não é penetrada por qualquer problema político. A cidade do Rio foi a que mais se beneficiou das relações com o governo federal. Como o DV, depois da vaia, que veio o problema, porque ele atribuiu a mim aquela vaia. Como é que eu ia mobilizar o Maracanã?

Pera lá, digo eu. Quer dizer, em linguagem gaspariana, que, por causa de uma vaia aplicada pelo andar de cima (os pagantes dos caríssimos ingressos da abertura do Pan), o Lula, para se desforrar, resolveu deixar de repassar verbas para o Rio de Janeiro, que são importantes para todos os andares, inclusive o de baixo?

Bem, isso pode ser intriga do Cesar Maia, que é de oposição. Vejamos, portanto, o que diz o Senador Crivella, cheiroso aliado de Lula, sobre o mesmo assunto, também em entrevista ao Globo:

O GLOBO: Na sua campanha à prefeitura, há dois anos, o senhor lançou o projeto Cimento Social, no Morro da Providência. O convênio do Ministério da Defesa repassava R$ 12 milhões para o projeto. No seu site o senhor diz que concluiu 55 casas.

CRIVELA: Não seja maldoso. Tínhamos que tomar uma decisão. Não podíamos ter um Rio de Janeiro com tanta favela. O que temos que fazer para nos redimir dessa vergonha extrema? Levei para o Lula. E disse a ele que custa tanto. Vamos fazer? Ele perguntou em quanto tempo, e eu disse “três dias” (erguer uma casa pré-moldada). E com mão de obra local. Então ele disse: vamos fazer. Chama o Márcio (Fortes, ministro das Cidades), vem cá conversar com ele. E aí começamos a desenvolver. Vim ao prefeito Cesar Maia. Ele tinha um excelente secretário de Assistência Social (Marcelo Garcia). Fomos para lá, fizemos uma feijoada na comunidade, apresentamos o projeto, elaboramos o projeto, orçamos, e aí veio a vaia do Pan-Americano (o presidente Lula foi vaiado na abertura dos jogos).

O GLOBO: A vaia ao presidente enterrou o projeto?

CRIVELLA: A vaia do Pan, ali, barrou. O presidente disse: “Crivella, não temos parceria com a prefeitura”. Eu então apresentei o projeto ao Exército. Pedi que não houvesse a ocupação militar, mas o general decidiu diferentemente. E houve aquele crime hediondo, aquele crime bárbaro (três jovens da comunidade entregues por militares ao tráfico foram mortos). A obra foi embargada e, passada a eleição, no dia seguinte, voltei para lá e com recursos próprios.

Bem, como o Crivella deixa claro, por causa da vaia dos ricos, o Lula “enterrou”, entre outras coisas, o programinha lá do cimento para os pobres (por pior e mais clientelista que seja o dito cujo, não há dúvida que é para pobre).

E ainda dizem que FHC é que é o vaidoso…

17 de setembro de 2010

No fragor da campanha

Diálogo entreouvido na praia de Ipanema, ao lado de uma rede de vôlei:

Personagem 1: Homem dos seus 55/60 anos, gordo, sentado na areia, e com expressão séria

Personagem 2: Homem dos seus 60/65 anos, razoavelmente enxuto, de pé, e com expressão divertida

Personagem 1: Olha, se for pra concentrar, eu não estaria aqui.

Personagem 2: Mas é só concentrar um pouquinho na hora do saque.

Personagem 1: Não, deixa eu te falar, ser for pra concentrar, eu não vou me concentrar aqui.

Personagem 2: Mas é só…

Personagem 1 (agora com expressão francamente sombria): Se for pra me concentrar, eu vou colocar um terno e gravata, e vou pro Centro, concentrar pra ganhar dinheiro.

Personagem 2 (rindo, e procurando contemporizar): Mas é só uma concentradinha na hora de sacar, depois eu vou pro centro ganhar dinheiro com você…

Personagem 1: Se não for só pra olhar pra a frente e sacar, se tiver que concentrar, então eu prefiro não vir…

Nesse momento eu me afasto em direção à água, que está limpíssima desde segunda-feira, do Leblon ao Arpoador. Praia quase vazia, o sol ameno de inverno aquece as minhas costas

9 de setembro de 2010

Pelo direito à molecagem

Bem, são tempos de tomada de posição. Assim como o Idelber resolveu explicar que está engajado na campanha de Dilma, o que alguns cegos-surdos-mudos aparentemente ainda não haviam percebido (será que eles não sabem usar o olfato, porra!), chegou a minha vez de dizer que eu apoio o pastor maluco nos Estados Unidos que decidiu promover uma grande queima de Corões (Corãos?). De início achei que se tratasse de liquidação de estoque, e resolvi apoiar. Depois, quando entendi que a queima era literal, meu apoio intensificou-se.

Bem, antes que vocês me interpretem mal. Sou todo a favor de coalharem Manhattan de mesquitas, inclusive no sítio sagrado do nineeleven. Detesto os radicais, os fundamentalistas, os intolerantes e nem sou tão simpático assim aos piromaníacos.

A minha defesa do pastor e dos seus planos baseia-se num argumento simples: também temos direito aos nossos malucos!

Afinal, todo o dia a gente ouve falar de malucos muçulmanos explodindo isso e aquilo, jurando de morte esse ou aquele, ou essa ou aquela, urdindo os planos mais mirabolantes de destruição, de deixar com inveja qualquer vilão de história em quadrinho.

Já aqui do nosso lado, o mais ínfimo gesto extravagante é imediatamente reprimido, e sobre o cidadão que ousou cogitá-lo desaba uma tempestade de críticas, admoestações e, principalmente, 30 toneladas de argumentos sobre por que ele deveria ser sentir culpado ainda que houvesse pensado por somente um mísero milésimo de segundo no seu baratinho destrutivo.

Então, o pobre do pastor com bigodão de David Crosby será o responsável por explosões de soldados no Iraque, pelo recrudescimento do terror talibã, pela desestabilização do Paquistão, por reerguer a Al Qaeda, etc. E, convenhamos, queimar dois ou três corõezinhos (corãozinhos?) não chega a constituir nenhum Armagedon.

Sabe, me deu até um certo dó do jeca bigodudo lá querendo armar seu cirquinho, antecipando o prazer da pequena transgressão junto aos seus fellow caipiras, e de repente toda essa montanha de racionalizações bem pensantes, com o próprio Obama metendo a colher, a desabar sobre aquelas cabeças simplórias (que, no fundo, só querem se divertir)

31 de agosto de 2010

O Datafolha é feio e malvado

Uma parte da esquerda brasileira é bem divertida. O esporte preferido do pessoal é o maniqueísmo chinfrim. Decidiram que um dos grandes vilões da eleição é o Datafolha, o pior instituto de pesquisas do mundo. Segundo a versão dessa galerinha, o Datafolha tentou durante um bom tempo impulsionar a candidatura de José Serra com números falsos. Como a estratégia não colou, teve de ceder à Verdade.

Desde que acompanho eleições, a minha impressão é que o Datafolha é o instituto com maior índice de acerto e, portanto, o de maior credibilidade. Os resultados de algumas pesquisas neste ano realmente pareceram estranhos, por destoarem muito dos outros institutos. Uma possibilidade bastante razoável é que isso deva a diferenças de metodologia. A do Datafolha talvez tenha algumas fragilidades, como não ir a casa dos entrevistados, o que pode ter levado o instituto a não captar bem o quadro eleitoral num determinado momento.  O instituto também não faz perguntas no começo da entrevista que possam estimular nomes de candidatos. Isso pode ter tido alguma influência nos resultados.

Mas essas explicações são aborrecidas. Para parte da esquerda brasileira, os números divergentes foram parte da tentativa da Folha de eleger Serra. Um instituto de pesquisas vive de sua credibilidade, como diria o conselheiro Acácio. Tentar mudar a realidade à força, manipulando enquetes, é pouco inteligente – e ruim para a própria imagem da instituição. Quem é esperto, porém, não cai nessa. Sabe que o Datafolha queria mesmo era derrotar Dilma.

Uma coisa interessante é que ninguém de esquerda reclama do resultado do Datafolha em Minas Gerais, que mostra Hélio Costa, esse progressista, com 43%, ainda bastante à frente de Antonio Anastasia, que aparece com 29%. O Ibope já traz Anastasia com 35% e Hélio Costa com 33%. Mas provavelmente em Minas Gerais o Datafolha é que está certo, não é mesmo, amigos da blogosfera progressista?

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