16 de outubro de 2009

Contraponto

Esse artigo do jornalista Rolf Kuntz, do Estadão, é um bom contraponto ao post anterior do Matamoros. E, antes que vocês tenham miragens de rachaduras na Torre, devo alertar que subscrevo em grande parte (“nunca concorde 100%” – é o lema do meu eu implicante) o post do Matamoros, e parcialmente o artigo do Rolf Kuntz. A minha possível discordância com o Kuntz é que acho que trata-se de fato de “um jogo ideológico de reestatização” (o quê? Leia abaixo, pô!), ainda que um mau jogo em vários aspectos (mas talvez não todos).

Presidente de tudo

Rolf Kuntz

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva continua manobrando para mandar na Vale. Se tiver sucesso, tentará mandar noutras empresas privadas, de acordo com seus interesses políticos. Grandes companhias privatizadas serão provavelmente alvos preferenciais. Mas a lista poderá incluir quitandas e carrinhos de pipoca, se isso for importante para os objetivos definidos no Palácio do Planalto. Por enquanto, a meta principal é interferir nas decisões da Vale. Conseguirá isso mais facilmente se houver mudança na diretoria da empresa, a começar pela demissão do presidente, Roger Agnelli.

Todo esse jogo deixou de ser segredo há meses. É cada vez mais aberto e só há um obstáculo importante. Os fundos de pensão estatais, obedientes ao governo central, não detêm o controle acionário da empresa. Mas o objetivo ficará mais próximo se o empresário Eike Batista conseguir comprar um número suficiente de ações. O resultado da manobra depende agora da resistência do Bradesco, detentor dos papéis necessários a uma alteração de controle.

Não se trata de um jogo ideológico de reestatização. Com a crise internacional, ganhou destaque o debate sobre as funções do mercado e do poder público na organização da economia capitalista. De modo geral, houve mais barulho do que ideias novas nessa discussão. Economistas ilustres perderam o senso do ridículo e falaram sobre as políticas de estímulo à demanda como se fossem grandes e revolucionárias novidades. Não são, e nenhum governante precisou fazer contorcionismo ideológico para recorrer a incentivos fiscais. No meio do falatório, alguns políticos chegaram a um passo de uma deslavada defesa do voluntarismo. “É hora da política”, disse várias vezes o presidente Lula, sem jamais explicar o alcance de sua noção de “política”.

Discurso estatizante? Certamente não no caso do presidente Lula. Se ele tivesse um efetivo interesse em fortalecer os mecanismos do Estado teria apoiado a consolidação das agências reguladoras. Mas todo o esforço de seu governo foi no sentido contrário. As agências foram enfraquecidas e aparelhadas e a ideia de autonomia operacional foi sempre rejeitada pela maioria de seus ministros. O objetivo dominante sempre foi submeter os órgãos de regulação ao controle do Executivo e, portanto, a interesses partidários e eleitorais de ministros, do presidente e de grupos governistas.

Toda a estratégia do presidente Lula foi sempre voltada não para o fortalecimento do Estado, como instituição, mas para a partidarização da máquina estatal e para a centralização das decisões mais importantes.

A impessoalidade é uma das características mais notáveis da organização estatal moderna. Órgãos de Estado têm normalmente padrões próprios de funcionamento, objetivos permanentes – ou mutáveis apenas a longo prazo ou em circunstâncias muito especiais – e considerável independência operacional. Nos países bem ordenados e politicamente mais desenvolvidos, essas características definem também as companhias estatais, tanto quanto a maior parte da burocracia.

O presidente Lula nunca entendeu a ordem estatal dessa maneira – ou, pelo menos, nunca agiu como se tivesse uma clara percepção da diferença entre Estado e partido ou mesmo entre Estado e grupo hegemônico. Sua relação com a Petrobrás é um reflexo dessa concepção peculiar de Estado.

O presidente Lula parece nunca haver entendido ou assimilado a história de sucesso da Petrobrás: um longo processo de acumulação de conhecimento técnico e de experiência empresarial, com erros graves e grandes acertos. A descoberta do pré-sal não resultou da iluminação repentina de um presidente da República, embora a propaganda oficial tenda a impingir essa mistificação às pessoas pouco informadas.

O desprezo do presidente Lula pelos critérios de administração e pelos objetivos empresariais da Petrobrás é indisfarçável. A maior estatal brasileira é tratada por ele como instrumento de um projeto de poder, assim como a Agência Nacional do Petróleo e a futura empresa coordenadora da exploração do pré-sal. Isso não é estatização, porque a Petrobrás nunca deixou de ser estatal, assim como as jazidas de petróleo e de outros minerais nunca deixaram de pertencer à União. O jogo é outro. Tem a ver não com a opção mais Estado ou mais mercado, mas com a escolha, muito mais grave, entre democracia e autoritarismo. É este o sentido real das tentativas de Lula de mandar na Vale e na Embraer. A questão é política, muito mais do que econômica.

10 de outubro de 2009

Mudança de divisão

Não é necessário ser muito perspicaz para perceber que o Brasil mudou de patamar nos últimos anos. O crescimento médio é mais alto e menos volátil, a desigualdade está em queda, o mercado de trabalho se fortalece e a inflação segue sob controle. O impacto da crise sobre o país deixa evidente a solidez maior da economia – não foi uma marolinha, claro, mas não houve uma tragédia em termos de atividade econômica e emprego, como se temia. Com reservas de US$ 230 bilhões e sem o risco de solvência fiscal no horizonte, o país atravessou a turbulência sem grandes sobressaltos.

Mesmo na crise, o país continuou a receber um volume considerável de capitais externos para atividades produtivas, interessados num mercado interno em forte expansão e nos setores ligados à produção de commodities. A descoberta do petróleo na camada pré-sal é um trunfo importante do ponto de vista econômico, por mais que o ufanismo de Lula seja exagerado. Vai garantir um fluxo expressivo de recursos para o país.

No cenário externo, o Brasil ganha importância. Você pode odiar a política externa brasileira, mas o país passou a ter de fato mais voz nos fóruns internacionais como fica claro no que ocorre nos encontros do G20. Não há como não ter importância global um país com quase 190 milhões de habitantes, que cresce de 4% a 5% ao ano, é um grande exportador de commodities e de alguns produtos manufaturados sofisticados e está com a economia razoavelmente organizada. Isso explica o prestígio de Lula lá fora, num mundo em que os emergentes realmente ganham peso.

A escolha do Rio para sediar a Olimpíada de 2016 também não é gratuita, e confirma que a imagem do país no exterior realmente melhorou. Há alguns anos, o Brasil não tinha a menor possibilidade de ganhar. A percepção era de que não teria capacidade de organizar e bancar algo complexo e caro como os Jogos Olímpicos. Não estou defendendo a realização da Olimpíada por aqui; há um risco grande de que seja um festival de desperdício de dinheiro público, num país que tem uma educação péssima e sérios problemas de saneamento básico, por exemplo. Mas isso não quer dizer que a Olimpíada não possa ser positiva para o Brasil. Se a aplicação dos recursos for bem fiscalizada e houver um planejamento decente, a escolha do Rio poderá ser um bom negócio. A questão é que a simples decisão do COI deixa claro que o país é visto de outro modo no resto do mundo.

É claro que o país tem milhões de problemas. A educação continua péssima, a saúde pública é muito ruim, a Justiça é uma piada e a segurança nas grandes cidades é um problema grave. A trajetória recente das contas públicas preocupa não porque haja o risco de insolvência, mas porque o governo não para de aumentar os gastos correntes, dando reajustes elevadíssimos para os funcionários públicos e para as aposentadorias. Isso torna mais rígida a política fiscal no futuro, diminuindo a capacidade de investimento do setor público, que já é limitada. A forte valorização do câmbio pode prejudicar os setores que exportam produtos manufaturados, especialmente num cenário em que mercados como os EUA e a América Latina não devem crescer como no período anterior à crise.

Em muitos aspectos, o Brasil evoluiu pouco ou até andou para trás nos últimos anos. Isso não quer dizer, porém, que os avanços que eu mencionei acima não sejam significativos. A situação geral no país melhorou. Acreditar que o Brasil não mudou nada é cegueira. É claro que Lula fatura politicamente essa mudança, como faria quem quer que estivesse no governo. Parte do mérito pelas melhoras é dele, que manteve uma política econômica sensata e ousou na política social, combinação fundamental para as melhoras dos últimos anos. O cenário externo positivo entre 2003 e 2007 ajudou, claro, assim como a herança positiva do governo Fernando Henrique Cardoso em algumas áreas, como o fim da inflação e a privatização em setores como os de telecomunicações. O que mais preocupa atualmente é a expansão de gastos exagerada, que vai atrapalhar a vida do novo governo. As práticas políticas de Lula também não são nada elogiáveis, mas o sistema político brasileiro as explica em parte, embora não as justifique.

No balanço final, o Brasil realmente mudou de divisão. Quem não percebe isso fica horrorizado com a aprovação do governo Lula, querendo trocar de povo. É receita para perder a eleição e ficar magoadinho. E há outro ponto óbvio, mas não menos importante. Quem não compreende a mudança não se dá conta de que um país que cresce mais, com menos desigualdade e que atrai volumes maciços de capital externo tem muito mais facilidade para enfrentar os problemas graves que ainda persistem, como a educação e a saúde de péssima qualidade, qualquer que seja o presidente

9 de outubro de 2009

Se fosse branco ganhava?

Eu mencionei aqui anteriormente os “sempre insuspeitos suecos”* que conferem os prêmios Nobel, mas devo admitir que dar o da Paz para o Obama coloca em suspeita os agora já nem tão sempre insuspeitos suecos*. O cara mal iniciou o mandato, não fez ainda xongas concretamente do que possa ser considerado avanços concretos pela paz e já faturou o seu Nobel? Com toda aquele bafafá no Afeganistão? Pfuiii (na falta de melhor interjeição). Começo a considerar o da Paz como o prêmio Nobel café-com-leite

Bem, vou acrescentar alguns links:

1, 2, 3, 4 e 5

* e mais um link, atestando a minha proverbial ignorância, já que descubro agora que são os noruegueses, e não os suecos, que conferem o prêmio Nobel da Paz:

aqui

8 de outubro de 2009

Imagine se não estivessem em declínio

Para quem se delicia com a suposta decadência do Império Americano, na sequência da grande crise financeira global, eu recomendo (ou talvez não recomende – sou cada vez mais a favor do auto-engano) uma olhadinha na distribuição de prêmios Nobel. As comendas, outorgadas pelos sempre insuspeitos suecos para os tops da ciência mundial, vão sendo, como de hábito, tragadas em humilhante e esmagadora maioria pelos EUA. Quero essa decadência pra mim.

E confesso: tenho grande complexo pelo fato de o Brasil nunca ter faturado um Nobel. Deve ser por isso que torço compensatoriamente com tanta gana por qualquer brasileiro em certames internacionais de cuspe à distância ou lançamento de anões.

Bem, unzinho de Literatura ou da Paz já aplacava o recalque, mas aqui estou falando mesmo é de ciência

7 de outubro de 2009

Falou, falou e não disse nada

Nunca o Brasil esteve tão bem na foto em termos de imagem econômica junto à comunidade financeira global. E talvez, na surdina (ao menos para a comunidade financeira global, que é bem surdinha), com sua super-ultra-hiper-mega-über vontade de gastar como se não houvesse amanhã, Lula e sua camarilha estejam minando as chances de perpetuação desse momento dourado. Ou talvez não. Eu sei que é muito irritante afirmar algo e colocar em dúvida logo em seguida. Mas é assim que me sinto no momento sobre what’s going on in Brazil. Não sei se estamos botando tudo a perder, botando só um pouquinho a perder ou se não estamos botando nada a perder com a fome de viver, de ser feliz e de gastar (o que é tudo mais ou menos a mesma coisa, sob certos pontos de vista) do atual governo. Talvez as receitas do pré-sal venham nos resgatar mais adiante, se houver qualquer problema. E apostar contra o Lula parece cada vez mais arriscado

6 de outubro de 2009

Na fronteira do conhecimento

Dois políticos goianos devem ser os primeiros brasileiros a ganhar o Nobel, por uma descoberta absolutamente inacreditável: a ideologia do PMDB.

Vejam só:

(de um serviço on-line de notícias)

19:38 MEMBROS DO PMDB TENTAM, SEM SUCESSO, IMPUGNAR FILIAÇÃO DE MEIRELLES

Brasília, 6 – A festejada filiação ao PMDB de Goiás do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, foi contestada por dois integrantes da executiva e um do diretório estadual do partido. Num recurso ao diretório municipal de Anápolis, colégio eleitoral de Meirelles, eles pediram que a filiação fosse impugnada, sob o argumento de que há “incompatibilidade ideológica” entre o presidente do BC e o PMDB.

Agora eles vão partir para detectar a matéria escura

2 de outubro de 2009

Viva o Rio! Pobre Rio!

VIVA O RIO

Do blog do Gideon Rachman, do Financial Times:

Rio runs rings around Obama

October 2, 2009 6:06pm 9 comments

After a little fumbling with the envelope, the head of the International Olympic Committee has just announced the venue for the 2016 Olympics – Rio de Janeiro. It all seems a confirmation of the mood of the moment – Brazil is deeply fashionable and on the way up; and the shine has come off Barack Obama, who turned up in person to lobby for Chicago – only to see his home town eliminated early.

Poor Obama, he really didn’t deserve this. I bet he now regrets going all the way to Copenhagen to lobby for Chicago. His great trump-card was meant to be his global popularity. But the International Olympic Committee had no trouble in brushing him aside. I’m afraid this is all going to play into the gathering conservative narrative in the US of Obamas a naive dupe, who grovels in front of foreigners – and gets nothing back in return. It seems to be setback after setback for the US president at the moment – health-care, Iran, the Afghanistan mess, unemployment up at nearly 10%.

As for Brazil – never has the country been so fashionable. The Brazilians are hosting the World Cup in 2014 and now the Olympics, two years later. They provide the first letter of the much-touted group of emerging economic superpowers – the BRICs. They are key members of the G20. In Lula, Brazil at last has a leader who is a recognised global figure. He gave the lead-off address at the UN General Assembly last week. (Just before Obama, symbolically enough.) And Brazil has also just discovered massive reserves of offshore oil. Oh lucky country!

POBRE RIO

Da coluna Lex, do Financial Times:

The Olympics

Published: October 1 2009 09:31 | Last updated: October 1 2009 22:45

And the loser is … The International Olympic Committee on Friday chooses the host city of the 2016 summer games. The leaders of Chicago, Tokyo, Rio de Janeiro and Madrid are desperate to win. Should they be? Many in Athens, for example, are ruing the $9bn their city spent (initial budget: $2.4bn) for a fortnight in the Olympian sun five years ago and jokingly advise London to hand over the 2012 games to China.

Economists have long been puzzled why cities jump to host the Olympics. The tangible (read measurable) benefits are hardly game changing. The Atlanta Games gave the city a boost of $5bn, according to one academic study.

Costs, on the other hand, are all too obvious. Montreal has only just cleared its debts on the 1976 Olympics. China’s chest-thumping spectacular last year cost $40bn. Even the benefits are expensive. Economists Robert Baade and Victor Matheson estimate the 24,700 jobs created by the Atlanta games cost the city and state $64,000 per head. And a host of studies show that the money generated by the event itself is merely diverted from spending elsewhere in the city and beyond.

Such pessimism, however, may be too narrowly focused. A study by the Reserve Bank of San Francisco shows that trade is 30 per cent higher for countries that have hosted the Olympics. Even better, just bidding gives a similar boost.

The paper offers that by showing a willingness to host a massive international event countries signal to the world they are ready to do business. But such justifications are hardly needed these days. Whoever wins can simply file the Olympics under “stimulus spending”.

1 de outubro de 2009

Só pra contrariar

Eu acho que a linha mais bocó de se combater o racismo é dizer que “raça não existe”. É a linha, me parece, das Organizações Globo e do consenso burral que informa a pseudo-intelectualidade brasileira. Quer dizer, então, que se raça existisse, então era para ser racista? Raça não existe se for definida de forma errada, como era definida no passado, quando não se conhecia a moderna genética. Se eu definir “vassoura” como “utensílio utilizado pelas bruxas para voar”, vou concluir que vassoura não existe. É mais ou menos o mesmo que fazem com raça. Como sou um argumentador desonesto, não vou dizer qual é a definição correta de raça (mesmo porque eu não sei precisamente, mas sei que existe). E só para perturbar os kamelistas, linko um texto de hoje do Estadão do sempre interessante Fernando Reinach:

A igualdade entre os homens e a hepatite C

Fernando Reinach*

Faz séculos que o problema ético da igualdade entre os homens é discutido por religiosos, cientistas políticos e filósofos. Agora é uma preocupação da indústria farmacêutica. E a culpa é dos geneticistas.

Iguais perante a lei, nós sabemos que somos diferentes. O simples fato de reconhecermos um amigo em uma foto demonstra nossa individualidade. Até muito recentemente a indústria farmacêutica assumia nossa igualdade: os mesmos remédios são receitados para todos os pacientes com o mesmo diagnóstico. Mas, desde que os geneticistas demonstraram que o genoma de cada pessoa é diferente do genoma de todas as outras pessoas do planeta, os farmacologistas imaginaram que algum dia os tratamentos seriam personalizados. Estamos longe dessa época, mas uma descoberta feita com pacientes contaminados com o vírus da hepatite C demonstra o que nos espera.

A hepatite C infecta 170 milhões de pessoas e 25% delas desenvolvem cirrose hepática, o que pode levar à morte. O único tratamento conhecido, com interferon modificado e antirretrovirais, é caro, demora 48 semanas e provoca efeitos colaterais. Mas o pior é que somente uma fração dos pacientes se livra do vírus.

Faz anos que se sabe que diferentes grupos étnicos reagem de maneira diferente. Entre as pessoas de origem africana, 25% são curadas pelo tratamento, mas esse número sobe para 80% entre os asiáticos, o que indica que existe um fator genético que influencia o sucesso do tratamento.

Recentemente, geneticistas tentaram descobrir por que algumas pessoas se curam com o tratamento e outras não. Analisando o genoma de mais de 1,6 mil pessoas, descobriram uma variação no genoma, localizada no cromossomo 19, que está intimamente ligada ao sucesso do tratamento. Pacientes que possuem o nucleotídeo C nessa posição reagem bem ao tratamento, mas o tratamento não é bem-sucedido se a pessoa tiver o nucleotídeo T .

Essa descoberta explica também a diferença entre as raças. Entre os asiáticos, 90% das pessoas possui o nucleotídeo C e somente 10% o nucleotídeo T. O oposto ocorre entre os africanos, nos quais a frequência de C é de 25%. Em ambas as raças, a taxa de sucesso nos pacientes com o nucleotídeo C é semelhante, mas estes são mais raros entre os africanos.

Em princípio, isso parece um progresso, pois permite saber de antemão quais pacientes vão se curar e quais nem sequer devem ser tratados. Infelizmente, a realidade nunca é tão simples. Uma pequena fração das pessoas com o nucleotídeo C não reage ao tratamento e um pequeno número de pessoas com o nucleotídeo T se cura.

E agora, o que fazer? Se o objetivo for minimizar o custo do tratamento e aumentar a taxa de sucesso, a recomendação seria tratar somente os pacientes C. Mas aí estaremos deixando de tratar os poucos pacientes T que reagiriam bem. Ou será que a melhor opção é ignorar essa descoberta e continuar tratando todos os pacientes?

É neste momento que a decisão sai do âmbito dos farmacólogos e médicos e volta a interessar religiosos, cientistas políticos e filósofos. Perante a farmacologia, devemos continuar a ser tratados como se fôssemos todos iguais?

*fernando@reinach.com

Biólogo

29 de setembro de 2009

Lista inédita de posições

Bem, o blog ainda não acabou. Mas com tanto tempo entre uma postagem e outra, eu posso adivinhá-los arfantes, angustiados, tentando adivinhar qual a posição de Matamoros e Arranhaponte em relação a tantos fatos grandiosos da História Universal que se desenrolam bem nas nossas barbas (com o PT no poder, parto da pressuposição que todos, em princípio, são barbados): Sarney, Honduras, Fluminense, Marina Silva, homoerotismo na cópula do poder político, etc.

Para aliviá-los, decidi fazer uma curta e lacônica lista das minhas tomadas de posição mais recentes:

Sou contra o trem-bala

Sou contra os submarinos nucleares

Sou a favor do pré-sal e contra as discussões sobre o modelo do pré-sal

Sou a favor das Olimpíadas no Rio (a cidade vai sugar uma parcela maior dos investimentos urbanos do país, à custa de todos vocês trouxas que moram em outros lugares)

Acho que o país como um todo deve desculpas ao Dunga

Sou contra discussões sobre Honduras sem um inequívoco tom de galhofa

Sou a favor do Anticristo, de Lars Von Trier

Sou contra (radicalmente) bienais de livro (mas minhas filhas ignoram meus posicionamentos ideológicos e me obrigam a levá-las)

Sou contra o Ciro Gomes

Sou a favor da Lei Seca

Sou contra o Twitter

Sou contra os blogs

Sou a favor do estupro de ministros por governadores

Bem, por enquanto é isso. Volto quando acumular uma nova massa crítica de posições

16 de setembro de 2009

Fala, Nabô

“This re-Englishing of a Russian re-version of what had been an English re-telling of Russian memories in the first place, proved to be a diabolical task, but some consolation was given me by the thought that such multiple metamorphosis, familiar to butterflies, had not been tried by any human before”

(Vladimir Nabokov no prefácio de Speak, memory – an autobiography revisited. Quando eu leio o sujeito, não consigo parar de me perguntar como um russo conseguiu ser o maior estilista da língua inglesa no século 20)

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